O que aprender das manifestações de rua

ROSIVALDO PELLEGRINI*

Rio de Janeiro, 30/06/2013 http://migre.me/fg9ej
Rio de Janeiro, 30/06/2013 – http://migre.me/fg9ej

Estou acompanhando esse momento extraordinário do despertar da classe média jovem, que, claro, esperemos que conte com o apoio das esquerdas sérias, aquelas que buscam uma nova sociedade, sem classes, sem Estado e sem relações de poder autoritárias.

Não acredito que consigamos eliminar o poder, penso que no máximo podemos domesticá-lo, ou seja; em qualquer relação de mando e obediência, haverá sempre relações de poder. Mas numa evolução qualitativa, mesmo sabendo que sou mais forte ou tenho mais conhecimentos que o outro; passo a respeitá-lo mais ainda por estar numa condição diferente e não “inferior” a minha.

A luta é prática e teórica. É preciso ação como também consciência dessa ação. É preciso de práxis. Mas, que práxis existe nessas manifestações de rua?

Penso nesse momento “mágico” onde por meio do facebook, instrumento excepcional de comunicação, foi dado os primeiros passos para uma reação contra as denúncias da mídia e o cotidiano artificial e insosso no qual se encontra a nossa sociedade e por extensão, a juventude da classe média. Sem dúvida, não foi só por R$ 0,20 centavos!…Contraditoriamente, a força dada no início das manifestações foi dada pelas atitudes do governador de São Paulo, colocando a truculenta polícia militar em ação, vandalizando os movimentos.

Pouco depois, surgem denúncias de infiltrações de policiais com trajes civis tomando iniciativas de baderna. Não que não haja depredações, mesmo porque como “ser pacífico e ordeiro” num movimento que envolve milhares de pessoas, maioria jovem, com dezenas e dezenas de reivindicações sendo feitas?… Nesse sentido, qual o objetivo “dessa ordem pacífica”? As empresas midiáticas, como se era de esperar, estão utilizando seu discurso cooptativo tanto no sentido “da baderna, dos vândalos” como no sentido “do povo ordeiro e gentil” para suas finalidades privatistas. A novidade foi a força dessas manifestações de rua. Esperamos que a nossa esquerda crie novas formas de participação com os movimentos populares.

Rio de Janeiro, 30/06/2013 - http://migre.me/fg9ej
Rio de Janeiro, 30/06/2013 – http://migre.me/fg9ej

Pensando na consciência enquanto construção, processo, contradição, superação, práxis, não se pode evidentemente exigir desses jovens que tenham um conhecimento histórico crítico e caminhos de solidariedade definidos para ações concretas. Estão tateando, dando os primeiros passos depois de anos de letargia. Mas o que será que esses jovens tanto conversaram no Facebook para entrarem num consenso e desse consenso tomarem a iniciativa de sair as ruas?…Talvez o cansaço de ver o marasmo dessa vida sempre igual, de corrupção, de impunidade, do mais forte sempre vencendo, do custo de vida subindo?…Surgiu aquele momento “mágico” no qual da consciência obtida, partiram para a ação. Momento esse que deve ser ainda muito bem estudado pelos cientistas sociais, ou seja; a vivência construtiva que desemboca num consenso e deste para a ação. Mesmo porque, depois todos os segmentos sociais, mais cedo ou mais tarde, irão aderir ou perderão o bonde da história.

Pode ser que seja um movimento “de massas”, um pipocar “espontâneo”, sem consciência de classe…sem mediações, sem comissões ainda bem definidas, sem líderes…mas o fato é que ele surgiu e está presente, e quiçá permaneça.

Será que aprofundaremos esta denominada democracia representativa para uma democracia mais participativa? Será que as grandes empresas, industriais, latifundiários e financistas cederão esse espaço? Com certeza os movimentos terão que conquistar esse espaço que lhes foi roubado e ainda o é cotidianamente.

Muitos desses movimentos que acompanham e fazem parte da juventude classe média, estão na luta há décadas, tendo companheiros mortos, presos ou exilados. Que se questione a Copa do Mundo, a corrupção, a impunidade, os altos preços estabelecidos pelos cartéis etc. Penso que o cuidado que as manifestações de rua devem ter é com nossa história. História repleta de golpes, de conchavos, negociatas, acordos pelo alto e com a maioria da população sendo explorada e seduzida. Na história do Brasil parece que as coisas mudam para continuar a mesma coisa ou se ainda for possível, pior.

Mas o marco histórico é que as manifestações estão presentes. A juventude da classe média, usuária do Facebook tomou a frente e agora manifestações de toda ordem tomam conta do país, e não necessariamente se limitam a jovens bem intencionados dessa classe média. Sem dúvida é um acontecimento histórico pela sua magnitude interna e pela repercussão internacional. Mesmo porque “a crise” não é nacional e sim internacional. Portanto, o enfrentamento dessa “crise” também é internacional. Nós observamos a Turquia, Portugal, Grécia…e eles agora nos observam. Seria exagero dizer que o gigante acordou, mas com certeza um olho ele abriu. Quem sabe, com o apoio dos trabalhadores que ainda não acordaram se consiga mudanças realmente significativas, onde transformações de base possam ocorrer. Só uma pequena sugestão: Quem sabe pensar em comissões populares?…Não seria uma alternativa para aprofundarmos a democracia?

As lideranças dos bairros, as associações já poderiam ir pensando nas reivindicações, que com certeza não são poucas. É preciso avançar para consolidarmos uma democracia participativa junto aos movimentos populares, e repensar as alianças com aqueles que historicamente só nos dilapidaram.

Na construção dessa democracia é preciso separar o joio do trigo. Todo cuidado é pouco. Os oportunistas de plantão e os eternos usurpadores do patrimônio público terão que ser politicamente, democraticamente, terem suas propostas negadas pela maioria. Uma tarefa árdua que exigirá extrema percepção da população. Pela retrospectiva histórica, é uma das tarefas que está em aberto. Penso no auxílio dos líderes. Penso no auxílio dos intelectuais. Nesse sentido, é o governo do PT ou os movimentos populares que precisarão deles? E que líderes e intelectuais serão esses? Mas temos no Brasil de hoje essas preciosidades históricas?

Esperemos que os desdobramentos dessas manifestações façam surgir esses indivíduos, os quais sejam conduzidos pelos movimentos populares sem conduzi-los. Que ao tomarem iniciativas, fortaleçam os movimentos e aprofundem a participação nos debates.

A classe média jovem está de parabéns pela iniciativa, mostrando um caminho esquecido, mas que continua extraordinário para as mudanças. A posse das ruas e o clamor frente aos donos do poder. Quem sabe não permanecem com toda força até que as mudanças aconteçam? Quem sabe essas manifestações não se incorporam no nosso cotidiano, não no sentido de naturalizá-las, mas sim de que elas se fortaleçam ao ponto de que nossos representantes não serem mais representantes das corporações e sim da própria população.

30 de junho de 2013


pellegrini* ROSIVALDO PELLEGRINI é Professor Adjunto do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina.

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3 comentários sobre “O que aprender das manifestações de rua

  1. Este ensaio deveria ser uma lírica. Então, destaco para ser cantado:
    “Pensando na consciência enquanto construção, processo, contradição, superação, práxis, não se pode evidentemente exigir desses jovens que tenham um conhecimento histórico crítico e caminhos de solidariedade definidos para ações concretas. Estão tateando, dando os primeiros passos depois de anos de letargia. Mas o que será que esses jovens tanto conversaram no Facebook para entrarem num consenso e desse consenso tomarem a iniciativa de sair as ruas?…Talvez o cansaço de ver o marasmo dessa vida sempre igual, de corrupção, de impunidade, do mais forte sempre vencendo, do custo de vida subindo?…Surgiu aquele momento “mágico” no qual da consciência obtida, partiram para a ação. Momento esse que deve ser ainda muito bem estudado pelos cientistas sociais, ou seja; a vivência construtiva que desemboca num consenso e deste para a ação. Mesmo porque, depois todos os segmentos sociais, mais cedo ou mais tarde, irão aderir ou perderão o bonde da história…Que se questione a Copa do Mundo, a corrupção, a impunidade, os altos preços estabelecidos pelos cartéis etc. Penso que o cuidado que as manifestações de rua devem ter é com nossa história. História repleta de golpes, de conchavos, negociatas, acordos pelo alto e com a maioria da população sendo explorada e seduzida. Na história do Brasil parece que as coisas mudam para continuar a mesma coisa ou se ainda for possível, pior… As lideranças dos bairros, as associações já poderiam ir pensando nas reivindicações, que com certeza não são poucas. É preciso avançar para consolidarmos uma democracia participativa junto aos movimentos populares, e repensar as alianças com aqueles que historicamente só nos dilapidaram…Na construção dessa democracia é preciso separar o joio do trigo. Todo cuidado é pouco. Os oportunistas de plantão e os eternos usurpadores do patrimônio público terão que ser politicamente, democraticamente, terem suas propostas negadas pela maioria…A classe média jovem está de parabéns pela iniciativa, mostrando um caminho esquecido, mas que continua extraordinário para as mudanças. A posse das ruas e o clamor frente aos donos do poder ”
    Parabéns, Pellegrini! Grande jornada!

  2. Boas perguntas, Professor. E talvez seja agora mais importante formular questoes bem pensadas do que dar respostas apressadas para debelar a crise, ja que momentos de crise sao sempre momentos de crescimento possivel.

  3. Prof. ROSIVALDO,

    Gostei até da sua foto: leve,livre e solta. Seu texto já começa desde o título, com grande sabedoria:” O que aprender das manifestações de rua” Li várias reflexões por aqui, algumas me deu vontade de chorar, de bobinhas e tão completamente fora “da casinha” tão longe da vida do nosso país, tão longe e inútil quanto Plutão. Com esses intelectuais que se “acham” irá acontecer o mesmo que com os políticos incapazes, serão esquecidos ou talvez, nunca estarão na mente de ninguém e sem contribuir com nada positivo. Inutilidade total, porque na sua imensa arrogância, não se preocupam em ouvir a voz simples e sábia das ruas. Ignorar o desejo e as necessidades básicas da maioria, é apenas estar por aí e não viver, não fazer parte de nada.

    Sua análise é correta e criteriosa. Com humildade legitima e a modéstia sensível, digna dos grandes mestres elaborou o ,sentimento real dos brasileiros, que desejam um país justo, fraterno e acolhedor para todos. Que possamos construir um país sem conchavos, currais eleitorais, coronelismos e falsas e viciadas ideologias. Apreciei cada palavra que escreveu, mas me comovi mito com o último parágrafo, que copio aqui, novamente. Obrigada, nobre mestre. É uma alegria e um prazer ler o que escreve com tanto saber e maestria.

    “A classe média jovem está de parabéns pela iniciativa, mostrando um caminho esquecido, mas que continua extraordinário para as mudanças. A posse das ruas e o clamor frente aos donos do poder. Quem sabe não permanecem com toda força até que as mudanças aconteçam? Quem sabe essas manifestações não se incorporam no nosso cotidiano, não no sentido de naturalizá-las, mas sim de que elas se fortaleçam ao ponto de que nossos representantes não serem mais representantes das corporações e sim da própria população.”

    Respeitosamente, o meu abraço de gratidão, fé e esperança.

    Vera Linden

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