Protestos brasileiros vistos do «além-oceano»

CELUY ROBERTA HUNDZINSKI*

Imagens da TV na França
Imagem da TV na França

Observando, de longe, meu povo brasileiro indo às ruas, bradando com fervor, clamando por um futuro melhor, resolvi fazer uma pequena pesquisa para ver o que pensam disso, os franceses.

Foram contactadas 82 pessoas entre 17 e 70 anos, que não têm nenhum ou pouco vínculo com o Brasil, de vários meios sociais, profissões e regiões da França e Bélgica, pedindo para que respondessem as seguintes perguntas:

1 – Ouviu falar dos protestos  no Brasil?

2 – Ouviu falar dos protestos dos brasileiros na França?

3 – Caso resposta(s) positiva(s), como tomou conhecimento?

4 – Está a par dos motivos?

5 – Se sim, é contra ou a favor? O que penssa sobre o assunto?

7 – Qual sua idade e profissão?

Obtive vinte e uma respostas, das quais dezessete eram positivas no que diz respeito à primeira questão, muitos sem saber o motivo exato. Quatro nem ouviram falar.

Como essas pessoas tiveram uma semana para me responder, e não ultrapassei os 25% de retorno, pergunto-me se os meios de comunicação que utilizei para contactá-los é falho (eficaz?) (e-mail e rede social), se o interesse pelo assunto é tão pouco que não os permitiu responder-me, ou se não obtive a maior parte das respostas porque as pessoas entrevistadas não quiseram admitir que não tinham tomado conhecimento do assunto.

Imagens da TV na França
Imagem da TV na França

Posso lançar hipóteses da mesma forma que posso perguntar-me se os que me responderam que tinham visto na imprensa estavam, realmente, a par dos acontecimentos, ou pesquisaram induzidos pela minha mensagem. Mégan, estudante de 19 anos, admitiu ter procurado para poder responder e não achou isso normal: na sua opinião, a imprensa deveria ter divulgado mais.

Sejam quais forem os motivos (os citados acima ou outros), seja qual for a veracidade das respostas, daremos umas pinceladas em toda essa onda gigantesca que tem atingido a sociedade brasileira, numa visão de além-oceano, baseados no que me disseram e no que eu mesma, dentre muitos brasileiros que moram aqui, vimos e ouvimos.

Começaremos pelas quatro pessoas que não sabiam do assunto: um professor de 32 anos, um gerente comercial de 45 anos, dois estudantes de 18 e 20 anos. Foi muito gentil e honesto terem me dado um retorno; entretanto, não nos ateremos a essas respostas negativas.

Quanto aos que deram resposta positiva, a maioria obteve a informação pelos meios de comunicações mais abrangentes, como jornais televisivos e internet (sites de jornais, redes sociais, etc.). Uma pessoa teve a informação pelo rádio e uma por jornais impressos.

Incluiremos, pouco a pouco, neste texto, maiores informações sobre as respostas das pessoas implicadas nessa pesquisa.

Tentando entender a imprensa francesa, devo assinalar que, como em todo país,  creio eu, temos acesso ao que é interessante politicamente; o que causa impacto suficiente para poder desviar a atenção do telespectador da situação real do país, e o que possa não ser tão influente para que não se crie uma indução às ideias contrárias ao poder.

Quando se trata de informações vindas do estrangeiro, não podemos esquecer que  a imprensa internacional tem as informações que o país-fonte libera. Conseqüentemente, as notícias passam pelo, no mínimo, dois filtros: um ao sair de seu  país de origem, outro ao entrar no país de destino.

Diante disso, afirmo que a beleza das manifestações brasileiras foram apresentadas, rapidamente, pelos meios de comunicações, bem como a tragédia de um jovem que faleceu em uma passeata, por causa indireta — no entanto, entendida por alguns como se fosse pela repressão em si.

Discretamente, falaram de uma senhora que faleceu de um ataque cardíaco após o estrondo de uma bomba de gás, neste caso foi citada a «morte acidental» como sendo a segunda. Tivemos, assim uma modesta referência à outra morte.

Não quero, aqui, minimizar a repressão existente, mas mostrar o que a falta de informação pode acarretar; e também, a vontade de que se conheça a catástrofe, a violência, ocultando, desta maneira, o verdadeiro sentido das lutas. Isso, também, é uma forma de reprimir.

Imagens da TV na França
Imagem da TV na França

De maneira geral, quando eu perguntava, descontraidamente, se as pessoas tinham ouvido falar das manifestações, a resposta mais comum era: «-Sim, parece que até morreu alguém…». E a causa disso tudo? Ficava sempre em segundo, quando não em último plano.

Verdadeira novidade, esta imagem do brasileiro protestando. Os franceses se assustam e ficam felizes, empolgados. Considerando-se que o povo francês é internacionalmente conhecido pelos frequentes manifestos e reclamações, para eles, ver que as pessoas vão à luta é sempre algo bem visto. Os mais empolgados chegaram a dizer que gostariam que isso fosse assim em toda a Europa, como foi o caso de Patrick, fisioterapeuta de 40 anos, que mostrou seu desejo de relembrar os tempos de juventude querendo «jogar pedras nos policiais».

Desta maneira, não poderiam deixar de comparar junho de 2013 no Brasil, com maio de 1968 na França, que foi um grande marco na sociedade francesa, chegando a romper as barreiras nacionais.

Outra comparação observada foi com as manifestações na Turquia, alegando-se que o estilo (bandeiras, gritos, cartazes) era similar. Não sei como seria se fôssemos fazer diferente, sendo esses acessórios caraterísticas de toda, ou quase toda, manifestação.

Apesar de algumas reportagens falarem de um movimento pacífico em sua maioria, as imagens divulgadas eram suficientemente violentas para imaginarmos uma «guerra cívil», termo empregado por uma das emissoras. Salvo aguns programas específicos que mostraram o outro lado da moeda : por exemplo, um programa de esporte que ao falar da copa do mundo fez referência às manifestações, mostrando apenas no final algumas cenas de bombas sendo lançadas.

Imagem da TV na França
Imagem da TV na França

Custo de vida alto, gastos exuberantes com a copa do mundo de futebol, e a gota que fez transbordar: o preço dos transportes em comum, foram os citados por toda divulgação; mas a população não recebeu essas informações de maneira eficaz, pois houve quem me dissesse que um dos motivos era «o atraso nos preparativos para a copa do mundo, e se isso atrapalhasse o evento, o Brasil teria um grande prejuízo.» (Jeanne, estudante de direito, 20 anos). Nenhum entrevistado citou a PEC37.

Parte dos entrevistados disse que o aumento dos transportes públicos foi ocasionado pelo fato de que a copa do mundo acontecerá no Brasil. Alguns, ainda, falaram que não estavam entendendo nada, porque parecia que «cada grupo reivindicava uma coisa diferente» (Valérie, massagista, 40 anos). Convenhamos que essa multiplicidade de demandas é suscetível de cauzar estranheza aos cartesianos.

Algo interessante, que veio da parte de um professor universitário, foi o caso das despesas com o futebol. Este, também, desejou que o protesto chegasse à Europa para que as «crianças mimadas do futebol fossem combatidas». O professor os nomeia «…novos gladiadores do império romano, com a mesma divisa: ‘Pão e jogos para a plebe’.»  (Gilbert, professor de philosophie, 68 ans).

Concluiu enviando um artigo sobre um livro intitulado «Racaille football club» (Trombadinhas futebol clube)[1], que saiu há pouco, analisando a ruptura entre o time da França e seu público. O artigo diz que essa ruptura é uma constatação implacável que ultrapassa o domínio do esporte. Porém, não nos estenderemos neste assunto, citado somente para mostrar o interesse comum entre o Brasil e a França no que diz respeito a essa reinvidicação que acaba causando, de uma forma ou de outra, uma ruptura.

Quanto aos brasileiros que aqui estão, a maioria implicou-se e quis manifestar. Uma manifestação que não aconteceu por falta de organização: a equipe responsável pelas manifestações tem que dar contas de um certo número de exigências que não foi possível cumprir. Sendo, desta forma, embargada, e não tendo sido conhecida por nenhum dos franceses entrevistados.

Imagem da TV na França
Imagem da TV na França

Temos a sensação de que as conquistas da geração anterior (dentre elas a queda da ditadura) estão sendo perdidas. Temos a esperança de que esta luta seja frutificante. A juventude de hoje acredita; a de ontem não quer perder as esperanças, mas há questionamentos, incertezas, medos… O que todos sabem, por enquanto, é que não se deve parar.

Concluindo, podemos ver que o que é de interesse de alguns, não o é de outros. Ainda que as informações tenham atingido o público em geral, poucos foram os que souberam falar algo coerente sobre o assunto. A maioria teve uma ideia superficial, e por vezes falsa. A imprensa não fez com que o interesse fosse despertado atingindo, certamente, seu objetivo : uma frívola divulgação.

Muito depressa as notícias tomaram outros rumos. O Brasil ganhou a Copa das Confederações e o assunto voltou a ser as glórias do canarinho, o turismo, os franceses que estão mudando-se para o Brasil. Será que a imagem do Brasil-futebol, Brasil-carnaval, etc., poderá ser mudada?

Fontes

http://videos.tf1.fr/infos/2013/bresil-manifestations-en-marge-de-la-coupe-des-confederations-8031531.html?xtmc=bresil-manifestations&xtcr=2

http://videos.tf1.fr/infos/2013/bresil-de-nouvelles-manifestations-samedi-8048600.html?xtmc=bresil-manifestations&xtcr=1

http://www.france2.fr/videos/DLTFTV_MAM_3245487

http://www.france5.fr/c-dans-l-air/international/comme-un-air-de-mai-68-39164

http://www.bfmtv.com/international/bresil-un-mort-manifestations-547566.html

http://www.bfmtv.com/international/manifestations-bresil-un-2e-deces-accidentel-suites-dun-infarctus-543428.html

http://lci.tf1.fr/monde/amerique/bresil-les-syndicats-veulent-se-joindre-a-la-contestation-8059868.html

http://videos.lexpress.fr/actualite/monde/bresil-manifestation-pendant-la-demi-finale-de-la-coupe-des-confederations_1261672.html


* hundzinskiCELUY ROBERTA HUNDZINSKI é graduada em Letras pela UEM, DEA em Filosofia pela Universidade Paris X – Nanterre e Professora de lingua portuguesa para estrangeiros no Colégio Sainte Anne de Montesson, Liceu Jean-Paul II de Sartrouville e Faculdade ENSIIE – Ecole Nationale Supérieure d’Informatique pour l’Industrie et l’Entreprise.

[1]Tradução nossa. Racaille football club. RIOLO, Daniel. Hugo & Cie, Paris, 2013.

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2 comentários sobre “Protestos brasileiros vistos do «além-oceano»

  1. Parabéns prima pelo texto, completo dizendo que todas essas manifestações parecem que não vai dar em nada…….lamentável .

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