Um país-manifesto ou por que as coisas estão de ponta-cabeça?

czajkaRODRIGO CZAJKA*

 

De repente um alvorecer imaginado no labirinto das redes sociais da internet ganha as ruas e praças do país e a revolução passa a ser televisionada como uma “festa da democracia”, conforme descrevera uma rede de TV, na noite do dia 20 de junho. Enquanto enaltecia a iniciativa das multidões em passeata pelas principais cidades do país, a produção de jornalismo daquela rede televisiva posicionava seus repórteres no alto de edifícios, buscando a segurança das transmissões ao cobrir o que parecia ser um evento social para o qual não fora convidada.

Com repercussão internacional a onda de protestos que presenciamos no último mês constitui o retrato mais fiel da sociedade brasileira e seu quadro amplo de desigualdades: um descontentamento generalizado com as instituições de representação pública e a ausência de um sentido político nos gritos de ordem de uma multidão desorientada. Reflete uma latente despolitização do cidadão que, neste momento, como um cristão-novo adere ao discurso vago por ética, compromisso e responsabilidade – expressões que demonstram o jargão atinente ao universo do “consumo consciente” (uma contradição em termos!). Como se a própria cidadania e o seu exercício não passasse de um processo de troca baseado no valor; e o quanto cada indivíduo pode lucrar com a fetichização da política ao converter o cidadão historicamente atrelado a demandas coletivas em consumidor solitário que busca a satisfação de seus direitos individuais.

Apesar das manifestações apresentarem-se como a face de uma nova sociedade, de uma nova política, de uma nova esfera pública, suas articulações não tangem perspectivas mais densas do processo político e ideológico da sociedade brasileira. O equívoco começa pela suposição da unidade primordial dos protestos quando, em verdade, há um complexo e fragmentado quadro de demandas esboçadas no interior de organizações, entidades e movimentos sociais dispersos. Constata-se que a descentralidade originária dá lugar a uma suposta hegemonia oposicionista que, neste momento, tem edulcorado os telejornais das grandes redes de comunicação. A propósito, sintoma este que desvela um quadro que nos últimos dez anos vem lentamente ganhando inúmeras pautas e tornando-se objeto de investigação de analistas em sociologia e ciência política. Afinal, o que tem acontecido com o Brasil quando presenciamos o ascenso do número de organizações de caráter conservador, a exemplo das igrejas neopentecostais, das ideologias do bom-mocismo, do politicamente correto e que se fez acompanhar pela concomitante estabilização econômica das classes médias? É certo, conforme demonstrou Marcelo Ridenti, em artigo publicado no jornal Folha de São Paulo em 23 de junto passado, que as primeiras movimentações em torno das reivindicações pelo passe livre no transporte urbano na capital paulista estiveram na organização de estudantes secundaristas e universitários. A ampliação, segundo o autor, da massa estudantil nas instituições de ensino gerou um quadro de profissionais qualificados que o mercado não conseguiu ainda absorver. Noutras palavras, as expectativas e as esperanças em torno da formação e da colocação profissional cederam lugar a insatisfações e indignação, hoje manifestas numa juventude gestada a golpes de martelo e incapaz de visualizar as contradições nas quais esta imersa.

Mas, entre a luta de movimentos sociais com demandas históricas (como é o caso do Movimento Passe Livre) e a explícita indignação de toda uma geração de moços e moças pelas ruas das principais cidades brasileiras, há um grande abismo que muitos teimam em não enxergar. A reboque das primeiras manifestações públicas vieram outras que conseguiram não apenas obliterar a luta política dos primeiros, como também estimularam a hostilização dos vínculos daqueles com partidos políticos, ideologias de esquerda; até chegar o absurdo de proibir o uso de trajes na cor vermelha ou preta nas passeatas. Atitudes como esta só foram vistas por aqui em tempos de ditadura militar, quando frações sociais conservadoras foram às ruas desfilar na Marcha da Família (1964) e na Passeata dos Cem Mil (1968), com moradores, do alto dos edifícios, acenando com toalhas, lençóis brancos de suas janelas.

Guardadas as devidas proporções, as manifestações de 2013 ainda revelam outro dado sintomático: com a chegada do Partido dos Trabalhadores (PT) ao poder, boa parte das demandas de grupos e movimentos sociais de esquerda foi bem recebida pelo governo petista. Senão foi atendida, ao menos as arestas foram aparadas favorecendo uma “domesticação” dos apelos mais radicais. Essa condição, por sua vez, abriu espaço para que outros movimentos e demandas não contempladas fossem colocadas em pauta; foi quando setores mais conservadores, ligados a partidos de oposição ao governo petista, ocuparam os espaços que antes pertenciam a organizações políticas e movimentos sociais historicamente de esquerda.

Mas isso não significou que categorias sindicalizadas como professores, bancários, caminhoneiros, médicos (como temos presenciado em paralisações nos últimos dias) se ausentassem do espaço público, da discussão sobre as condições de trabalho no Brasil, durante os últimos dez anos. Pelo contrário, as manifestações, apesar de pontuais e com pautas específicas, têm estado em sintonia com a organização das centrais sindicais por todo território brasileiro. Protestos e manifestações que externam posicionamentos políticos e certo grau de radicalidade, traduzida pelas elites políticas e da informação como violenta e desordeira. O problema para alguns setores menos politizados é conceber a existência da violência como instrumento político de transformação – até porque eles são o alvo principal dos ataques (físicos ou simbólicos). Apesar de habituados à violência cotidianamente, não se está pronto a aceitá-la quando ela própria se manifesta contra a ordem político-jurídica instituída. Rapidamente, a mesma imprensa que antes evocava “festa democrática”, passa a qualificar seus manifestantes como “vândalos”, “minoria radical”, “jovens exaltados”, “baderneiros” etc. Ora, manifestação social implica em algum grau de radicalidade, do contrário não seria manifestação, mas endosso ou consentimento. Aliás, se prestarmos atenção, veremos que a entidade que deu origem a nossa “primavera” tem como símbolo gráfico uma catraca quebrada a golpes de pontapé.

O fato é que as reivindicações tais como as dos jovens por tarifas menores do transporte urbano cedeu lugar a um queremismo às avessas, no qual uma espécie de golpe branco parece constituir os horizontes de setores conservadores da sociedade. O descontentamento das (novas?) classes médias parecem emergir na forma de demandas não menos ideológicas, pois o fato de impedirem que integrantes de esquerda empunhem bandeiras de seus partidos nos protestos já se constitui numa tomada de posição de seus detratores. Uma posição pautada pela inconstância e pela fragmentação, disfarçadas na ideia abstrata de justiça e por uma vaga concepção de povo – hoje travestido de branco nas passeatas.

Povo que, por sua vez, funda-se na moralidade e não na política. Noutras palavras: a negação da política pela moralidade tem se constituído numa das principais diretrizes das últimas manifestações. Não é fortuita, por exemplo, a inusitada adesão de setores conservadores ao movimento que, via de regra, se apresentam como revolucionários. Há muitos Arnaldos Jabores revendo seus conceitos em nome de uma justiça de caráter consuetudinário, moralista e discricionário. Tal qual senhoras anticomunistas que abraçam causas sociais supostamente revolucionárias na promessa de limpar o Brasil da sujeira ideológica. Aliás, ideologia virou palavrão e a democracia é evocada como numa reza catártica. Os diversos “não” propalados pelas multidões, embora evoquem a democracia nem ao menos conseguem antever a ideia de coletividade. Isso porque há um sentido muito claro nas manifestações: aponta-se para o indivíduo e não para o cidadão. Na medida em que impedem a manifestação de todos, bem como de suas respectivas diferenças, o sentido coletivo é subjugado a imperativos individuais de caráter moral.

O risco dessa posição parece, nesse momento, engendrar duas alternativas imediatas: a) o movimento perde força e esgota-se nas demandas que se desarticulam uma após a outra e não encontram respaldo nas coletividades, ou b) estas mesmas demandas são acolhidas por setores reacionários de viés fascista e podem reacender os ânimos autoritários em nome da completude moral dos indivíduos. Será que estamos prontos para enfrentar os desdobramentos da nossa primavera e repetir na farsa a tragédia do Egito?


* RODRIGO CZAJKA é professor do Departamento de Sociologia e Antropologia – Unesp/Marília

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4 comentários sobre “Um país-manifesto ou por que as coisas estão de ponta-cabeça?

  1. Prezada Vera Linden.

    Obrigado por suas considerações. Apesar de se pautar por uma “análise” de cunho subjetivo, tem sua importância dada a manifestação hostil que atesta a intolerância e o preconceito de parte dos movimentos, que ora dão voz a gente que nada têm a dizer.

    Dessa forma, ao contrário do que a senhora diz, não lamento seu comentário. Porque ele é importante para constatar, em fato, aquilo que descrevi em meu artigo. Aliás, a senhora mesma categoricamente se define: “somos uma multidão que pensa e sonha com um país mais justo e melhor para nós mesmos (…)”. Pena que tudo isso não passe de um sonho, não é verdade?

    Sinceramente, o que lamento é o fato da senhora se julgar velha demais e me imputar a jovial inexperiência. Se pelo teor da exposição, segundo a senhora, demonstro minha puerilidade, seus comentários – pelo contrário – a situam no seu devido lugar. É exatamente neste que eu não quero estar, por não ser tão velho.

    Cordialmente,
    Rodrigo Czajka

  2. ‘PRECISAMOS REDISCUTIR O MODELO DE SOCIEDADE, ANTES DE DETERMINAR A FORMA DE ELEIÇÃO DE POLÍTICOS’, SÁBADO, 06 DE JULHO DE 2013, CORREIO DA CIDADANIA. Entrevista com Jorge Luiz Souto Maior, jurista e livre docente da USP: “A reivindicação sempre vem dentro de outra perspectiva econômica, a de avançar sobre os direitos dos trabalhadores. Se isso se repetir, de que forma os trabalhadores reagirão, de que forma a sociedade vai se mobilizar contra, como se portarão os movimentos sociais, reivindicando moradia, reivindicando justiça social, reivindicando melhores condições de vida, de trabalho, como as respostas serão efetivamente dadas? É toda uma dinâmica que está posta na mesa… É uma dinâmica que vai gerar efeitos múltiplos e imprevisíveis. Porque, de toda forma, fingir que essas coisas não estão acontecendo, tal como vivenciávamos até então, fazendo de conta que a sociedade estava coesa, bem unida a partir de um bem comum etc., não é mais uma postura sustentável. Em certo sentido, a sociedade está unida, mas, neste caso, pela busca de uma outra sociedade, uma sociedade que supere todos os problemas que estão postos e identificados. Não é mais possível fingir que tais problemas não existem. De que forma as pessoas mobilizadas se contentariam, eventualmente, com uma não solução dos problemas é algo que não dá pra prever. Mas, certamente, tal dinâmica continuará se desenvolvendo… Penso que temos de nos dar a chance de conhecer a fundo a sociedade em que vivemos. Não dá pra ter medo do que virá das manifestações populares, porque, no fim das contas, precisamos conhecer a fundo a nossa sociedade… Há um certo preconceito quanto às possibilidades de compreensão da sociedade, em geral, a respeito de seus próprios problemas. Penso que a sociedade de hoje, sobretudo os estudantes e jovens, é muito apta e rápida na compreensão das coisas, muito mais inteligente do que já foi no passado, e bastante comprometida, embora tenha quem diga o contrário, que tais jovens não estão aí para nada. Não é verdade. Há certa subestimação sobre o que representa essa movimentação política para os jovens… E a Constituição de 1988, é importante lembrar, fez parte de um pacto de reconstrução da sociedade brasileira, na forma de um Estado Social-democrático, que na realidade ainda não foi implantado. Vejo muito por esse aspecto: ainda precisamos implantar a Constituição de 1988, de fato, na sociedade, realizando melhorias na vida através dela…”. Ver íntegra em:
    http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=8578%3Amanchete060713&catid=34%3Amanchete

  3. Muito boas as suas ponderações sobre os protestos, reconhecendo a complexidade das ansiedades. Convido a todos a ler a resenha do livro The New Digital Age de Eric Smith e Jared Cohen que falam sobre como as redes sociais conseguem iniciar revoluções mas não conseguem levar à solução desejada: http://www.portvitoria.com/

  4. Prof. RODRIGO

    Lamento ter que dizer, mas falou muito e não disse nada. Vive em um Brasil que nada tem a ver com povo que está nas ruas e, infelizmente sabe menos ainda das nossas necessidades. O que tem impulsionado essas pessoas para as ruas, tem sido o desespero e a desesperança. O ex-presidente acendeu velas a Deus e ao Diabo, porque a única coisa que ele desejava era o poder e conseguir emprego para os seus companheiros, para os cabos eleitorais e ajeitar a vida da família. Na verdade, ele nunca soube o que é TRABALHO. Só desejava não ter que contar moedinhas pela casa, para comprar cigarros para ele e sua “esforçada” esposa. Você é muito jovem e nem pode saber mesmo, mas no dia que o tal cidadão foi eleito presidente do nosso infeliz Brasil, Golberi C. e Silva fez uma festa no inferno para comemorar. Na certa até o Demo dançou.

    Fala em oposição??? Está certo que já sou considerada deficiente visual, mas não vi e não vejo nenhuma oposição ao anterior ou atual governo. Foram dez anos de conchavos, troca de favores, acertos e conluios. Houve até o mensalão, lembra? Para falar sobre as manfestações, naturalmente esteve lá, participou, levou o seu cartaz, Não é mesmo?.

    Sobre Partidos Políticos, Sindicatos, Associações, ONGs, etc.é quase impossível
    acreditar em algum(a) que o petismo não tenha comprado ou encampado.Tivemos 8 anos de governo petista em nossa cidade. Ao deixar a prefeitura, o chefe do executivo deixou “terra arrasada.” Há tantas dívidas que a cidade está esta ingovernável. Como é possível acreditar em um governo que acoita Renan Calheiros, Sarney, José Genoíno, João Paulo Cunha, Valdemar Costa Neto, etc.

    Sobre as pautas, o que quer o povo nas ruas??!! Meu Deus do céu, da terra, do raio que parta, veja que esse país está como uma casa imunda, esculhambada, revirada, roubada, violentada, maltratada, decaída.É tanta sujeira,tanta gastança do nosso suado dinheirinho, cujos impostos: do leite, do trigo, do arroz, do telefone (o pior serviço do mundo e o mais caro), da luz, e assim vai…é esbanjado em viagens e mais viagens de turismo dos governantes, políticos, enfim da corja toda. O que queremos é ver o nosso dinheiro bem investido em saúde, educação e segurança. Não desejo mais ver crianças na rua, passando frio e fome. Desejo escolas de horário integral, professores valorizados, escolas decentes e não mais salas insalubres, verdadeiros fornos no verão egeladeiras no inverno. Hospitais bem equipados, comm material decente e nossos médicos valorizados com salários humanos, assim como toda a equipe de enfermagem. a polícia bem equipada e treinada. Bem, a pauta é longa, mas não impossível de ser atendida, pois os bilhões estão aí para construir estádios que futuramente serão elefantes brancos. Só fizeram a fartura mesmo das empreiteiras.

    Ninguém aguenta mais discursos vazios. tudo que se quer é um governo sério, sem enganações, sem querer fazer o povo de besta, que trabalhe de fato. Que o orçamento participativo não seja uma reunião de compadres e que quem desejar ir a essas reunões, não precise ser filiado ao PT, mas que todos os cidadãos, eleitores de seu município possa participar, sem ser hostilizado.

    Apesar de não ter líderes expressamente nomeados e conclamados, até na minha pequena cidade o povo tem ido para as ruas e feito as cobranças necessárias. Exemplo: O que a Câmara de Vereadores tem feito? O povo está lá presente às reuniões. E, por favor, não me venha com essa história que isso só é possível em cidades pequenas. Tenho notado uma boa renovação em nossa câmara. Houve um abuso de propaganda eleitoral, uma gastança inexplicável, mas o ex-prefeito não elegeu o seu candidato. É reconfortante, saudável e animador ver o povo nas ruas. é muito bom saber que há vida inteligente em nosso país. Que não estamos sós, mas somos uma multidão que pensa e sonha com um país mais justo e melhor para nós mesmos e para os nossos descendentes.

    Só lastimo que alguns cérebros pensantes, gente que teve acesso ao conhecimento, à cultura, entenda tão pouco de vida, de povo, de sobrevivência e pense com tanta pequenez sobre o “nosso inverno do descontentamento,” que transformou-se em uma primavera de esperança e trouxe alguma luz no túnel do nosso superlotado trem.

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