O vazio da vida

FÁBIO VIANA RIBEIRO*

WHISKY A

Há muito para fazer de Whisky um filme bastante incomum. Para alguns, um filme sem pé nem cabeça, sobre o qual nada há para dizer ou entender. Para outros, um filme praticamente convencional, com um tema igualmente convencional e abordado de forma convencional. E para ainda outros, um filme sobre o nada.

Não foram poucos os escritores escreveram algumas de suas histórias sobre o tema. Tchekhov, por exemplo. Vidas monótonas que se arrastam pelo tempo, onde nada acontece, contínua e vagarosamente. Uma dessas histórias veio, aliás, a ser o último filme do diretor Louis Malle: Tio Vânia em Nova York. Com chances de ter sido um dos filmes mais baratos da história do cinema, considerando que praticamente todo o filme vem a ser tão somente a filmagem do ensaio da peça homônima de Tchekhov por um grupo de atores…

Mas, em Tio Vânia e outros muitos exemplos, a descrição do nada é quase sempre feita em companhia de circunstâncias que, por assim dizer, engrandecem sua existência. Por meio de sua glamourização, de sua transcendentalização, de sua politização, etc. Ou seja, vazios existenciais que terminam por servir de contraste a vidas altamente perturbadas por sua precisa consciência do mundo.

Um dos grandes méritos de Whisky foi o de captar o nada de tipo comum; desglamourizado, cotidiano, repetitivo, exausto de ser exata e inexoravelmente uma rotina, um hábito, um fastio. O mundo das pessoas comuns, no sentido mais exato da palavra. E sobre o qual, talvez até mesmo pela lógica do cinema, por sua característica espetacularizante, somos levados a acreditar que existe em proporções muito reduzidas: mesmo as vidas mais comuns já foram, afinal e pelo cinema, transformadas em boas histórias… Mas talvez possa não ser o caso de pensarmos assim; e simplesmente concluirmos que a vida da maioria das pessoas transcorre dessa forma, sem serem senão o arrastar monótono de hábitos, rotinas e circunstâncias. Mundos dos quais, com maiores ou menores chances de sucesso, todos nós tentamos fugir.

Em Whisky, seus personagens parecem estar presos a um mundo de coisas vazias. Contra o qual não podem contar nem mesmo com o auxílio da tristeza ou do desespero. Dois irmãos, que há muito não se viam, se reencontram por ocasião da morte da mãe. Ambos proprietários de pequenas fábricas de meias, um vivendo no Uruguai e outro no Brasil. O reencontro reacende antigas rivalidades e ressentimentos. A ponto do primeiro, que não se casara, solicitar à sua gerente na fábrica, que represente diante do irmão o papel de sua esposa. De algum modo o espectador é levado a imaginar que seria esse o centro da história, e que, em determinado momento, o irmão visitante perceberia a farsa. Mas também isso será aos poucos coberto pela monotonia, pela falta de graça e sabor do mundo em que vivem. O mundo pouco emocionante da fabricação de meias, a decadência da própria fábrica, a monotonia das máquinas, a falta de palavras, sentimentos e emoções. A insipidez dos presentes trocados, a constrangedora falta de confiança nas funcionárias que trabalham na fábrica, o carro que mal funciona, o passeio que pouco lhes diz, o hotel decadente. A vida, para eles, foi enfim isso; estão agora velhos, cansados e a fotografia que fazem no passeio mostra-lhes quem são. É preciso que o fotógrafo lhes peça, para que apareçam sorrindo na foto, que digam whisky.

WHISKY B

Curiosamente, Whisky bem poderia ser considerado o melhor filme brasileiro dos últimos tempos. Mesmo sendo um filme uruguaio, com uma história que se passa no Uruguai, a descrição que faz da realidade (e que, caso fosse excluído o idioma, poderia perfeitamente ser a de uma cidade ou pessoas do Brasil) parece mais verossível que a maioria dos filmes brasileiros que tentaram o mesmo. E que não o conseguiram por tentarem reproduzir a linguagem do cinema americano, por seus diretores terem sido incapazes de captar convincentemente a realidade de seus temas, por terem se perdido em meio às suas pretensões de realismo… No caso de Whisky tal mérito possivelmente deveria ser atribuído a seus diretores, ao conseguirem descrever um mundo que, por conta de seu vazio e de aparentemente não ocupar nenhum lugar significativo na realidade, seria ainda muito mais difícil de ser descrito que tantos outros, já mostrados pelo cinema. Sem que tenham, inclusive e para isso, lançado mão do fácil expediente, tão comum em nossos dias, de transformar seus personagens em vítimas – os que não têm voz, os despossuídos, etc. – “a vida apenas, sem mistificação”.[1]

 

imagesFicha Técnica
Título original
: Whisky
Ano: 2004
Direção: Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll
País: Uruguai
Duração: 99 minutos

 

 

 

 

 


*ribeiro-fabio FÁBIO VIANA RIBEIRO é Doutor em Ciências Sociais (PUC/SP) e professor da Universidade Estadual de Maringá, Departamento de Ciências Sociais.

[1] C. D. de Andrade – “Os ombros suportam o mundo”.

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5 comentários sobre “O vazio da vida

  1. Oi, Kátia!
    Você também é de Belo Horizonte? É que eu nasci lá; como diz o poema, “principalmente nasci em Itabira”.
    Sim, os personagens todos parecem não terem sido outras pessoas que não aquelas, perfeitamente descritas no filme. É um filme mesmo muito triste, sobre vidas solitárias e vazias.
    Um abraço e obrigado pela leitura.
    Fábop.

  2. Caro Raymundo,
    Não, não acho que Whisky se tornará cult…
    Que triste saber que um dos diretores morreu; alguém talentoso e sensível.
    Da lista, só vi “O marido da cabeleireira”.
    Abraço,
    Fábio.

  3. Olá, Fábio!
    Faz um bom tempo que assisti ao filme Whisky. O que me vem à lembrança é a amargura do personagem Jacob (?). Seu semblante é de pura apatia frente a vida. E o único momento em que seu rosto expressa um movimento, não é de forma natural. É necessário que o fotógrafo intervenha e peça que se diga “Whisky” . Daí o esboço/rascunho de um sorriso.
    O final é surpreendente. A personagem Marta quebra/desfaz toda a normalidade, a mesmice do cotidiano.
    É um filme sobre a solidão. O vazio e o amargo da solidão.
    Abraços
    Kátia

  4. Meu caro Fábio. Sua resenha me fez lembrar deste filme sem graça, literalmente. Certamente “Whisky” e outros filmes sobre o cotidiano banal da vida, não são filmes dirigidos para pessoas acostumadas com filmes hollywoodianos, filmes de ação, porque, no caso especial de “Whisky” é um filme monótono, com pessoas reféns do cotidiano banal do trabalho-casa-trabalho, cada uma vive sua vida mesquinha, sem graça, sem colorido, sem perspectiva de alteração. Curioso ser um filme de um sul americano, porque este tipo de narrativa e semcolorido dos personagens são freqüentes nos filmes dos países frios, especialmente dos nórdicos.
    Daí ser um filme “Whisky” ser considerado “Cult”, portanto, cotado para ganhar festivais do tipo Cannes.

    CURIOSIDADE TRÁGICA: “O cineasta uruguaio Juan Pablo Rebella, de 32 anos, premiado nos festivais de Roterdã, Havana e Cannes, morreu na madrugada de quinta-feira, informaram fontes próximas ao artista. Antes de “Whisky” ele dirigiu “5 Watts” premiado em 2001″, foi noticiado em 2006. Portanto, infelizmente perdemos um novo cineasta que prometia contar mais histórias para o cinema, não necessariamente sobre vida sem graça, tediosa…

    FILMES SOBRE A VIDA COMUM, COTIDIANA, BANAL, terminam também incluindo a solidão ou a solitude dos personagens. Anotei alguns, abaixo:
    “As Confissões de Schmidt” (EUA/ 2002)
    “Medianeras: Buenos Aires da Era do Amor Virtual” (Argentina/ Espanha/ Alemanha/ 2011)
    “Pleasantville – A Vida em Preto-e-Branco” (EUA/1998)
    “Las acácias” (Argentino/2011)
    “O marido da cabeleleira” (França/1990).

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