“As aventuras de Pi”: fé na ficção e os limites da narrativa

ANDERSON SOARES GOMES*

 

Lançado em 2012, As Aventuras de Pi foi uma das mais premiadas produções cinematográficas do ano. Vencedor de quatro Oscars, o filme do diretor Ang Lee atingiu um nível de popularidade igual ou maior ao do beste-seller A Vida de Pi, de Yann Martel, que serviu de fonte para a adaptação para o cinema. O romance A Vida de Pi pode ser resumido em apenas uma frase: um garoto e um tigre estão em um bote salva-vidas no meio do oceano. A engenhosidade narrativa com que Martel conduziu a história rendeu ao autor inúmeros prêmios literários (inclusive o prestigioso Man Booker Prize) e um sucesso de vendas, mas também uma acusação de plágio por parte da crítica ao serem notadas semelhanças indiscutíveis entre o enredo de A Vida de Pi e o livro Max e os Felinos, de Moacyr Scliar, lançado vinte anos antes. Inicialmente relutante em confessar a (mais do que) inspiração, as edições atuais de A Vida de Pi têm um agradecimento especial a Scliar.

É bastante curioso que A Vida de Pi, para além de suas qualidades literárias, tenha suscitado uma polêmica tão grande com relação aos limites da criatividade e da originalidade quando esse é justamente um dos temas centrais de seu enredo. A jornada individual pela qual passa o protagonista tem relação direta com sua habilidade de criar histórias que ultrapassem a discussão sobre o que é possível ou verdadeiro. Se a moldura narrativa de Martel foi construída a partir da ideia de Scliar, a moldura narrativa das histórias de Pi são sua própria existência.

O filme As Aventuras de Pi (a “vida” sem “aventuras” parece ter sido insuficiente para o título em português) traduz tais discussões, para além do terreno literário, de maneira brilhante. Em primeiro lugar, o filme faz uso bastante criativo da linguagem 3D. Recurso dos estúdios norte-americanos atualmente para aumentar a renda da bilheteria, o 3D acabou se tornando uma espécie de estratagema para seduzir o público a ir ao cinema (cada vez mais ameaçado como modelo negócios com o avanço das TVs de alta definição e da banda larga de internet). Todavia, As Aventuras de Pi é uma feliz exceção: o filme se junta a uma pequena lista de produções (Avatar e A Invenção de Hugo Cabret são outros notáveis exemplos) que realmente usam dessa tecnologia para inovar a narrativa. O prólogo com um quê de realismo mágico que envolve o protagonista em um zoológico na Índia, a história da surrealmente límpida piscina pública de Paris e, obviamente, toda a sequência com o tigre no meio do oceano, adquirem uma atmosfera de hiperrealismo com o efeito 3D. Ao explicitar uma transposição fantástica que mimetiza o real, As Aventuras de Pi indica, de forma auto-reflexiva, a categoria de (meta)ficção nas histórias contadas por seu protagonista.

As Aventuras de Pi também sugere suas origens literárias de diferentes formas. O protagonista, por exemplo, aparece lendo livros em três fases distintas de sua vida. Quando criança, na escola, lê A Ilha Misteriosa, de Júlio Verne. Já na adolescência, aparece lendo em uma cena Notas do Subsolo de Dostoyevsky e, em outra, O Estrangeiro de Albert Camus. Na sequência em que aparece lendo os dois últimos livros, Pi afirma que se sentia inquieto, dizendo que procurava algo que desse significado à sua vida.

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Inicialmente, esse sentido para a existência é proporcionado por uma imensa fé, ilustrada pelo fato de Pi se tornar devoto de três religiões diferentes: o Hinduísmo, o Cristianismo e o Islamismo. Enquanto sua mãe apoia esse sincretismo inusitado, o seu pai vê nas religiões um artifício para enganar o homem, baseando suas decisões inteiramente na lógica e na razão – como afirma o Sr. Patel, “acreditar em tudo ao mesmo tempo é o mesmo que acreditar em nada.”

A principal qualidade de As Aventuras de Pi consiste em mostrar, entre uma vivência mais racional ou mais religiosa, um terceiro caminho: o da ficção. É apenas quando narra o real de forma imaginativa que Pi consegue afirmar a sua identidade. Não é à toa que ele se pergunta sobre um significado para a vida no momento em que lê os romances – é a ficção que dá a Pi o estofo para suportar a carga da realidade. Até mesmo a sua devoção religiosa na infância ilustra isso, pois o que o atraíam eram justamente as narrativas das diferentes versões de Deus e da Criação. Após 227 dias em um bote no meio do oceano, tendo um tigre de bengala chamado Richard Parker como companhia, abandonado por Deus e pelo racionalismo, Pi encontrará na ficção o sentido máximo da existência.

Contar histórias faz parte da existência diária do protagonista. Desde o momento em que inicia a conversa com o escritor canadense, Pi o inunda de histórias: como seu tio, Mamaji, teve seus pulmões superdesenvolvidos; o episódio de Mamaji na piscina pública de Paris e como isso se relaciona com seu nome, Piscine; toda a sequência de como ele conseguiu convencer de que o chamassem apenas de “Pi” na escola; o erro na documentação que fez o tigre se chamar Richard Parker; e, claro, a história do bote no oceano.

Mesmo sendo storytelling parte constante de sua vida, Pi também deixa transparecer um lado racional e lógico que demonstra que “ficção” está longe de significar o mesmo que “mentira”. O seu próprio nome, “Pi”, vislumbra isso. Não é apenas o nome que Pi partilha com o número da constante matemática. Assim como o número irracional, Pi também é inconstante, não está na Índia nem no Canadá, vai além dos limites da razão e, especialmente, tem uma carga reflexiva que se estende até o infinito. O racionalismo também se faz presente na própria profissão de Pi: ele é um professor de teologia que procura, academicamente, ensinar os princípios de cada religião. Não satisfeito em ser cristão, hindu e muçulmano, o Pi adulto confessa que também dá um curso sobre Cabala na universidade.

Quando o bastante imaginativo Pi começa a contar sua jornada épica pelo oceano ao escritor (que, ironicamente, está passando por um bloqueio criativo), não parece ser coincidência que o nome do navio que afunda é Tsimtsum, um termo cabalístico. Na Cabala, tsimtsum é a manipulação da energia criativa para a criação de mundos, o que sugere que, a partir daquele momento da narrativa, estaremos embarcando, junto com o protagonista, em um mundo concebido pela imaginação. O nome dado ao tigre – Richard Parker – também é resultado de uma elaboração bastante engenhosa. Primeiramente, o nome remete à história real do naufrágio de um navio inglês em 1884, onde apenas quatro membros da tripulação conseguiram sobreviver em um barco salva-vidas. Desesperados e sem suprimentos, eles matam o mais jovem entre eles e o devoram. O nome do rapaz morto era Richard Parker. Outra origem para o nome é o romance A Narrativa de Arthur Gordon Pym, publicado por Edgar Allan Poe em 1837. Em um episódio do romance, o protagonista Pym e um amigo, tomados pela fome e desesperança, alimentam-se de um homem chamado Richard Parker. O curioso é que o romance de Poe foi publicado aproximadamente cinquenta anos antes do naufrágio do navio inglês. A presença de um tigre chamado Richard Parker em As Aventuras de Pi serve como indicador dessa aproximação entre ficção e realidade, tão importante para compreender a narrativa contada por Pi.

Após o naugrágio do Tsimtsum, Pi se encontra no bote salva-vidas, tendo como companhia uma zebra, uma hiena, um orangotango e um tigre de bengala (é a “arca de Pi”, tal como o próprio protagonista descreve a situação). Quando os imperativos da cadeia alimentar se fazem presentes, Pi passa a ter apenas Richard Parker como companheiro de sua jornada pelo oceano. A presença do elemento água em toda a narrativa de Pi tem uma carga simbólica em diversos momentos: em seu próprio nome, Piscine; quando é apresentado ao Hinduísmo, vendo os barcos iluminados na água; quando é apresentado ao Cristianismo, bebe a água benta e depois o padre lhe oferece água; na piscina de água doce da ilha misteriosa; e, é claro, na água do oceano que o rodeia. Essa fluidez da água reflete a própria maneira como Pi conta a sua história: maleável, contínua, mas sinuosa.

O oceano em si pode ser lido como a representação desse espaço altamente liminar, levando-nos para além da rigidez de identidades. O oceano é um espaço, não um lugar, terreno do transporte e da transformação, que constantemente mistura e combina seus próprios elementos. Dessa forma, não há espaço, na narrativa, para Pi se considerar um rei ou colonizador. Pi é um Robinson Crusoé contemporâneo, que a qualquer momento pode ser devorado pelo seu Sexta-Feira felino.

Quando está no bote, Pi busca novamente refúgio na narrativa para superar o fardo de uma situação extrema. Ele escreve um diário de bordo descrevendo seu cotidiano e seus pensamentos, assim como uma tradicional mensagem na garrafa (no seu caso, um lata de água) pedindo por socorro. O personagem afirma que “palavras são tudo que eu tenho para me agarrar”. Na condição de náufrago, pode se entender que as palavras de sua narrativa são o verdadeiro bote salva-vidas de Pi. Da mesma forma, o Pi adulto – sujeito diaspórico entre a Índia e o Canadá, sem origens, sem família, sem raízes – tem apenas as suas palavras (histórias) para se agarrar no meio do oceano da existência.

Uma das passagens mais interessantes do filme é quando Pi chega a uma ilha misteriosa (ecos de Júlio Verne) surgida no meio do oceano. A ilha, na verdade uma grande formação vegetal, serve de porto seguro para Pi quando achou que tudo estava perdido. Aparentemente paradisíaca, a ilha, porém, possui um lado letal: à noite, ela se torna carnívora, devorando todos os animais que nela se encontram.  Visualmente, essa é uma das sequências mais espetaculares de As Aventuras de Pi, repleta de momentos encantadores (os lêmures), mas também sinistros (o dente na fruta). O fato de a ilha ter o formato de uma pessoa deitada (morta?) realça o seu aspecto estranho.

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Ao final de As Aventuras de Pi, após ser resgatado na costa do México, o protagonista é confrontado por burocratas japoneses, representantes da empresa dona do navio Tsimtsum, que querem saber a razão do naufrágio e a verdade dos fatos. Os japoneses se recusam a acreditar no relato de Pi sobre sua sobrevivência com os animais no bote, achando-a fantástica demais e repleta de incongruências. Os japoneses dizem que não podem escrever essa história no relatório, demandando a Pi uma história “em que pudessem acreditar”. Pi então conta uma outra versão, bem mais realista: ele teria sobrevivido no bote com sua mãe, um cozinheiro de má índole (vivido em cena breve por Gerard Depardieu) e um marinheiro amigável. O cozinheiro teria assassinado o marinheiro e também a mãe de Pi que, para se vingar, o mata. Essa história é análoga à dos animais, sendo os personagens entendidos de forma dupla: marinheiro/zebra, cozinheiro/hiena, mãe/orangotango e Pi/tigre. Após ouvir a versão brutal e factual de Pi, os japoneses preferem escrever no relatório a versão dos animais. Conversando com o escritor canadense, Pi pergunta qual seria a “melhor história”: a com os animais ou aquela com os humanos. O escritor diz, então, que prefere a história com os animais, ao que Pi responde: “com Deus é a mesma coisa”.

Tanto o romance A Vida de Pi quanto sua adaptação cinematográfica enfatizaram muito, em sua estratégia de divulgação, o mesmo discurso usado por Mamaji para convencer o escritor canadense a procurar Pi: a história dele o fará acreditar em Deus. Na verdade, Pi usa duas versões do mesmo episódio para ilustrar duas abordagens com relação à realidade: uma mais coerente e lógica; outra mais fantástica e imaginativa. Ao final, ele pergunta qual é a “melhor história”. Ao escolher a versão com os animais como a melhor, o escritor canadense percebe que é melhor entender a realidade por meio da ficção do que buscar sentido apenas na crueza dos fatos.

A partir desse ponto de vista, se faz necessária a narrativa religiosa, repleta de símbolos, alegorias e parábolas. Afinal, Pi suporta a dor de tudo pelo qual passou justamente por representar as suas perdas e traumas por meio de uma narrativa de sobrevivência de cunho fantástico, ou seja, diferentemente de seu pai, Pi prova que a existência também se torna mais serena quando se acredita em algo que foge à razão. Dessa forma, As Aventuras de Pi aproxima a religião da ficção, já que ambas são formas de contar essa “melhor história”.

Ao mesmo tempo filme de aventura, reflexão filosófica e estudo metaficcional, As Aventuras de Pi é uma das mais tematicamente ricas produções do cinema recente. Apresentando um deslumbre visual e questionando a natureza da própria narrativa, é um filme que indaga sobre os limites da fé, da ficção e da forma como que compreendemos a realidade.

IMAGEM 05Título: As Aventuras de Pi
Diretor: Ang Lee
Roteirista: David Magee
Atores principais: Suraj Sharma, Irrfan Khan, Rafe Spall
Ano: 2012
País: EUA/Taiwan
Duração: 127 min

 

 

 

 

 

 

 

 


* campos-andersonANDERSON SOARES GOMES é Professor de Literaturas de Língua Inglesa da UFRRJ. Doutor em Letras pela PUC-RIO, com estudos em teorias contemporâneas da narrativa e análise da imagem técnica.

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3 comentários sobre ““As aventuras de Pi”: fé na ficção e os limites da narrativa

  1. O personagem afirma que “palavras são tudo que eu tenho para me agarrar”. “No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus, e a Palavra era Deus.”
    Cada minuto desse filme remete a um simbolismo profundo que não caberia num blog.
    Parabéns pela matéria!

  2. GOSTEI DA MENSAGEM.DEUS _ONISCIENTE,ONIPRESENTE,ALFA E ÔMEGA.PI ACHOU O SENTIDO DA VIDA<

  3. Desta bela contribuição para o blog da REA, destaco:

    A principal qualidade do filme “As Aventuras de Pi” consiste em mostrar, entre uma vivência mais racional ou mais religiosa, um terceiro caminho: o da ficção. É apenas quando narra o real de forma imaginativa que Pi consegue afirmar a sua identidade. Não é à toa que ele se pergunta sobre um significado para a vida no momento em que lê os romances – é a ficção que dá a Pi o estofo para suportar a carga da realidade. Até mesmo a sua devoção religiosa na infância ilustra isso, pois o que o atraíam eram justamente as narrativas das diferentes versões de Deus e da Criação. Após 227 dias em um bote no meio do oceano, tendo um tigre de bengala chamado Richard Parker como companhia, abandonado por Deus e pelo racionalismo, Pi encontrará na ficção o sentido máximo da existência… Pi suporta a dor de tudo pelo qual passou justamente por representar as suas perdas e traumas por meio de uma narrativa de sobrevivência de cunho fantástico, ou seja, diferentemente de seu pai, Pi prova que a existência também se torna mais serena quando se acredita em algo que foge à razão. Dessa forma, As Aventuras de Pi aproxima a religião da ficção, já que ambas são formas de contar essa ‘melhor história’…”.

    Parabéns, prof. Anderson Gomes!

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