Educação para a liberdade

HENRIQUE RATTNER***

liv-ozai1O resgate do legado teórico e da prática pedagógica de Maurício Tragtenberg representa não somente um trabalho acadêmico de primeira qualidade, mas é também um serviço inestimável de difusão dos conhecimentos e da prática libertária no meio universitário brasileiro. O livro de Antônio Ozaí, mais do que a mera biografia de Tragtenberg, é uma contribuição ao pensamento político brasileiro no século XX, que teve em Maurício um de seus representantes mais crítico e original. Ao analisar a história política moderna, Tragtenberg aponta para as raízes do autoritarismo nas diferentes doutrinas elaboradas pelos intelectuais dos movimentos operários e discute com grande lucidez as contribuições, entre outras, de Marx, Lenin e Trotski e comenta a polêmica histórica entre Marx e Bakunin que dividiu os membros da Primeira Internacional socialista até sua dissolução. Após ressaltar as contribuições de Bakunin e Kropotkin ao pensamento libertário que serviu de fundamento teórico do anarquismo político, contra o poder discricionário do Estado e das oligarquias, que influenciou profundamente os movimentos operários na Espanha, Itália, França e na América Latina, nos últimos dois séculos.

O primeiro capítulo, que relata a trajetória de vida de Tragtenberg, desde sua infância, como filho de imigrantes vindos da Europa Oriental, nos remete a toda complexidade e os desafios de construção de uma nova identidade sócio-cultural, com o aprendizado do idioma, das tradições e dos valores da sociedade adotiva. Sem ter concluído o ensino fundamental completo, Maurício enfrentou os percalços de um autodidata, até ingressar na Universidade de São Paulo, trilhando caminhos não convencionais.

A leitura do livro de Antônio Ozaí da Silva sobre a vida e obra de Maurício Tragtenberh, pensador, autor, crítico e militante em prol de uma pedagogia e práticas libertárias, evocou uma série de reflexões sobre afinidades, tanto existenciais quanto intelectuais que caracterizaram nosso relacionamento ao longo de mais de quatro décadas. Tal como Maurício, também eu fui imigrante, filho de judeus que foram obrigados a fugir do Velho Mundo e a reconstruir a rede de laços sociais e culturais na sociedade brasileira. Se Maurício passou seus primeiros anos de vida no meio rural do Rio Grande do Sul, meu caminho me levou de Viena, antiga capital do império austro-húngaro, via estadias mais ou menos prolongadas em Bruxelas, Bélgica, para aportar em 1951, em São Paulo. Poucos anos depois, nossos caminhos cruzaram quando, com o apoio de Florestan Fernandes, conseguimos prestar exame vestibular para ingressar a USP, mediante a submissão de uma monografia que nos dispensou do certificado de conclusão do curso colegial. Na época, este foi um procedimento inédito bastante comentado nos círculos da faculdade.

Anos mais tarde, nos reencontramos na Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas, onde lecionamos no departamento de ciências sociais, Maurício na área de política e eu, em sociologia e metodologia científica. A proximidade física – sua sala ficou ao lado de minha – proporcionou inúmeras oportunidades de troca de idéias e informações sobre a situação no Brasil e as questões da dinâmica social e política em nível internacional. Tal como Maurício, também eu tinha tido contacto com o Trotskismo e frequentava algumas vezes o grupo de Castoriadis, na época escrevendo sob o pseudônimo Pierre Chaulieu, que editou a revista “Socialismo ou Barbárie”, em Paris.

Ambos, endossamos as críticas ao regime de terror implantado por Stalin na então URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – e juntos, com um “background” de leituras marxistas semelhantes, procuramos respostas às perguntas “aonde vamos” e quais seriam os caminhos dos movimentos operários, para superar a barbárie do regime capitalista e quais seriam os principais atores dessa  mudança social e política.

Em 1974, organizei e coordenei um seminário internacional na EAESP/FGV, com o título “A crise da ordem mundial”, em consequência dos dois choques de petróleo, no ano anterior. O seminário foi realizado, apesar das ameaças veladas do então diretor do DOPS e dos coronéis do DOI-CODI e apresentou análises e diagnósticos valiosos sobre a conjuntura internacional. Tinha convidado Maurício para debatedor da palestra de Zbgniew Brzezinski, posteriormente nomeado assessor para a segurança nacional do presidente James Carter. A contribuição de Maurício ao debate foi brilhante e consta do livro com o mesmo título de seminário, publicado pela editora Símbolo, de São Paulo.

Voltando à obra de Antônio Ozaí, devemos destacar a qualidade do pesquisador que brinda o leitor com uma vasta lista de referências bibliográficas que cobre as contribuições mais significativas ao pensamento pedagógico e libertário. Completa o livro a relação de dissertações de mestrado e teses de doutorado (ao todo 51), elaboradas sob orientação de Maurício Tragtenberg que ilustram a abrangência dos temas quanto a riqueza e profundidade de seus ensinamentos. Suas críticas são dirigidas a toda e qualquer forma de autoritarismo e servem de exemplos para a prática pedagógica libertária que se revelam não somente nas palavras do professor, mas sobretudo em suas atitudes de compromisso com a liberdade. Ao criticar as estruturas burocráticas da universidade, as formas autoritárias do ensino que impedem a expressão do livre pensamento, nas empresas e nas relações pessoais, na família e na sociedade.

O resgate do legado teórico e da prática pedagógica de Maurício Tragtenberg, produto de anos de pesquisa de Antônio Ozaí da Silva, constitui não somente um trabalho acadêmico de primeira qualidade, mas representa também um serviço inestimável à difusão de conhecimentos teóricos e práticos libertários à serviço da sociedade brasileira.


* Resenha: SILVA, Antonio Ozaí da. Maurício Tragtenberg : Militância e Pedagogia Libertária. Ijuí: Editora Unijuí, 2008, 344 p., publicada na REA, nº 94, março de 2009, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/094/94res_rattner.htm

** rattnerHENRIQUE RATTNER foi Professor na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP (FEA/USP); e na pós-graduação no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). Fundador do Programa LEAD Brasil e da ABDL – Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças (In Memoriam)

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