O último trem de Gun Hill

FÁBIO VIANA RIBEIRO*

“O último trem de Gun Hill” poderia ter sido o título no Brasil de um ótimo e não tão lembrado filme do diretor John Sturges. E que tende a ser ainda menos lembrado por conta do abobalhado título escolhido – “Duelo de Titãs” – ser também o título de outro filme de 2000, “Remember the Titans”, dirigido por Boaz Yakin – título que também não corresponde a tradução. John Sturges dirigiria no ano seguinte “Sete homens e um destino” (idem, no que se refere ao quesito “título abobalhado”), versão americana de “Os sete samurais”, dirigido por Akira Kurosawa em 1954. Consta que este último presenteou John Sturges com uma espada samurai, em razão do quanto apreciou a versão de seu filme. Apenas isso e já não seria pouco.

“The last train from Gun Hill” foi produzido em 1959; período em que o gênero western já se encontrava em decadência. Nos papéis principais, o Kirk Douglas e o versátil Anthony Quinn. Não obstante os mencionados títulos infames (e que se multiplicam à exaustão nos piores e menos conhecidos filmes do gênero), o fato de mais de 90% dos westerns serem descartáveis e de suas óbvias limitações expressivas, não obstante tudo isso, não foram poucos os exemplos que desenvolveram de forma admirável, por trás dessas limitações, problemas centrais da experiência humana, e que, exatamente por isso, permaneceram vivos.

Logo no início a esposa de um xerife e seu filho são atacados por dois homens a cavalo. O filho consegue fugir e a mãe é estuprada e morta pelos homens. Ao voltar com o filho, o xerife reconhece o dono de um dos cavalos pelas iniciais gravadas na sela: um de seus grandes amigos no passado e que havia se tornado um rico proprietário de terras. Seu antigo amigo não apenas se tornara rico como também corrompera toda a cidade em que tinha seus negócios. Em uma, das muitas cenas antológicas do filme, ambos se encontram e o antigo companheiro, feliz por revê-lo e ainda não sabendo que havia sido seu filho o autor do crime, explica-lhe que ele havia sido seu último amigo antes de enriquecer: “Acho que não fiz nenhum amigo desde que nos separamos. Mas comprei alguns”.

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Após conversar com o amigo poderoso e deduzir que havia sido o filho deste o assassino de sua esposa, o xerife calmamente afirma que levará consigo os assassinos no trem das nove da noite. Dadas as circunstâncias, uma declaração de assombrosa coragem. As circunstâncias: o arqui-poderoso e arqui-corrupto antigo amigo; a cidade, toda ela amedrontada pelo poder deste; a inexistência da justiça ou de quem a pudesse representar – em outra cena antológica o xerife local, e que como todos havia se vendido ao agora dono da cidade, explica ao xerife a racionalidade de sua escolha.

– Você é o assistente do xerife desta cidade?

– Pode me chamar do que quiser.

– Vou chamá-lo de covarde.

– É direito seu. Acredito na lei e na ordem, mas devemos pensar no futuro. Está vendo aquele grande hotel ali? É do senhor Belden. Os currais perto dos trilhos, a leste? Belden e filho. Ele é o dono do estábulo, de dois bares e, dizem, da Prefeitura. Como disse, um homem da lei deve pensar no futuro. Por mim, você pode sair e morrer quando quiser. Em quarenta anos o mato terá crescido tanto no seu túmulo quanto no meu. Ninguém se lembrará que fui covarde, ou que você morreu como um tolo. Esse pode ser o seu futuro. Sempre pense nele.

– Tenho duas ordens de prisão para cumprir. E vou sair daqui com dois homens.

Elevando ainda mais o grau de barbárie e violência do lugar, a justificativa dada pelo filho pelo crime cometido: “mas ela era apenas uma índia!” Com menos de 50 minutos a situação limite é criada; o xerife captura o filho do poderoso fazendeiro, o prende no quarto do hotel e aguarda a chegada do trem; o restante da história se desenvolve em meio a uma crescente e incrível tensão psicológica. E intercalada de ótimas cenas e excelentes diálogos. Como em outros filmes do gênero e a despeito de fama em sentido contrário, a única pessoa da cidade com coragem suficiente para ajudar o xerife forasteiro é uma mulher, que antes havia trabalhado como prostituta na cidade. Mesmo descrente por tudo que vê, resolve fazer, como o próprio xerife, a única coisa que lhe parecia fazer sentido:

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– Por que não desiste?

– Você não me entende.

– Vai acabar morrendo! Devia ver todo mundo lá embaixo, esperando por isso. A raça humana não presta… Sou uma especialista no assunto.

Talvez o aspecto mais atraente de “O último trem para Gun Hill” seja o da devastadora coragem e caráter do personagem principal. Ao contrário de seu antigo e agora rico e poderoso amigo, que hesita entre a amizade e o uso de seu poder para proteger o filho criminoso, não há, por parte do xerife, nenhuma hesitação, em nenhum momento, em relação ao que deve fazer. Raras vezes tal situação, tão característica dos filmes de western – a do indivíduo que se vê forçado a estar à altura do momento e das circunstâncias – foi elevada a um nível tão alto de coragem e plausibilidade. Plausível pelo quanto sugere que o seguimento de qualquer convicção exige, de fato, algum tipo de coragem e algum tipo de renúncia. Bem ao contrário da ambiguidade de valores e convicções, sempre adequada e útil para qualquer circunstância e interesse.

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Título original: Last train from Gun Hill.
Elenco: Kirk Douglas, Anthony Quinn.
Direção: John Sturges.
Ano: 1959.
País: Estados Unidos.
Duração: 119 minutos


* ribeiro-fabioFÁBIO VIANA RIBEIRO é professor adjunto da Universidade Estadual de Maringá (Departamento de Ciências Sociais) e doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).

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2 comentários sobre “O último trem de Gun Hill

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