Ouvir as ruas: Juventude, Participação Política e Direito à Cidade

HELENA SINGER*

Caminhada pela Paz de Heliópolis em 2013
Caminhada pela Paz de Heliópolis em 2013

As manifestações que tomaram conta do país nos últimos meses têm aglutinado grupos e demandas das mais diversas, mas certamente há pontos em comum importantes para que elas tenham se espalhado com tamanha força a ponto de conquistar a redução da tarifa de ônibus nas diversas cidades e o compromisso da Presidenta, governadores e prefeitos com uma agenda de debates e mudanças. Já que agora os governantes estão anunciando que vão ouvir as ruas, é melhor atentar para estes pontos comuns ao invés de tentar desqualificar o interlocutor alegando ausência de lideranças.

Por uma nova Democracia

O primeiro destes pontos comuns é que de uma atitude de passividade e alienação que tem sido característica da população brasileira por décadas, passou-se para uma clara demanda por participação. Uma demanda tão explícita que está superando inclusive a nossa paixão pelo futebol – a população parece dizer que até preferiria que a Copa não fosse aqui, já que não há transparência nos processos decisórios relativos aos investimentos feitos. O estopim da crise, o aumento das passagens, já trazia a mensagem: não importam argumentos de que o reajuste seria inferior à inflação, o que importa é que a decisão foi tomada sem que tenham sido ouvidos os principais interessados – ou seja, os milhões de usuários do sistema.

Deste aspecto já deriva o segundo ponto comum: o conflito claro e contundente entre democracia direta e democracia representativa. Todos os partidos e representantes eleitos pelo povo – prefeitos, governadores, Presidenta, vereadores, deputados, senadores, bem como suas equipes, foram acuados. Tiveram que sair pelas portas dos fundos, escapar de agressões, ficaram atordoados, reagiram de forma equivocada dando declarações que supostamente agradariam uma maioria conservadora ou simplesmente se calaram por tempo demais. A mensagem mais uma vez é nítida: passadas mais de duas décadas de retomada da democracia, a população já não se sente mais representada pelos que são eleitos em processos que dependem de vultosas “doações” e alianças partidárias que incluem os posicionamentos mais antagônicos para garantir a continuidade do poder nas mãos dos mesmos grupos.

Comunicação em Rede

O terceiro aspecto que unifica as manifestações refere-se a sua estratégia de organização. Aqui entra a força avassaladora das redes sociais que pegou a todos, sobretudo os mais velhos, de surpresa. As ocupações são chamadas por diversos grupos para pontos comuns ou pontos diversificados e se espalham de forma viral pelas redes. Ao se encontrarem nos pontos indicados, a comunicação continua pelo celular já que não há carros de som. A informação para os que não estão no encontro continua de forma descentralizada: as pessoas filmam, fotografam, comentam e enviam para as redes sociais. E para as redes de televisão que, percebendo a riqueza deste material, passaram a estimular que seus telespectadores lhes enviassem os registros. Ou seja, as manifestações estão também mandando um recado sobre o poder das novas tecnologias para o acesso, a criação, modificação e distribuição do conhecimento. Neste aspecto, é preciso atentar para o principal ator das manifestações: os jovens.

São sempre questionáveis definições generalizantes sobre a juventude. De qual juventude estamos falando: a da classe média ou da classe trabalhadora? Dos bairros centrais ou da periferia? Das cidades grandes ou pequenas? Mas, hoje, há, de fato, um traço comum à grande maioria das pessoas do mundo com menos de 25 anos de idade: elas compõem o que alguns chamam “geração net”, aquela que está conectada continuamente, usando a rede mundial para desenvolver amizades, pesquisar assuntos de seu interesse, expressar-se em diversas mídias, criar.

Esta geração está em profundo descompasso com a instituição que lhes é destinada em nossa sociedade, a escola. Os jovens de hoje usam as novas tecnologias intensamente, mas, sobretudo fora da escola: baixando livros eletrônicos, aprendendo idiomas, participando de redes sociais, chats e grupos em que exploram assuntos de seu interesse de forma colaborativa. Em contraposição, a escola – e também a universidade – é marcada pela desmotivação provocada por exames e notas, pela rotina maçante, pela ausência de novidades. Os estudantes que não têm seu potencial reconhecido ficam ainda mais desmotivados, não se sentem inteligentes e, aos poucos vão perdendo a capacidade de acompanhar as aulas. Claro que a inadequação do modelo escolar para a educação é muito anterior a estas novas tecnologias, mas, com elas, o descompasso se acentuou fortemente e agora, mais do nunca, precisamos superar o modelo atual por escolas que se organizem com base na participação ativa dos estudantes, que façam uso das novas tecnologias para a produção crítica do conhecimento, que promovam a apropriação da cidade.

Talvez não esperássemos desta geração que parece ensimesmada com seus aparelhos digitais que valorizasse a capacidade de pensar no coletivo para superar o comodismo individual. Mas é isso que estamos testemunhando desde que se iniciaram os movimentos que vem derrubando as ditaduras no mundo árabe, a ocupação das praças nos países do hemisfério norte que naufragaram pela a crise causada pelo capital financeiro, no movimento cultural das periferias de grandes cidades brasileiras e, agora, nas mobilizações que se iniciaram em junho.

São juventudes diversas, mas juventudes em movimento, com garra e desejo de transformação das cidades, dos países, do mundo. Assim como na primavera árabe e nas praças ocupadas pelos indignados dos países ricos, o ambiente é de conexão, troca, solidariedade. Diferente do que dizem as definições generalizantes que de tempos em tempos ocupam as capas de revistas, os jovens de hoje não estão genericamente acomodados, alienados, despolitizados. Eles estão reinventando a política para derrubar ditadores, desafiar os mais ricos e inverter a lógica do mercado cultural.

Pelo Direito à Cidade

Por fim e não menos importante, é preciso perceber a forma escolhida para a manifestação: a ocupação das ruas. Em São Paulo, são tão espalhadas as manifestações que dá a impressão de que a cidade toda foi tomada. Neste aspecto, a conexão com o ponto inicial de todo este processo é fundamental: a questão do transporte urbano. As manifestações reivindicam o direito à ocupação da cidade. No início, quando a mídia e os governantes ainda achavam que a “maioria pacífica” não iria concordar com esta “bagunça” – ruas fechadas, tráfego interrompido etc. – mandaram as forças policiais com toda sua truculência contra os supostos “baderneiros”. Mas, depois, ficou claro que a maioria concordava com esta estratégia. A ocupação das ruas coloca em xeque o fato de que o direito à circulação é na realidade um privilégio nas grandes cidades do Brasil hoje.

A agenda dos anos 90, de universalização do acesso aos serviços, parece ter se esgotado, principalmente nas grandes cidades. Há certa generalização do acesso aos principais serviços públicos, como saúde educação, água encanada, rede de esgoto, coleta de lixo, energia elétrica, transporte público, ruas asfaltadas e iluminadas, delegacias, rondas policiais, parques, praças e quadras esportivas.

No entanto, as cidades permanecem extremamente desiguais e a insatisfação se generalizou. Por exemplo, dados de pesquisa lançada pela Rede Nossa São Paulo no início deste ano indicam que os proprietários de automóveis costumam reclamar do trânsito, mas os 70% dos paulistanos que utilizam os ônibus aguardam, em média, 21 minutos até que chegue o seu.  Só depois deste tempo é que se inicia sua jornada pelas ruas engarrafadas da cidade.

Os usuários dos serviços públicos de saúde são, em sua grande maioria (86%), pessoas com renda familiar de até cinco salários mínimos. Estas pessoas aguardam, em média, 66 dias por uma consulta, 86 dias por um exame e 178 por procedimentos mais complexos.  Já os 29% dos paulistanos que possuem planos de saúde privados não aguardam nem um quarto deste tempo.

Dentre os usuários dos serviços educacionais públicos, 88% tem renda familiar de até cinco salários mínimos. Estes não avaliam mal os serviços recebidos. No entanto, o conjunto da população da cidade está insatisfeito com a educação: as famílias estão apenas medianamente envolvidas na educação, as condições de trabalho dos profissionais da educação também são apenas medianas. Ruim mesmo é a formação oferecida para o acesso ao mundo do trabalho, a promoção da cidadania e da democracia.

O paulistano critica a abordagem das instituições em relação aos jovens: na pesquisa da Rede Nossa São Paulo, em uma escala de 0 a 10, 4,2 foi a nota dada para a forma como os policiais os tratam e 4,6 foi a nota para o nível de atratividade das escolas. As crianças e adolescentes não estão em situação melhor. A nota geral sintetiza a insatisfação dos moradores desta cidade com o funcionamento do sistema de garantias de direitos e a proteção oferecida a esta população.

O morador está ainda insatisfeito também com seu acesso ao lazer e à cultura, cujas notas mal passaram de 4. Na cidade com maior oferta do país, lê-se pouco, frequentam-se poucos clubes e espaços de recreação, viaja-se pouco, menos ainda se vai ao cinema. Por aqui também é difícil ir a bibliotecas, centros culturais, teatros, shows, museus e exposições.

A segurança também foi mal na avaliação dos paulistanos, com nota 4,1. Mas, é interessante notar que a visão da população sobre assunto se sofisticou e já não é maioria os que simplesmente pedem mais repressão. Entre as medidas sugeridas para diminuir a violência na cidade, os paulistanos citaram o combate à corrupção na polícia e nos presídios e as ações voltadas para a criação de oportunidades de trabalho para os jovens. Estão dois temas muito presentes nas manifestações: corrupção e juventude.

Mas é a na área que recebeu a pior a avaliação que encontramos a maior conexão com o movimento iniciado em junho: a da transparência e participação política, que recebeu a nota 3,5. Os moradores daqui não estão satisfeitos com seu nível de conhecimento sobre os espaços de participação política, o acesso a informações úteis, o nível de participação nas subprefeituras, o acompanhamento das ações dos políticos eleitos, a transparência dos gastos e investimentos públicos, a punição à corrupção e com o nível de honestidade dos governantes.

Enfim, se os governantes nos seus diversos poderes de fato ouvirem as ruas passarão agora a priorizar agendas referentes a criação ou fortalecimento de espaços de participação popular, especialmente da juventude, transparência na gestão administrativa, reforma política, acesso e distribuição das tecnologias da informação e mobilidade urbana. Os que evitarem esta agenda correm sério risco de precisar continuar escapando pelos fundos.


* singerHELENA SINGER é socióloga, membro fundador do Núcleo de Psicopatologia, Políticas Públicas de Saúde Mental e Ações Comunicativas da USP e diretora pedagógica a Cidade Escola Aprendiz.

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Um comentário sobre “Ouvir as ruas: Juventude, Participação Política e Direito à Cidade

  1. uau! grande balanço do movimento de junho e esclarecedoras reflexoes sobre as possibilidades abertas por ele.
    parabéns, professora e obrigada pelas informaçoes bem fundamentadas que nos passou.
    mas é justamente o seu artigo, pela objetividade, que me faz pensar que a passagem da apatia à dinâmica de açao e manifestaçao por toda uma populaçao e por toda uma juventude certamente esta’ ligada a uma década em que a esperança de existir e pesar socialmente se abriu para todo um povo. sei que nao é um comentario oportuno, mas também tem que ser dito.

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