X-Men: retratos de como conviver e tolerar pode ser possível

IURI ANDRÉAS REBLIN***

liv_reblinA tolerância é uma preocupação moderna e cada vez mais enraizada no cotidiano das pessoas. Parece que toda a trajetória de guerras e de violência na história da humanidade tem sensibilizado gradativamente mais as pessoas, que tem contado com o apoio dos cientistas no processo de conscientização de que a raça humana poderá ser responsável por toda a extinção da vida no planeta. Esse fato comprovaria a tese do filósofo Richard Rorty que afirma que, a partir de experiências de crueldade e de violência, é possível expandir a sensibilidade solidária e ampliar paulatinamente “o campo de responsabilidade moral das pessoas” (ASSMANN; MO SUNG, 2001: 41).

Longe de adentrar nas argumentações e nas propostas sugeridas pelo filósofo, o desafio urgente da sociedade planetária é repensar as diversas formas de relacionamento entre as pessoas das mais variadas culturas, credos ou etnias, quer esse processo de transformação das relações aconteça pela educação (como propõe o filósofo e pedagogo Lawrence Kohlberg), quer essa conscientização ocorra pelo agir comunicativo (como sugere o filósofo social Jürgen Habermas) (ASSMANN; MO SUNG, 2001: 35-73). Nesse sentido, não somente estudiosos discutem sobre o tema da tolerância, como também artistas e cineastas se manifestam (consciente ou inconscientemente) acerca do assunto através de canções, quadros, quadrinhos ou filmes. Todos entendem que o objetivo atual do mundo é buscar relacionamentos saudáveis e o respeito às diferenças em todos os âmbitos: do social ao político. Assim, a trilogia cinematográfica dos X-Men torna-se um referencial importante para a discussão acerca da tolerância.

X-Men

Os X-Men

Os mutantes vivem entre nós: pessoas que nascem com habilidades extra-ordinárias e, na maioria das vezes, aparências atípicas que se revelam a partir da puberdade ou em momentos de estresse intenso. Os mutantes causam medo e insegurança, por causa de suas capacidades incomuns. Alguns são capazes de atravessar paredes, outros podem manipular mentes, pessoas e objetos com o pensamento. Há aqueles que podem controlar o fogo e até mesmo existem aqueles que são capazes de sugar toda a vitalidade de uma pessoa apenas com um toque. Há ainda aqueles que sofrem grandes alterações físicas como a mudança da cor da pele (para tons como o azul ou o verde) como o aparecimento de asas, como o surgimento de pelagem animal e ainda há aqueles que podem vir a ter feições que lembram o imaginário popular do demônio.

Considerando que o ser humano está subordinado a mecanismos de controle instituídos socialmente (GEERTZ, 1989: 32ss) dentre os quais também se encontram os princípios morais, cabe perguntar se a regra continua valendo para todos os casos, pois, com poderes extra-ordinários, os mutantes poderiam facilmente subjugar os seres humanos e validar a sua própria vontade. É claro que as opiniões se dividem: de um lado, há aqueles que defendem uma coexistência pacífica entre humanos e mutantes e que isso pode ser resolvido a partir da educação (Professor Charles Xavier e os X-Men) e, de outro lado, há aqueles que acreditam que os seres humanos são o passado e que os mutantes são o futuro; que a superioridade mutante deve subjugar a inferioridade humana (Erik Lensherr, conhecido como Magneto, e a Irmandade Mutante). Há ainda certos membros de órgãos governamentais que assumem uma postura de temor em relação aos mutantes e que querem garantir a soberania humana (Senador Robert Kelly e General William Striker). É interessante observar que não há um antagonismo bem x mal (mutantes podem ser bons e maus) mas um antagonismo ideológico e político, além do medo diante do desconhecido (tanto que Xavier e Lensherr são amigos de infância, se respeitam mutuamente e se confrontam ao haver um conflito de interesses entre ambos). Em todo o caso, toda a disputa é sempre uma disputa pelo poder. E é nas tensões diárias que se revelam o preconceito, a alteridade e, por isso, se torna cada vez mais imprescindível conversar sobre tolerância. É sob essas premissas que está construída a história dos X-Men.

Quando Stan Lee lançou os personagens mutantes em setembro de 1963, não imaginou a repercussão que eles teriam na sociedade da época e que o sucesso os conduziria até as telas do cinema no início deste século. A idéia era simples: heróis que já nascem com superpoderes; uma idéia inspirada no surgimento e na exploração da energia atômica (GUEDES, 2004: 76). Com um olhar atento é possível perceber uma mistura de sentimentos e pensamentos que permeavam o imaginário popular comuns à época. Essa mistura de sentimentos e pensamentos estava intrinsecamente relacionada ao clima pós-guerra, à repercussão dos efeitos devastadores que a radioatividade provocou nas pessoas e ao confronto cada vez mais intenso com culturas diferentes (alemães, russos, orientais, vietnamitas). Todos esses fatores fizeram com que o medo e a possibilidade de outros tipos de transformação se tornassem parte do imaginário popular (REBLIN, 2008: 55s). Assim, não demorou, para que logo essa idéia simples de ‘heróis que já nascem com superpoderes’ incorporasse elementos bastante complexos como a evolução, a alteridade, o preconceito, os quais foram contrabalançados com a bandeira da tolerância.

Evolução, alteridade, preconceito e tolerância[1]

A evolução é a responsável pelo desenvolvimento de seres com superpoderes na história. Segundo os ‘cientistas’ dos quadrinhos, há um gene presente no código genético de alguns seres humanos, batizado de ‘fator x’, que é o responsável pelas alterações no organismo desses seres humanos. Na linguagem científica, esse seria o próximo passo da evolução humana: de homo sapiens se tornará homo superior. No entanto, como há ocasiões em que a evolução pode dar um salto e avançar milhares e milhares de anos, o que na linguagem científica se considera uma mutação genética, aconteceu que homo sapiens e homo superior começaram a coexistir no mundo. Seres humanos diferentes foram obrigados a aprender a conviver (ou não) o que conduz à questão da alteridade.

A preocupação com a alteridade é algo recente na história da humanidade e ganha atenção especial com o surgimento da Antropologia no século XIX. Mesmo antes do surgimento da Antropologia, a ‘reflexão acerca do outro’ sempre ocorria no encontro com o outro diferente e, nesse encontro, a alteridade sempre oscilava entre uma visão depreciativa e uma visão ingênua acerca do outro diferente. Tanto a visão depreciativa quanto a visão ingênua ou romântica acerca do outro partem da comparação que se faz da própria cultura com a cultura diferente. Em outras palavras, não se fazia uma reflexão acerca do outro, mas uma reflexão acerca de si mesmo diante do outro. Em todo o caso, ambas as visões tinham o mesmo princípio: elas desconsideravam o outro como ser humano. Isso é perceptível através da forma de comparação lingüística e caricatural que traziam imagens de animais selvagens (SOUZA; OLIVEIRA, 2004: 1-3). Não foi esse o imaginário presente na ‘cristianização forçada’ da América? De qualquer forma, essas compreensões acerca da alteridade não mudaram com a emergência da Antropologia, mas ‘evoluíram’, pois o outro deixou de ser visto como um animal e passou a ser percebido como primitivo, i.e., como um ser humano não-desenvolvido ou ‘não-civilizado’: “definir o outro como primitivo é incluí-lo na categoria de humano. Porém, as concepções não deixam de depreciar o diferente, agora menos evoluído e inferior à cultura ‘civilizada’. Esta foi a abordagem fundante da Antropologia, no chamado Evolucionismo. O outro foi desclassificado para poder ser dominado na Era Vitoriana: tudo em nome da civilização” (SOUZA; OLIVEIRA, 2004: 3-4).

Na trilogia cinematográfica dos heróis mutantes (assim como nos quadrinhos) a alteridade é vista com desdém. Os mutantes são temidos e odiados pelas pessoas da sociedade. No primeiro filme, o medo da população é tanto que o personagem Senador Robert Kelly insiste em aprovar leis que regulamentem um registro dos mutantes existentes, a fim de poder ter um controle, como medida preventiva, caso os mutantes resolverem se revoltar contra ou dominar os seres humanos. Por outro lado, o ‘vilão’ do filme, Magneto, deseja acelerar a evolução e transformar toda a humanidade em homo superior. Essa transformação não seria natural e os seres humanos poderiam se decompor no processo. Os X-Men impedem que Magneto consiga executar seus planos e o prendem, mostrando que nem todos os mutantes querem dominar o mundo.

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No segundo filme, a questão da alteridade adquire uma outra dimensão: experiências genéticas secretas (legais e ilegais) são realizadas com mutantes, tanto para fins científicos quanto para fins militares. Ao passo que o General William Striker (o vilão ‘humano’ do filme) cria uma arma para eliminar todos os mutantes e incita o presidente estadunidense a uma guerra declarada contra os mutantes, Magneto reconfigura a arma criada por Striker para que mate todos os humanos. Os X-Men evitam que o pior aconteça, destruindo a arma e entregando um dossiê ao presidente dos Estados Unidos sobre as experiências genéticas realizadas pelo General William Striker. Os X-Men continuam defendendo a convivência pacífica entre os seres humanos e os mutantes.

No terceiro filme, um empresário chega a desenvolver uma ‘vacina’ contra a mutação que vai ser usada, posteriormente, como arma pelos militares. Essa vacina, teoricamente, reverteria a mutação, transformando mutantes em pessoas ‘normais’. Magneto reúne um exército com a intenção de invadir o laboratório farmacêutico, localizado na Ilha de Alcatraz, e acabar com a chance de ‘cura’. No confronto final, os X-Men se colocam ao lado do exército estadunidense, garantindo a vitória dos seres humanos. Interessante ainda no terceiro filme é que a população mutante se divide: de um lado, existem aqueles que querem experimentar a ‘cura’ e viver como pessoas ‘normais’ (principalmente pessoas em que a fisionomia ou mesmo os poderes atrapalham a aceitação ou o contato com outros humanos, como a personagem Vampira, p. ex., incapaz de tocar alguém sem matá-lo) enquanto que, de outro lado, existem aqueles que defendem a auto-aceitação, tanto através da educação e da tolerância (X-Men) quanto mediante a subjugação dos seres humanos ‘normais’ (Irmandade Mutante). Além disso, o terceiro filme ainda mostra uma evolução na reflexão constitucional em relação aos mutantes: há um secretário diplomático encarregado dos assuntos mutantes e que representa o interesse da comunidade mutante junto ao governo.

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A representação política da comunidade mutante é um contraponto importante na busca por uma equidade entre pessoas diferentes. Embora a idéia de um representante mutante no congresso nacional seja interessantíssima, é necessário ressaltar que a luta por igualdade não deve acontecer através da aniquilação das diferenças (como queria Magneto no primeiro filme) e sim pela consideração das questões étnicas e culturais (SOUZA; OLIVEIRA, 2004: 11). De qualquer forma, só é possível haver um diálogo sadio entre diferentes culturas, etnias ou crenças, se a alteridade/identidade conseguir se distanciar do etnocentrismo. O problema da questão da ‘reflexão acerca do outro’ ao longo da história sempre foi o fato dessa reflexão estar associada ao etnocentrismo, ou seja, com “uma visão de mundo na qual há apenas uma história comum a toda a humanidade. Esta história comum tem diversos estágios, alguns mais avançados e outros menos. Os estágios mais avançados comumente são associados à cultura da pessoa que está efetuando a pesquisa” (SOUZA; ALMEIDA apud SOUZA; OLIVEIRA, 2004: 4). Segundo Ezequiel de Souza e Kathlen Luana de Oliveira, o “etnocentrismo é condição sine qua non para o racismo”, i.e, para o preconceito e a discriminação étnica.

Mesmo se tratando de seres humanos mais evoluídos, as pessoas não consideram os mutantes ‘seres humanos’ e, por isso, os mutantes recebem o estigma: mutante. O preconceito é sempre uma diminuição do outro. A ironia nos filmes dos mutantes é que neles os mais evoluídos são os desprezados, o que torna o preconceito recíproco por parte de alguns mutantes também (Magneto e a Irmandade). Como obra de ficção, esses filmes chegam a ser um eco cultural do que está acontecendo no mundo. Também dentro das sociedades, os olhos são fechados para a diferença – preconceitos contra portadores de necessidades especiais, idosos, mulheres, doentes, negros, dependentes químicos, etc. No Brasil, ainda existe a questão de que o preconceito se encontra disfarçado: ele está implícito nos salários baixos e nas falências das estruturas de educação e de saúde. Para Ezequiel de Souza e Kathlen Luana de Oliveira, “o problema é que sempre que nos aproximamos de alguma forma de comportamento e de pensamento diferente, tendemos a classificar a diferença hierarquicamente, o que é uma forma de excluí-la. Um outro modo de perceber e enfrentar a diferença cultural é tomar a diferença como um desvio, deixando de buscar seu papel na totalidade” (SOUZA; OLIVEIRA, 2004: 7).

Os X-Men defendem a idéia de que o exercício da tolerância é a chave para a convivência pacífica entre seres humanos e mutantes. Um dos caminhos para o exercício da tolerância inicia-se a partir da educação. Essa educação não é apenas uma educação institucional, mas uma educação que acrescenta a dimensão humanística que ensina a perceber a necessidade da convivência, do respeito, da cidadania. Ou seja, é um constante aprender a viver. É por isso que a primeira atitude do Professor Charles Xavier é criar o Instituto Xavier: uma escola para jovens superdotados, em que os adolescentes têm o espaço adequado para descobrir suas habilidades extra-ordinárias e para aprenderem a se relacionar com o diferente e a respeitá-lo em suas diferenças. Nessa escola, há a oportunidade desses jovens trabalharem o processo de auto-aceitação e a construção de sua identidade, enquanto se mantêm longe de pessoas que possam discriminá-los ou recriminá-los pelo fato deles serem mutantes, tratados como ‘aberrações’ ou ‘monstros’. Essa escola foi criada inclusive em parceria com Erik Lensherr, que, posteriormente, verteu por outros caminhos e abordagens políticas distintas.

Os novos mutantes são descobertos por Charles Xavier através do Cérebro, uma sala capaz de amplificar exponencialmente seus poderes psíquicos. Os novos mutantes recebem a visita de Charles Xavier, acompanhado por alguns de seus alunos, que explica para a família a necessidade de uma educação especial e a importância do Instituto Xavier para a formação do adolescente. Alguns desses alunos são recrutados e treinados para participarem de uma equipe especial que realiza abordagens diretas a outros mutantes que tiram proveito das suas habilidades. Essa equipe, chamada de X-Men (‘X’ vem de poderes eXtras e alude também à consoante inicial do sobrenome de seu mentor) (GUEDES, 2004: 76) é preparada para defender os seres humanos dos ataques de outros mutantes, ela é preparada para defender aqueles que os temem e aqueles que até os odeiam. Os X-Men estão dispostos a se doarem em favor de quem não os considera ‘pessoas’.

O temor e o ódio da população ‘humana’ podem ser amenizados, à medida que um dos ex-alunos do Instituto, Henry McCoy (conhecido como ‘Fera’) é secretário diplomático para a causa mutante junto ao governo estadunidense. Assim, a tolerância é trabalhada pelos X-Men em, pelo menos, três âmbitos distintos: na educação, na defesa dos ‘mais fracos’ e na política. Isso significa que a tolerância só pode funcionar se ela é misturada na teia social e nas diferentes esferas da vida. Ações isoladas não são capazes de resolver o problema da intolerância na sociedade, podem amenizá-lo, mas não solucioná-lo. O horizonte para uma convivência pacífica entre diferentes culturas, etnias ou crenças pode ser evidenciado quando forças diferentes em esferas distintas são combinadas. Quando isso acontece, a ação tolerante torna-se construtiva; significa que é capaz de fazer com que as pessoas tenham consciência de seu valor, na sua singularidade e na sua coletividade, ao mesmo tempo em que desperta o respeito à alteridade:

Tolerância construtiva implica reconhecimento e integração daquilo que os outros sistemas de convicções tenham de próprio, implica estar a par da convicção própria tanto das outras opiniões, na constante disposição de sempre se questionar. Na tolerância construtiva, o respeito pela dignidade humana ocupa lugar central, o que se pode sustentar, porquanto tolerância implica que a pessoa tenha consciência do valor próprio como pessoa e, conseqüentemente, tenha viva uma convicção que é experimentada como cheia de valor. Mas a tolerância implica igualmente o respeito pelo outro e o engajamento numa convivência humana digna (SOUZA; OLIVEIRA, 2004: 18).

Por fim, poderia se perguntar: o que faz os X-Men se engajarem por uma convivência pacífica entre humanos e mutantes ou o que faz os X-Men respeitarem justamente aqueles que os desprezam? Afinal, por que os X-Men são bons? Depois de descartar várias hipóteses, o filósofo Dr. C. Stephen Evans, PhD e estudioso de Kierkegaard, acredita que os X-Men são bons pelo fato deles estarem próximos a pessoas que amam o bem, como o Professor Charles Xavier. “Um aspecto importante da escola de Xavier para mutantes é que ela é um lugar em que os alunos podem ser aceitos e amados, e naturalmente desejar ser como aqueles que se dedicam a ajudá-los” (EVANS, 2005: 167). Para o filósofo,

Em muitos sentidos, os X-Men associados a Xavier personificam o amor ao próximo que Kierkegaard vê como dever humano fundamental. Eles trabalham para o bem dos outros, lutando por um mundo no qual todos sejam aceitos e não apenas aqueles que são iguais, que fazem parte de uma rede de família e amigos ou que repagarão pelo bem de uma maneira ou de outra. Os X-Men trabalham para o bem de todos, incluindo até aqueles que tentam persegui-los e prejudicá-los. O amor e o interesse deles pelos outros parece incondicional em qualidade e universal em extensão (EVANS, 2005: 163).

Talvez, esse amor e esse interesse pelos outros que o teólogo e filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard vê como dever fundamental imprescindível para a convivência humana seja o segredo para a tolerância vir a ser a engrenagem-mestre dos mecanismos sociais. Kierkegaard “afirma que Deus pede a nós que amemos o próximo como a nós mesmos, e que não temos a permissão de dizer que alguém está fora da categoria de ‘próximo’” (EVANS, 2005: 159). No entanto, para que isso aconteça, é necessário, em primeiro lugar, “vencer o egoísmo natural e a simples inércia que nos conduz à satisfação de nossos desejos quando esses desejos entram em conflito com o bem dos outros” (EVANS, 2005: 159-160) (uma batalha interna) e, em segundo lugar, é necessário vencer o mundo e as estruturas externas que impedem o ser humano de exercer o amor ao próximo (uma batalha externa). Para Kierkegaard, este é o verdadeiro altruísmo cristão, capaz de abnegar-se de si mesmo:

[…] sem temer por si mesmo e sem consideração consigo mesmo aventurar-se no perigo em relação ao qual os contemporâneos, enredados e cegos e acumpliciados, não têm ou não querem ter nenhuma idéia de que aí há honra a conquistar, de modo que então não só é perigoso lançar-se ao perigo, mas é duplamente perigoso, porque o escárnio dos espectadores aguarda o corajoso, quer ele vença ou seja derrotado (KIERKEGAARD, 2005: 227).

Os X-Men demonstram-se capazes de tal altruísmo e, talvez, seja esta a chave para o exercício da tolerância e o respeito à alteridade: doação incondicional ao próximo, sem a pretensão de excluir alguém da categoria de ‘próximo’, valorizando-o como pessoa, que possui uma história, experiências particulares, um jeito próprio de se entender no mundo, uma cultura singular e, tudo isso, a partir de um diálogo maduro, aberto e sadio, dentro das mais distintas esferas humanas. Esse é um desafio que a história dos X-Men propõe para todo e qualquer relacionamento humano. Essa é uma proposta que os X-Men lançam àqueles que se preocupam com a questão da tolerância e a convivência pacífica entre pessoas diferentes.

 

Referências

ASSMANN, Hugo; MO SUNG, Jung. Competência e sensibilidade solidária: educar para a esperança. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2001.

EVANS, C. Stephen. Por que os super-heróis devem ser bons? Homem-Aranha, os X-Men e o duplo perigo de Kierkegaard. In: IRWIN, William (Coord.). Super-heróis e a filosofia: verdade, justiça e o caminho socrático. São Paulo: Madras, 2005, p. 157-170.

GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1989.

GUEDES, Roberto. Quando surgem os Super-heróis. Vinhedo: Opera Gráfica, 2004.

KIERKEGAARD, Søren. As Obras do Amor: algumas considerações cristãs em forma de discursos. Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco; Petrópolis: Vozes, 2005.

REBLIN, Iuri Andréas. Para o Alto e Avante: uma análise do universo criativo dos super-heróis. Porto Alegre: Asterisco, 2008.

SOUZA, Ezequiel de; OLIVEIRA, Kathlen Luana de. Tolerância e Alteridade. In: SALÃO DE PESQUISA 2002-2004. São Leopoldo: EST, 2004. CD-ROM.


* O presente ensaio é um extrato do livro REBLIN, Iuri Andréas. Para o Alto e Avante: uma análise do universo criativo dos super-heróis. Porto Alegre: Asterisco, 2008. p. 80-90. Para mais leituras interdisciplinares sobre o universo fantástico dos super-heróis, confira o restante do livro. Publicado na REA, nº 88, setembro de 2008, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/088/88reblin.htm

** reblinIURI ANDRÉIAS REBLIN é Bacharel, Mestre e Doutor em Teologia pelo Programa de Pós-Graduação da Faculdades EST (Escola Superior de Teologia), em São Leopoldo, RS, com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Autor de diversos artigos relacionados aos temas “religião e cultura”, “religiosidade popular”, “teologia”, “Rubem Alves”, “Histórias em Quadrinhos” e “Super-heróis”; co-organizador do livro “Uma Religião Chamada Brasil: estudos sobre religião e contexto brasileiro” (São Leopoldo: Oikos, 2008, 256p.) e autor do livro “Para o Alto e Avante: uma análise do universo criativo dos super-heróis” (Porto Alegre: Asterisco, 2008, 128p).

[1] Para informações adicionais acerca do debate da tolerância, confira a edição especial de Protestantismo em Revista sobre o respectivo tema: Protestantismo em Revista. São Leopoldo, v. 12, jan.-abr. 2007. Disponível na Internet: http://www3.est.edu.br/nepp/revista/012/ano06n1.pdf. A primeira versão do presente texto também foi apresentada nessa edição.

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Um comentário sobre “X-Men: retratos de como conviver e tolerar pode ser possível

  1. Infelizmente, mais um artigo de longe imparcial – “Não foi esse o imaginário presente na ‘cristianização forçada’ da América?”. … O conceito de tolerância e fraternidade nasce justamente com o Cristianismo, pois em Roma e Atenas, fazer o bem era algo para os “comuns”. Qual tolerância a ciência trás no âmbito do discurso da qual somente ela tem respostas? “que tem contado com o apoio dos cientistas no processo de conscientização de que a raça humana”. Por que não citar o comunismo e nazismo como as maiores fontes de intolerância? E a irmandade muçulmana? Terias coragem de construir um artigo mais profundo a respeito? Que tipo de tolerância existe neste artigo que escolhe apenas material teórico-marxista ou de anulação ao transcendente? Que subliminarmente coloca nos empresários, generais e governantes a máscara do mal? Penso que ficaria mais completo se trouxesse um equilíbrio entre argumentos.

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