Muito além do sonho americano, ensaio sobre o filme “Foi apenas um sonho”

HÉRICKA WELLEN*

 

Foi apenas um sonho (Revolutionary Road, 2009) não é o mais famoso filme estrelado por Kate Winslet e Leonardo DiCaprio, nem tampouco o de maior bilheteria; mas quando se pensa num filme que mexe com os conceitos de felicidade e de emancipação pessoal, que leva a uma reflexão sobre a condição humana e as escolhas pessoais, essa obra, certamente, destaca-se frente a qualquer superprodução hollywoodiana.

Baseado no livro homônimo de Richard Yates e dirigido por Sam Mendes, mesmo diretor de Beleza Americana, o filme Foi apenas um sonho conta, com força e delicadeza, como é característico do diretor, a historia do jovem casal Wheeler, nos Estados Unidos da década de 1950.

April e Frank Wheeler (Kate Winslet e Leonardo DiCaprio) são casados e têm dois filhos. Vivem numa bela casa suburbana e levam uma vida comum: pela manhã, Frank vai trabalhar, os filhos vão à escola e April cuida da casa. A imagem é típica dos anos de 1950 nos Estados Unidos, desde a paisagem, até os figurinos, incluindo os belos vestidos de saia rodada. O que não se encaixa nesse contexto do sonho americano é a própria April.

No início do filme, April é uma jovem estudante de teatro, que busca uma vida autêntica, livre, sem se prender a padrões pré-estabelecidos de felicidade. Ao encontrar Frank, ela descobre a possibilidade de realização desse ideal. Frank compartilha os sonhos de April e ainda os aprofunda contando historias de quando esteve na Europa, durante a Segunda Grande Guerra. Especialmente sobre Paris, Frank diz: “Lá as pessoas estão vivas de verdade. Não é como aqui”.

Foi apenas um sonho - imagem 1

No decorrer da história, entretanto, esse ideal vai dando lugar a um cotidiano típico das famílias americanas daquele momento. Mesmo o sonho de se tornar atriz desmorona quando, durante uma apresentação, fica evidente a falta de talento de April. A destruição desse ideal tem como consequência a destruição do casamento dos Wheeler. É depois da fracassada apresentação no teatro que eles têm a primeira grande discussão do filme e April acusa Frank de ter virado um “marido suburbano”, que a “prendeu numa armadilha”.

A crise entre os dois revela um traço peculiar de Frank: é certo que ele deseja uma vida diferente do american way of life, mas não de uma maneira tão determinada quanto April. Esse desejo, que é vital para ela, em Frank, vai esmaecendo frente ao seu progresso na empresa onde trabalha. Ele parece se contentar em parecer especial, diferente dos outros “suburbanos” ao seu redor, mesmo levando o mesmo estilo de vida.

Um exemplo de como ele precisa manter essa aparência especial, alternativa, sem, necessariamente, viver de uma forma diferente daqueles de quem ele desdenha, está no fato de que ao trair April com Maureen (Zoe Kazan), secretária da empresa, Frank utiliza o mesmo perfil de inconformado com a vida enfadonha que leva; ele zomba da empresa onde trabalha e conta que seu pai trabalhou nessa mesma empresa por quase toda a vida e sempre usava esse argumento quando conversava com o filho sobre futuro. Quando isso acontecia, Frank pensava: “Deus me ajude a não acabar igual a você”.

Esse inconformismo de Frank está mais ligado a uma maneira de parecer diferente, mas não o impulsiona a buscar algo de que ele realmente goste. Essa é uma diferença crucial entre Frank e April no tocante a esse sonho de “sentir as coisas” com profundidade: ainda que apresente laivos de críticas sociais e tentativas de mudanças de vida, ele se contenta com a aparência, enquanto esse ideal faz parte da essência de April.

Embora haja alguma verdade nas palavras de Frank, esse sonho não é tão arraigado quanto em April. Ela não consegue viver de outra forma. Um vislumbre de sua personalidade se apresenta já no começo do filme. Ao perguntar o que Frank faz, ele responde, com ar divertido, que é estivador (esse é seu emprego no início do filme) e ela retruca: “Não perguntei como ganha dinheiro, mas pelo que você se interessa”. Essa pergunta fica sem resposta.

Foi apenas um sonho - imagem 2

A ideia de felicidade para April não passa por uma questão de dinheiro, não se identifica com a ideia passada pelo “sonho americano”, estreitamente vinculada ao consumo. April também não tem clareza do que realmente quer, mas essa busca é vital para ela. Abrir mão de buscar essa verdade é abrir mão da própria vida. Ela precisa viver o sonho. Não abre mão desse ideal e esse fato culminará em sua morte. Frank, por sua vez, se satisfaz em sonhar e aparentar essa suposta superioridade e sofisticação para os outros. Mesmo sem realizá-la.

É por isso que, na busca por salvar sua vida e de sua família, April tem a ideia de que eles deixem tudo e se mudem para Paris. Se é lá que as pessoas vivem de verdade, como disse Frank, é para lá que eles devem ir. April afirma que, em Paris, Frank não precisaria trabalhar, ela trabalharia fora para que ele pudesse escrever e pensar sobre o que gostaria de fazer. Quando Frank afirma que essa proposta é irreal, April diz: “o que é irreal é trabalhar no que não suporta. Morar onde não suporta. O seu ‘eu’ está sendo negado e reprimido nesse tipo de vida”.

Diante de tais argumentos, mas principalmente, diante do entusiasmo de sua esposa, que ele ama, Frank aceita a proposta e a vida da família se transforma. Eles voltam a ser o casal feliz do início do filme. Fazem planos e anunciam a partida deles, que seria no outono, para todos com quem convivem, divertindo-se sempre com o espanto de seus vizinhos e colegas de trabalho.  Quanto mais as pessoas que os rodeiam recriminam a ideia, mais eles se veem com especiais, como um casal acima de qualquer convenção e regra social.

O único que aprova a ideia dos Wheeler é John Givings (Michael Shannon), filho de um casal vizinho, que está internado por ser considerado louco. A mãe de John, Helen (Kathy Bates), vendo nos Wheeler um casal jovem e “especial”, pede a April que receba seu filho em casa, para que ele retome sua vida social, perdida depois de suas internações e de receber trinta e sete choques elétricos.

John é um importante personagem na trama. Ele aparece como uma voz cruel da realidade – autêntica e direta – num mundo onde imperam as aparências. Ao conhecer os Wheeler e saber de seus planos de construção de uma nova vida, ele apoia o casal e vê com esperança a tentativa de transformação pessoal dos dois. Depois, quando informado de que a partida fora cancelada e de que a suposta razão para isso era a inesperada gravidez de April, John se revolta contra os dois (“as pessoas não têm filhos em Paris?”) e dispara uma terrível sentença: “eu estou feliz em não ser essa criança”.

Revolutionary Road

A gravidez de April não é, na realidade, o grande motivo do cancelamento da viagem. Na verdade, esse plano só foi real para April (e talvez para as crianças). Enquanto ela comprava passagens e empacotava os pertences da família, fazendo listas com a filha sobre o que ela poderia levar; Frank exibia a ideia, mas nada fazia para concretizá-la. Ao contrário, o momento de decisão de partir coincidiu com sua ascensão profissional, e fez com que seu desejo de mudança diminuísse cada dia mais.

O momento em que essa mudança foi mais concreta para Frank deu-se quando ele perguntou ao chefe se ele se lembrava de seu pai, que por tantos anos trabalhou na empresa; ao ouvir a negativa, Frank parece perceber que toda a forma especial pela qual vem sendo tratado na empresa está relacionada à possibilidade de gerar lucros, e não ao fato de que ele, como pessoa, tenha alguma importância. Isso não se dá por ser o caso singular dessa empresa, mas por ela estar inserida num modo de produção que se estrutura na exploração do trabalho alheio e quando esse trabalho não pode mais ser explorado, o trabalhador é descartado, como aconteceu com o pai de Frank.

Frank, então, agradece a proposta de promoção, mas não a aceita, afirmando que, no outono, deixará a empresa. No entanto, ainda na mesma cena, diante dos argumentos que anunciam o sucesso do negócio em que está envolvido (a venda de computadores), sua decisão de sair da empresa já não é mais tão contundente.

É a gravidez de April que aparece como o grande motivo do cancelamento da viagem. Embora ela argumente que o filho poderia nascer em Paris ou, ainda, que ela poderia realizar um aborto com segurança, haja vista que a gravidez está no décima semana, Frank não aceita seus argumentos e dispara: “uma mulher normal, uma mãe normal e sã, não compra um tubo de borracha para fazer aborto e poder viver uma droga de fantasia”.

Explicita-se então a percepção de Frank sobre a viagem: o que para ela é um projeto de vida, para ele é uma fantasia. A vida, assim, parece perder o sentido para April. Com grande êxito, Winslet interpreta o sofrimento dessa mulher que passa por sentimentos duros e conflitantes, como a tristeza, o cansaço, a apatia. Sem esperanças de felicidade, April torna-se indiferente ao mundo ao seu redor e diante da confissão de infidelidade de Frank, que o faz como uma tentativa de despertar ciúmes na mulher, April revela que odeia o marido. Com a relação despedaçada, Frank volta a se encontrar com Maureen e mesmo April tem uma relação sexual com seu vizinho e amigo Shep Campbell (David Harbour), que é apaixonado por ela.

Explicita-se também a vulnerabilidade da mulher naquele contexto. Sem Frank, April não pode realizar seu sonho. Seu principal papel social é o de esposa e mãe. Ela não consegue ver alternativas para sua vida. Numa conversa com Shep, na noite em que ficam juntos, April confessa: “Não precisava ser Paris. Queria que voltássemos a viver. Não posso partir. Não posso ficar. Não sirvo para nada”.

Foi apenas um sonho - imagem 4

Essa falta de esperança leva April à morte. O filme não deixa totalmente claro que se tratou de um suicídio. Na verdade, ela realiza um aborto em casa, de maneira completamente insegura, ainda mais pelo o adiantamento da gravidez. No entanto, as cenas anteriores, em que April parece se despedir de Frank e de seus filhos, além do fato de ela saber do risco que estava correndo ao realizar o procedimento, levam à compreensão de que ela buscava dar fim a própria vida. Essa é a conclusão a que Frank chega.

A crítica de April à sociedade em que viviam é real. A vida das outras famílias que circundam os Wheeler demonstra isso. De maneira geral, os Campbell e os Givings não vivem de forma verdadeiramente autêntica suas relações familiares. Há cenas no filme que mostram os abismos entre marido e mulher e, ainda, entre pais e filhos, embora aparentem a perfeição familiar que a sociedade requer.

Todavia, April e Frank veem esses abismos como escolhas dessas pessoas e as julgam inferiores sem considerar a sociedade em que estão inseridas, que é opressora, sexista e alienada. Ter consciência de que a vida pode ser diferente e mais plena não é uma questão de vontade individual, mas requer um processo de transformação coletiva. Sem perceber isso, April não encontrará a vida que procura, nem mesmo em Paris.

April e Frank acreditam ser esse casal especial, que não se interessa pelas mesmas coisas pelas quais se interessam seus vizinhos suburbanos; que aspiram a coisas mais sublimes e grandiosas. Quando o cotidiano insiste em lhe dizer o contrário, ela constata: “Toda nossa existência aqui se baseia na ideia de que somos especiais e superiores a tudo, mas não somos. Somos iguais a todo mundo”. Essa constatação a assombra e a leva à morte.

Não há felicidade possível para April porque não há emancipação pessoal fora da sociedade. Considerar-se melhor do que os outros por ter uma percepção mais clara de que a vida pode ser mais plena, sem, contudo, almejar essa plenitude para toda a sociedade, jamais a levará ao encontro da verdade; ao contrário, esse tipo pensamento serviu para embasar os atos mais desumanos do século XX. Inclusive em Paris.

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Ficha Técnica

Título: Foi apenas um sonho
Título original: Revolutionary Road
País: EUA, Reino Unido
Ano: 2009
Duração: 125 minutos
Direção:  Sam Mendes


* wellen-herickaHÉRICKA WELLEN é Professora da Escola de Educação da UNIRIO.

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6 comentários sobre “Muito além do sonho americano, ensaio sobre o filme “Foi apenas um sonho”

  1. Estamos em 2016, e assisti ao filme ontem. Me impressionou tanto que fiz comentários com meu esposo. Porém minha visão do filme foi totalmente diferente. Pense! Foquei no drama pessoal de April. Mas, como o filme me inquietou, pesquisei e encontrei esse maravilhoso artigo. Ampliou minha visão sobre as diferentes temáticas que o drama traz. Obrigada pela partilha.

  2. Oi Fernanda, que bom ler o seu comentário. O filme também me fex refletir muito sobre minha própria vida e meus sonhos. Obrigada.

  3. Incrível sua análise. Li antes de terminar de assistir o filme e digo que meu olhar sobre o filme será diferente quando estiver assistindo…
    Decidi há pouco assistir os filmes que sempre quis assistir e um deles era Foi Apenas Um Sonho e agora posso entender o motivo do título.

    Enquanto assistia, senti mesmo que o filme apesar de tantos prêmios que ganhou, não é um filme que está sendo falado pela massa popular ou mesmo na nossa TV Brasileira. Esse filme se trata realmente do sonho americano que muitos tinham e tem ainda hoje, um sonho de riqueza material, em que essa riqueza iria trazer satisfação pessoal, mas que se não houver equilíbrio, na verdade, pode ser motivo de infelicidade pessoal.

    Eu, pessoalmente, compartilho das ideias dos nossos personagens, de sentir algo, de saber o que eu quero pra minha vida e perseguir isso. Quantas vezes eu também não quis fugir para outro país para me encontrar e ser feliz, mas como brilhantemente você diz em sua análise, “Não há felicidade possível para April porque não há emancipação pessoal fora da sociedade.”.

  4. Obrigada pelo retorno da leitura, Cleo. Desde a primeira vez que assisti a esse filme, senti a necessidade de discuti-lo e de aprofundar seu sentido. Muito bom ter esse espaço para fazê-lo. Agradeço, mais uma vez, à Revista. Abraços.

  5. Cara Héricka,

    boa noite!
    Hoje, estimulado pela leitura do seu excelente texto, assisti ao filme. Um ótimo filme ao qual a sua escrita acrescentou algo.
    Sinceros PARABÉNS e muito obrigado por sua contribuição comigo e os demais leitores deste espaço.

    Abraços e tudo de bom

  6. Amei sua análise. Me fez construir um sentido para a filme, para a estória. Quando o assisti a alguns anos lembro que refleti um pouco sobre a trama e o desfecho final. Mas acho que vivemos de forma tão focada nessa vida que o que é absurdo chega a ser vivido como o natural. E querer sonhar com um outro mundo sozinha é, como mostra o drama, pedir para ser classificada de louca. Parabéns.

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