“E.T., o Extraterrestre”: figurações de Cristo e antifundamentalismo cristão

ALEXANDER MARTINS VIANNA*

 

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Em março de 2002, foi lançado o DVD-Duplo, estendido e digitalmente remasterizado, do filme E.T., O Extraterrestre, em comemoração aos 20 anos de sua produção (1981) e lançamento em cinema (1982). Frente a tais marcos conjunturais, foi irresistível não fazer um paralelismo entre 1981-1982 e 2001-2002, para se entender o significado cultural e político, previsto ou não, do primeiro lançamento do filme em cinema e do seu lançamento em DVD digitalmente remasterizado. Assim, gostaria de fazer algumas ponderações sobre a experiência afetivo-cognitiva e crítica proposta pelo filme, mas tendo por horizonte duas conjunturas de passado (1981-82 e 2001-02) que referenciam o seu potencial crítico histórico e temático.

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Em 1981-1982, temos o início do primeiro governo Ronald Reagan (1981-1984), que foi marcado por uma tentativa de reaquecimento da Guerra Fria, pela corrida armamentista-espacial (que redundou no Projeto Guerra nas Estrelas, proposto em março de 1983) e pelo arrefecimento da retórica oficial dos direitos humanos, marca do governo democrata de Jimmy Carter (1977-1981), que fora obliterado pela conjuntura ideológica antiamericana aberta pela Revolução Islâmica no Irã (janeiro de 1979) e pela invasão do Afeganistão pelas tropas soviéticas (dezembro de 1979).

Em 2001-2002, temos o início do primeiro governo George W. Bush (2001-2004), que foi marcado pela retórica fundamentalista cristã de guerra ao terror, pelo aumento exorbitante do orçamento miliar, por ações unilaterais de intervenção no exterior, pela violenta política anti-imigração e pela violação de direitos humanos dentro e fora das fronteiras norte-americanas. Tal como o governo Reagan, o governo George W. Bush tentou diferenciar-se (na verdade, superficialmente) do governo democrata que o precedera, no caso, Bill Clinton (1993-2001). Segundo a então Secretária de Estado do governo George W. Bush, Condolezza Rice, a gestão de Bill Clinton havia transformado os soldados norte-americanos em “trabalhadores sociais” e enfraquecido a segurança dos EUA. Indiretamente, era uma forma do creditar ao governo anterior a responsabilidade pelos ataques de 11 de setembro de 2001 em solo americano.

Na conjuntura do governo Reagan, os inimigos convenientes (i.e., a figuração pública de ameaça à segurança que justificava a exorbitância dos orçamentos militares e as violações dos direitos humanos dentro e fora dos EUA) eram a URSS, os narcotraficantes “latinos” (dentro e fora dos EUA) e o terrorismo islâmico iraniano. Na conjuntura do governo George W. Bush, os inimigos convenientes eram a China, a Coréia do Norte, a Síria, o Irã, o Iraque, os narcotraficantes “latinos”, os imigrantes em geral (com foco conjuntural nos ‘árabes’, fossem eles árabes ou não, depois do 11 de Setembro) e as redes paraestatais e paramilitares do terrorismo fundamentalista islâmico do pós-Guerra Fria.

As filmagens de E.T., O Extraterrestre foram iniciadas em setembro de 1981. Como discurso feito para uma época, o filme de Steven Spielberg não nos serve aqui para tratar da política militarista do governo Reagan, mas para refletirmos sobre como que, no campo do imaginário cinematográfico, foi esboçada uma educação sentimental antiarmamentista e antibélica num filme pensado para atingir principalmente um público infanto-juvenil, o que se percebe não apenas pelo tipo de trama, alusões e texto, mas também por meio dos protagonistas que formam o elenco (crianças e adolescentes) e que ritmam a teleologia pática, seja na direção do riso, seja na direção das lágrimas.

O filme E.T., O Extraterrestre desenvolve-se num sentido bem diferente de outra série de filmes de ficção científica para cinema fortemente celebrada na virada da década de 1980: Guerra nas Estrelas (1977-1983). Para além da presença pontual recorrente dos elementos visuais, como brinquedos e demais referências de bens de consumo ligadas à sua franquia, a série Guerra nas Estrelas para cinema é citada de modo crítico-jocoso em duas situações específicas no filme E.T., O Extraterrestre: quando os amigos de Michael, irmão mais velho de Elliott (protagonista que estabeleceria a ponte sentimental com E.T), brincam de RPG na mesa da cozinha; quando, na comemoração de Halloween, Elliott e Michael saem na rua com E.T. disfarçado de fantasma e, através dos buracos do lençol, E.T. avista um “mestre Jedi” na rua e tenta segui-lo, dizendo “minha casa, minha casa…”.

Os filmes de ficção científica são fontes permanentes para se pensar como que se constrói numa cultura um imaginário de medos de aniquilação ou de contaminação; como se configuram percepções culturais das transformações nas relações sociais; ou como se desenvolvem determinadas noções e valores relacionados à fronteira cultural, segurança e ameaças a um estilo de vida, civilização ou sociedade. Na longa série de filmes norte-americanos de ficção científica das décadas de 1970 e 1980, podemos perceber uma constante temática: em diferentes contextos, o estranho (alien) serve como objeto de emulação dos medos, ódios ou ressentimentos de comunidades políticas, tornando-se o marco fronteiriço que não pode ser ultrapassado pelos sentimentos de amor ou empatia.

O filme E.T., O Extraterrestre rompe deliberadamente com a expectativa dramática e etológica da “função-estranho” característica dos filmes norte-americanos de ficção científica da Guerra Fria: devido à forma como é configurado o seu plano expressivo, o espectador é recorrentemente jogado para dentro do corpo emocional do alienígena, ou seja, o roteiro, a edição, a direção, a trilha musical, a simulação de sonorização ambiental e a performance do alienígena são pensados no sentido de provocar a empatia e a solidariedade pelo “estranho/alien” no expectador infanto-juvenil do filme.

É justamente por provocar esta conduta afetiva que o plano expressivo do filme E.T., O Extraterrestre mais contribui culturalmente para a crítica à retórica fundamentalista cristã de medo e ameaça do governo Reagan. Afinal, Steven Spielberg apresenta-nos um alienígena não ameaçador, de olhar doce e pueril, de complexão tão frágil quanto uma criança, amedrontado com os seres humanos e cujas marcas indeléveis são: um coração capaz de reluzir – semelhante às representações de “Sagrado Coração de Cristo” – e um dedo indicador que acende e evidencia a sua celeste capacidade criatória e a sua disposição de se ligar com a Humanidade (da qual Elliot é a metonímia).

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Os nomes “E.T.” e “E-lliot-T” são anagramas que reforçam esta ligação entre “humano” e “estranho”. A ligação sentimental entre tais personagens irradia-se para as suas respectivas espécies, funcionando como um espelho exemplar daquela virtude cristã capaz de ultrapassar as diferenças e o medo e, assim, alimentar a solidariedade entre os povos: o amor ao próximo, indistintamente de origem, linhagem e pertencimento.

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Por meio do pathos predominante do filme, a caritas é acionada de modo a se contrapor culturalmente ao fundamentalismo cristão, racista e anti-imigracionista que emergiu com força no cenário norte-americano da recessão econômica das décadas de 1970 e 1980. Nessa conjuntura, várias produções cinematográficas de ficção científica figuraram medos agressivos em relação a ameaças à segurança e ao estilo de vida americano. O filme E.T., O Extraterrestre deliberadamente se distancia de tal tradição. Por isso, nas linhas que se seguem, gostaria de contar resumidamente a trama deste filme e, ao mesmo tempo, demonstrar como a crítica cultural à Guerra Fria e ao fundamentalismo cristão do governo Reagan é desenvolvida por meio de motivos, alegorias e tópicas bíblico-cristãs.

***

Numa noite enluarada, uma espaçonave alienígena pousa numa pequena cidade da Califórnia, onde mora a família de Elliott, que vive o dilema da recomposição de sua rotina familiar depois do divórcio de seus pais. Ele mora com a mãe, seu irmão mais velho e a irmã caçula. Pouco distantes de sua propriedade, diversos alienígenas desceram num bosque para fazerem estudos sobre o meio ambiente. Um deles afasta-se mais do que deveria da nave, estando encantado com a natureza. Em vários momentos, o espectador é colocado no “corpo perceptivo” do alienígena, já que assume a sua posição de “olho da câmera que respira”.

A localização do pouso da espaçonave é de conhecimento do serviço secreto norte-americano, cujos agentes chegam de surpresa no bosque e, assim, fazem com que os alienígenas delineiem um plano de fuga. Antes de levantarem voo, os alienígenas chamam telepaticamente um dos seus, que havia se desgarrado do grupo. Frente a tal chamamento telepático, o seu coração reluz em meio à escuridão do bosque e, assim, é localizado pelos agentes. Começa, então, uma perseguição, em que é feito um paralelismo de recortes de cenas de contraste entre a corrida dos agentes – representados pelo foco da câmera da cintura para baixo – e a corrida do pequeno alienígena desgarrado.

Nesse jogo de edição, o espectador é imediatamente colocado no lugar do alienígena, sendo contaminado por seu sentimento de pânico e, ao mesmo tempo, tem-se a sensação de indignação devido à contrastante desigualdade de força física entre ambos os lados. Ao final da perseguição, os agentes do governo chegam até a clareira em que estava a espaçonave e têm a chance de ver a sua decolagem. Eles não sabem ao certo se aquilo que perseguiram no mato conseguiu chegar até a nave e, por isso, iniciam uma busca silenciosa e secreta no bosque e nas proximidades do bairro residencial onde morava Elliott.

E.T. é achado por Elliott na garagem de sua casa. Elliot tenta escondê-lo por temer que, se fosse encontrado pelos agentes do governo, seria levado e sofreria lobotomias ou dissecações “em nome da ciência”. Portanto, a primeira forma efetiva de comunicação de E.T. com um humano ocorre por meio da sua afeição por Elliot, que logo evolui também para uma conexão orgânica – ou seja, ambos se tornam “nós” pela força do amor. Esta situação contrasta com o medo que E.T. sentira dos humanos no bosque, mas aprendeu que não deveria deduzir o todo (Humanidade) das partes (homens do bosque) ao entrar em contato com Elliot, que cria com E.T. uma primeira ponte afetiva de confiança por meio da singela troca de confeitos. Indiretamente, isso também representa um aprendizado afetivo contra o racismo.

No decorrer do filme, como a conexão orgânico-afetiva aumenta entre E.T. e Elliott, desenha-se uma situação de escolha sobre vida, morte e ressurreição: E.T. não pode permanecer por muito tempo no mundo de Elliott sem adoecer-se ou adoecê-lo. Por isso, partindo dos artefatos culturais deste mundo, tentaria construir um meio de comunicação celeste com seus iguais. Elliott e seus irmãos tentam, então, ajudá-lo nesta empreitada, mas são descobertos pelos agentes do governo, que invadem a sua casa sem mandato judicial, tratando a questão como um caso de segurança nacional. A casa de Elliott e a sua família são postos em quarentena, o que chama a atenção da vizinhança. Devido à sua ligação, E.T. e Elliott são monitorados pelos médicos, mas, à medida que a doença avança, E.T. separa-se de Elliott, para que não morressem juntos. O plano expressivo desta cena é feito de forma a arrebatar emocionalmente o espectador que, atento ao desenrolar da história, sente a dor da perda/separação, tal como Elliott.

No entanto, a chegada à Terra dos iguais de E.T. faz com que seu corpo ressuscite. Ao perceber a ressureição de E.T., Elliott planeja, com seu irmão Michael, a sua fuga e, assim, furta a ambulância que transportaria o “corpo” de E.T. numa câmara criogênica. Depois de terem tomado certa distância, imaginam que melhor poderiam alcançar a clareira do bosque com suas bicicletas, contando com a ajuda de seus colegas da vizinhança. Assim, iniciam a espetacular fuga com bicicletas, que se tornou um dos momentos mais emblemáticos da história do cinema hollywoodiano.

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Quando chegam à espaçonave, é o momento de uma emocionante despedida: E.T. pede para Elliott partir consigo; Elliott pede para E.T. ficar. Ambos sabem que, neste caso, o desejo não será mais forte que as circunstâncias. No entanto, E.T. lembra a Elliott que sempre estará em seus pensamentos. Nesse sentido, todo o acaso que os uniu terá algum sentido para o futuro. E.T. sobe em sua espaçonave e a porta fecha-se vagarosamente, formando um ponto de fuga em torno daquilo que é o marco simbólico do filme: o coração/amor/caritas. A mensagem de que é necessário que o amor supere o ódio e as diferenças que alimentam a guerra tem um público-alvo bem marcado em 1982, os filhos dos norte-americanos que apoiaram Reagan, como demonstra o arco-íris (nas cores da bandeira norte-americana) deixado como rastro de voo da espaçonave.

Assim, por meio (1) da sua teleologia dramática centrada no tema da redenção, (2) da sua caracterização dos personagens e (3) da sua estrutura expressiva repleta de ironias em relação às caracterizações de personagens alienígenas ameaçadores dos filmes de ficção científica da Guerra Fria, o filme E.T., O Extraterrestre acaba por oferecer uma provocação afetivo-cognitiva centrada em “aliança e amor”, mas em chave crítica antiarmamentista, antirracista e antifundamentalista, o que se opõe, seja em 1981-1982, seja em 2001-2002, aos valores da retórica oficial bélica republicana centrada em “ameaça e medo” dos “estranhos/estrangeiros/aliens”.

Para potencializar a sua crítica antiarmamentista, antirracista, antifundamentalista e anti-Reagan, o filme E.T., O Extraterrestre valeu-se deliberadamente de tópicas, temas e motivos relacionados à figura bíblica de Cristo para caracterizar o seu doce e amoroso alienígena: E.T. vem do céu; E.T. se anuncia “messias” (enviado do céu) por sua capacidade de fazer “milagres” (telepáticos), dois dos quais, emblematicamente, são a cura (da ferida de Elliot) e a ressureição dos “mortos” (um vaso de crisântemo); E.T. se mistura às coisas humanas e encarna a dor dos homens por meio de Elliott; E.T. morre pela Humanidade (cuja metonímia é Elliott); por fim, E.T. ressuscita e retorna ao céu, deixando a sua mensagem de amor para a Humanidade e a sua promessa de permanência no legado e na consciência dos homens de boa-vontade.

Portanto, voltado para um público infanto-juvenil, o filme usa referências da cultura cristã para desenvolver o seu combate cultural contra os valores do fundamentalismo cristão politicamente potencializado pelo governo Ronald Reagan. Por isso mesmo, não pude deixar de sorrir quando o filme E.T., O Extraterrestre foi lançado em DVD comemorativo em 2002. E, neste ensaio, não poderia deixar de lembrar as críticas e os valores veiculados e provocados por um compromissado dispositivo de entretenimento e combate cultural. Ao mesmo tempo, isso nos convida a observar, sempre com cuidado, o tipo de filme – e os valores implicados – com o qual os nossos filhos e alunos entram em contato na condição de um aparentemente inocente veículo (e vínculo) de entretenimento.

Ao seu modo cristão, E.T., O Extraterrestre fala de amor e contra a guerra e o preconceito, mas há muitos filmes por aí que, num click on line, andam dessensibilizando nossas crianças e jovens para o tema da guerra, banalizando em cidadãos vindouros o treinamento psicológico do ethos de soldado, ou seja, indo numa direção etológica bem distinta daquela que encontramos no filme de Spielberg.

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E.T., o Extraterrestre
Ano de Produção: 1981
Ano de Lançamento: 1982
Diretor e Produção: Steven Spielberg
Roteiro: Melissa Mathison
Atores principais: Dee Wallace; Peter Coyote; Henry Thomas; Drew Barrymore.
País: EUA
Língua: inglês norte-americano
Duração: 120 minutos


*viannaALEXANDER MARTINS VIANNA é Mestre e Doutor em História Social pela UFRJ. Professor Adjunto II de História Moderna do Departamento de História da UFRRJ (Campus de Seropédica)

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7 comentários sobre ““E.T., o Extraterrestre”: figurações de Cristo e antifundamentalismo cristão

  1. BRILHANTE!!! Diante dessa análise vou assistir novamente o filme (…que despertou algo maior em mim) agora com os meus 54 anos.

  2. Belissima análise e a mensagem ao final extremamente oportuna e pertinente. Parabéns.
    José Luiz Telles

  3. Artigo muito bom, destacando pontos relevantes do filme, sua correlação com a cultura cristã e sua “propaganda” antibelecista e antiracista. Faltou comentar a integração do filme e de sua mensagem com a obra do seu diretor, Steven Spielberg, de família judia, que antes de ET já tinha feito “Contatos imediatos do terceiro grau” e “1941 – Uma guerra muito louca”, e depois fez “Cor púrpura”, “Império do sol” e “A lista de Schindler”, com temáticas entrelaçadas com “ET”.

  4. Excelente análise e até surpreendente, confesso que não me havia dado conta dessa cristianização do ET ( morte, ressurreição e ascensão do personagem). Vou rever o filme com “olhos de ver”. Grato pelo seu texto.
    Jorge Linhaça

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