Tablets na escola

limaRAYMUNDO DE LIMA*

A Secretaria de Educação do Paraná anuncia a distribuição de 32 mil tablets aos professores, para que usem em sala de aula. O gasto é de R$ 62 milhões. Ainda prevê a instalação de 3.700 lousas digitais. Até o final de 2014, a Secretaria pretende conectar cerca de 60% das escolas estaduais. Também o Governo Federal através do Ministério da Educação e Cultura, vai gastar R$180 milhões para comprar tablets que serão distribuídos aos professores do Ensino Médio, em todo o território nacional. A meta é levar os tablets também para os alunos usarem em sala de aula.

Será que os tablets, lousas digitais, e outros eletrônicos, representam genuíno avanço pedagógico ou é apenas acréscimo tecnológico na sala de aula? O gasto público de mais uma nova tecnologia garante bons resultados na aprendizagem dos alunos? As pesquisas científicas e debates sérios apontam a solução tecnológica como melhor alternativa para superar a mediocridade do nosso ensino escolar? Tablets contribui para melhor ensinar?

Pesquisas apontam que não basta dominar os conteúdos de biologia, química, física, matemática. É imperioso saber “como ensinar” ou “como transmitir” cada um deles. Os alunos se queixam: “a prof sabe, mas não sabe transmitir”. Às vezes, falta paciência docente. Os professores também sofrem com alunos sempre distraídos, indisciplinados e até desrespeitosos. Os aparelhos irão contribuir para diminuir a desatenção deles ou terá efeito perverso ao ensino e aprendizagem?

Hoje, a maioria dos docentes improvisa o uso do power point, porque não foi preparado para usar as novas tecnologias como recurso didático. Uma aula torna-se interessante para os alunos desde que o/a professor/a dedique tempo para preparar as aulas. Se o/a professor/a apenas lê slides, ou projeta mensagens fora de contexto, pode obter tédio dos alunos. Ao projetar filmes e filmetes durante a aula, pode gerar suspeita de apenas estar preenchendo o tempo. Portanto, os professores precisam de uma formação adequada para saber como usar os meios eletrônicos disponíveis.

Uma coisa é entregar tablets, lousas eletrônicas, notebooks, apenas aos professores e outra é distribuir tablets também aos alunos. Uma coisa é capacitá-los com uma nova metodologia de ensino e didática específica, e outra é deixá-los à improvisação. Mesmo assim, será preciso criar uma nova cultura escolar que inclua a práxis digital. Isso implica romper com algumas influências anacrônicas que ainda persistem na formação dos docentes.

A atual geração de professores foi formada na mentalidade analógica. Muitos são resistentes às novas tecnologias de ensino ou a mentalidade digital. Professores universitários hoje se irritam com alunos ligados aos seus notebooks e tablets durante a aula. Alguns proíbem o uso. Tal atitude é justificada porque o/a professor/a se sente preterido/a em relação à tela eletrônica, que parece fascinar o aluno ‘digital’. Pergunto: durante a aula, o que deve fazer o professor quando vê que o aluno está no facebook ou outra distração?

Sobre a lousa digital, temos uma no auditório do bloco da Educação da UEM (bloco I-12). Uma lousa virgem. Mas a lousa digital é um instrumento muito usado no sistema de ensino da Inglaterra, declara o professor da Universidade Federal de Minas Gerais, Eduardo Fleury Mortimer, em palestra na UEM/agosto-2013.

Voltando ao tablet, parece que ninguém é contra seu uso paraorganizar o trabalho diário do professor, além de ser uma ferramenta ágil para pesquisas e outras ações relacionadas à prática profissional”, conforme disse um tecnocrata. Somos a favor da inclusão digital. Porém não está claro como o tablet pode contribuir para a aprendizagem dos alunos. Existe

“o risco mudar a tecnologia, mas as práticas continuarem quase as mesmas. Podemos nos perguntar pelos desafios da didática diante da cultura digital: o tablet na sala de aula modifica a prática dos professores e o cotidiano escolar? Em que medida ele modifica as condições de aprendizagem dos estudantes? Os conteúdos que estão sendo produzidos para os tablets realmente oferecem a potencialidade do meio e sua arquitetura multimídia ou apenas estão servindo como leitores de textos com os mesmos conteúdos dos livros didáticos? Quem está produzindo tais conteúdos digitais? De que forma são escolhidos e compartilhados?” (ver entrevista abaixo) 

São perguntas de Monica Fantin, Doutora em Educação, Professora do Curso de Pedagogia da UFSC e do Programa de Pós-Graduação em Educação/UFSC

Enfim, somos obrigados a conviver com mais esta contradição no ensino escolar: a aquisição de tablets e lousas digitais contrastam com a didática e o discurso pedagógico que sustenta a mentalidade analógica que é reproduzida nos cursos universitários. O alto investimento em tecnologia contrasta com a baixa capacitação dos docentes nesse sentido, sem falar daqueles que pessoalmente são resistentes ao seu uso. Gostaríamos de saber também se o uso de tablets irá diminuir o estresse e os transtornos psíquicos que sofrem os educadores.

É necessário fazer críticas ao sistema de ensino que leva 17% dos professores a se afastarem da sala de aula, em Maringá (O DIÁRIO, 27/06/2013), por problemas de saúde. Existem cidades no Brasil com mais da metade dos professores com problemas de saúde, depressão e fobia escolar (Ver: http://g1.globo.com/sp/sao-carlos-regiao/noticia/2012/10/40-dos-professores-afastados-por-saude-tem-depressao-aponta-estudo.html). Mas será que alguém se importa?

Os professores até poderão ter um treinamento aligeirado para saber “como usar” tablets e lousa digital, mas insisto: esta é a alternativa para darmos um salto de qualidade no processo de ensino e aprendizagem escolar? E a qualidade de vida do professor?


* RAYMUNDO DE LIMA é Doutor em Educação (USP) e Professor do Departamento de Fundamentos da Educação (DFE/UEM).

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5 comentários sobre “Tablets na escola

  1. Nessas horas não deixo de me perguntar sobre algo anterior ao uso dos tablets, telefone e outras tecnologias digitais em sala de aula: O que os alunos consideram uma boa aula? Boas aulas garantem qualidade na educação? Será que a tecnologia é imprescindível para que essas boas aulas aconteçam?
    E disso, já temos pesquisas que respondem a primeira pergunta… e cá entre nós… passa longe de uma aula cheia de aparatos tecnológicos! Fica muito mais próxima do estabelecimento de uma relação aprazível pelo professor entre conhecimento e processo ensino-aprendizagem.

  2. Pessoal. Os inventos eletrônicos criam necessidades. Por exemplo, o computador hoje é uma necessidade que antes não tínhamos. Tem gente que diz que não sabe mais viver sem um computador, celular, televisão, etc. Sem dúvida, é um exagero. O mesmo pode ocorrer com a imposição do tablet, primeiro vem para os professores; depois dizem que eles virão para os alunos. Nas universidades o note ou netbook já são comuns. Mas existem professores que resistem “competir” com as telas dos alunos. Imagine na universidade a DIDÁTICA AINDA NÃO CRIOU UMA NOVA CULTURA NESSE SENTIDO!!! Precisamos tanto analisar o impacto destes aparelho no dia a dia do professor [ethos pessoal] como convocar a Didática para investigar, pesquisar, dialogar, debater o limite do uso do famigerado aparelho. Sucede que mesmo professores-pesquisadores, nesse momento, respondem mais com o SENSO COMUM do que com A ATITUDE ESPECIAL sustentada na pesquisa científica.

    Minha preocupação é: (a) a imposição dos tablets mais por interesses políticos ou ilícitos (superfaturamento) mas com justificativa pedagógica; (b) tal imposição -entre outras- IGNORAM AS PESQUISAS CIENTÍFICAS. Curiosamente, mesmo no campo da “educação”, fica evidente que ainda não temos uma cultura de pesquisa científica em educação. O sintoma observar professores e pedagogos usarem mais OPINIÃO [gr.doxa] nos seus atos de ensino. Exemplo, quando deixam de evocar dados de pesquisa para calibrar sua argumentação. No lugar da PRUDÊNCIA e SERENIDADE, ainda predomina nos atos docentes opiniões, discurso sustentado em ideologia, isto é, de costas para a CIÊNCIA. (Temo que os tablets sejam usados para divulgação de ideologia política, fé religiosa, e bobagens;
    (c) Parece que está faltando uma FORMAÇÃO CONTINUADA DOS PROFESSORES, primeiro para saber lidar com a internet, redes sociais, etc.
    ARTEMIO e ROSIVALDO: reconheço até que a imposição dos tablets oportuniza que as formações continuadas AVANCEM preparando-os para este novo hábito. Mas se não investir nesse AVANÇO formativo, os professores irão usar o facebook para mostrar foto dos filhos, bolos, fotos de viagens, expressões estas abaixo do CONHECIMENTO SISTEMÁTICO. Nada contra o uso para entretenimento e diversão (que é muito sedutor), mas o objeto eletrônico é para fins pedagógicos. Obrigado pelos comentários.

  3. Interessante. Questão está nas condições de trabalho. Um mínimo para haver mudança seria de 50 por cento de hora atividade para estudos e preparação de aulas. Mas isso ainda não é suficiente por que prevalece uma herança histórica de limitações na formação. Uma relação mais próxima com as Universidades poderia, presumo, auxiliar nesse processo pois esse é um trabalho formativo que as secretarias de educação não tem condições e nem interesse em fazer. Caberia ainda perguntar ao professor o que realmente poderia ajudar na qualificação de suas aulas. Isso não está sendo feito: perguntar ao professor. Alguém achou que deveria vender Tablets e, provavelmente alguem que a muitos anos não entrou numa sala de aula da educação básica. E mais, eu não vou fazer uma ginastica danada agora para justificar a compra dos Tablets

  4. Sou docente de Universidade Pública. Penso que a utilização desse instrumento é algo recente. O tempo poderá dizer se funciona. Por enquanto, particularmente, tenho restrições. Do ponto de vista externo, vejo uma política do estado em associar-se com empresas de tecnologia e com dinheiro público, alavancar a venda desses produtos, que diga-se de passagem, são produzidos para durarem cada vez menos. Do ponto de vista didático, sempre mantive a disciplina dando aula expositiva, olhando os alunos de frente e nos olhos. As vezes utilizo textos, obrigando com isso que os alunos leiam, e faço a leitura conjunta com eles, analisando o conteúdo e a visão de mundo dos autores. Não permito que utilizem computador ou celular em sala de aula. Não sou contra a utilização, inclusive indico vários documentários que podem ser encontrados no youtube etc etc., só não vejo necessidade de serem apresentados em sala de aula. Penso que é um exercício individual, indico, assistem, vale nota, faço o debate com os alunos na aula. Penso que é muito mais importante a construção do tempo no debate entre nós do que assistindo, o que pode e deve ser feito individualmente. Claro, peço para trazerem anotações, críticas etc sobre o que assistiram. Posto isto, o que os tablets poderão acrescentar?….Serão “mais ágeis”?….Trarão “as notícias em tempo real”?…Sou adepto do facebook, reconheço sua importância como informação (para aqueles que procuram informação de qualidade), como organização (vejam os movimentos de rua); mas nesse sentido, oriento os estudantes a escolherem “com qualidade” as informações, os contatos, que poderão interagir no face. Debatemos inclusive várias informações desse instrumento que são omitidas pela grande imprensa. Portanto, temos acesso e conhecemos penso, razoavelmente, os instrumentos que estão surgindo no mercado. Contudo, até o momento nenhum estudante pediu ou encontrei necessidade de utilizarmos um tablets como condutor de aula. Claro, é minha opinião de momento, diante das experiências e realidade que vivo. Estou aberto a ler as demais e principalmente, dos professores do ensino médio, numa realidade que penso, bem mais complicada.

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