Curvas da Vida

FÁBIO VIANA RIBEIRO*

Curvas da vida é o título banal para mais um filme excepcional com o ator, diretor e (por incrível que pareça[1]) músico Clint Eastwood. Ainda que não o tenha dirigido, Curvas da vida segue o mesmo e alto padrão de filmes que foram recentemente por ele dirigidos; como, por exemplo, Gran Torino. A impressão que se tem é a de que, nesta fase de sua carreira, certamente a última, Clint Eastwood se beneficia das vantagens de haver chegado tão longe: pouco dependendo de financiamentos e outras limitações que costumam moldar a carreira de outros diretores e atores, pode se dar ao luxo de fazer os filmes que bem deseja. Mais que isso, talvez resultado da experiência, ter escapado à tentação de fazer de seus filmes um culto a si mesmo; ou, com resultados idênticos mas aparência diversa, ter dirigido ou participado de filmes excessivamente autorais, cuja finalidade muitas vezes é mais a de colocar em evidência o próprio diretor, menos que as ideias contidas no filme.

Uma das muitas qualidades de Curvas da vida é a de ser um filme com um pouco de todas as coisas. Não, claro, literalmente. Mas no sentido de ser um filme que usou várias ideias e temas que poderiam render cada uma outros tantos filmes, caso estivessem nas mãos de diretores e atores menos competentes e inspirados.

CURVAS DA VIDA B

Gus Lobel é um profissional que trabalha procurando talentos no mundo do beisebol. Sua vida e seus métodos encontram-se agora diante de um novo cenário: métodos de busca baseados em programas e estatísticas precisas, capazes de separar com exatidão os novos talentos dos falsos talentos; tanto quanto sua própria decadência física e emocional. Ao lado dessa história, que individual ou coletivamente é também a história de toda a humanidade, outros filmes, acontecem ao longo de quase duas horas.

Boa parte dos elementos que fizeram justificadamente a fama do cinema americano estão em Curvas da vida: emoção, amor, suspense, humor, ação, etc. E, novamente, incomunicabilidade. Entre a filha que busca obsessivamente o sucesso na carreira e o pai, que mesmo tendo feito o melhor que podia, reconhece amarga e tristemente que simplesmente não conseguiu ser ao mesmo tempo o pai e a mãe que a mesma precisava, após a morte da esposa. Além de vários tipos humanos, tipicamente comuns no mundo moderno e perfeitamente descritos; relacionados uns com os outros e com o filme, mas que funcionam independentemente disso. E uma lista razoável de diálogos e observações desconcertantes. Numa delas, a filha, uma advogada que vislumbra a possibilidade de alcançar o sucesso, pelo qual deixou tudo de lado, observa para seu quase namorado que vivia sob uma absurda pressão em seu trabalho, que não sabia como suportava aquilo. Ao que este simplesmente responde ser porque era exatamente aquilo – sucesso, prestígio, dinheiro – que ela buscava, mais que qualquer outra coisa ou valor.

CURVAS DA VIDA A

Grandes artistas são, antes de tudo, pessoas livres. Por mais frequentes que lhes sejam os rótulos dados. Se no mundo da política definições como direita e esquerda são conceitos sem os quais muitos dos que aí vivem simplesmente não conseguiriam pensar o mundo, nem sempre é o caso de se tentar encontrar o mesmo entre artistas[2]. Isso talvez explique o porquê de não ser nem um pouco fácil encontrar nos últimos filmes de Clint Eastwood evidências de sua conhecida filiação ao Partido Republicano. Numa das muitas histórias contadas em Curvas da vida, o mundo do esporte, agora transformado num grande negócio, é corrosivamente criticado por meio da figura de um imigrante latino, que vendia amendoim nos jogos de beisebol até ser acidentalmente descoberto como talento natural do esporte. Ao final do filme, o até então anônimo jogador triunfa sobre os donos do esporte; ao passo que o próprio caçador de talentos e sua filha desistem de considerar como importante o que durante boa parte de suas vidas lhes pareceu serem as únicas coisas importantes, o trabalho, o prestígio e o sucesso material.

CURVAS DA VIDA C

Em tempos de política cinicamente correta, muitos dos recentes filmes de Clint Eastwood terminam formando coleções de frases antológicas, ainda que incorretas, do ponto de vista do mencionado cinismo. Seus personagens fumam, não têm qualquer paciência com o mundo, soltam observações exageradas e definitivas sobre qualquer coisa[3]; ainda que com quase igual frequência, terminem também reconhecendo a grandeza e dignidade do outro não por serem vítimas, mas por serem grandes e dignos. Assim como muitos desses filmes, Curvas da vida descreve a inevitável solidão que parece acompanhar os últimos anos da vida. Não por causas acidentais, como abandono ou ingratidão alheias, mas pelo fato de ser aparentemente inevitável que o passar dos anos torne a experiência de todo indivíduo cada vez mais difícil de ser transmitida ou compreendida por aqueles que depois dele vieram.

 

Curvas da VidaFicha Técnica

Título Original: Trouble with the curve
Gênero: Drama
Direção: Robert Lorenz
Duração: 111 minutos
Ano: 2012
País de origem: Estados Unidos


* ribeiro-fabioFÁBIO VIANA RIBEIRO é professor adjunto da Universidade Estadual de Maringá (Departamento de Ciências Sociais) e Doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).

[1] É dele, por exemplo, a trilha sonora e a direção do belo e sensível “Além da vida”, de 2010.

[2] Daí, talvez, um dos títulos mais divertidos de um antigo livro de Paulo Leminski: “Distraídos Venceremos”.

[3] Entre tantas, uma em particular, extraída de Gran Torino (2008): “Um homem deve ter sempre um alicate, uma fita adesiva e uma lata de WD-40. Com isso você resolve 90% dos seus problemas.”

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4 comentários sobre “Curvas da Vida

  1. Caro Raymundo,

    Obrigado pela leitura; mas, o texto está cheio de erros 😦 Vou corrigí-los, esperando contar com a paciência e boa vontade do editor!
    Sobre o filme, pensando agora, escrevi apenas metade do quanto ele é bom. O texto apenas insinua isso.

    Grande abraço!

  2. Fábio, depois de ter lido sua resenha, fiquei com vontade de assistir este filme. Parabéns pelo texto claro, que retrata bem o “cara”, reconhecendo seu mérito sem endeusá-lo.

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