A difícil arte de ser ateu

grumanMARCELO GRUMAN*

Quando meu avô materno morreu, em 2000, eu, sentado no sofá de sua casa, tentando assimilar a perda de alguém que eu admirava muitíssimo e que deixava um vazio na minha vida, ouvi de uma vizinha, cuja intenção era consolar-me, uma frase curta do tipo “Deus quis assim” ou “ele foi pra um lugar melhor”. Tempos depois, conversando com um rabino ortodoxo na época em que realizava trabalho de campo para minha dissertação de mestrado, quase fui fazer companhia a meu avô, naquele “lugar melhor”, ao ouvir que o assassinato dos judeus pelos nazistas, incluindo bebês recém-nascidos, era fruto de pecados neste ou noutro mundo. E Deus puniu a todos, perdoar pra quê, escreveu não leu, o pau comeu. Em ambos os casos, por culpa da educação recebida em casa, não respondi à altura os insultos.

Num pequeno texto, intitulado Abraão e Isaque, Luis Fernando Veríssimo imagina um diálogo entre pai e filho, em que o filho, magoado, questiona a submissão do pai e sua disposição de imolá-lo porque alguém ou algo mandou que assim procedesse. Um trecho do diálogo segue assim:

– O fio do cutelo encostou na minha garganta.

– Mas eu não o matei!

– Porque Deus não deixou. Porque Deus mudou de ideia.

– Meu filho…

– Eu sei. Faz muito tempo. É melhor esquecer. Vou conseguir sobreviver às minhas memórias e aos meus pesadelos. Como você sobreviveu ao que sabe.

– O que eu sei?

– Que deve tudo que tem, seu poder e sua glória, a um Deus volúvel. A um Deus incerto do que faz. A um Deus que volta atrás. A um Deus inconfiável.

– Ele estava me testando.

– Então é pior. Um Deus frívolo e cruel.

Frívolo, cruel e, acrescento eu, sádico. Por outro lado, a atitude do pai desnaturado é perfeitamente aceitável se admitirmos que o outro lado da moeda seja a proteção contra o Mal, o conforto de saber que o destino já está traçado, que não se tem responsabilidade sobre ele por mais que o discurso religioso confira ao livre arbítrio um status positivo. A onisciência e a onipotência divina, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, foi magistralmente transposta para o plano humano por Woody Allen, naquela cena antológica em que a mãe judia (quem mais?) aparece como um fantasma sobrevoando a cidade de Nova Iorque. Quem não se lembra do susto, medo, alegria e alívio do personagem que vê sua mãe desaparecer no meio de um show de mágica?

A alternativa ao outro mundo é dolorosa. Romeu e Julieta representam bem a transformação de uma sociedade até então construída única e exclusivamente sobre a Tradição, sobre a reprodução de papéis sociais, onde o presente reproduz o passado e antecipa o futuro. A Tradição significa, tomando emprestado de Sartre uma expressão usada para caracterizar o pensamento racista, “a constância da pedra”, é a imutabilidade, é a chatice em estado puro porque não abre espaço para o livre pensar, para o questionamento.

A tragédia dos Montecchio e Capuleto fala de um momento em que o indivíduo enquanto valor, não apenas corpo com fronteiras físicas bem definidas, passa a dar as cartas, a construir sua história, é quando podemos começar a falar de projeto de vida, de biografia, de construção de identidades. Na realidade, a própria noção de identidade só faz sentido na Modernidade, porque diz respeito à forma como nos vemos e queremos ser vistos pelos outros, e esta definição acontece no processo de interação, não é dada a priori. Aqui, sim, podemos falar de livre arbítrio e das consequências de nossos atos, boas ou más, cuja punição acontece de forma mais pungente na nossa cabeça (tirando, claro, crimes passíveis de punição pelo sistema judiciário).

A Modernidade significa a “psicologização” da vida, a crescente angústia pela indeterminação do dia de amanhã, desde questões triviais como a necessidade de escolhermos o que comer no café da manhã e que roupa vestir para ir ao trabalho até decisões um pouco mais importantes, como a escolha da pessoa com quem se quer dividir o mesmo teto, decisão angustiante ainda que a escolha, condizente com os tempos modernos, não seja inevitavelmente definitiva apesar dos votos recitados ad nauseam na troca das alianças. A escolha do parceiro também é diária, e a eventual separação não é isenta de sofrimento.

A Modernidade abriu espaço e legitimou a existência daqueles que não acreditam na existência de um ser, entidade ou força superior independente de nossa vontade. Ela permitiu que Nietzsche, apesar de não fazer a apologia do ateísmo, chegasse à conclusão de que “Deus está morto”, como observamos nesta passagem de A Gaia Ciência:

Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós! Como haveremos de nos consolar, nós os algozes dos algozes? O que o mundo possuiu, até agora, de mais sagrado e mais poderoso sucumbiu exangue aos golpes das nossas lâminas. Quem nos limpará desse sangue? Qual a água que nos lavará? Que solenidades de desagravo, que jogos sagrados haveremos de inventar? A grandiosidade deste ato não será demasiada para nós? Não teremos de nos tornar nós próprios deuses, para parecermos apenas dignos dele? Nunca existiu ato mais grandioso, e, quem quer que nasça depois de nós, passará a fazer parte, mercê deste ato, de uma história superior a toda a história até hoje!

Abriu espaço aos ateus. Ser ateu no Brasil não é fácil, a declaração provoca reações que vão do espanto ao medo, passando pela incredulidade (crentes incrédulos?) como se o interlocutor fosse dotado de rabo e chifres (talvez seja…), um fruto exótico ou podre, uma anormalidade pensante. Ser ateu no Brasil significa ser parte de 0,4% da população, segundo os últimos números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Talvez seja possível reivindicar cotas, sob o manto da intolerância, da perseguição, do bullying.

Os ateus sofrem bullying cotidianamente ao ligarem a TV aberta, concessão estatal, e se depararem, dependendo da hora do dia, com pregações religiosas em metade dos canais disponíveis; quando, num final de domingo melancólico, são obrigados a ouvir, de dentro de suas casas, os cantos e orações da igreja que fica bem longe, mas dotada de potentes alto-falantes; quando são obrigados a ouvir de um interlocutor que o parceiro teve de acabar com o relacionamento porque, sendo o interlocutor de outra religião, estaria fadado a viver em companhia do Coisa Ruim; quando veem grupos obscurantistas e intolerantes tomando de assalto o Congresso Nacional; quando tem cerceado seu direito constitucional de ir e vir, por conta de eventos religiosos propositadamente mal planejados com o intuito de “dar mídia”.

Devo confessar que invejo aqueles que creem, que tem em quê se apegar nos momentos difíceis, nunca estão sós. Quero ter fé, mas não consigo. Serei um caso perdido? Talvez parte da humanidade tenha substituído Deus pelos psicanalistas, talvez os psicanalistas sejam os deuses modernos, trocaríamos seis por meia dúzia e não aliviaríamos nossas angústias, nosso mal-estar.

Pensando bem, é preferível uma relação em que uma das partes possa ser demitida, com a qual temos uma relação afetiva, sim, mas, principalmente, pecuniária, do que uma relação em que uma das partes tem o direito de vida e morte sobre a outra. O difícil vai ser explicar pro meu filho que, depois daqui, voltamos ao pó.


* MARCELO GRUMAN é Doutor em Antropologia Social pelo PPGAS/MN/UFRJ, Antropólogo e Especialista em Gestão de Políticas Públicas de Cultura.

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15 comentários sobre “A difícil arte de ser ateu

  1. Parabéns pelo texto.

    Para ser Ateu é preciso muita tolerância, paciência, e o mais importante, confiança, pois é tarefa difícil nadar contra a maré. Continuemos em nossa filosofia. Como disse Schopenhauer: “Fundadores da religião e filósofos vêm ao mundo para despertá-los de seu estupor e apontar o grandioso sentido da existência; filósofos para os poucos, os emancipados; fundadores de religião para os muitos, para o grosso da humanidade.”

  2. Muito bons os comentários, tanto quanto o texto. É um tema que não se encerra; que sempre levará a abordagens fantásticas.
    Recomendo, aos que gostam do assunto, o livro “em que creem os que não creem”. É muito bom.

  3. Concordo que as observações da Dida são muito interessantes, pelo quanto vão direto aos principais pontos da discussão.
    Antes, a observação meio pitoresca sobre a forma como deístas e ateus enfrentam a morte. Fiquei pensando no assunto. E concluí que há exemplos para todos os gostos. Não é a fé em Deus ou sua ausência que determina uma postura diferente. Por motivos distintos, o esperado seria que ambos, crentes e não crentes, se “comportassem” com calma diante da morte. Mas, se pensarmos bem, não há nada mais particular do que isso de morrer… Nunca, como em nenhum outro momento de nossas vidas, estaremos tão sozinhos quanto por ocasião de nossa morte. Lembro-me também do filme “Homens e deuses”, uma bela ilustração do problema.
    Durante algum tempo tentei encontrar razões para, sem acreditar em Deus, contribuir para um mundo melhor. Uma das mais sedutoras alternativas era, sem dúvida, a do “socialismo científico” e sua correspondente interpretação materialista da história. Um mundo racional, finalmente construído em função das reais necessidades humanas. Algo como, na ficção e na realidade, em diferentes tons e a variados custos em vidas humanas poderia ser exemplificado com o livro “Admirável Mundo Novo”, a URSS de Stalin, a China de Mao Tsé Tung, a Iugoslávia de Tito, etc.
    Entre muitos problemas que envolvem essa alternativa, de ‘motivações racionais’ para agir; para viver e morrer, existe um, completamente básico: não há razão para acreditar que aquilo que para mim pode ser considerado completamente racional, também o seja para todo o resto da humanidade. Creio que Stalin, Hitler, talvez Mao Tsé Tung, Abimael Guzmán e outros mais, não tenham sido exclusivamente genocidas profissionais; antes disso, tentaram colocar em prática projetos racionais de mundos que consideravam melhores que aqueles que conheceram. O conceito de “racional”, é meio como a ideia de bom senso (na famosa observação de Descartes): cada um julga ser ou o ter em quantidade suficiente… Não deixa, ainda, de ser sintomático que muitos desses projetos de ‘racionalização social’ tenham terminado por se transformarem em religiões secularizadas.
    O medo da natureza criou Deus? É possível; ainda que num sentido diferente do que foi observado pelo Dedé. Não creio que nossa tecnologia e nossos confortos tenham nos livrado desse medo primitivo ou de outros medos essenciais, que fazem parte da vida de qualquer indivíduo no mundo moderno. Temerosos de que as forças da ‘irracionalidade’ tomem conta do mundo, muitos de nós terminam por ver em uma sociedade futura, perfeitamente racional e humanamente controlável, a luz que há tanto tempo buscavam.

  4. É por aí q vamos, nós psicólogos q não nos entitulamos crentes. A crença, como tantos outros aspectos da vida, não são uma decisão e não podem ser direcionados ou controlados. Como esse rapaz disse, “Quero ter fé, mas não consigo.”, pois acreditar em um deus (ou em vários, ou em em energia, ou em qualquer entidade dessas) é algo q ou vc sente ou não. Mas definitivamente não se “escolhe” verdadeiramente uma religião (ou nenhuma); ou aquilo reverbera como verdade em vc, ou pode descartar pq não te serve.

  5. 1) O autor se equivoca quando supõe o psicanalista como substituto de Deus, na era contemporânea. Ora, a função de psicanalista é o avesso de Deus. Ele é um guardião do vazio [do inconsciente], certa vez observou Hélio Pellegrino. Por seu lado, o paciente se equivoca ver no psicanalista algo como um Deus, sabe-tudo, onisciente, onipotente, cobrador de que ele fale até dizer a verdade do seu inconsciente. Que não tem fim. Mas o paciente supõe que o psicanalista sabe, e isto faz funcionar a psicanálise clínica. Freud reconheceu que boa parte da cura reside na fé do paciente que o analista irá resgatar sua sanidade para “amar e trabalhar”. Mas, os psicanalistas sabem que devem aprender a apurar a ESCUTA e ser SUPORTE DA TRANSFERÊNCIA. Gradativamente, o psicanalista vai mais-sabendo pelo que o paciente diz ou meio-diz, insinua, etc.
    2) “Devo confessar que invejo aqueles que creem, que tem em quê se apegar nos momentos difíceis, nunca estão sós. Quero ter fé, mas não consigo. Serei um caso perdido?”
    Este desejo insatisfeito do autor me lembra Darcy Ribeiro e Raquel de Queiróz. Darcy, na memorável conversa com Ruben Alves, talvez a última, disse que gostaria de ter fé, até pq próximo da morte sentiria mais leve. Raquel disse que gostaria de ter uma “fezinha”. Durante esta entrevista, a gente podia ver várias imagens de santos, numa mesinha, no fundo.. Veja só, ateus com desejo de fé em Deus, pelo menos uma “fezinha”.
    3) FELIZMENTE, o autor [Marcelo] fez um texto leve, ao contrário de muitos textos antigos de ateus marcados pela amargura, sofrimento, culpa. O autor agora apenas reclama do bullying das igrejas, das pregações de TV, do histerismo coletivo das manifestações de religiosos que parecem realmente felizes porque crêem. Talvez sejam. Mas também queiram espetacularizar sua fé numa era que tudo precisa ser espetáculo. Marcelo, fique tranqüilo, que talvez esta HISTÉRIA de mostrar ser feliz seja a pior, ou a mais falsa. O budismo considera a felicidade outra coisa, outra expressão.
    4) De minha parte, hoje TEMO aqueles ateus em relação à religião, mas que sustentam uma crença SEM DEUS, com todos os seus dogmas, texto sacro, made in ideologias políticas. Aqueles que tentaram fazer uma nova religião terminaram construindo um inferno na terra. Inclusive se colocando no lugar de Deus, assim foi Stalin, Mao, Hitler, Mussolini, Kin Jon… Na ex União Soviética houve um caso emblemático: Stalin mandou destruir a catedral de São Basílio, e no seu lugar construir um Edifício mais alto que o Empire State. Adivinhe que símbolo seria posto no lugar da cruz cristã? Adivinhe quem seria a estátua que iria substituir Jesus?
    5) Analogia podemos fazer com o anarquismo, que é contra tudo instituído:
    Estado, instituições, leis, autoridades, etc. Mas o engano do ANARQUISMO é que destruir este aparato não surge o “não Estado”, “não-lei”, “não-autoridades”. Pelo contrário, surge “outra-lei”, a “LEI-DO-CÃO”. Ou seja, fica pior tudo. É a barbárie. Portanto, na linguagem kantiana: AINDA CONTRIBUI PARA A MENORIDADE DO SER HUMANO TER ESTADO, INSTITUIÇÕES, LEIS,
    DEMOCRACIA, E MESMO RELIGIÃO. Especialmente no desamparo e na desesperança ainda é MELHOR ter FÉ e ESPERANÇA do que acreditar no VAZIO.

    OBS: (A) Ao Francisco Bendl. Schopenhauer, no livro mencionado, não advoga o suicídio como solução do Sofrimento, mas SIM a sustentação do PRÓPRIO sofrimento como prova de que o mundo é só isso. Mas…ainda, resta A VONTADE DA CADA UM. [sei q você não disse isso, mas poderia levar o incauto fazer esta ilação]
    (B) Ao Fábio. A observação sobre o ateísmo do golfinho, me faz refletir – com humor – que, então, aina é melhor ficar do lado dos humanos de fé. Sem querer, se senti CONFORTADO.

  6. O comentario da Dida é muitíssimo interessante, apenas equivocado em alguns pontos: Primeiro a crença em Deus ou Deuses não é Medieval. E se você tiver oportunidade de ler Jaques le goff:”As Raízes Medievais da Europa” poderá perceber que tudo que temos hoje, herdeiros que somos da cultura europeia, está plantado no século XIII, e Le Goff não nos remete a uma era Medieval com o desprezo com que voce chama de” ilusões infantilizadas e medievais” .Muito antes da era Cristã já se acreditava na existencia de Deuses e do Deus de abraão. Este Deus de Abraão que nos fala a BiBlia é o Deus em que eu acredito, e pude entender ao longo de minha vida religiosa que Ele é o Criador de tudo que há, inclusive do mal. Os pediatras de um modo geral recomendam que deixemos nossos bebês expostos, que andem descalços para que estes adquiram defesas naturais, é esta a mesma intenção de Deus ao criar o mal. Foi pela luta entre o bem e o mal que o ser humano pode evoluir, tornar-se o que é hoje, mas desculpe-me Dida, este não é um pensamento meu é de Mokiti Okada, um ateu convicto até seus 42 anos,quando teve sua vida totalmente modificada por problemas aparentemente indissolúveis, quando então fora compelido a buscar não necessariamente a Deus, mas ao porque de tanto sofrimento, e então encontrou e passou a confiar em Deus tornando-se fundador de uma religião. Seus ensinamentos tem um profundo teor filosofico sem margear com doutrinarismos, embora afirme categóricamente que o homem que não tem uma religião pode ser comparado aos bichos. Pois é, “um golfinho também é ateu”, mas eu pergunto: um ateu também é um golfinho?, na minha opinião, um ateu é um ser humano, talvez equivocado mas é um ser humano. Caso lhe interesse, até por questões científicas, o endereço eletronico de suas publicações é:www.moa.org.br.

  7. O homem incapaz de entender a natureza que o cercava criou os deuses nas comunidades primitivas. Depois das comunidades primitivas e depois com as “civilizações” e com o surgimento das classes dominantes unificaram diversos deuses em um só para facilitar o domínio dos povos culturalmente e politicamente. Para muitos deus é uma fuga da realidade, como dizia Marx “deus é o ópio do povo”. Seria muito bom para nós e um absurdo para os outros animais da natureza a gente ter direito a outra vida e eles não terem.

  8. Ao ler as afirmativas: “o mundo é cruel”; “a maldade é humana”; “deus deixa criancinhas passarem fome e todo tipo de necessidade ou serem estupradas, torturadas e esquartejadas” e “os ateus também sofrem com a crueldade”, fico a pensar: – por que sempre desejamos ter filhos e os amamos tanto, contribuir para o povoamento do planeta? Não seria o amor uma moral divina? Se as afirmativas fossem verdadeiras, os homens e mulheres ateus jamais iriam querer deixar seus filhos neste mundo cruel ou, contrariamente, não os amam de verdade e, assim, seriam também cruéis. Será tudo isso verdade?

  9. Olha
    Depois de ler o livro O SAGRADO E O PROFANO de Mircea Eliade fico me perguntando se realmente conseguimos ser ateus ou totalmente racionais nas nossas relações.
    Tem muito ateu postando coisas por aí de uma forma tão fundamentalista que faz inveja aos mais fervorosos religiosos.

  10. A confusão mental que o texto revela está explícita na expressão “domingo melancólico”. Por quê serão os domingos melancólicos? Será que a melancolia está na representação do calendário ou na mente de quem não suporta a felicidade alheia e revela a sua incapacidade de encontrar a sua própria felicidade, seja com ou sem fé em Deus. Devemos refletir se a “felicidade” é um um fim em si mesma ou a própria busca, o caminho que traçamos para nós mesmos. No modo de encarar a vida, a felicidade é a paz de seguir o caminho entendendo que os percalços são fatos naturais e com naturalidade devem ser encarados. De outro modo, nada nos impediria de por fim à própria vida.

  11. Concordo que o ateu sofre mais do que o crente. Talvez uma leitura desarmada das “Confissões” de Santo Agostinho, possa dar algum alento àquele que luta com a descrença. A viagem pelo texto nos incita a entrar “na paz do sábado que não entardece”. É a sugestão…
    Abração Marcelo

  12. Na verdade, crentes não conseguem, de maneira alguma, entender o que é ser ateu. É claro que existem pseudo-ateus, pessoas que, por decepção ou por querer chamar a atenção declaram irresponsavelmente que deus não existe. Porém, a maioria dos ateus chegou a esta posição baseado em elaborações concretas fundamentadas na razão.
    Estes não choram desconsolados nem questionam o “seu criador” quando um parente morre. Simplesmente entendem a situação. Estes ateus não rezarão nem entregarão suas almas a deus quando o avião cair porque SABEM que não tem ninguém lá, ao contrario da maioria dos crentes que choram, gritam e molham as calças. Estes ateus não aceitam as mazelas e atrocidades da existência humana como uma vontade divina, mas como consequência da falta de racionalidade dos homens. Homens quase sempre religiosos temente aos seus deuses.
    Também, a maioria dos ateus não tem o menor interesse em provar a inexistência de deus porque não se pode provar o que é inexistente. Neste caso, caberia aos que acreditam provarem a existência, se assim lhes fizer bem.
    E, saibam, ser ateu não significa que a existência seja pior que a dos crentes. É, somente, mais racional e honesta. Ateus sentem saudades de seus mortos, sim. Só não se lamentam.
    É realmente muito difícil para um crente entender que ateus são felizes justamente por não ter ilusões infantilizadas e medievais, por compreender que a vida ocorre e termina naturalmente sem ter necessidade de consolar-se com uma vida pós-morte a tocar harpa sentado sobre nuvens ou orando ao lado de um crucificado. Eternamente.
    O mundo é cruel e os ateus também sofrem com a crueldade. Mas não se iludem com um deus que deixa criancinhas passarem fome e todo tipo de necessidade ou serem estupradas, torturadas e esquartejadas. A maldade é humana sim e, se por acaso eu estiver errada e deus existir de fato, quem permite a maldade humana seria deus. E se assim for, deus não é bom nem perfeito, deus não é deus, deus não existe e eu estou certa.
    Bom exercício mental!

  13. Muito divertido o artigo; e muito divertido também o comentário do Francisco Bendl! Este último, ao final, usando o mesmo argumento do Pascal 🙂
    O Drummond também dizia admirar muito as pessoas que acreditavam em Deus. Uma afirmação que era desprovida de qualquer ironia. Acreditar em Deus tem a ver com fé, não com provas racionais. Ele sabia disso. E lamentava nunca ter reencontrado a própria fé.
    Do ponto de vista “racional”, os ateus estão mesmo certos. Deus não está nas esquinas em carne e osso, não discute o futuro do universo em palestras, etc. Mas, como muitos já disseram, seria o caso de imaginarmos que Deus, compreendido como Absoluto, seria impossível de ser compreendido por meio de nossos limitadíssimos recursos de entendimento. Creio que tenha sido esse orgulho e pretensão a que o Manuel Bandeira se referia em “A morte absoluta”: “Mas que Céu pode satisfazer o teu desejo de Céu?”
    Alguém também já observou que, do ponto de vista racional, a posição filosófica mais fácil de ser defendida é a do ateísmo: um golfinho, por exempo, é ateu…
    O problema é, claro, complexo. Tanto mais que, mesmo tendo a morte de Deus sido anunciada por Nietzsche, ou que Max Weber tenha imaginado um mundo quase que totalmente secularizado, Deus ainda vive…
    O texto do L. F. Veríssimo, sobre a conhecida passagem do Antigo Testamento, é divertido. Mas, com outros propósitos, é bastante perturbador o que foi escrito por Kierkegaard (não por acaso considerado ‘fundador do existencialismo’) em “Temor e Tremor”. Tanto o L. F. Veríssimo (que, afinal, é meio humorista) o Rabino que mencionou, quanto alguns ‘Pastores Eletrônicos’, terminam simplificando o problema de uma tal forma que, ao final, nem crentes nem ateus podem se reconhecer naquilo que afirmam…
    Por fim, o problema – ser ateu – não é tão grave… No mundo moderno, de fato, nossas vidas podem ser vividas em função de infinitas possibilidades de escolha ou contigência. Definir algumas coisas em função do praticado pela maioria é um critério razoável na maioria das vezes. Assim como ser canhoto, daltônico (meu caso), não poder comer glúten, etc. Coisas que a modernidade não conseguiu eliminar: entre estudantes de Ciências Sociais, ouvir música sertaneja é considerado um ato ‘imoral’; gostar de cinema europeu, entre estudantes de Zootecnica, é considerado ‘frescura’, e por aí vai. O meio acadêmico não é diferente de tantos outros ambientes, sendo nele, inclusive, bem mais fácil praticar o ateísmo que em outros espaços! Digo isso por experiência própria, as coisas não são fáceis também para os católicos!

  14. A verdade é que somos todos ateus, graças a Deus!
    Na razão direta que os ateus não acreditam no Criador, também não provam que Ele não exista.
    Por acaso, os ateus seriam seguidores de Schopenhauer, que descreve a existência humana como se fosse um pêndulo, que ora oscila entre o desejo, sofrimento e tédio?
    Se desejamos algo, sofremos por não tê-lo; ao conquistá-lo, o tédio nos domina porque se constata que obtê-lo não mais satisfaz, então a busca por outro desejo e, assim, sucessivamente.
    Alega o célebre filósofo que a solução é a morte, e que o mundo é mesmo cruel.
    E tem razão o alemão, no seu famoso, O Mundo como Vontade e Representação.
    Aos que creem em Deus, o sofrimento é diminuído pela esperança de outra vida além dessa, além de as religiões se preocuparem com o homem se aproximar do homem e de si próprio, em consequência.
    Exercer a caridade, a solidariedade, e tratar de mais Ser do que Ter. Certamente hoje o grande sofrimento humano pelas tentações do consumo, propagandas e culto ao físico, as aparências, enfim, são as causadores das frustrações, sofrimentos, invejas, revoltas e infelicidade do ser humano, cuja vida destinada à crença, à fé, à bondade, de se colocar à disposição do próximo, é a grande compensação do que não se pode ter e desta ausência de esperança de que o sofrimento tem fim, mas não pelo suicídio e, sim, em razão de haver textos que afirmam esta possibilidade e na crença que sejam verdadeiros.
    Acredito, então, que, ser ateu, é uma arte difícil de se ilustrar, de se concretizar, de poder ser definida pela História do ser humano, inclusive.
    Revoltar-se contra Deus pelas tragédias pessoais é infantilidade, haja vista que não há ser humano que tenha vencido a morte ou que não tenha derramado lágrimas por mortes violentas na sua família ou de amigos.
    Desta forma, a diferença fundamental entre o ateu e os que não o são, reside na esperança e que a vida tem sentido em face desta possibilidade de outra melhor.
    Se existir ou não, trata-se de outro problema a ser constatado quando se morre. Ora, como até hoje ninguém voltou para nos dizer quem está certo ou errado, mais vale a pena acreditar que virar às costas a esta chance que ameniza o nosso sofrimento, a fé, algo quernão porta o ateu, portanto, credenciando-se como sofrer mais que aqueles que acreditam em Deus.
    E, como ser ateu é uma escolha, causa-me espécie que esta opção tenha sido para dificultar mais ainda a existência já sofrida que temos, ao invés de aliviá-la do peso de, uma vez morto, morrem também os que ficaram, os que virão, pois até mesmo o Universo e suas leis ainda desconhecidas, igualmente sucumbem diante do nosso desaparecimento.
    Muito simplório, tanto para nossa limitada inteligência quanto aos nossos parcos conhecimentos do além!

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