A lucidez de Raulzito

YURI MARTINS FONTES*

raulseixas2Há duas décadas morria Raul Seixas. Suas canções críticas à moral estabelecida, no entanto, permanecem atuais e fazem sucesso entre os jovens

“Toca Raul!”, clamam ainda hoje jovens de todas as idades e variadas classes sociais ao redor das rodas de violão em mesas de bares urbanas, praias ou interiores pelo País afora. Em 1989, com então 44 anos, morria Raulzito de uma pancreatite, devido a excesso de álcool e diabetes – e segundo dizem amigos, com seu inseparável copo de uísque proibido nas mãos –, do mesmo modo anárquico, e com o mínimo possível de regras, como ele pregou que deveria ser a vida.

Dentre as várias homenagens que relembram o músico-poeta, está o documentário Raul Seixas, o início, o fim e o meio, de Evaldo Mocarzel e Walter de Carvalho, que deve chegar no início de 2010 aos cinemas. E para tratar de um aspecto filosófico bastante presente na obra do músico – a questão da morte – será lançado o livro Metamorfose ambulante – vida, alguma coisa acontece; morte, alguma coisa pode acontecer, de Laura Kohan, Igor Zinza e Mário Lucena.

Num tempo em que o rock engatinhava no Brasil, já no fim dos anos 1960 vinha a público seu primeiro disco, Raulzito e os Panterassem repercussão nessa época em que acabara de se mudar da então provinciana Salvador, ao Rio de Janeiro. Foi em 1973, com Krig-Há Bandolo – cujas músicas criticam desde o sedentarismo e conformismo das classes médias, ao “milagre econômico” propagandeado pela ditadura – que a popularidade de Raul começou a deslanchar. Nesse disco está seu primeiro sucesso, “Ouro de tolo” (“Eu devia estar contente/ porque eu tenho um emprego/ sou dito cidadão respeitável e ganho 4 mil cruzeiros por mês”) além de “Metamorfose ambulante” e “Mosca na sopa”. Seu som eclético, com influências marcantes de Elvis Presley e de Luiz Gonzaga, valeu-lhe grande inserção popular, bem como o desprezo de boa parte dos críticos da mídia comercial.

Sua linguagem sem travas, no entanto, não passou incólume pelos governos militares, que o enxergavam como uma mosca na sopa. Teve várias músicas censuradas, e em 1974 foi preso e torturado por agentes do Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Após a agressão, deixou o País, em exílio.

Com acordes simples e composições que cantam a liberdade criadora do indivíduo, suas músicas – embora com um quê da ingenuidade hyppie ou pequeno-burguesa – atingiram em cheio o falso-moralismo vigente, denunciando os valores cristãos repressivos, pregando a liberdade sexual – “a gente agrada a Deus fazendo o que o Diabo gosta” –, e a liberalização de psicotrópicos como catalizadores para o autoconhecimento.

Raul enveredou também por temas sociológicos práticos, como a proposta de uma libertária – e um tanto esotérica – “sociedade alternativa”, experiência que ele tentaria pôr em prática, ao criar uma comunidade rural anárquica, no interior de Minas Gerais, que logo de início se esfacelaria, devido ao seu exílio.

Dentre suas letras mais atuais, está “Meu amigo Pedro, que zomba do desvio dos valores modernos. Conta a história de um infeliz novo rico – numa ironia tenaz ao arrivista yuppie que vendeu sua alma por dinheiro, tornando-se um “careta” conformado, e “sempre a se queixar da solidão”. Contudo, é em “Movido a álcool”, que Raul tece seu prognóstico mais pertinente, ao referir-se ao uso – até então incipiente – da bioenergia. Na canção, diz que “derramar cachaça em automóvel é a coisa mais sem graça de que já ouvi falar”, já prevendo que o preço da pinga – ou o dos alimentos, em geral, como se sabe hoje – poderia subir à medida em que a agricultura se voltasse para a produção da matéria-prima dos combustíveis. E conclui: “Veja o poeta inspirado em coca-cola que poesia mais sem graça ele iria declamar; é duro ver que tudo isso é real, pois que assim como o poeta todos temos de sonhar”.


* fontesYURI MARTINS FONTES é pesquisador da USP e jornalista. Publicado originalmente na revista Retrato do Brasil, nº 29, novembro de 2009.

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