Diário de um pároco de aldeia

ribeiro-fabioFÁBIO VIANA RIBEIRO*

Não seria preciso esforço algum para demonstrar o quanto se tornou comum o princípio da autopromoção. A imperiosa racionalidade capitalista e as facilidades criadas pelos novos recursos de comunicação terminaram por tirar desses exercícios de vaidade o sentido cômico com que foram durante muito tempo descritos. É talvez sintomático disso que sejam cada vez mais raros casos de recusa de prêmios, como os de Jean Paul Sartre, Knut Hamsum (que, após receber o Nobel de Literatura, entregou o prêmio ao porteiro do hotel em que estava hospedado) ou mesmo Carlos Drummond de Andrade. Um dos casos menos lembrados nessa lista de ilustres mal agradecidos é o do escritor francês Georges Bernanos (1888-1948), que recusou por três vezes a Medalha da Legião de Honra, um convite para ocupar uma cadeira na Academia Francesa de Letras e outro para ser Ministro da Educação no governo de Charles De Gaulle. Algo impensável para os dias de hoje. Bernanos já era um escritor conhecido quando, por discordar da política colaboracionista francesa durante a Segunda Guerra, se mudou para o Brasil em 1938. Aqui, viveu até 1945 com esposa, seis filhos e um sobrinho. Dentre outras cidades, morou em Juiz de Fora, Itaipava, Pirapora e Barbacena. Recentemente alguns de seus livros foram relançados no Brasil, entre eles “Sob o sol de Satã” e “Diário de um pároco de aldeia”.

Diario-de-um-Paroco-de-Aldeia1Escrito em 1936, “Diário de um pároco de aldeia” foi transposto para o cinema em 1951, sob direção de Robert Bresson (“Sob o sol de Satã” só o seria em 1987, com participação do ator Gérard Depardieu). Ainda que em alguns aspectos o filme lembre bastante alguns títulos do neo-realismo italiano (como, por exemplo, o uso de atores amadores), todo o restante pouco se parece com outros filmes. Mantendo-se muito próximo do livro de Bernanos, é verdadeiramente um filme bastante incomum. O fato de quase todos os diálogos terem sido praticamente transferidos do livro para o filme faz com que cada cena e fração de minuto sejam muito significativas. Aspecto que se acentua ainda mais pelo incrível talento do diretor, ao dar forma e movimento ao livro.

A história, como já indica o título, é a de um jovem padre que é enviado a uma pequena aldeia da França. Cada vez mais doente, tentará exercer suas tarefas da melhor forma possível com auxílio de seu formador. Aos poucos, conhecerá também de perto toda a miséria humana que o cerca. Ainda que o ponto de vista do filme esteja ligado aos sentidos mais profundos da fé católica, os angustiantes problemas que se colocam diante do personagem são também universais e atemporais. Certamente por esse motivo é ainda hoje um filme perturbador.

“Diário de um pároco de aldeia” não é de modo algum um filme que se dispõe a, didaticamente, explicar ou julgar os problemas vividos por seus personagens. Pelo contrário; ao tomar consciência do lugar e das pessoas, o jovem padre luta para não se desesperar, tentando muitas vezes encontrar respostas onde já não havia mais nada a ser respondido.

A ideia me veio ontem, na estrada. Estava caindo uma daquelas chuvas finas, que a gente engole a plenos pulmões, e que chega até o estômago. Da ladeira de Saint-vaast, a aldeia me surgiu de repente, tão apertada, tão miserável sob o céu medonho de novembro. A água fumegava sobre ela por todos os lados e ela parecia ter-se deitado ali, na grama gotejante, como um pobre animal exausto. Como uma aldeia é pequenina! E esta é minha paróquia. Era minha paróquia, mas eu não podia fazer nada por ela; eu a olhava tristemente afundar-se na noite, desaparecer…

BRESSON A

BRESSON B

Ao final do filme, não antes, compreende-se o porquê de para alguns ser considerado um dos maiores filmes de todos os tempos; avaliação que poderia ser tomada como exagerada em se tratando de um filme (atualmente) pouco conhecido. O grande talento do diretor Robert Bresson foi o de haver conseguido descrever por meio de um filme, algumas das mais angustiantes dúvidas humanas; a existência de Deus, o sentido do sofrimento, a consciência do mal, o livre arbítrio. Problemas que poderiam ser considerados, em certo sentido, banais e óbvios. Mas isso apenas num primeiro instante. Ainda que no filme, tanto quanto na realidade, Deus não se apresente diante dos indivíduos nem se disponha a discutir com eles as condições de sua própria existência, as razões fundamentais de nossa existência podem ser intuídas por meio da sua existência, por aquilo que se chama de fé. O grande mérito do filme foi justamente o de captar esse abismo, à beira do qual costumamos colocar nossas mais preciosas certezas.

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Ficha Técnica
Título Original: Journal d’un curé de campagne
Gênero: Drama
Direção: Robert Bresson
Duração: 115 minutos
Ano: 1951
País de Origem: França


* FÁBIO VIANA RIBEIRO é professor adjunto da Universidade Estadual de Maringá (Departamento de Ciências Sociais) e Doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).

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4 comentários sobre “Diário de um pároco de aldeia

  1. Agradecimentos pelos comentários e leitura. Raymundo, eu tenho uma cópia de ótima qualidade do filme. Regina, quatro ou cinco livros do Bernanos foram relançados em 2010 (se não me engano) pela editora É Realizações, com novas traduções (também na linha do ‘se não me engano’!).
    Abraços!
    PS: É verdade, Raymundo! Não havia me dado conta de que tenho essa tendência a escrever sobre existências vividas em situações limite (condição na qual se incluem a maioria dos santos!).

  2. Pois é, um romance maravilhoso e um grande filme… que estao pedindo novas traduçoes. Sem desmerecer da que aparece em citaçao, lembro simplesmente que um dos mistérios da literatura é que os originais permanecem mas as traduçoes envelhecem. Sabe Deus porquê, mas assim é….

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