O tabu da segurança dentro dos campi universitários

WELLINGTON FONTES MENEZES*

Foto enviada pelo autor
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Mais um tema tabu que as alas mais radicais da esquerda não ousam tocar: o corporativismo da classe. Diante disto, ou você é obrigado a aplaudir mecanicamente alguns “iluminados” alunos ou é taxado de reacionário e outros verbetes do gênero. Mas tudo bem, vamos aos fatos.

Na sociedade brasileira contemporânea, ninguém esta imune à patologia (e suas neuroses atávicas) que se transformou a questão da segurança pública (não cabe aqui espaço para discorrer sobre algumas de suas causas). Um exemplo disso é a questão do policiamento nos campi universitários, que por sinal, rege uma curiosa dialética. Se algum belo carro sofre algum dano dentro do campus (avaria, roubo ou furto), logo, o belíssimo universitário proprietário do veículo reclamará da ineficiência da polícia (segue o bordão padronizado: “cadê a polícia quando se precisa dela? E os impostos que pago?”). Se por outro lado, se a esquadrilha da fumaça esta em operação e o talco faz a festa de muitas narinas, aí a polícia imediatamente é vista como truculenta e inconveniente. Afinal de contas, muitos querem usar seus baseados sem serem incomodados. É a que equação que comodamente nunca se quer fechar: a liberdade que não segue um mínimo senso de responsabilidade. Porém o debate vai muito além do que um cigarrinho de cannabis queimando e deixando aquele aroma fétido no ar.

No caso de dentro da UNICAMP, dias atrás, infelizmente, houve de fato um crime lamentável, o assassinato de um aluno em uma festa local. Se os procedimentos policiais foram insuficientes ou inadequados é outra história, que deverá ser muito bem apurada. Sintomaticamente soa estranha a “invasão” de alunos na reitoria desta instituição para acobertar os organizadores da festa onde ocorreu o crime, interromper sindicância para apurar os fatos e, de repente, a polícia levar toda a culpa de um crime cometido em uma festa que supostamente não tinha conhecimento da reitoria. Logo, alguma coisa está fora da ordem!

Quem já organizou festas universitárias (eu, por exemplo, na época que era diretor do centro acadêmico do CEFISMA-IF-USP), sabe da responsabilidade que é necessário em termos de infraestrutura, logística e segurança das pessoas. Claro que estes pré-requisitos são pouco utilizados ou esquecidos no cotidiano universitário e, muitas vezes, alguns alunos pressupõem que estão acima do Bem e do Mal e toda a sua conduta de responsabilidade pelas vidas em jogo é minimizada pulverizada. Nesta lógica “descolada”, a festa se transforma num evento que é gerida por si mesma e ao sabor dos ventos.

É desejável certa dose de pragmatismo diante da necessidade de execução de políticas públicas concretas. Não concordo que a Polícia Militar patrulhe campus universitário de localidade alguma e nem tal força pública teria esta função. Ações de resposta policial truculenta já fizeram parte de muito enredo trágico envolvendo pancadaria estatal e estudantes. Particularmente defendo um corpo de segurança institucionalizado e treinado para dar suporte de segurança especializado em cada campus universitário. Mas tenho minhas dúvidas se algum dos lados quer realmente discutir a questão da segurança interna de forma mais realista: nem as reitorias se interessam pelo tema, pois preferem terceirizar os sistemas de segurança (e imitar Pôncio Pilatos para eventuais externalidades), pela via da lógica liberal; e, tampouco, uma particular parte dos alunos, em particular, os que dominam, de forma muitas vezes truculenta e duvidosa transparência, os centros acadêmicos (neste ínterim, alguém pode já dizer, “há eles são jovens e jovens se entendem”, tudo bem, amém e ponto final!), pois temem serem incomodados pela presença de alguma força de segurança em seus paraísos herbáceos, falta de responsabilidade perante as regras mínimas de convivência mútua e o senso que tudo vai ser impune (ou seja, na lógica do Éden universitário, o que vale para todos na sociedade, não valeria para dentro dos muros universitários).

O tema é espinhoso e longe de ter um consenso mais equilibrado no momento. Temos uma Polícia Militar, dentro da realidade brasileira, em geral, que demanda força desproporcional e se torna acidamente agressiva para lidar com manifestações públicas, isto é fato e ponto final. Todavia, é importante salientar que mesmo sendo verdade esta premissa, não fecha a equação. A realidade que muitos campi universitários, assim como a sociedade, vêm sofrendo com as ondas de violência (assaltos, furtos e até mesmo casos de estupros dentro de campus) que atingem patrimônio público ou pessoal e, muitas vezes, vitimas em potencial. Em sociedades mais complexas, não existe uma ilha da fantasia que não reflete dilemas da própria sociedade.

É bom lembrar que o melhor sistema de segurança é aquele realizado pelos próprios agentes da comunidade, com elos de confiança, respeito e reciprocidade, sem a necessidade de elementos externos. Todavia, cada vez mais complexa e materialista a sociedade, esta premissa vem se distanciando.  Entre a canonização dos atos universitários e a truculência ao estilo “Black Blocs”, existe uma linha tênue: para muitos dos alunos, o que mais interessa a eles é fazer o jogo da “ocupação”, pichações toscas, vandalismo do patrimônio público e palavras vazias de ordem e resistência (ou seja, uma bela coreografia performática!). Se é somente performance teatral que desejam: tudo bem, ad infinito e segue a procissão sem nenhum resultado substancial.  Tudo isto, bem longe do que deveria ser um ambiente democrático, apaziguador e apreço pelo conhecimento civilizado. Neste sentido, cabe ainda uma pergunta: além das crises estruturais das universidades públicas, quem realmente se preocupa com a universidade pública, quando alguns se postulam mais interessado em tumultuar e solapar ainda mais seu espaço (que deveria ser) democrático ao ser violentado por um bando de intolerantes, seja de insensíveis tecnocratas de plantão, seja de carnavalescas máscaras na cara?

A violência externalizada fisicamente é apenas mais um sintoma de que a universidade precisa refletir a atuação dos seus agentes no plano interno e, por extensão, o papel dentro sociedade. Por outro lado, a universidade não pode se fechar como uma inverossímil ilha paradisíaca, em todos os sentidos, distante da sociedade. Agora, diante da realidade local, se cada comunidade universitária desejar construir um projeto alternativo de segurança, isto é, de forma realística, sem ranços autoritários e sem hipocrisias vicejantes, possivelmente será este um caminho muito mais promissor e desejável.

Enfatiza-se que a democracia deverá se o valor fundante dentro da esfera universitária e ela carece ser preservada por todos os seus agentes. Desta maneira, a democracia universitária deverá ser vigente, ampla e propositiva, desde a implementação de eleições diretas para reitor até o manejo de posturas menos truculentas e teatrais de muitos alunos que outrora se dizem preocupados com a universidade (mas que na pratica se mostra uma outra face), são passos importantes para resgatar os elos de confiança e solidariedade dentro do espaço universitário. Ademais, o resto é demagogia barata com cenas patéticas de marmanjos com caras encobertas e idéias infanto-juvenis retardo-revolucionárias. Esses são alguns elementos fantasiosos abortados de uma “esquerdinha” (ou pensa que seja algo próximo de uma “esquerda”) que flerta com a irresponsável intolerância e, como consequência, cada vez mais sucumbe aos próprios egos e a falta de ideias perante a realidade.

Refletir a segurança dentro dos campi universitários é também compreender os motivos pelas quais uma sociedade que se diz cada mais democrática e se vê, de forma atônica, diante de tantos atos de violência corpórea, física, patrimonial e simbólica. Os nós deste paradoxo nada trivial precisam ser devidamente debatidos, refletidos e desatados. Diante de mais um tabu e impasse regido pela intolerância, irresponsabilidade e oportunismo barato, quem sai perdendo é a própria instituição universitária, refém de truculências de todos os lados.


* menezesWELLINGTON FONTES MENEZES é Bacharel e Licenciado em Física pela Universidade de São Paulo (USP), Mestre em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). E-mail: wfmenezes@uol.com.br; Blog: http://www.wfmenezes.blogspot.com.br;Facebook: https://www.facebook.com/wellington.fontesmenezes

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4 comentários sobre “O tabu da segurança dentro dos campi universitários

  1. MANIFESTO DE PROFESSORES CRITICA GREVE DE ALUNOS DA USP
    Há ‘imposição forçada’ aos demais, diz texto
    DE SÃO PAULO
    Mais de uma centena de docentes da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, a FFLCH, da USP, assinou ontem um manifesto com críticas ácidas à forma como as lideranças do movimento estudantil, ligadas a grupos ultraesquerdistas, têm conduzido a mobilização por eleições diretas do futuro reitor da universidade.
    Há três semanas, estudantes invadiram a sede da reitoria da USP e paralisaram as aulas na maior parte dos cursos da FFLCH.
    “A imposição forçada da greve ao conjunto da faculdade se dá por métodos de coerção inaceitáveis e inapropriados ao convívio universitário”, aponta o texto de docentes como o ex-presidente da Associação dos Docentes da USP, Flavio Wolf de Aguiar, do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas, José Álvaro Moisés, de ciência política, e Davi Arrugucci Junior, professor emérito da FFLCH.
    O texto traz autocríticas sobre a atuação dos docentes: “TEMOS ABDICADO DE APONTAR E CONDENAR AS DERIVAS AUTORITÁRIAS E TRUCULENTAS DE UMA PARCELA NEM SEMPRE REPRESENTATIVA DOS ALUNOS”.
    Referem-se aos chamados “cadeiraços”, empilhamentos de cadeiras e móveis nas portas das salas de aulas, de modo a impedir qualquer atividade acadêmica.
    Ontem, a Folha viu “cadeiraços” na rampa de acesso às salas de história e geografia e de ciências sociais.
    Segundo professores como Laura de Mello e Souza, da história, e Sergio Miceli, da sociologia, “DESDE QUE OS PIQUETES COMEÇAM, A VONTADE DA MINORIA MILITANTE IMPERA, DIFICULTANDO OUVIR AS VOZES DISSONANTES, MESMO MAJORITÁRIAS, SEPULTANDO O DIÁLOGO ENTRE OS PRÓPRIOS ESTUDANTES E DESTES COM OS DOCENTES”.
    Em assembleia de história e geografia, com 80 estudantes, o texto foi lido. Um militante chamou os signatários de “direitistas sabotadores da mobilização”. Aplausos.
    Na assembleia de ciências sociais, com 150 estudantes, uma aluna chamou de “à beira do fascismo” o recurso ao piquete de cadeiras. A polêmica prossegue hoje, já que o “cadeiraço” se mantém, a greve e a invasão da reitoria, idem. (Folha de S.Paulo: 24 DE OUTUBRO DE 2013).
    COMENTÁRIO: assim funciona a razão cínica: atos truculentos de uma minoria que reprime uma maioria, obvio microfascismo ou protofascismo (segundo Umberto Eco), tente ser justificado com ATOS que atraem simpatia daqueles que defendem a lei-do-cão. Ora, querer ir CONTRA uma lei arbitrária ou uma lei de interesse democrático (maioria) COM MÉTODOS VIOLÊNTOS é, sim, indício de fascismo. Poranto, Ignoram tal reconhecimento por Má fé, cinismo, populismo, ou transtorno mental.

    Postado p/ Raymundo de Lima.

  2. WELLINGTON: parabenizo-lhe pela consistência do texto e pela coragem de PUBLICÁ-LO. Porque imagino o preço que você JÁ está PAGANDO com seu corpo, seu psiquismo e imagem moral na universidade, depois da publicação do mesmo. Com esta coragem e disposição de “análise” geralmente pagamos caro a gente de alma pequena que distorce com falácia, difamação, injúria, calúnia, assédio moral, enfim, as armas usadas pela “insanta” inquisição universitária. Causa mais prestígio acadêmico “jogar para a galera” tal como faz o professor-político ou populista.

    MEU COMENTÁRIO, ABAIXO:

    (1) Seu ensaio provoca uma reflexão pouco explorada entre “dilema” e “paradoxo”: Se “o campus universitário é um lugar de LIBERDADE DE EXPRESSÃO de todos, logo NÃO PODE ACONTECER A INVASÃO DA PRIVACIDADE”. O atual debate sobre as bibliografias tb trata disso. Roberto Carlos e outros nomes PÚBLICOS evocam DIREITO À PRIVACIDADE. Mas, como são homens públicos eles teriam DIREITO a censurar ou apreender as biografias publicadas? E o povo tem o direito de saber sobre TRAJETÓRIA E OS BASTIDORES QUE eles estão envolvidos na história? É possível defender direito à privacidade do Paulo Maluf, do torturador “X” ou do narcotraficante “Y”?

    (2) OUTRA COISA: Nas nossas ESCOLAS parece que este conflito “liberdade de expressão VERSUS privacidade” está resolvido em parte: Se dentro de espaço ESCOLAR ocorrer uma briga com dano físico e moral, a escola pode ser responsabilizada. No filme alemão “A reunião” apresenta oito professores analisando e debatendo se houve ou não estupro dentro da escola, a partir da acusação da mãe da aluna contra um aluno maior de idade. O fato teria acontecido dentro da escola. Mas na UNIVERSIDADE com a conquista da “autonomia” parece estar acima da lei geral e dos direitos e deveres que toda sociedade se submete. (Você vem denominou de “lógica do Éden universitário” o que vale para todos na sociedade, não valeria para dentro dos muros universitários). Assim, alunos se vêem no direito de fazer qualquer ato dentro dela, que vai desde reuniões culturais até aquelas que caminham na contramão da saúde física, mental e social. Um sintoma é a omissão sobre as pichações, depredações e roubos dentro do espaço universitário, não pode ser levantado como problema para ser debatido, porque a cultura universitária ainda vive da memória dos tempos da ditadura onde era legítimo pichar “Abaixo a ditadura”, por exemplo. Hoje escreve-se nas paredes ou prédios principalmente públicos qualquer bobagem, símbolos, que é justificado pelos pseudointelectuais libertários de última hora como “liberdade de expressão”, “estética pósmoderna”. Infelizmente a esquerda sempre viveu uma ‘illusion’ (conceito de Bourdieu) infantilista que foi inclusive criticado por Lêni. Este infantilismo não conta aparecer pichado símbolos nazi-fascistas, marcas dos narcotraficantes ou do PCC ou reuniões deles que usam a universidade para tranquilamente fazer seu negócio e assim aumentar seu CAPITAL. Curioso que os alunos anti-capitalistas NÃO QUEREM ENXERGAR ESTE TIPO DE CAPITALISTA DO NEGÓCIO ILÍCITO.

    (3) Entendo que a tradição do hábitus acadêmico funciona como ponto-cego, isto é, contribui para NÃO ENXERGAR QUE “A realidade que muitos campi universitários, assim como a sociedade, vêm sofrendo com as ondas de violência (assaltos, furtos e até mesmo casos de estupros dentro de campus) que atingem patrimônio público ou pessoal e, muitas vezes, vitimas em potencial. Em sociedades mais complexas, não existe uma ilha da fantasia que não reflete dilemas da própria sociedade” [citação]. Mas, a RAZÃO CÍNICA que atravessa a sociedade é reproduzida na universidade em nome do BEM. E justificada cinicamente em nome do bem da universidade pública. O enfrentamento da realidade com OBJETIVIDADE é atropelado por interesses de ODEM POLÍTICA-IDEOLÓGICA, sempre justificado [cinicamente] que é para o bem da universidade, de todos, etc.

    O dogmatismo sobre a questão da segurança na tradição infantilista pode ser comparado aos da direita norte-americana sobre o direito ter qualquer tipo de arma. Mesmo com a epidemia dos massacres “amok” nos EUA eles não mudam de posição. Será que com um acontecimento trágico como este numa universidade pública brasileira (que aconteceu na Escola Tasso da Silveira, em Realengo, Rio de Janeiro), ou quando for fundado uma cracolândia dentro do campus, ENFIM IREMOS LEVAR A SÉRIO A QUESTÃO DA SEGURANÇA NOS CAMPI?

  3. ─ Quando alguém presta o vestibular em uma instituição de ensino pública ou privada, acredito que é tão somente, para estudar, aprender e se formar. Portanto, qualquer movimento no sentido contrário, é fora de propósito. Está na hora de fazer uma “varredura” e apontar quem é quem nessa história e a quem servem. Afinal, são estruturas custosas com finalidades próprias e não um parque de diversão. Agindo dessa maneira, não sei o que esses jovens esperam, da sociedade que os patrocinaram.

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