O dia da Consciência Negra e a luta pela igualdade

praxedes-rosangelapraxedesROSÂNGELA ROSA PRAXEDES* & WALTER PRAXEDES**

 

Embora biologicamente falando não existam raças humanas, os preconceitos que incorporamos na vida social continuam a nos ensinar a julgar e a avaliar as capacidades dos indivíduos e coletividades de acordo com a raça biológica na qual os classificamos.

Na prática, sempre que associamos um comportamento social à característica biológica de um indivíduo ou grupo estamos raciocinando de forma racista. Em outras palavras, mesmo desmentidos pelas ciências, os preconceitos racistas permanecem vivos nas mentes de muitos indivíduos e coletividades, tornando-os propensos a atitudes intolerantes.

Uma vez que uma realidade natural próxima ao que é classificado como raça não existe, o termo “raça” pode ser considerado uma ficção que adquire força de realidade quando é usado para classificar os seres humanos.

A concepção de raça e de identidade negra empregada muitas vezes pelos movimentos sociais de combate ao racismo contra os negros realiza pelo menos dois objetivos: a) uma tentativa de construção simbólica de um sentimento de pertencimento a uma coletividade discriminada e classificada racialmente; e b) a busca do fortalecimento de uma solidariedade defensiva antirracista como uma forma de resistência contra a exploração, a perda de direitos, a exclusão social e a humilhação.

Os movimentos sociais negros atuam visando à conscientização da sociedade brasileira de que os negros são tratados há cinco séculos como raça inferior e de que atualmente essa discriminação persiste, apesar do discurso oficial do Estado brasileiro, favorável ao tratamento igualitário de todos os cidadãos, e do discurso racista “à brasileira”, que nega a existência do racismo em nosso país.

É mesmo um paradoxo que uma conquista importante do conhecimento científico e da cidadania democrática, como o foi a constatação da igualdade universal da espécie humana apenas com muita dificuldade seja assimilada pelos seres humanos. Por isso o Dia da Consciência Negra nasceu para nos fazer recordar a importância da igualdade entre os humanos.


* ROSÂNGELA ROSA PRAXEDES é Pós-Doutora em Antropologia.

** WALTER PRAXEDES é Doutor em Educação. Autores do livro Por uma escola livre do preconceito e da discriminação racial (São Paulo, Edições Loyola).

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4 comentários sobre “O dia da Consciência Negra e a luta pela igualdade

  1. ─ Tem razão a presidenta Dilma, quando afirmou que muitos brasileiro tem complexo de “vira lata”. Assim, são os que aceitam e reverenciam como sendo uma conquista, “o Dia da Consciência Negra”. Ora, à consciência, à alma, não tem cor. Portanto, da mesma maneira que costumavam chamar: “negro de alma branca”, são termos pejorativos, preconceituosos indignos do ser humano.

  2. Importante e oportuna reflexão Rosângela e Walter Praxedes. Essas lutas enfeixam sentidos profundos de justiça social e democracia em nosso país.

  3. Parabéns pela objetividade e concisao do artigo. Me fez lembrar uma pergunta que andei me fazendo ha algum tempo atras, ao ouvir frases como “preto é cor, negro é raça”, ou outras em que se emprega o termo “raça” com uma conotaçao militante e afirmativa.
    Dado que esse termo (salvo engano) foi criado pelo cientificismo racial e colonialista do século XIX, para justificar as expoliaçoes e abusos das sociedades coloniais europeias, a apropriaçao atual do termo por movimentos negros talvez exija uma analise mais abrangente ou diferenciada. Parece-me que ela exprime a reivindicaçao de uma diferença afirmada enquanto qualidade, e que vem se opor à “pasteurizaçao” negacionista dos bem-pensantes e bem intencionados que, ao negar diferenças, negam também qualidades ou talentos especificos. E o ponto de vista igualitario nao viria também negar toda uma historia de assimilaçao, em que o negro é “bom” na medida em que se assemelha ao branco, e nem sequer a um branco real, mas a um branco idealizado e inexistente, mas extremamente util para negar o outro, seu “oposto cromatico” que deve se apagar para se identificar ao seu “polo positivo”?
    Envio-lhes estas questoes em desordem, pois nao pretendem ser uma nova tese, mas apenas isto: perguntas que talvez possam se unir a outras para ajudar a avançar uma maneira de pensar mais humana – e mais colorida.

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