Domésticas, o filme!

ANTONIO OZAÍ DA SILVA*

Domésticas (Brasil, 2001), dirigido por Fernando Meirelles e Nando Olival, é uma adaptação de peça homônima escrita por Renata Melo, co-roteirista do filme. Ela pesquisou e entrevistou as empregadas domésticas, ouviu histórias “alegres, trágicas, cômicas, de amor, de morte, de loucura, de doença, de injustiça, de gratidão”.[1] A peça e o filme reapresentam o universo da vida dessas trabalhadoras.

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A alforria de uns significa trabalho e meio de vida para outros, os quais são recompensados com salários nem sempre dignos e direitos inexistentes e/ou desrespeitados. As empregadas domésticas são os sustentáculos que permitem às suas patroas e patrões desempenharem tarefas mais “nobres” do que as do lar. Substituem até mesmo mães e pais que, em seus cotidianos atribulados, se poupam da difícil e trabalhosa relação com os filhos. Apesar de tudo, as domésticas são relegadas à invisibilidade, ao espaço das cozinhas e da arrumação da casa. O filme contribui para a visibilidade dessas mulheres, as quais são fundamentais no cotidiano dos lares das senhoras e senhores que podem se libertar do labor doméstico.

Mas em que consiste essa “visibilidade”? Não esqueçamos que o filme expressa o olhar dos roteiristas e diretores. A qual plateia se destina? Em que medida contribui para mudar as condições de vida e de trabalho delas? Será que as domésticas da vida real assistiram-no? Que opinião elas têm? São perguntas pertinentes num país em que se faz filmes sobre os pobres para consumo dos ricos e da classe média perdulária e (in)feliz em seus delírios de consumo.

Cida, Roxane, Quitéria, Raimunda e Créo, personagens do filme, representam essa multiplicidade de seres humanos que vivem para arrumar a vida dos outros, e muitas vezes não têm tempo, e nem condições financeiras, para cuidar das próprias vidas. Trabalham e trabalham! No entanto, também se angustiam, sofrem e alimentam esperanças e sonhos.

O filme sintetiza a diversidade dos “brasis” que, apesar de antagônicos, coabitam e contribuem para a reprodução mútua do abismo social desigual que marca a nossa sociedade. Muitos naturalizam ou interpretam essa realidade social desigual numa perspectiva conservadora, acomodatícia e determinista. Não raro, sucumbem ao assistencialismo.

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Eis o legado do nosso passado escravocrata.[2] As domésticas representam uma categoria social vinculada aos pilares históricos da discriminação social, econômica e política: classe, gênero e raça. Social e economicamente ocupam a base da pirâmide hierárquica e carregam o fardo de uma sociedade machista e racista, ainda que tais fatores sejam atenuados e negados por teorias do tipo “democracia racial”, pela hipocrisia e moralismo dos bons, porém incapazes de transformar essa realidade.

Mais do que respostas, esse filme impõe perguntas que merecem a mais profunda reflexão. Qual a real situação dessa categoria no Brasil? Quem são? De onde vêm? Onde moram? Qual é a sua cultura e linguagem? Como se organizam ou não? Quem as representam e como se representam na política? São cidadãs? Em que consiste a cidadania? Qual “Brasil” expressam? Nestas condições, a democracia brasileira pode ser considerada real? Há igualdade de oportunidades? Em que consiste a liberdade na desigualdade real? Em que medida reproduzimos a herança colonial e escravista sob novas formas e outros nomes? Promover a educação é suficiente para superar essa marca que permanece indelével no corpo social?[3]

São tantas perguntas! E muitas cujas respostas sabemos, mas nem todos assumimos. Enquanto isso, contribuímos para que essa realidade se reproduza! E tudo parece tão natural e normal! Será?!

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Ficha Técnica
Título: Domésticas
Direção: Fernando Meirelles e Nando Olival
País: Brasil
Ano de lançamento: 2001
Duração: 85 min.


* ozaiANTONIO OZAÍ DA SILVA é docente do Departamento de Ciências Sociais, Universidade Estadual de Maringá (DCS/UEM). Publicado originalmente em http://antoniozai.wordpress.com/2008/06/18/domesticas-o-filme/

[1] Do site oficial, disponível em http://www.domesticasofilme.com.br/port/pabertur.html, acessado em 15.06.08.

[2] Sobre este aspecto, vale a assistir o filme “Quanto vale ou é por quilo” (2005), dirigido por Sérgio Bianchi.

[3] O Prof. Joaze Bernardino-Costa, com sua tese de doutorado “Sindicatos das Trabalhadoras Domésticas no Brasil: Teorias da Descolonização e Saberes Subalternos”, apresentada ao Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília/UnB, em 2007, nos ajuda a compreender esse universo e a encontrar respostas para muitas das questões colocadas. Vale a pena ler!

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4 comentários sobre “Domésticas, o filme!

  1. Vi a peça ha muitos anos atras, numa ida ao Brasil e me lembro da impressao de vitalidade que o teatro brasileiro me deu entao. Quanto às perguntas do seu artigo, sao tantas e tao pertinentes… mas pedem respostas que demandam tempo e reflexao (dariam uma tese!). Por enquanto, talvez seja possivel pelo menos saber qual o publico atingido pelo filme. So patroes? Ou algumas empregadas também? Fiquei curiosa.

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