Spitfire Grill

FÁBIO VIANA RIBEIRO*

Uma informação que deveria ser omitida em relação a Spitfire Grill é a de que seu diretor, Lee David Zlotoff, foi também o criador da infame, porém divertidíssima, série MacGyver. Trata-se apenas de mera curiosidade, tão útil para despertar o interesse pelo filme quanto seu pouco esclarecedor título. Por outro lado, pela quase onipresença dos padrões hollywoodianos, é sempre o caso de conferir produções do chamado cinema independente americano; no caso, despretensiosa e muitíssimo bem produzida.

Spitfire Grill vem a ser uma lanchonete perdida numa cidade pequena de um estado longínquo dos Estados Unidos. Mostrar a vida de pessoas comuns do ponto de vista de suas pequenas alegrias e misérias é sempre uma proeza. Pelo quanto a vida de cada qualquer pessoa possui de significativo e insondável: a pessoa que espera um ônibus com uma sacola na mão, a criança que volta sozinha para casa pelo mesmo caminho de sempre, o rosto daqueles que aparentam nunca terem recebido um abraço ou um beijo de quem quer que seja. Isso pelo quanto é sempre possível suspeitar que a existência de pessoas anônimas, dessas tantas que não nos chamam a atenção por nada em especial, ocultam sempre melhores histórias que as contadas pelos filmes. Da mesma forma que pessoas ricas e famosas têm de lidar com o fato de serem ricas e famosas, pessoas pobres e anônimas têm de lidar com o fato de ninguém se importar muito com suas vidas. Apesar de normalmente a plateia não pensar assim, são estes últimos os que poderiam ser considerados herois. Na medida em que lutam anônimos e sem esperanças, em condições altamente desvantajosas, pela simples sobrevivência ou para terem um pouco daquilo que foram privados em função do acaso e da irracionalidade do mundo.

RESENHA SPITFIRE GRILL A

Captar o sentido profundo dessas vidas anônimas já seria um grande mérito de Spitfire Grill, não fosse o fato de sua história estar voltada para coisas mais profundas, e perturbadoramente simples. De um lado, uma ex-presidiária que tentará recomeçar a vida trabalhando numa lanchonete; de outro a maneira como será vista pelos que vivem na pequena cidade. O cansaço e a desesperança, a necessidade de perdoar, o arrependimento e a culpa. Coisas um pouco fora de moda, mas que surpreendem por não serem tratadas de forma evidente, desprovidas de glossários e respostas prontas.  Um filme sobre valores, como inevitavelmente é também todo e qualquer filme, por mais que não tenha sido pensado dentro desse propósito.

Da mesma forma que efeitos especiais e roteiros mirabolantes conseguem transformar histórias insossas em entretenimento irresistível, da mesma forma a ausência desses e outros recursos, tão típicos do cinema comercial americano, se constituem numa espécie de teste de qualidade para alguns filmes. De fato, sem uma ótima atriz, direção e todos os outros elementos sob controle, não haveria, em termos estritamente comerciais, qualquer história relevante para ser contada. Particularmente divertida, a ideia de uma das funcionárias da lanchonete para resolver o problema de encontrarem alguém que se interessasse pela compra do estabelecimento: um concurso nacional de cartas, onde cada remetente enviaria cem dólares e uma carta explicando por que gostaria de ganhar uma lanchonete. O autor da melhor carta passaria a ser o novo dono do estabelecimento. O sucesso inesperado do concurso e o dinheiro arrecadado, muito superior ao que imaginaram que conseguiriam, termina sendo a origem de um problema maior.

RESENHA SPITFIRE GRILL B

Além da história principal, agradavelmente linear e convencional, outras histórias são também contadas. As das pessoas comuns do lugar, que não fazem senão tentarem sobreviver aos seus pequenos dramas. Mas também, por exemplo, e entre muitas e quase imperceptíveis histórias que se juntam no filme, a que diz respeito sobre o quanto de responsabilidade existe sobre cada um de nossos atos – independente de acreditarmos na existência dessa responsabilidade; sobre o quanto pode ser difícil o simples desejo de nos aproximarmos de nosso semelhante, ou de simplesmente perdoar. Não deixa de ser curioso notar que a dificuldade de muitos dos moradores do lugar em admitir e reconhecer seus erros e suas culpas – como de resto também fazemos todos nós, que não estamos no filme – são, no fim, as verdadeiras causas de sua desumanidade. Diante do argumento de que não haveria espaço no mundo para qualquer moral permanente, fica como que sugerida a ideia de que reside justamente nessa ausência a causa de um mundo cada vez mais desumanizado.

RESENHA SPITFIRE GRILL C

Ficha Técnica

Título Original: The Spitifire Grill
Gênero: Drama
Direção: Lee David Zlotoff
Duração: 117 minutos
Ano: 1996
País de Origem: Estados Unidos


* ribeiro-fabioFÁBIO VIANA RIBEIRO é professor adjunto da Universidade Estadual de Maringá (Departamento de Ciências Sociais) e doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).

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