A descoberta do humano “Na natureza Selvagem”

HÉRICKA WELLEN*

Na natureza selvagem (Into the Wild, 2007) conta a história real de Christopher Johnson McCandless – jovem de família abastada estadunidense que deixa a família e o conforto material para buscar, fora da civilização, sua “emancipação espiritual”, no ano de 1990. Roteirizado e dirigido por Sean Penn, o filme é uma adaptação do livro homônimo de Jon Krakauer, escrito em 1998, com base no diário de Chris e em entrevistas com sua família e com os amigos que ele encontrou na sua jornada.

Para um observador menos atento, como foram seus pais Billie e Walt McCandless (Marcia Gay Harden e William Hurt), Chris é um jovem muito bem adaptado às normas sociais. Vive numa bela e confortável casa até o momento em que vai para a Universidade de Emory, onde se forma com louvor. Após a formatura, no almoço com sua orgulhosa família, elabora com seus pais planos de prosseguir seus estudos na Universidade de Harvard, no curso de Direito.

Nesse almoço, entretanto, a visão de mundo de Chris fica evidente. Como tradicionalmente ocorre nas famílias mais abastadas dos Estados Unidos, os pais de Chris informam que ele ganhará um carro novo de presente de formatura, haja vista que não é aceitável que ele continue com seu carro velho depois de uma conquista tão importante. Chris contesta e recusa o presente. Ele não aceita que sua formatura seja comparada a um bem material e acusa os pais de só estarem preocupados com “o que os vizinhos possam pensar”, ou seja, com a aparência de sucesso que um carro novo proporciona em nosso meio social.

Logo após esse almoço, Chris se despede da família, volta para seu apartamento e dá início à realização de seu sonho: quebra seus cartões de crédito, destrói seus documentos e envia 24.000 dos seus 24.500,68 dólares para a OXFAM (Oxford Committee for Famine Relief – Comitê de Oxford de Combate à Fome) e parte, no seu carro, em busca de si mesmo. Para Chris, o excesso material dificulta a emancipação. Como ele próprio explica: “é importante na vida […] se sentir forte, se testar ao menos uma vez, se encontrar ao menos uma vez na mais antiga condição humana, enfrentar a pedra cega e surda a sós, sem nenhuma ajuda além das próprias mãos e da cabeça”.

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Chirs teve uma infância e adolescência difíceis, permeada de violência dentro de casa, e de uma falsa harmonia familiar, fora de casa; além disso, é um jovem consciente das brutais desigualdades sociais que servem de base à sociedade capitalista, haja vista a escolha de disciplinas que fez na universidade e as altas notas que recebeu nelas. Como, por exemplo, “Apartheid na Sociedade Sul-Africana” e “Política Africana Contemporânea e Crise Alimentar na África”.

Embora possam parecer questões dissociadas, essas são duas dimensões de uma mesma ordem social. A miséria de uma sociedade que sustenta a opulência de outra e a hipocrisia do american way of life, que transforma sonhos em mercadorias. Essas dimensões, mesmo que espacialmente distantes, são marcas da ordem capitalista, a qual Chris não consegue nem quer se adaptar. Na ânsia de descobrir a verdade por trás desse engodo, ele decide viver na natureza selvagem, no Alasca, dependendo apenas de seu trabalho.

A viagem de Chris é contada em cinco capítulos – “Meu nascimento”, “Adolescência”, “Vida adulta”, “Família” e “Tornando-se sábio”. Entre os capítulos, utilizando-se do recurso de flashbacks, o passado de Chris com sua família é revelado, através, principalmente, de dois narradores: o próprio Chris (Emile Hirsch) e sua irmã Carine (Jena Malone). Os capítulos também são entrecortados pelas cenas de Chris quando finalmente chega ao Alasca.

Além disso, parte da narração de Chris consiste na citação dos autores que mais influenciaram sua concepção de mundo e sua decisão de partir para a natureza selvagem: Henry David Thoreau, Liev Tolstoi e Jack London. Tais referências, especialmente as duas primeiras, evidenciam uma feroz crítica à sociedade e uma busca de liberdade que marcaram de maneira definitiva a forma de Chris encarar a vida.

A interposição de cenas não é usada como um recurso de complicação do enredo, ou seja, como uma forma de ocultar o sentido da história para proporcionar ao filme um ar pós-moderno. Ao contrário, a narrativa nos permite conhecer aos poucos e profundamente as razões de Chris; leva-nos com ele em sua trajetória e não concede respostas simples e imediatas aos questionamentos que sua decisão impõe ao espectador.

No primeiro capítulo, Chris parte rumo ao oeste e logo na primeira noite de sua viagem uma inundação repentina destrói seu carro, numa perfeita metáfora da vida ao momento em que Chris nasce de novo. Encarando o fato como uma maneira de radicalizar ainda mais sua experiência, Chris queima o pouco dinheiro que levara e assume uma nova identidade: Alexander Supertramp.

Entregando-se completamente à sua busca, Chris é “sangue e fogo o tempo todo”, como lhe dirá depois seu amigo Wayne (Vince Vaughn). Sangue e fogo, Chris não consegue aceitar as regras sociais, permeadas de hipocrisia, e acredita que só na natureza selvagem, livre de qualquer contrato social, encontrará a verdade. Como afirma Carina: “agora, ele se emancipara daquele mundo de abstração, falsa segurança e excesso material […] As coisas que o privavam da verdade de sua existência”.

Grande parte dessa revolta de Chris pode ser explicada pelas experiências vividas em sua casa durante sua infância e adolescência. Filho de pais intelectualizados e financeiramente bem sucedidos, o cotidiano do casal era o oposto de que aparentavam socialmente. Segundo Carina: “Havia explosões diárias de raiva na nossa casa. Violência que éramos forçados a testemunhar. Era muito real. Mas também era como o teatro. Eles nos escalavam tanto como juízes quanto acusados”.

Exemplo dessa violência pode ser vista na cena em que Walt bate em Billie e ela grita para que os filhos vejam o que o pai está fazendo. Apesar da raiva cotidiana, a família segue levando uma vida de felicidade aparente e, embora o tema do divórcio fosse constante nas reuniões familiares, o casal permanece junto, especialmente por causa da milionária empresa de consultoria que pertence aos dois.

Chris e Carina se fecham num mundo só deles. Tornam-se muito amigos. Unem-se para manter uma relação de amor verdadeiro na família. Ele tenta protegê-la dessa violência, e talvez essa proteção de irmão mais velho tenha lhe dado mais segurança e a fortalecido, enquanto ele permaneceu mais frágil. Fragilidade esta que não deve ser confundida com fraqueza. Como afirma Carina: “A fragilidade do cristal não é fraqueza mas delicadeza”.

Delicadeza é, sem dúvida, uma das mais marcantes características de Chris. Essa delicadeza toca as pessoas que ele conhece e com quem se relaciona na sua jornada, especialmente Rainey e Jan (Brian Dierker e Catherine Keener), Wayne, Tracy (Kristen Stewart) e, finalmente, o solitário Ron Franz (Hal Holbrook); pessoas com quem Chris vive relações intensas de amizade. A despeito de sua busca por isolamento, esses encontros demonstram que, longe de ser um misantropo, Chris tem interesse genuíno pelas pessoas e, durante os dois anos de sua viagem, cultiva amizades capazes de transformar a vida dele e dos que estão ao seu redor.

Figura 2

Com Jan, por exemplo, a relação ultrapassa os sentimentos de amizade e parece, em alguns momentos, se desenvolver numa relação de mãe e filho. É com essa personagem que Chris protagoniza uma das mais lindas cenas do filme – o banho de mar, e é ela também que levanta uma contradição importante no filme: seria um exagero de Chris a revolta contra seus pais? Sendo um extremista, estaria ele sendo injusto com sua família?

Segundo Carina, “Chris avaliava a si mesmo e as pessoas ao redor com um código moral muito rigoroso”. Para ele, a gota d’água para dar fim à relação com seus pais foi a descoberta de que, antes de casar com sua mãe, seu pai era casado e tinha um filho, que abandonara pela nova família: “a arrogância de papai o fez convenientemente esquecer a dor que causou. E mamãe, na vergonha e no estorvo de uma jovem amante, tornou-se sua cúmplice no engodo”. O código moral de Chris não se baseia no moralismo conservador de que o casamento deve ser mantido a qualquer custo, o que ele não aceita são a mentira, o descaso e a hipocrisia de viver uma relação familiar repleta de mentiras.

Mas a questão de Jan, que também sofre com a separação de um filho, permanece: esse conflito de gerações, que faz parte da própria condição humana, seria motivo para Chris abandonar sua família, deixando-os sem quaisquer notícias? Carina testemunha o sofrimento real de Billie e Walt, o desespero quando percebem que o filho desapareceu, a dor de descobrir que ele usou de todos os meios para não ser encontrado e esforço em conjunto para encontrá-lo: “a dor pareceu aproximá-los […] até o rosto deles mudou”.

Carina tem a mesma percepção de Chris de que os pais assassinavam a “verdade cotidiana” e de que “fizeram a infância parecer ficção”, mas além de sofrer com a ausência do irmão, sofre também com o sofrimento dos pais. Carina sente mágoa de que Chris tenha partido sem se despedir dela e é nela que Chris pensa quando pega o telefone para ligar para casa, embora nunca o faça, pois sabe que falar com a irmã pode fazer com que ele desista de sua viagem. E nesse misto de sentimentos – amor, saudade, mágoa, tristeza – ela começa a questionar se ainda entende o irmão, mas ela própria responde que “esses não são os pais com quem ele cresceu, amaciados pela reflexão forçada que vem com a perda”.

O amor verdadeiro, sem maquiagens, que Chris sempre buscou na família começou a ser demonstrado no compartilhamento da dor e da esperança de encontrá-lo, mas é certo que esse amor não começou nesse momento, ele já existia, embora estivesse embaixo dos escombros de uma relação que priorizava o dinheiro e o estatuto social.

Chris viveu na natureza selvagem por três meses, depois de dois anos de viagem. No Alasca, encontrou um ônibus abandonado – o ônibus mágico – que se tornou sua última casa. Lá ele passou fome e frio, mas também viveu momentos de esplendorosa alegria, vivendo de seu trabalho, da transformação da natureza. E foi nos momentos de alegria que ele obteve a grande resposta de sua vida: “a felicidade só é real quando compartilhada”.

Decidido a voltar, ele é impedido pela cheia do rio. Sentindo-se solitário, e não mais apenas sozinho, Chris sente medo de não conseguir sobreviver a mais uma mudança de estação no Alasca. Com fome, acaba por comer, por engano, uma planta venenosa e descobre, no seu livro de botânica, que tem pouco tempo de vida.

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Chris morre em meio à natureza selvagem. Não como um misantropo, mas sim como um jovem idealista que buscava a verdade e o autoconhecimento. A natureza permaneceu indiferente aos seus sonhos, à sua dor e ao seu desejo de voltar, não à “civilização”, mas ao convívio das pessoas que amava e que o amavam, que embora tenham seus defeitos, são perfeitas na sua humanidade.

Na natureza selvagem é um filme que, como a história daquele que o inspirou, impressiona por sua delicadeza e força; com uma trilha sonora inesquecível de Eddie Vedder e atuações marcantes, especialmente a de Emile Hirsch, é um daqueles filmes para se rever sempre e sempre se emocionar.

figura 4Ficha Técnica

Título: Na natureza selvagem
Título original:
Into the Wild
Direção:
Sean Penn
Roteiro: Jon Krakauer, Sean Penn
Produção: Art Linson, Sean Penn, William Pohlad
Fotografia: Éric Gautier
Trilha Sonora: Eddie Vedder, Kaki King, Michael Brook
País: EUA
Ano: 2007
Duração: 140 min.


* wellen-herickaHÉRICKA WELLEN é Doutora em Educação pela USP.

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3 comentários sobre “A descoberta do humano “Na natureza Selvagem”

  1. Ótimo ensaio, realmente é um filme maravilhoso, que consegue penetrar nossa alma e nos faz simpatizar com esse corajoso jovem.

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