A Metáfora do “Mordomo da Casa Branca”

UBIRACY DE SOUZA BRAGA*

 

O cinema é o domínio dos ricos brancos
Jean-Luc Godard

 

Em 2009, um novo nome surgiu no cenário do cinema independente norte-americano. Lee Daniels, que até então havia dirigido apenas um longa-metragem, o filme: “Matadores de aluguel”, mas chamou atenção no Sundance Film Festival com seu segundo filme: “Preciosa-Uma história de esperança”. Em janeiro daquele ano, as montanhas geladas de Utah foram dominadas pelo calor do filme que viria a ser exibido em vários festivais ao longo do ano, dentre eles Cannes. No início do ano seguinte, o longa-metragem ainda ganhou dois Oscar, o de melhor atriz coadjuvante para Mo’Nique e melhor roteiro adaptado, além de outras quatro indicações, incluindo melhor filme e diretor. O filme é inspirado no artigo do jornal Washington Post: “Um mordomo bem servido por esta eleição”, escrito por Wil Haygood em 2008, que contava a vida real do mordomo da Casa Branca Eugene Allen.

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Lee Daniels volta a chamar atenção com “O mordomo da Casa Branca”, seu novo filme que apresenta no elenco uma extensa lista de nomes estelares. No papel principal, Forest Whitaker, vencedor do Oscar de melhor ator pelo filme: “O último rei da Escócia”. Outros astros da cultura afro-americana também marcam presença, como Cuba Gooding Jr., Terrence Howard, Oprah Winfrey e Lenny Kravitz. Alguns dos principais destaques são os atores que interpretam figuras históricas, como os presidentes Dwight Eisenhower (Robin Williams), John Kennedy (James Marsden), Lyndon Johnson (Liev Schreiber), Richard Nixon (John Cusack) e Ronald Reagan (Alan Rickman). O filme ainda conta com a presença de Vanessa Redgrave, Melissa Leo, Jane Fonda e a cantora Mariah Carey, que já havia trabalho com o diretor em “Preciosa – Uma história de esperança”.

O ator, produtor e diretor de cinema estadunidense, Forest Steven Whitaker nasceu em Longview, em 15 de julho de 1961 no Texas (EUA), mas se mudou com a família para Los Angeles, na área de South Central, quando tinha apenas quatro anos. Em 1996 casou-se com a atriz Keisha Nash, que conheceu nas filmagens de “Contagem Regressiva”, de 1994. Ele, que é vegetariano, fez um anúncio, junto com sua filha, True, para a PETA: People for the Ethical Treatment of Animals, promovendo o vegetarianismo. Em 2008 deu apoio público à campanha do então senador Barack Obama à presidência dos Estados Unidos. É célebre pelo intenso  trabalho de estudo dos personagens que fez em filmes como: “Bird” e “Ghost Dog: The Way ofthe Samurai”, e por seu papel recorrente como o ex-tenente da polícia de Los Angeles Jon Kavanaugh na premiada série de televisão policial “The Shield”.  Whitaker conquistou um Oscar de melhor ator por seu desempenho como o ditador Idi Amin (cf. Braga, 2013), de Uganda, no filme: “The Last King of Scotland”, de 2006. Quarto ator negro a ser agraciado com o Óscar, juntando-se a Sidney Poitier, Denzel Washington e Jamie Foxx, Whitaker também é detentor de um Globo de Ouro e de um Prêmio BAFTA. Atualmente faz parte do elenco da série dramática: “Criminal Minds: Suspect Behavior”, da CBS.

O Filme: “O Mordomo da Casa Branca”, em inglês: “The Butler”, comercializado como “Lee Daniels` The Butler”, é um drama histórico estadunidense de 2013 dirigido por Lee Daniels, escrito por Danny Strong. Livremente baseado na real vida de Eugene Allen, o filme é estrelado por Forest Whitaker, como Cecil Gaines, um afro-americano, afro-estadunidense ou africano-americano, são designações para os cidadãos dos Estados Unidos da América descendentes de africanos, que ipso facto testemunham eventos notáveis ​​do século 20, durante o seu mandato de 34 anos servindo como mordomo da Casa Branca. Enquanto se torna testemunha ocular da história social e das negociações de bastidor do Salão Oval – em um momento em que o movimento de direitos civil desabrocha – sua dedicação ao trabalho alimenta tensões em casa, afastando sua esposa, Gloria, e criando conflitos com seu filho mais velho, opositor do sistema. Foi o último filme produzido por Laura Ziskin, que morreu em 2011. Foi lançado nos cinemas pela The Weinstein Company em 16 de agosto de 2013 para críticas em sua maioria positivas, representando um sucesso de bilheteria, tendo arrecadado mais de US$145 milhões de dólares em todo o mundo contra um orçamento de US$30 milhões.

Do ponto de vista técnico-metodológico as características mais marcantes deste estilo são a intransigência com os moldes narrativos do cinema estabelecido, através do amoralismo, próprio desta geração, presente nos diálogos e numa montagem inesperada, original, sem concessões à linearidade narrativa. Lembra-nos de Sigmund Freud a questão tópica do lugar da criação, onde sustenta a tese segundo a qual: “aquele que sabe esperar não precisa fazer concessões” (“wer weiß, wie Notwendigkeit zu Kompromissen warten”), contida no clássico ensaio: “Massenpsychologie und Ich-Analyse” (2005).  O pequeno Cecil Gaines causou a morte do pai nos anos 1920 e viu sua mãe enlouquecer. Daí em diante, mudou sua maneira de agir, como se tivesse entendido o mundo dos brancos: “Sobrevivemos nele”, dizia o pai. Mais tarde, já dominando a “arte” de ser invisível, de se antecipar ao que “eles” querem e, principalmente, ter “duas caras”, o jovem que aprendeu a servir na “casa grande”, torna-se o mordomo oficial do presidente dos Estados Unidos e por lá ficará durante pouco mais de 30 anos, trabalhando para presidentes como John F. Kennedy, Richard Nixon, além de Ronald Reagan.

Mas ser tão obediente na Casa Branca, como um “corpo dócil”, para lembramos de Michel Foucault, trouxe consequências na casa do negro. Fosse pela ausência dele, outra invisibilidade, sentida pela esposa (Oprah Winfrey) às voltas com a bebida, ou pela passividade diante do preconceito, que mobilizava o filho mais velho (David Oyelowo). Através da narração de Gaines (Forest Whitaker), o espectador viaja no tempo, vivendo esse paralelo de conflitos sociais do país e do protagonista com sua família, passando por sete presidentes e acontecimentos históricos da sociedade norte-americana, em cenas ficcionais ou reais. Estão lá do ponto de vista da globalidade/totalidade, os “Passageiros da Liberdade”, a “Ku Klux Klan”, a morte de Kennedy, “Malcolm X”, a Guerra do Vietnã, a morte de Martin Luther King (da canção “Pride”, do U2), o regime Apartheid (cf. Cornevin, 1979), a criação do grupo “Panteras Negras”, para ficarmos nestes exemplos. O conservadorismo surgiu do tradicionalismo: de fato, ele é primordialmente nada mais do que o tradicionalismo tornado consciente. Apesar disso, os dois não são sinônimos, na medida em que o tradicionalismo só assume seus traços especificamente conservadores, enquanto expressão de um modo de vida e pensamento, como um movimento relativamente autônomo no processo social (cf. Nisbet, 1987).

Crítica especial foi dirigida à precisão do filme em retratar o presidente Ronald Reagan. Embora o desempenho do ator Alan Rickman tenha gerado críticas positivas, os roteiristas do filme foram criticados por retratar Reagan tão indiferente aos direitos civis e sua relutância em associar-se com empregados negros da Casa Branca durante a sua presidência. De acordo com Michael Reagan, filho do ex-presidente, – “A verdadeira história do mordomo da Casa Branca não implica o racismo em tudo. E simplesmente liberais de Hollywood querem acreditar em algo sobre o meu pai, que nunca foi lá”. Paul Kengor, um dos biógrafos do presidente Reagan, também criticou o filme, dizendo: – “Eu falei com muitos funcionários da Casa Branca, cozinheiros, porteiros, médicos e serviço secreto ao longo dos anos. Eles são universais em seu amor a Ronald Reagan”. O comentarista político conservador Ben Shapiro escreveu: – “Não há dúvida de que o filme em si é cheio de imprecisões históricas. The Butler não tem praticamente nada em comum com o seu material de origem, a vida do mordomo da Casa Branca Gene Allen, exceto pelo fato de que a principal personagem do filme e Allen foram os dois mordomos negros na Casa Branca personagem-título do filme, Cecil Gaines, vê seu pai assassinado e sua mãe estuprada por um fazendeiro branco; que nunca aconteceu com Allen. Personagem-título do filme tem dois filhos, aquele que vai para a guerra do Vietnã, o outro que se torna um pioneiro dos direitos civis; Allen realmente tinha apenas um filho”.

Na modernidade da qual falamos, a perda de parâmetros define sem dúvida o mundo moderno em sua facticidade e não pode ser revertida por qualquer espécie de retorno aos bons tempos nem pela promulgação arbitrária de novos parâmetros e valores só e, por conseguinte, uma catástrofe no mundo moral, de acordo com Habermas (cf. Braga, 2012) se se supõe que as pessoas são efetivamente incapazes de julgar as coisas per se, que sua faculdade de julgar é inadequada para formar juízos originais e que o máximo que podemos exigir delas é a correta aplicação de regras conhecidas e derivadas de parâmetros já estabelecidos. Portanto, a abstração das relações humanas sob o capitalismo, que é constantemente enfatizada por Marx, com argúcia, e é claro depois dele, foi originalmente uma descoberta dos observadores do campo conservador. O conservadorismo ou conservantismo é um termo usado para descrever posições político-filosóficas, alinhadas com o tradicionalismo e a transformação gradual, que em geral se contrapõem a mudanças abruptas, cuja expressão máxima é o conceito de revolução, seja em Marx, Lenin ou Gramsci, de determinado marco econômico e político-institucional ou no sistema de crenças, usos e costumes de uma dada sociedade.

mordomo-posterFicha Técnica: Gênero: Drama. Direção: Lee Daniels. Roteiro: Danny Strong, Lee Daniels. Elenco: Alan Rickman, Colman Domingo, Cuba Gooding Jr., David Oyelowo, Forest Whitaker, Jane Fonda, Jesse Williams, John Cusack, Liam Neeson, Matthew McConaughey, Mila Kunis, Oprah Winfrey, Terrence Howard. Produção: Hilary Shor, Pamela Oas Williams. Fotografia: Andrew Dunn. Montador: Joe Klotz. Trilha Sonora: Rodrigo Leão. Bibliografia consultada:

Referências

BRAGA, Ubiracy de Souza, “A banda podre da política”. Disponível em: http://www.opovo.com.br/2014/03/25/; Idem, “Notas sobre a crítica da razão comunicativa, de Jürgen Habermas”. In: http://httpestudosviquianosblogspotcom/11/07/2012; CORNEVIN, Marianne, Apartheid, Poder e Falsificação Histórica. Lisboa: Edições 70, 1979; NISBET, Robert, O Conservadorismo. Lisboa: Editorial Estampa, 1987; FREUD, Sigmund, Massenpsychologie und Ich-Analyse. Die Zukunft einer Illusion. Frankfurt am Main, 2005; PASSETTI, Edson, “Michel Foucault e os guerreiros insurgentes. Anotações sobre coragem e verdade no anarquismo contemporâneo”. In: Cartografias de Foucault, Durval Muniz de Albuquerque Júnior, Alfredo Veiga-Neto, Alípio de Souza Filho (Organizadores). 2ª edição. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2011; Artigo: “Oito presidentes; um sujeito em comum”. In: Diário do Nordeste. Fortaleza, 10 de março de 2014; entre outros.

 

* bragaUBIRACY DE SOUZA BRAGA é Sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

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2 comentários sobre “A Metáfora do “Mordomo da Casa Branca”

  1. Eu apenas procuro citar corretamente as obras dos autores aos quais me refiro. No Brasil, caso não seja do conhecimento de V. Sa., é hábito dos Editores em geral omitirem os títulos por acharem longos, enfadonhos e não se enquadrarem no mercado consumidor.

  2. Professor, sem duvida seu artigo é rico de informaçoes tanto do ponto de vista da filosofia da cultura quanto cinematografico.
    Mas citar artigo de Freud em alemao, sem traduçao do titulo, é de matar de chique. E um tanto esnobe, diria eu.
    E ja que comecei a ser chata, vou até o fim: para passar toda essa informaçao condensada no seu texto, precisa também redigir o dito, se nao o leitor se cansa de virar a frase de todos os lados para ver qual é o sentido dela.

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