“Machuca” e a questão da igualdade na diferença

HÉRICKA WELLEN*

“Desde quando um branco é amigo de um índio?” Pergunta Silvana no seu característico tom desafiador. “Claro que pode ser. É possível.” Responde Gonzalo. A conversa entre Silvana e Gonzalo sobre a amizade do cavaleiro solitário Zorro e seu companheiro Tonto pode ser vista como uma tentativa de compreender como é possível a amizade deles próprios: Silvana, Gonzalo Infante e Pedro Machuca.

Gonzalo Infante (Matías Quer) e Pedro Machuca (Ariel Mateluna) tornam-se amigos pelas razões que fazem surgir as amizades verdadeiras: interesses comuns, personalidades parecidas e a liberdade da infância, que faz com que qualquer outra coisa seja secundária. O que surpreende nessa amizade é o fato de que essas crianças vivem em mundos completamente diferentes: Gonzalo é de uma família de classe média e vive confortavelmente num bairro nobre de Santiago, no Chile; Pedro, por sua vez, é de uma família extremamente pobre e vive numa casa de um cômodo, construída com pedaços de madeira e papelão.

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Essa improvável amizade nasce no Saint Patrick, um colégio católico inglês, frequentado, tradicionalmente, pela elite chilena. Machuca passa a frequentar o colégio quando o reitor – Padre McEnroe (Ernesto Malbran), apoiado por parte dos pais de alunos daquela escola, oferece bolsas de estudo a crianças pobres, buscando uma aproximação entre as crianças que frequentam aquele colégio e aquelas que vivem na periferia do bairro.

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Essa iniciativa não se dá arbitrariamente. Padre McEnroe e os pais que o apoiam, entre eles Patricio Infante (Francisco Reyes), pai de Gonzalo, estão vivendo um momento peculiar na história do Chile – o governo de Salvador Allende, que, ao ser eleito democraticamente para a presidência do Chile em 1970, buscou “um caminho chileno para o socialismo” e tomou medidas radicais para superar a desigualdade social naquele país.

O filme “Machuca” (2004), conta, pois, a história dessa amizade nascida no ano de 1973; ano em que o governo socialista de Allende sofre ininterruptas sabotagens por parte de empresários chilenos, patrocinados pelo governo estadunidense, numa tentativa de desestabilização de seu governo; tentativa esta denunciada, em vão, por Allende na ONU. Diante da falta de alimentos no país, do aumento do “mercado negro” e do desemprego, a elite chilena passa a sair às ruas pedindo a saída de Allende; essas manifestações entram muitas vezes em confrontos com a população que defende o presidente, deixando o país à beira de uma guerra civil.

A despeito dos protestos e sabotagens da direita, em 1973, Allende é reeleito com 43% dos votos dos chilenos; resta, assim, a seus poderosos opositores, aplicar uma prática que se tornou comum na América Latina naquele período – instalar uma ditadura militar. Dessa forma, o governo socialista de Allende é derrubado pela ditadura sangrenta de Augusto Pinochet, que, durante dezessete anos, matou pelo menos três mil pessoas.

Dirigido por Andrés Wood, “Machuca” se passa nessa conturbada transição. Sem se descuidar de mostrar a violência desse momento, o diretor desenvolve a história com delicadeza e conta com atuações fortes e inesquecíveis, que, muitas vezes, dispensam as palavras.

Como esquecer o olhar de estranhamento de Gonzalo e Pedro, quando se deparam com as realidades tão distintas por eles vivenciadas? Como esquecer a cumplicidade desse mesmo olhar quando se reconhecem como companheiros ou a dor quando sabem que estão se olhando pela última vez? Como esquecer o olhar de desafio de Silvana (Manuella Martelli) frente a uma manifestação de direita? Ou o olhar de esperança de Juana (Tamara Acosta), mãe de Pedro, quando conhece Gonzalo e percebe, na nova amizade de seu filho, um prenúncio de um novo tempo?

Silvana é amiga de Machuca, mora na mesma área, e convive com uma realidade ainda mais difícil. Ela não frequenta nenhuma escola, pois precisa “cuidar de casa”, haja vista o abandono de sua mãe, e ainda ajudar o pai a ganhar algum dinheiro com a venda de bandeirolas nas manifestações, tanto nas manifestações de esquerda, que ela participa ativamente e feliz, quanto nas de direita, que participa a contragosto, pois garante algum dinheiro.

A amizade do trio se fortalece nas vendas de bandeirolas nas manifestações e nos beijos banhados a leite condensado que Silvana troca com os dois meninos à beira do rio. Se, para Pedro, esses beijos são expressões de sua nascente curiosidade sexual; para Gonzalo, eles têm o sabor de uma primeira paixão, que começa a ser correspondida pela altiva Silvana.

Essa paixão sofre um grande golpe, quando, numa das manifestações de direita, por culpa de Pablo (Tiago Correa), o namorado fascista da irmã de Gonzalo, Silvana tem uma séria desavença com Maria Luísa (Aline Küppenheim), mãe de Gonzalo. Essa é a primeira grande barreira que os três amigos enfrentam: a descoberta de que os mundos em que vivem são muito diferentes e se antagonizam; esse embate está arraigado nos que lutam pela manutenção desses mundos e naqueles que visam à sua superação e não há como suprimir esse confronto, porque aquele mundo, para se manter, precisa da dominação desse.

No entanto, esse ódio que predomina entre as classes, mesmo sendo insuperável, não elimina o amor que há entre as pessoas, mesmo que estejam em classes antagônicas. A relação fraterna entre os dois amigos aparece como um importante ingrediente humanista, sentimento que brota mesmo no solo infértil da propriedade privada. Gonzalo ama seus amigos; admira profundamente a coragem e a altivez de Pedro e Silvana. Nessa relação com seus amigos, ele experimenta sentimentos reais que deixou de reconhecer na sua própria família, que vive um momento de mentira e traição.

Gonzalo testemunha o caso extraconjugal de sua mãe com Roberto (Federico Luppi), um rico empresário que divide sua vida entre Buenos Aires e Santiago e que, nos encontros com Maria Luísa, traz inúmeros produtos e presentes, não só para a amante, como também para o menino, a quem a mãe leva aos encontros. Gonzalo ama sua mãe, e é amado por ela, mas não deixa de sentir asco pela situação a que sua mãe o submete. O menino oscila, então, entre a dura realidade econômica da família de Machuca, e a veleidade de sua mãe.

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No entanto, a maior barreira que se interpõe entre os amigos, não é feita de sentimentos, mas é a própria força policial que se instala na ditadura de Pinochet. A intervenção violenta na comunidade onde vivem Pedro e Silvana; e, ainda, a intervenção no colégio Saint Patrick, que se dá, principalmente, com a expulsão dos meninos pobres, daqueles que são filhos de pais comunistas, e com a destituição do Padre McEnroe, que protagoniza uma das mais comoventes cenas do filme, acabam por separar o que sentimentos autênticos haviam unido.

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Há um momento do filme em que o pai de Pedro, Ismael (Luís Dubó), ao ser apresentado a Gonzalo por seu filho, cruelmente sentencia: “Sabe onde vai estar o seu amigo daqui a 5 anos? Começando a universidade. E você vai estar limpando banheiros. Em 10 anos ele vai estar trabalhando na empresa do pai. E você continuará limpando banheiros. E, em 15 anos, ele vai ser dono da empresa do pai. E você? Adivinhe. Vai continuar limpando banheiros. E ele nem se lembrará de seu nome.”

Numa realidade injusta e desigual como a que se instaurou violentamente no Chile de 1973, é provável que a profecia de Ismael se realize parcialmente e que Gonzalo e Pedro sigam trajetórias extremamente distintas na vida; mas é também provável, e isso fica claro nas últimas cenas de Gonzalo no filme, que ele não esteja totalmente certo e que aquela amizade tenha gerados frutos que nem a força, nem o medo sejam capazes de destruir.

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Ficha técnica

Nome: Machuca
Nome Original: Machuca
Origem: Chile e Espanha
Ano de produção: 2004
Duração: 120 min
Direção: Andrés Wood

 

* wellen-herickaHÉRICKA WELLEN é Doutora em Educação pela USP.

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4 comentários sobre ““Machuca” e a questão da igualdade na diferença

  1. Oi Leonardo, é sempre muito bom saber que nosso texto chega a leitores com sua visão de mundo. Obrigada pelo comentário!

  2. Belo texto. Sintetiza os aspectos mais importantes do filme e apresenta analise interessante sobre o relacionamento dos personagens principais. A antítese da produção de realidades e de visões de mundo…o artigo destaca muito bem a construção imagética desse todo desigual.
    Esse filme é tocante, e é de emocionar mesmo. Em poucas películas encontramos um retrato tão profundo sobre uma época.
    O triste é saber que esse antagonismo brutal, que essa perversa forma de segregar vidas e sonhos é uma realidade quase natural neste país.
    Mas, temos de recordar Bretch: “Nunca digam: isso é natural”.
    Machuca é uma boa pedida. Bem lembrado, Héricka.

  3. -Um interessante detalhe, visto à lupa, do que normalmente não conseguimos ver porque estamos nas corredeiras da vida.

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