Até que ele morra

barbatojrROBERTO BARBATO JR*

 

Era ainda menino e já havia tomado consciência da injustiça do mundo. Um tio materno impingiu-lhe uma lavagem cerebral, creditando todo o mal da humanidade às vísceras do capitalismo. Apoiou-se num daqueles credos socialistas que professavam a socialização de tudo, até mesmo dos mimos familiares. Desde então, não hesitava em pensar que seus brinquedos e roupas deveriam ter o destino inevitável das chamadas classes subalternas. Como o tio era exagerado, falava em lumpemproletariado. O moleque morria de pena. Pois é, o raciocínio era simplista, mas funcionava. Privava-se do pouco que lhe ofereciam, era realmente pródigo em doações.

Ainda imberbe, foi cooptado pelo Partidão. Disseram-lhe que o mundo se dividia entre os filiados e os demais seres humanos, órfãos da dignidade partidária. Fez política estudantil no segundo grau e na faculdade. Sua militância era fervorosa: participava de congressos e discussões, acampava com a pastoral, participava de distribuição de merenda e o escambau. Lia tudo quanto podia. Marx, Engels, Lenin, Gramsci e Rosa eram citados com familiaridade ímpar, de dar inveja aos mais tradicionais quadros do Partidão e aos intelectuais de carreira.

Vinte anos depois, estava casado, era pai e tinha emprego fixo sem nenhuma ligação política. Pouco a pouco, foi se tornando amargo, descrente. Já não queria saber de laços partidários, não falava com companheiros da antiga militância. Queria apagar o passado, a cerveja quente das reuniões com pretextos socialistas, a fiscalização ideológica e a repreensão aos quadros pelegos da política. Agora, tudo lhe parecia produto de dissabores, de uma história sem sentido. Mas, no fundo…

No fundo, em algum recôndito intocável e quase invisível, ainda sonhava com a economia planificada, a ordem social igualitária. Ao tomar conhecimento do ataque ao World Trade Center, deu um risinho de esguelha. A tal convulsão social mencionada pelo velho barbudo no Prefácio para Crítica da Economia Política (ele sabia até a página da edição) irromperia no centro do capitalismo. Teria chegado a hora? Enfim, os proletários de todo o mundo iriam se unir. Bin Laden? Fundamentalismo? Ora, aquilo não existia. O ataque foi produto de algum gênio do Kremlim. “A revolução! A revolução!”, sussurrava para si enquanto ouvia mentalmente os acordes iniciais da Internacional Socialista.

Quando anunciaram a nova crise das bolsas de investimento, teve o último sopro de esperança. Wall Street seria o sinônimo da ruída tão aguardada. Qual o quê!

Hoje, o mundo continua injusto e ele, já conformado, sabe que isso não vai mudar. Pelo menos, até que ele morra.

 

* ROBERTO BARBATO JR é graduado em Ciências Sociais e Direito, Mestre em Sociologia e Doutor em Ciências Sociais pela UNICAMP. Publicou pela Editora Hedra o romance infanto-juvenil Mistério na zona sul (2011). Também é autor de Direito informal e criminalidade: os códigos do cárcere e do tráfico (Campinas: Millennium Editora, 2006) e Missionários de uma utopia nacional-popular: os intelectuais e o Departamento de Cultura de São Paulo (São Paulo: Annablume/Fapesp, 2004). Atualmente é professor e advogado. Escreve em seu blog Lápis Impreciso. Publicado originalmente em: http://lapisimpreciso.blogspot.com.br/2014/03/ate-que-ele-morra.html

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