“Harold and Maude”, 40 anos depois

UBIRACY DE SOUZA BRAGA*

É quase impossível para a geração entre 20 e 30 anos, nos dias de hoje, ter ouvido falar de “Harold and Maude”, filme batizado numa “leitura religiosa” com o título romântico: “Ensina-me a viver”. Talvez por causa dessas listas babacas de “Filmes para ver antes de morrer”. Contudo, o filme ainda consegue nos surpreender em diversas cenas, passados 40 anos, entre elas a do beijo, talvez inspirado numa das obras mais conhecidas de Gustav Klimt, “Der Kuss” (1907 e 1908). Além disso, a) não é um romance, b) muito menos drama, e, c) menos ainda se pensarmos em comédia, ou limítrofe d) ás malditas palavras: “humor negro”, caso existisse “humor branco”.

O filme tem como escopo a relação da senhora Maude com Harold, um jovem de 20 anos, rico e excêntrico que tem fascinação “por tudo que gira em torno da morte” (“for everything that revolves around death”): a) que vai desde o uso particular de carros funerários até, seu passatempo favorito, quando representa cerca de oito encenações sobre a morte (cf. Braga, 2012); b) representado, portanto, em simulações dramáticas ou cômicas de suicídios. A narrativa demonstra ambos se conhecendo durante visitas a funerais de estranhos, hobby em comum dos personagens da trama. Maude tem 79 anos, é sobrevivente de um “campo de concentração” (“Konzentrationslager”), viúva, mora nos Estados Unidos. Seu hobby: “adora funerais”. Acredita que o viver e a vida “deve ser vivida dia a dia por inteiro”, desde o filósofo Sêneca a Georg Simmel, “sem restrições, sem tristezas”.

O ator Bud Cort (Harold) e a atriz Ruth Gordon (Maude) no 29º Golden Globe Awards
O ator Bud Cort (Harold) e a atriz Ruth Gordon (Maude) no 29º Golden Globe Awards

O beijo, original em alemão: “Der Kuss” é um quadro do pintor austríaco Gustav Klimt. Executada em óleo sobre tela, medindo 180×180 centímetros, entre 1907 e 1908, é uma das obras mais conhecidas do Klimt, graças a um elevado número de reproduções, tendo como progênie “a obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica” (cf. Benjamin, 1966; 1971; 1980; 1983; 1993; 200). A obra-prima de Klimt, “O Beijo”, é uma festa reluzente de erotismo e beleza. O quadro tem um brilho sensual de mosaico bizantino. Um homem, envolvido num manto dourado ricamente trabalhado, inclina-se para beijar uma mulher que está de joelhos. Dos corpos dos amantes vemos apenas os rostos e as mãos, além dos pés flexionados da mulher. Todo o resto é uma opulenta cascata de ouro ricamente engastada com, ametistas, safiras, rubis, opalas e esmeraldas. Por baixo deles estende-se um leito de pétalas.

“Der Kluss”, Gustav Klimt (1907-1908)
“Der Kluss”, Gustav Klimt (1907-1908)

O mundo do casal retratado não é o nosso, é o mundo de fantasia e da intimidade. “O Beijo” é uma pintura intensamente erótica. A obra pertence ao período designado de “fase dourada” da criação do autor e é representada por sinais característicos biológicos e psicológicos do sexo – as formas estão definidas por ornamentos retangulares (masculina) e arredondados (feminina). A ornamentação (auréola) que envolve o casal é definida pelo contorno masculino com as suas costas, qualificado como “tipo torre” ou “campanulado”, simbolizando antropologicamente a “masculinidade no pescoço forte do homem que impõe o movimento”. É ele que, no abraço, segura a cabeça da mulher e vira-a a fim de beijá-la, apresentando uma imagem de beleza, masculinidade, elegância e amor.

A mulher, ao contrário, é representada aparentemente de forma passiva – ajoelhada em frente ao homem – “num gesto claro de subordinação”, se já não é um truísmo. A composição do quadro é antagônica e sugere mais de uma possibilidade de interpretação: por um lado, evoca a felicidade da união erótica, por outro, questiona a identidade das duas pessoas e dos dois sexos. Para Gert Mattenklott (1942-2009), esse traço é recorrente nos desenhos de Klimt – “… mulheres em trajes longos, estreitos como cintas elásticas…”, escondem a “diferença feminina do corpo para simular o que lhes falta. Tornam-se símbolo daquilo que não têm: …um fetiche na câmara dos apetrechos dos prazeres”.  Dos corpos dos amantes vemos apenas os rostos e as mãos, além dos pés flexionados da mulher. Tudo o resto é uma opulenta cascata de ouro ricamente engastada com, ametistas, safiras, rubis, opalas e esmeraldas. Por baixo deles estende-se um leito de pétalas. O mundo do casal retratado não é o nosso, é o mundo de fantasia e da intimidade. O Beijo é uma pintura intensamente erótica. O quadro está exposto na Österreichische Galerie Belvedere, de Viena, Áustria.

Ora, Gustav Klimt, mais do que nunca inscreve a sua arte, seu olhar e a troca simbólica de quem assimila a pintura ao estilo e costume de vida ou organização social que emergiram na Europa a partir do século XVIII e que ulteriormente se tornaram mais ou menos mundiais na medida de sua influência. Esse estilo de vida mudou a ordem social tradicional porque serviu para estabelecer a interconexão social mundial e, ao mesmo tempo, alterar as formas de relacionamento social. Daí que o sociólogo Anthony Giddens, estudioso das “transformações da intimidade”, apresenta três elementos que identificam “as descontinuidades que separam as instituições sociais modernas das ordens sociais tradicionais”. O primeiro é o ritmo dinâmico e acelerado das mudanças da era da modernidade. O segundo é o escopo da mudança, ou seja, ela atinge toda a superfície da Terra. O terceiro é a natureza intrínseca das instituições modernas não existentes em períodos históricos precedentes, como, por exemplo, sistema político do Estado-Nação (cf. Giddens, 1991).

fig 3

Na concepção de A. Giddens a modernidade não criou apenas oportunidades, mas também diversos riscos, como ecológicos, uso arbitrário do poder político, confronto nuclear, conflito militar, divisão do trabalho etc. Outra característica da modernidade está relacionada ao tema “confiança”. Nas sociedades pré-modernas, a confiança se instituía no sistema de parentesco, religioso e comunitário. Na sociedade moderna, ela se estabelece em “relações abstratas de amizade em que tempo e espaço estão indefinidos”. Na modernidade a “reflexividade” consiste em examinar e reformar de maneira contínua as práticas sociais, assim, uma prática não é cultivada por ser tradicional. Giddens destaca, e com razão, que a dinamicidade da sociedade moderna ocorre devido a três fontes: a primeira fala da “separação” entre espaço e tempo; a segunda refere-se ao desenvolvimento de “mecanismo de desencaixe” que descontextualiza a atividade social e reorganiza as relações sociais no tempo e no espaço; e a terceira diz respeito “à apropriação reflexiva do conhecimento”.

Desde sua concepção inúmeros problemas já surgiam, como poderia haver um filme sobre o romance entre um jovem de 18 anos e uma mulher de 80? A ideia era inconcebível, irreal, fora da vida concreta, humana. Ninguém queria comprar o filme. Seria um grande prejuízo e um fracasso de crítica e bilheteria, com o sepultamento de todos os envolvidos. Mas Colin Higgins, escritor e roteirista, queria fazer o filme a todo custo e somente uma pessoa poderia abraçar a história e dirigir “Ensina-me a viver”, do jeito que ela foi escrita, forte e transgressora, então ele chamou Ashby. O sucesso foi imediato. Sutil e verdadeiro, a história de amor vivido entre Harold e Maude conquistou o coração por todas as salas de cinema onde passava. É incrível a forma como Higgins e Ashby levemente vão conquistando o espectador através das paisagens e da trilha sonora de Cat Stevens. Ocorre numa linda cena onde Maude canta e toca a música tema do filme, “If You Want to Sing Out, Sing Out” uma canção popular de Cat Stevens que compôs todas as músicas entre 1970 e 1971, durante a época em que ele estava gravando o seu álbum: “Tea for the Tillerman”.

Ousadíssimo para a década de 1970, como “Last Tango à Paris” neste período (cf. Braga, 2011), o diretor foi magistral: não deixou a relação do casal num campo platônico. O filme continua atual até hoje, pois desafiam tabus tais como: idade, sexo, virilidade, envelhecimento e morte. O filme é uma “tapa na cara com luvas de pelica”, contra a juventude conservadora e incapaz de suportar as barreiras de felicidade e do amor. Em última análise, no caso cearense, a perda no amor, mesmo entre homens é resolvido pela culatra (cf. Braga, 2010). Em países de “formação social” recente, para utilizarmos um conceito marxista, como no caso brasileiro, o idoso tem como representação social “estigmas” como: “o velho”, “o ultrapassado”.

 

harold-and-maude-animated-posterFicha técnica
Título: “Harold and Maude”
Direção: Hal Ashby
Produção: Colin Higgins, Charles B. Mulvehill
Música: Cat Stevens
País: Estados Unidos
Ano: 1971
Gênero: Comédia romântica
Duração: 91 min.
Idioma: Inglês.
Distribuição: Paramount Pictures.

 

 

Bibliografia consultada:

BRAGA, Ubiracy de Souza, “Violência Enquadrada: Lei Maria da Penha?”. Disponível em: http://secundo.wordpress.com/2010/12/05/; Idem, “Le Dernier Tango à Paris faz 40 anos”. Disponível em: https://espacoacademico.wordpress.com/2011/10/27/; Idem, “Canadá: Marcha das Vadias, História & Sentimento em Movimento”. Disponível em: http://httpestudosviquianosblogspotcom/2012/05/28/; BENJAMIN, Walter, L`opera d`arte nell`epoca della riproducilità técnica. Turim: Einaudi, 1966; Idem, “L` ouvre d` art à l` ere de sa reproductibilité techinique”. In: L` Homme, le langage et la culture. Paris: Danoël, 1971; Idem, “A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica”. In: Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1980; Idem, Origem do Drama Barroco Alemão. São Paulo: Brasiliense, 1983; Idem, Magia e Técnica, Arte e Política. Ensaios sobre Literatura e História da Cultura. Obras Escolhidas. 5ª edição. São Paulo: Brasiliense, 1993. Vol. 1; Idem, Passagens. Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2007; BOSI, Ecléa, Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos. São Paulo: T. A. Queiroz, 1979; FLIELD, Gottfried, Gustav Klimt (1862-1918) – O Mundo de Aparência Feminina, pp. 114-119. Editora Taschen; Gert Mattenklott em Gustav Klimt. Zeichnungen. Hanôver, 1984, p. 291; GIDDENS, Anthony, As consequências da modernidade. São Paulo: Editora UNESP, 1991; PINHEIRO, Nadja Nara Barbosa, “Freud e Klint em Viena fin-de-siècle: interfaces entre psicanálise e arte”. In: Cogito. Vol.9 n° 9. Salvador, 2008; entre outros.

 

* bragaUBIRACY DE SOUZA BRAGA é Sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará.

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