JEFERSON MENDES*
O movimento “todos os rios vão dar ao Carmo”, criado no Facebook há poucas semanas em Portugal, levou mais de uma centena de pessoas à baixa de Lisboa na noite do dia 24 de abril. A ideia era refazer a trajetória realizada 40 anos atrás, ou seja, a Revolução dos Cravos ou o 25 de abril como é comumente conhecida.
Vários movimentos aderiram à iniciativa. O grupo “que se lixe a troika” fez uma caminhada longa até atingir o largo do Carmo. “É chegada a hora de tomar o espaço público que é nosso e exigir a demissão do governo e o fim da austeridade. É chegada à hora de dar voz às pessoas”, disse um dos envolvidos ao jornal Diário de Notícias. Será uma inversão da história? Assistiremos a outro 25 de abril? Se a história é feita de conexões de espaço-tempo, quais os entrelaçamentos da revolução de abril?
Portugal, o pequeno gigante do sudoeste europeu, vive hoje uma das piores crises econômica e política de toda sua história. Em média, 120 mil portugueses deixam o país todos os anos. O desemprego, os cortes estruturais, o programa de ajustamento da troika, são alguns dos fatores de calamidade. O país, que em meados do século XVI, dominou uma porção do mundo e do comércio marítimo superior a qualquer outra nação do globo, viu suas aventuras homéricas serem negociadas no mercado negro por um preço que envergonharia Fausto. Mesmo com todas as dificuldades, manteve o império colonial até o século XX. Essa recusa em descolonizar foi o estopim do 25 de abril.
Em setembro de 1968, Antônio de Oliveira Salazar sofreu um acidente vascular-cerebral, saindo de cena e do exercício do poder político. Os muros do salazarismo tremeram, mas não sucumbiram. Dois anos depois do desastre, o líder máximo português, deixou definitivamente o palco dos espetáculos ditatoriais do século XX. Salazar permaneceu no poder por quase meio século, sobreviveu a crises econômicas, políticas, a Segunda Grande Guerra e as tensões do mundo pós-guerra. Enquanto os líderes fascistas caíam em espiral, Salazar manteve-se forte e só deixou o poder por ordem médica.
Américo Tomás, o presidente em exercício, nomeou para o cargo de Salazar, Marcelo Caetano. Longe de ser um “salazarismo sem Salazar”, Caetano desenvolveu uma série de medidas modernizantes no estado português. Contudo, os problemas coloniais assombravam o governo. Em média, a cada ano 170 mil portugueses deixavam o país. Entre morrer na Guiné e ser pedreiro em França a segundo opção era a mais sensata. Como um câncer, as consequências da guerra colonial afetaram decisivamente o governo de Caetano que em abril de 1974 foi convidado a se retirar pelos capitães.
A grande maioria da população portuguesa de hoje não viveu o 25 de abril, o que desenvolveu uma memória dualista. Enquanto um grupo pensa a revolução dos cravos como um grande evento democrático e libertador a outra memória, mais reacionária desenvolveu a ideia de uma revolução covarde, desprezível e tímida, uma revolução que não trouxe mudanças significativas, por ser uma revolução pacífica, uma revolução sem sangue. Há 40 anos no 25 de abril o povo português sai às ruas com cravos aos cantos de “Grândola, Vila morena”, música de Zeca Afonso, que foi o segundo sinal para os militares ocuparem os postos de comando. Será que amanhã, 25 de abril, “o povo é que mais ordena”?
* JEFERSON MENDES é doutorando na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Pelo menos o povo português, neste período, teve dois momentos de sabedoria: (a) evitou derramar sangue, que como outras revoluções foi em vão; (b) não trocou uma ditadura por outra. E se existe um governo neoliberal hoje, responsável é o povo.
A propósito, vale a pena ouvir e meditar nas duas versões de Chico Buarque sobre a Revolução dos Cravos. https://www.youtube.com/watch?v=gH_-KfbQ-LI
TANTO AO MAR [1a. versão]
Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim
Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar
Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim
(1975 – Tanto Mar – Chico Buarque – Letra original, escrita no tempo presente, vetada pela censura, gravação editada apenas em Portugal)
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TANTO AO MAR [2A.VFoi bonita a festa, pá
Fiquei contente
E inda guardo, renitente
Um velho cravo para mim
Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto do jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar
Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim
(1978 – Segunda versão, escrita no tempo passado)
Comentário do próprio Chico Buarque sobre as duas versões: https://www.youtube.com/watch?v=Pj5VuYSmd4k
Toda a ditadura deixa marcas que o tempo pode apagar quando as conquistas viram apenas páginas em livros de história. Manter viva a dor para a luta não ser perdida. Os sacrifícios e seus relatos devem criar uma série de novas demandas: comparações e situações lúdicas pedagógicas revivem tal situação fazendo elos com as manifestações atuais. Nada há de mais belo que os heróis comuns serem lembrados, pois o esquecimento é o espaço permanente dos tiranos.
─ A democracia burguesa, capitalista é um dado com os quatro lados iguais, o cifrão ($) e quando ele é jogado, de qualquer lado que cair ganha o poder econômico. Portanto, enquanto continuarmos à contracenar com eles, jamais o derrotaremos . Portanto, todos o rios, não vão só ao Carmo, mas à verdadeira libertação dos portugueses.