“Cem anos de solidão” e o massacre de Aracataca

KAREN GARCÍA DELAMUTA [1], PRISCILA ENGEL [2] & SILVIA BEATRIZ ADOUE [3] [4]

 

Resumo

Neste trabalho tratamos das relações entre Literatura, História e trauma pelo estudo do relato do massacre acontecido em Aracataca (Colômbia) em 1928 na trama do romance de Gabriel García Márquez Cem anos de solidão. O autor, nascido nessa cidade um ano antes da matança, recuperaria pelo recurso à literatura fragmentos de lembranças infantis e testemunhos de sobreviventes, costurando-os numa narração ficcional. Literatura como tentativa de luto.

Palavras-chave: Literatura Hispano Americana; Literatura e História; Literatura e trauma; Gabriel García Márquez; Cem anos de Solidão.

Resumen

En este trabajo tratamos de las relaciones entre Literatura, Historia y trauma por medio del estudio del relato de la masacre ocurrida en Aracataca (Colombia) en 1928 en la trama de la novela de Gabriel García Márquez Cien años de soledad. El autor, nacido en esa ciudad un año antes de la matanza, recuperaría, por el recurso de la literatura, fragmentos de recuerdos infantiles y testimonios de sobrevivientes, componiéndolos en una narración ficcional. Literatura como tentativa de luto.

Palabras llave: Literatura hispano-americana; Literatura e Historia; Literatura y trauma; Gabriel García Márquez; Cien años de soledad.

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Um menino de apenas um ano, muitos anos depois, frente ao papel em branco, recordaria que uns soldados o cumprimentaram ao passar pela porta da casa dos seus avôs maternos, onde ele estava sentado. Essa lembrança improvável associada a um conjunto de relatos familiares seria depois motivo para a literatura de Gabriel García Márquez. Palavras para ficar em paz com os mortos dentro dele, menino que foi crescendo com a presença fantasmagórica desses cadáveres insepultos, alimentada pela memória alucinada dos vivos.

Estudando os elementos de realismo maravilhoso na obra de Gabriel García Márquez Cem anos de solidão, nos deparamos com um acontecimento que aqui trataremos na perspectiva das relações entre literatura e trauma.

Procurando a data de nascimento do autor Colombiano, encontramo-nos com uma controvérsia: enquanto ele informa que foi em 1928, seu biógrafo afirma que o escritor é do ano 1927. O irmão Luis Enrique, entrevistado por Dasso Saldívar, confirma a última data, não sem esclarecer que seu irmão Gabriel teima em afirmar que seu nascimento foi em 1928 para fazê-lo coincidir com o ano da grande matança de Aracataca, sua cidade natal (SALDÍVAR, 2000: p. 58).

Na trama de Cem anos de solidão, Garcia Márquez ficcionaliza em Macondo, cidade onde se desenvolve o romance, o ocorrido em 6 de dezembro de 1928, fazendo uma descrição detalhada do massacre, do qual o personagem José Arcádio Segundo seria um sobrevivente.

A historiografia

Em 1905 havia-se instalado em Aracataca um empreendimento da United Fruit Company que explorava a banana para exportação. A chegada da empresa trouxe para a região tecnologias até então desconhecidas. O trem era uma delas. Além de partir do local carregado de bananas, chegava com um aluvião de imigrantes à procura de emprego que, posteriormente, Garcia Márquez chamaria de la hojarasca e ao qual dedicaria um dos seus relatos (1969).

A mão de obra era contratada pela intermediação de empreiteiras, desresponsabilizando-se a empresa estrangeira dos encargos sociais. Os trabalhadores, organizados em sindicatos, fizeram um movimento por nove reivindicações:

Estabelecimento do seguro coletivo, indenização em caso de acidente de trabalho, descanso dominical remunerado, aumento do salário em cinqüenta por cento, suspensão dos comissariados dentro da região, troca do pagamento quinzenal pelo semanal, suspensão dos contratos individuais e vigência dos coletivos, um hospital para cada quatrocentos trabalhadores, um médico para cada duzentos e higienização dos acampamentos dos trabalhadores. (SALDÍVAR, 1997: p. 59.)

Os dirigentes sindicais, comunistas e anarco-sindicalistas, convocaram a uma greve que durou 28 dias e que provocou prejuízos à empresa. O governo conservador de Miguel Abadia Méndez declarou “estado de alteração da ordem pública” e “toque de recolher” na véspera do massacre. Ao mesmo tempo, tendeu-se uma armadilha aos trabalhadores: disseram-lhes que o governador e o gerente da United Fruit viriam no trem propor um acordo. Ao amanhecer do dia 6 de dezembro, os grevistas concentraram-se na estação à espera das autoridades. Mas foram surpreendidos pela chegada do general Carlos Cortés Vargas, chefe civil e militar da zona, acompanhado por uns 300 soldados. O general leu para a multidão 4 decretos ordenando que se dispersasse sob ameaça de abrir fogo. Como a multidão não se retirara, Cortés Vargas deu mais um minuto. Segundo a historiografia, uma voz no meio da massa respondeu: Pode ficar com o minuto que falta (Roberto Herrera Soto e Renan Veja apud SALDÍVAR, 1997: p. 60). Os militares abriram fogo. O massacre aconteceu entre uma e meia e duas da madrugada. A contagem oficial de cadáveres ocorreu só às seis da manhã. Supõe-se que entre duas e seis houve procedimentos para desaparecer com a grande maioria dos corpos, reduzindo o número oficial a 9, que coincidiria com o número de reivindicações levantadas pelo movimento, e 3 feridos. Existem documentos gráficos da bala comum em que foram enterrados esses 9. O historiador Herrera Soto instala a controvérsia, porém, dizendo, no seu livro La zona bananera del Magdalena, que a contagem deu o número de 13 mortos e 19 feridos. O jornal La Prensa de Barranquilla falou em 100 mortos. O general conservador Pompíllio Gutíérrez, 5 meses depois do massacre, deu entrevista ao jornal El Espectador afirmando que tinha provas irrefutáveis de que os mortos eram mais de 1000 e que o governo ocultava. Carlos Arango, no seu livro Sobreviviente de las bananeras, fala em centenas de mortos e cita testemunhos como os de Carlos Leal e Victor Gómez Bovea, motorista de um dos carros que levavam os cadáveres às lanchas para serem jogados no mar antes das 6 da manhã. O próprio cônsul dos EUA, num relatório já desclassificado, afirmou que os mortos passavam de 1.000.

A United Fruit sofreu um processo parlamentar iniciado pelo liberal Jorge Eliecer Gaitán. Um ano depois, em 1929, reduziram-se as cotas de exportação como consequência da crise nas bolsas. Em 1932 houve inundações, resultado das grandes chuvas. Mas, em Aracataca, as enchentes foram ainda maiores, graças ao desastrado desvio dos rios Aracataca, San Joaquín e Ají, que a United Fruit tinha realizado. Tudo isso levou à retirada da Companhia da região.

A literatura

O relato do massacre ocorrido em Aracataca ocupa quatro páginas de Cem anos de solidão. A matança é descrita de maneira tão detalhada que acaba se transformado numa denúncia frontal, sem qualquer elemento de realismo maravilhoso, registro que, porém, permeia o resto do romance. José Arcádio Segundo estava entre a multidão que se concentrou na estação, porque tinha participado da reunião de dirigentes sindicais e havia sido encarregado de se misturar com os trabalhadores para orientá-los segundo as circunstâncias.

[…] esperando um trem que não chegava, mais de três mil pessoas, entre trabalhadores, mulheres e crianças, tinham atulhado o espaço descoberto em frente da estação e se apertavam nas ruas adjacentes, que o exército fechara com filas de metralhadoras.

– Senhoras e senhores – disse o capitão com uma voz baixa, lenta, um pouco cansada- têm cinco minutos para se retirar.

A vaia e os gritos repetidos afogaram o toque de clarim que anunciou o princípio do prazo. Ninguém se mexeu.

– Já passaram os cinco minutos – disse o capitão no mesmo tom.- Mais um minuto e atiramos.

José Arcádio Segundo, suando gelo, desceu o menino dos ombros e o entregou à mulher. “Esses cornos são capazes de disparar”, murmurou ela. José Arcádio Segundo se ergueu acima das cabeças que tinha pela frente, e, pela primeira vez em sua vida levantou a voz.

– Cornos! –gritou-. Podem levar de presente o minuto que falta. (p. 269)

O narrador relata o episódio em tempo real. Chegamos a sentir a respiração dos manifestantes, ouvir o barulho das metralhadoras…

Ao fim do seu grito aconteceu uma coisa que não lhe produziu espanto, mas uma espécie de alucinação. O capitão deu a ordem de fogo e quatorze ninhos de metralhadoras responderam imediatamente. Mas tudo parecia uma farsa. Era como se as metralhadoras estivessem carregadas com fogos de artifício, porque se escutava o seu resfolegante matraquear e se viam as suas cusparadas incandescentes, mas não se percebia a mais leve reação, nem uma voz, nem sequer um suspiro, entre a multidão compacta que parecia petrificada por uma invulnerabilidade instantânea. De repente, de um lado da estação, um grito de morte quebrou o encantamento: “Aaaai, minha mãe”. Uma força sísmica, uma respiração vulcânica, um rugido de cataclisma, arrebentaram no centro da multidão com uma descomunal potência expansiva, enquanto a mãe e o outro eram absorvidos pela multidão centrifugada pelo pânico. (p. 269-270)

Após este trecho, o ponto de vista deixa de ser o de José Arcádio Segundo para passar ao de uma criança que este levantaria do chão. Mas essa mudança começa com uma referência à lembrança que a criança teria posteriormente a esse momento:

Muitos anos depois, o menino haveria de contar ainda, apesar de os vizinhos continuarem a encará-lo como um velho maluco, que José Arcádio Segundo o erguera por cima da sua cabeça e se deixara arrastar, quase no ar, como que flutuando no terror da multidão, para uma rua adjacente. A posição privilegiada do menino lhe permitiu ver que nesse momento a massa ululante começava a chegar na esquina e a fila de metralhadoras abriu fogo. (p. 270)

Esse jogo de avanço e retrocesso pontua alguns momentos de Cem anos de solidão a partir da frase que abre o romance: Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendia havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo (p. 7). Segundo Josefina Ludmer:

Inaugurar a ficção como um retrocesso […] implica delimitar o material da história como o passado; inaugurá-lo com a lembrança de um personagem implica, além disso, regressar a esse passado através da memória. (1989: p. 23-24.)

Passamos a conhecer o que aconteceu por uma recordação de infância. No caso do parágrafo que segue, de alguém que foi testemunha privilegiada, por ter sido elevado por cima do mar de cabeças, único jeito de se ter uma visão de conjunto. Porém, seu testemunho, anos depois, seria recebido como o de um louco, para nada confiável:

Os sobreviventes, em vez de se atirarem no chão tentaram voltar à praça e o pânico deu uma rabanada de dragão, e os mandou numa onda compacta contra a outra onda compacta que se movimentava em sentido contrário, despedida pela outra rabanada de dragão da rua oposta, onde também as metralhadoras disparavam sem trégua. Estavam encurralados, girando num torvelinho gigantesco que pouco a pouco se reduzia ao seu epicentro, porque os seus bordos iam sendo sistematicamente recortados em círculo, como descascando uma cebola, pela tesoura insaciável e metódica da metralha. O menino viu uma mulher ajoelhada, com os braços em cruz, num espaço limpo, misteriosamente vedado aos disparos. Ali o colocou José Arcádio Segundo no instante de cair com a cara banhada em sangue, antes que o tropel colossal arrasasse com o espaço vazio, com a mulher ajoelhada, com a luz do alto céu de sêca e com o puto mundo onde Úrsula Iguarán tinha vendido tantos animaizinhos de caramelo. (p. 270)

A referência à venda de animaizinhos de caramelo informa sobre a perplexidade das vítimas pelo fato de se deparar com a catástrofe num cenário marcado por lembranças de um cotidiano apassível e delicado. O massacre marca então um antes e um depois. A memória da inocência violentada na hora da carnificina e a memória posterior da própria carnificina.

É o olhar do menino desde a clareira protegida das balas que nos informa do desvanecimento de José Arcádio Segundo, que desmaia e só acorda num vagão do trem que carrega milhares de mortos. Então percebe a amplitude da matança ocorrida em Macondo:

[…] tentando fugir do pesadelo, José Arcádio Segundo arrastou-se de um vagão a outro […] via os mortos homens, os mortos mulheres, os mortos crianças […] Quando chegou no primeiro vagão deu um salto na escuridão e ficou estendido em uma vala até que o trem acabou de passar. Era o mais comprido que já tinha visto, com quase duzentos vagões de carga e uma locomotiva em cada extremo e uma terceira no centro. Não tinha nenhuma luz, nem sequer os faróis vermelhos e verdes de disposição, e deslizava numa velocidade noturna e sigilosa. Em cima dos vagões se viam os vultos escuros dos soldados com as metralhadoras preparadas. (GARCÍA MÁRQUEZ, 1971: p. 271)

José Arcadio Segundo caminha mais de três horas embaixo de um aguaceiro torrencial e então avista uma casa na qual é recebido pela proprietária que fica assustada ao vê-lo, pois ele parece ter sido tocado pela solenidade da morte (p. 271-272). Ele comenta com a mulher que devem ter sido três mil mortos e a mulher nega dizendo que desde o tempo do coronel que não acontece nada em Macondo (p. 272). Depois ele passa em 3 casas onde lhe dizem a mesma coisa: Não houve mortos (p. 272).

José Arcádio Segundo enclausura-se no silêncio, retorna à sua casa e esconde-se no quarto de Melquíades. Mas em uma noite de fevereiro seis oficiais invadem a casa de Úrsula, revistam cômodo por cômodo. Os oficiais entram na oficina de ourivesaria, onde José Arcádio Segundo está sentado e não o veem, retomando o contexto de realismo maravilhoso. Eram mais de três mil – foi tudo quanto disse José Arcádio Segundo –. Agora estou certo que eram todos os que estavam na estação. (p. 276)

Josefina Ludmer, que elaborou uma interpretação sobre Cem anos de solidão, analisa a estrutura narrativa na sequência de vinte capítulos que compõem o romance: os dez primeiros narram a mesma história que os dez últimos, de uma forma invertida, com avanços de movimento entre presente e passado (1989). Segundo esse esquema, o relato do massacre, no décimo quinto capítulo, daria início ao desenlace. Nesse sentido reconhecemos a centralidade da matança dentro dessa estrutura, mas também reconhecemos nele uma centralidade do ponto de vista semântico: a partir desse episódio, começa uma chuva que dura 4 anos, 11 meses e 2 dias e tudo apodrece, a narrativa anda para trás. O personagem sobrevivente afirma que seu único medo é ser enterrado vivo e Santa Sofía de la Piedad garante que irá lutar para estar viva até além de suas forças, para assegurar-se de que só o enterrariam morto (p. 276) e depois ele dedica-se a iniciar a interpretação dos pergaminhos que revelarão a própria história da família Buendia.

Trauma. História e Literatura

Essa improvável recordação que abre o nosso trabalho, relatada por Gabriel García Márquez ao seu biógrafo e considerada pelo escritor como a primeira lembrança infantil, talvez seja uma chave para compreender a poética do escritor e os vínculos dessa poética com a história de América Latina. Mas talvez seja também uma chave para nos aproximarmos às complexas relações entre trauma, história e literatura.

As motivações íntimas do escritor coincidem com as dos leitores. O genocídio e o seu ocultamento é uma experiência compartilhada em nosso continente. O exercício da escrita e da leitura pode ser uma tentativa de elaborar coletivamente o luto por essa perda. Porque à onipresença da morte, a realidade exasperada da morte, deve-se somar a censura do seu relato, a sua negação.

Mas, porque a ficção? Será que só a ficção literária pode dar conta, na batalha das narrativas, de enfrentar a ficção oficial? Lembremos que, para o acontecido em Aracataca, o Estado e a Companhia também construíram uma ficção. Esse relato tem, também ele, uma poética de morte. Pensemos, por exemplo, que a versão do exército falava em nove cadáveres, um por cada reivindicação dos grevistas.

Para relatar o episódio, García Márquez mantém o narrador em terceira pessoa que utiliza do começo ao fim do romance. O ponto de vista, porém, muda: passa de José Arcádio Segundo, um dos organizadores da greve, a um menino que foi alçado por este acima do mar de cabeças. A mudança, parece-nos não apenas um recurso que permite o impossível: um olhar panorâmico que não houve. A historiografia conseguiu, pela coleta de testemunhos de sobreviventes, reconstituir muitos dos detalhes do episódio, mas as informações fragmentadas não permitiram observar o conjunto. Por esse motivo as vítimas sobreviventes pouco puderam ajudar na determinação do número de mortos. Essa é uma informação que apenas os que recolheram os cadáveres poderiam dar e, mesmo eles, sofriam a ameaça de repressão caso revelassem o que tinham visto. Segundo Lyotard, o encontro com o real, no caso das testemunhas de uma catástrofe, é de antemão perdido, porque não se dá no registro de uma consciência soberana (apud SELIGMANN-SILVA, 2000: p. 86).

O olhar da criança podia manter, até certo momento, um registro dos detalhes, na medida em que, na sua inocência, sua falta de experiência, não associava os acontecimentos com a morte. Era, talvez, o seu primeiro contato. A sua posição espacial e o seu olhar, eram, portanto, os de uma testemunha privilegiada. Mas, também por esse motivo, a morte deu-lhe em cheio: uma morte inaugural, digamos, e ao mesmo tempo tão excessiva. De uma vez perde a mãe e o mundo conhecido e tranquilo, onde comprava animaizinhos de caramelo. Produz-se uma quebra de confiança (SELIGMANN-SILVA, 2001: p. 106) em tudo aquilo que até então parecia amigável. A infância é o ideal da condição em que se encontra a vítima do trauma. Como esse personagem, também o menino Gabriel García Márquez viu passar os soldados, que o cumprimentaram, e ele os olhou com a inocência de quem não percebe o passo da morte frente à porta da casa familiar. Como o personagem, também Gabriel García Márquez foi afastado da mãe logo depois de nascer. O testemunho do menino, já crescido, será desqualificado como delírio ou ficção. O menino observa também a “morte”, o desmaio, de José Arcádio Segundo. E, então, também ele, o menino, desaparece do relato. Há uma perda de sentido, da consciência e, portanto, da capacidade de testemunhar.

O relato em tempo real, essa memória do detalhe, da minúcia, não coincide com o registro geral do romance. As quatro páginas que relatam o episódio são como uma pedra engastada no texto. A imagem coincide com uma descrição do trauma que Márcio Seligmann-Silva faz: como uma espécie de quisto autônomo que representa um núcleo duro resistente à simbolização e ao significado (2001: p. 109). A escolha do registro coincide com as “exigências” do texto testemunhal: a literalidade na volta à cena traumática, porque a generalização supõe o exercício da abstração, da universalização que é impossível (SELIGMANN-SILVA, 2000). Como incluir tal excesso num modelo explicativo, num modelo de representação universal e numa cronologia que hierarquize os acontecimentos e selecione o essencial? Essa memória exasperada do detalhe é resultado de uma consciência não soberana justamente porque o sujeito que pretende conhecer é também objeto, vítima da violência. O sobrevivente precisa guardar todos os detalhes para “tempos melhores”, se houver, para quando estiver em condições de pensar racionalmente sobre o sucedido. Então, como Funes el memorioso, personagem do relato de Borges (in: BORGES, 1995), lembra absolutamente de tudo. E, para se recordar dos acontecimentos, precisa tanto ou mais tempo que para vivê-los. Por isso o relato em tempo real. Mas o presente do acontecimento traumático é um presente que desborda e se expande para o passado e para o futuro, impregnando todas as lembranças e se constituindo na única realidade. Instaurando um tempo onde os acontecimentos não arredam pé, não mais nos furtam da sua presença permanente: Estar no tempo ‘pós’-catástrofe significa habitar estas catástrofes (SELIGMANN-SILVA, 2000: p. 103). Nas catástrofes, os relógios param. Mais do que lembrado o trauma é re-vivido.

O massacre da companhia bananeira, de alguma maneira, “ilumina” e atribui um sentido para acontecimentos anteriores. A introdução de novas tecnologias por fim mostra a sua face sinistra nas metralhadoras. Impregna de desconfiança a aproximação a inventos inofensivos que haviam produzido fascinação como o gelo mantido em meio ao clima tropical de Macondo, apresentado como atração de circo, ou a pianola que animava as festas de adolescentes casadeiras. O progresso traz junto a destruição. A ação humana sobre a natureza só traz a catástrofe. Do desvio dos rios ao massacre. Do primeiro zigurat à bomba neutrônica. A naturalização do universo mágico da tradição e a perplexidade perante a introdução daquilo que vem da racionalidade europeia, procedimentos próprios do realismo maravilhoso para colocar de ponta cabeça o discurso que opõe civilização e barbárie, parece o recurso adequado para falar da realidade latino-americana. A ação humana sobre a natureza só resulta em ruína. A chuva que todo apodrece. A chuva de 4 anos, 11 meses e 2 dias é um choro comprido que está interditado aos sobreviventes pelo ocultamento e a censura. A partir dessa ação da companhia bananeira, Macondo caminha para o deterioro. A natureza recupera o que lhe foi tirado. O tempo passa, mas nem tanto, diz Úrsula.

O sobrevivente é uma espécie de morto/vivo que nem sequer é “visto” pelas forças de repressão. A partir daquele momento, José Arcádio Segundo, dedica-se a decifrar os pergaminhos. Os pergaminhos estão escritos em sânscrito. Eles contêm uma mensagem encriptada. O trauma também fica encapsulado na memória, inscrito nela como um túmulo onde permanece como algo que conhecemos, mas nos “esquecemos” dele… (SELIGMANN-SILVA, 2001: p. 112). O seu conteúdo não se descola de uma concretude que não admite simbolização e nem sentido. Para atribuir significado é preciso desencriptar esse material, como se tratássemos com uma escrita cifrada. Nos pergaminhos está o sentido de todos os fatos da família Buendía, de Macondo, da Colômbia, da América Latina, de toda a história humana… O deciframento dos pergaminhos permite, ao penúltimo da espécie, organizar os fatos, dar a eles um sentido, conhecer a origem, a falha de origem, o “pecado original” que provocou a queda, a expulsão do paraíso, da Arcádia, da Idade Áurea, à estirpe dos Arcádios e Aurelianos, e que os levará à sua ruína. Esse deciframento se dá pela escrita e a leitura:

A literatura está na vanguarda da linguagem: ela nos ensina a jogar com o simbólico, com as suas fraquezas e artimanhas. Ela é marcada pelo “real” e busca caminhos que levem a ele, procura estabelecer vasos comunicantes com ele. Ela nos fala da vida e da morte que está no seu centro […], do visível da sua moldura que não percebemos no nosso estado de vigília e de constante Angst – diante do pavor do contato com as catástrofes externas e internas.

De certo modo podemos afirmar que a literatura é também uma porteira da cripta. Uma figura que tanto vem “de dentro” como está “fora”, diante da cripta, de costas para ela. Essa cripta evidentemente – assim como a noção forte de “real” – possui a mesma característica da concepção freudiana de Unheimlich: como algo de familiar que não pode ser revelado. O que pode habitar este túmulo senão o próprio histórico? (SELIGMANN-SILVA, 2001: p. 112.)

O retorno aos fatos, à “realidade tal como ocorreu”, é ao mesmo tempo uma necessidade e uma impossibilidade. A ficção de García Márquez, um membro da segunda geração da grande matança de Aracataca, é uma tentativa. Sua poética não pode ser separada dessa intenção: Como contar uma realidade pouco crível […] como suscitar a imaginação do inimaginável a não ser elaborando e trabalhando a realidade, colocando-a em perspectiva? (SELIGMANN-SILVA, 2001: p.95), é preciso criar uma poesia que [tente] criar uma “sepultura do texto”, literalmente: enterrar os mortos (p. 97).

A representação ficcional da catástrofe parece, por outro lado, justificada pelo escamoteio da história. Poderíamos preencher as lacunas da historiografia pelo recurso à ficção. De fato, ante a controvérsia a propósito do número de mortos, Cem anos de solidão tem contribuído a fixar uma cifra hoje aceita como verdadeira pelo senso comum. Como chegou a ela García Márquez? Aparentemente, segundo confessou ao seu biógrafo, por um procedimento caprichoso em que calculou os cachos de banana que caberiam em cada vagão, multiplicou pelo número de vagões e substituiu os cachos de banana por cadáveres (SALDÍVAR, 2000: p. 57). Ao cinismo oficial, que reconheceu nove cadáveres, um por cada uma das reivindicações dos grevistas, o escritor responde com outra ficção, onde o número 3 também se repete: José Arcádio Segundo caminha 3 horas embaixo da chuva torrencial, passa por 3 casas e diz que os mortos foram 3 mil. A chuva se prolonga por 4 anos, 11 meses e 2 dias.

Fixando uma cifra grande parece que a ficção dá ideia de uma desmessura que a violência, ainda que fosse contra um único corpo, já instalou. Como escreve Borges: são 14, são infinitos (in BORGES, 1957: p. 69). É preciso dizer de alguma maneira que o universo, por essa ação, que é humana, ficou incompleto. Mas acontece também que o ocultamento, mais de 3 décadas após massacre, fez proliferar os cadáveres de maneira fantasmagórica. Chegar a um número, qualquer que seja, também deve ter alguma coisa de “tranquilizador”, porque é acotar, pôr um limite.

O distanciamento favorecido pelo espelho ficcional permite olhar para os fatos, refletir sobre eles sem que a angústia nos faça “perder o sentido”. Talvez a necessidade de luto seja a razão para o relato. Talvez tenha sido o motivo pelo qual o menino Gabo, muitos anos depois, perante o papel em branco, recordaria que uns soldados o cumprimentaram ao passar pela porta da casa dos seus avôs maternos, onde ele estava sentado. Essa lembrança improvável, acordada por infinidade de relatos familiares, talvez tenha sido motivo da sua literatura, como a reconhece Márcio Seligmann-Silva, porteira da cripta.

 

Referências

BORGES, Jorge Luis. “La casa de Asterión” in: __________. El Aleph. Buenos Aires: Emecé, 1957.

__________. “Funes el memorioso” in: Artificios. 2ª.Ed. Madri: Alianza, 1995.

GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. La Hojarasca. Buenos Aires: Sudamericana, 1969.

__________. Cem anos de solidão. 5a. Ed. Rio de Janeiro: Sabiá, 1971. Trad. Eliane Zagury.

SALDÍVAR, Dasso. Gabriel García Márquez. Viagem à semente. Uma biografia. Rio de Janeiro: Record, 2000. Trad. Eric Nepomuceno.

SELIGMANN-SILVA, Márcio. “A história como trauma” in: NETROVSKI, Arthur e __________ (orgs.). Catástrofe e Representação. São Paulo: Escuta, 2000.

__________. “Literatura e trauma: um novo paradigma” in: Rivista di Studi Portghesi e Brasiliani n III, 2001

 

[1] KAREN GARCÍA DELAMUTA é Graduada em Letras Português e Espanhol e em Letras Português e Inglês pelo CEUCLAR. Especialista em Crítica e Teoria Literária pela UNESP.  Latteshttp://lattes.cnpq.br/5748066498944194  
[2] PRISCengelILA ENGEL é Graduada em Letras – Português e Espanhol do CEUCLAR e Especialista em Ensino do Português pelo CEUCLAR. Latteshttp://lattes.cnpq.br/1868806229560478

[3] adoueSILVIA BEATRIZ ADOUE é Mestre em Integração da América Latina pelo PROLAM-USP, professora do curso de Letras- Português e Espanhol do CEUCLAR e Doutora em Letras pela FFLCH-USP. Latteshttp://lattes.cnpq.br/7689349985474087

[4] Publicado na REA, n. 74, julho de 2007, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/074/74adoue.htm

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3 comentários sobre ““Cem anos de solidão” e o massacre de Aracataca

  1. EXCELENTE TEXTO INCLUINDO O OPORTUNO COMENTÁRIO DE REGINA MACHADO. AMBOS RESSALTAM A IMPORTÂNCIA DA FICÇÃO NO RESGATE HISTÓRICO. PARABÉNS PELA PUBLICAÇÃO.

  2. Além desta releitura enriquecedora dos Cem anos de solidao lidos ha décadas e quase esquecidos, esta reflexao sobre literatura e historia também leva a novas associaçoes. Quando vocês notam que “O genocídio e o seu ocultamento é uma experiência compartilhada em nosso continente”, a gente se lembra de tantos episodios escamoteados pelo ensino da historia nacional, desacreditada por se limitar a episodios “da côrte”, de personagens oficiais e descoloridos, e que ocultava o sangue e a vida do nosso passado, que pulsavam envenenados porque escondidos em nossas veias negadas. A nao transmissao da nossa violência fundadora através de uma historia expurgada, certamente permite a repetiçao dessa violência, mas também nos rouba uma relaçao amplamente humanizada com nossas raizes.

    Entre os episodios apenas mencionados nos anos de formaçao, cuja dramaticidade e importância so descobri através da ficçao, estariam por exemplo, as revoltas negras na Bahia, Malês, Alfaiates, etc., a Revolta da Chibata, isso sem falar daqueles cuja palavra jamais chegou até nos, como os indios eliminados pela variola que contaminava as roupas ofertadas pelos colonizadores, e tantos, tantos outros.

    Uma revolta que ai esta aguardando um relato que a tire dos opacos registros da época, é a historia do “O Quebra-quilo – A revolta dos matutos contra os doutores”, salvada do esquecimento por Geraldo I. Joffily com material de jornais da época, com detalhes que permitem imaginar o dia a dia dos feirantes que de repente tinham que pagar um inacreditavel “imposto do chao” para poder plantar a barraca e vender suas hortaliças, imposto associado a manipulaçoes dos detentores do poder e do saber que os despojavam do pouco que tinham:

    “Parece evidente que a subvlevação foi despertada no seio das camadas populares pelo ódio aos impostos e a execução da lei de recrutamento, e especialmente à lei que estabelecia os pesos e medidas do sistema decimal… Afirma-se com fundamento que a execução do decreto que estabeleceu as medidas e os pesos do sistema métrico decimal, deu oportunidade a que negociantes desonestos se locupletassem com os haveres dos pobres e ignorantes matutos. Os nossos camponeses estavam acostumados à medida de vara, com bitola de cinco palmos, facilmente aferível à mão de cada qual ; como a libra de 450 gramas, equivalente ao peso de alguns dobrões de quarenta réis, e com as tigelas portuguesas…”

    Este movimento vem associado a outros, como a “revolta popular contra a lei censitária de 1852, chamada « lei do cativeiro », movimento que ficou conhecido na crônica local pelo nome de « Ronco da Abelha » (I.Joffily, Notas sobre a Paraíba, 1892)” Esse relato consegue aquilo que geralmente so a ficçao descobre, inverter a visao oficial de uma população ignorante, que tinha confiança no registro dos livros paroquiais, mas nao nos cartorios por mera superstiçao. Ora, os cartorios, no levantamento de Joffily, aparecem como sendo dominados pelos fazendeiros e criadores de escravos, que podiam manipulá-los e registrar como escravos homens livres. Outra variante pouco conhecida é a cor dos homens escravizados, que nao eram apenas negros, mas caboclos, cabras, mestiços de todas as cores

    Mas falta a magia da ficçao para tirar da sombra a dimensao épica da nossa historia. Outros “Vivas ao povo brasileiro” hao de vir, pois como traz o seu excelente artigo, “Como contar uma realidade pouco crível […] como suscitar a imaginação do inimaginável a não ser elaborando e trabalhando a realidade, colocando-a em perspectiva? (SELIGMANN-SILVA, 2001: p.95), é preciso criar uma poesia que [tente] criar uma “sepultura do texto”, literalmente: enterrar os mortos (p. 97).”

  3. Excelente estudo, excelente texto, digno das páginas do Professor Antonio Ozaí. Parabéns!

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