Outro Nietzsche – Arte, Cinema e Palavras

UBIRACY DE SOUZA BRAGA*

Há homens que já nascem póstumos”.
Friedrich Nietzsche

Friedrich Wilhelm Nietzsche foi um filólogo, filósofo, poeta e compositor alemão do século XIX. Escreveu vários ensaios críticos sobre a religião, a moral, a cultura contemporânea, filosofia e ciência, exibindo uma predileção por metáfora, ironia e aforismo (cf. Kaufmann, 1974). Metodologicamente as ideias-chave de Nietzsche incluem a dicotomia apolíneo/dionisíaca, a vontade de poder (cf. Nietzsche, 2005; 2009; cf. Bataille, 1967), a “morte de Deus”, que no filme acontece numa sala de aula onde ele ensina que Deus está morto, o Übermensch e eterno retorno. Sua filosofia tem como representação (αντιπροσώπευση) a ideia de “afirmação da vida” (“Bejahung des Lebens”). Envolve o ente de qualquer doutrina que drene uma expansiva de energias. Sua influência continua a ser substancial, compreendendo ideias em torno do existencialismo, pós-modernismo, pós-estruturalismo e modernidade. Reivindica a herança do Iluminismo, particularmente a de Voltaire, sobretudo, por causa de sua recusa ao Cristianismo (cf. Valadier, 1982).

Agora Nietzsche contamina a reflexão crítica na Sétima Arte. O trágico sempre será afirmativo e não reativo. O reativo, dialético, é simplesmente conservação de força frente ao inesperado. Que precisa do controle e da submissão daquele que é atingido pelo inusitado. O trágico afirma-se na consciência plena do acaso como constituinte da própria realidade e o “cosmiza” ativamente e não reativamente. O trágico não só afirma a necessidade a partir do acaso, como afirma o próprio acaso. Não só afirma a ordem a partir da desordem, como afirma a própria desordem. Não só afirma o cosmos a partir do caos, como afirma o caos. Reitera, sobretudo, o próprio devir. Essa é a grande inversão de Nietzsche. Que tira do pensamento qualquer pressuposição de sentido e valor, para construí-los a partir do “jogo de forças” visando expansão de potência. A tese de Nietzsche em relação ao pensamento ocidental pressupõe que o sentido e valor já uma é “Vontade de Potência” (“Der Wille zur Macht”), se afirmando como força e moldando os agentes a reagirem contra aquilo que constitui a realidade: a falta de valor em si e sentido próprio.

O mundo, para Nietzsche, não é ordem e racionalidade, mas desordem e irracionalidade. Seu princípio filosófico não era, portanto, Deus e razão, mas a vida que atua sem objetivo definido, ao acaso, e, por isso, se está dissolvendo e transformando-se em um constante devir. A única e verdadeira realidade “sem máscaras”, para Nietzsche, é a vida humana tomada e corroborada pela vivência do instante. Nietzsche era um crítico: a) das “ideias modernas”, b) da vida social e da cultura moderna, c) do neonacionalismo alemão, e, para sermos breves, d) Para ele, os ideais modernos como democracia, socialismo, igualitarismo, emancipação feminina não eram senão expressões da decadência de determinado “tipo homem”. Por estas razões, é, por vezes, apontado como um precursor da concepção de pós-modernidade. A figura de Nietzsche foi particularmente promovida na Alemanha Nazi, num processo político mediante o qual você opta, mas não decide, tendo sua irmã, simpatizante do regime, fomentado esta associação. Como dizia Heidegger, ele próprio nietzschiano, “na Alemanha se era contra ou a favor de Nietzsche”.

Durante toda a vida, tentou explicar o insucesso de sua literatura, chegando à conclusão de que “nascera póstumo”, para os leitores do porvir. O sucesso de Nietzsche, entretanto, sobreveio quando um professor dinamarquês leu a sua obra: “Assim Falou Zaratustra” (cf. Nietzsche, 1968) e, então, tratou de difundi-la, em 1888. Em 3 de janeiro de 1889, Nietzsche sofreu um colapso mental. Teria testemunhado o açoitamento de um cavalo no outro extremo da Piazza Carlo Alberto. Então correu em direção ao cavalo, jogou os braços ao redor de seu pescoço para protegê-lo e em seguida, caiu no chão. Nos dias seguintes, Nietzsche enviou escrito breve conhecido como: “Wahnbriefe” em português: “Cartas da loucura” – para um número de amigos, entre eles, Cosima Wagner, filha do pianista húngaro Franz Liszt com a Condessa Marie d`Agout e Jacob Burckhardt, historiador, filósofo da história e da cultura suíça, autor de importantes obras sobre a cultura e história da arte. Muitas destas cartas foram curiosamente assinadas “Dionísio”. Embora a maioria dos comentaristas considere seu colapso como alheios à sua filosofia, Georges Bataille (1967) chegou a insinuar que sua filosofia pudesse tê-lo enlouquecido e a psicanálise “post-mortem”, de René Girard, postula uma “rivalidade de adoração” com Richard Wagner.

Não queremos perder de vista que “Quando Nietzsche Chorou” é o primeiro romance do psicoterapeuta e professor Irvin D. Yalom que mescla elementos reais com a ficção. O romance é parcialmente baseado em fatos reais. Obra que traça paralelo entre ficção e realidade e apresenta personagens históricos como Josef Breuer, um dos pais da psicanálise, o jovem Sigmund Freud e o filósofo Nietzsche. No último quartel do séc. XIX em Veneza, no café Sorrento, tem lugar um encontro entre o médico austríaco, Josef Breuer e a insinuante jovem russa Lou Salomé, que promoveu uma série de outros encontros entre aquele e Friedrich Nietzsche. Explicadas as motivações tecidas à volta de um triângulo amoroso entre si, Paul Reé e Nietzsche, e porque a humanidade não poderia arriscar-se a perder o seu mais promitente filósofo. Lou materializa a primeira entrevista dele com Breuer, por intermédio do amigo comum Overbeck, com vista à descoberta da origem do mal que vinha atacando o filósofo.

Josef Breuer é procurado por Lou Salomé, interpretada por Katheryn Winnick (foto) a jovem russa e bela que está apaixonada intelectualmente por Nietzsche, mas não fisicamente. Relação contrária, expressa no filme: “Nine ½ Weeks”, dirigido por Adrian Lyne (EUA, 1986), quando Elizabeth conheceu John, ela era inteligente, sofisticada, com o controle de sua própria vida. Intrigada pela personalidade enigmática e distante de John, ela mergulha em um relacionamento de pura sensualidade que se intensifica tornando-se um pesadelo erótico de fantasia e dominação. Logo Elizabeth precisará escolher: entre seus desejos e sua sanidade mental. O filósofo Nietzsche, entretanto, se apaixona por ela, fisicamente, mas não é correspondido. Então, escreve cartas onde a propensão suicida é evidente. Lou Salomé pede a Breuer que não lhe aplique o “mesmerismo”, fraude médica do século 18 desenvolvida por Franz Anton Mesmer.

Mas sim “a cura pela fala” e que o convença de que viver vale a pena. É curioso notar que quando Salomé entra no consultório de Breuer, ela posiciona um livro de forma a arrumá-lo como os outros. A sua atitude dominadora também salienta o quanto ela quer o mundo “girando em torno de seus desejos” (“revolving around her desires”), inclusive o de curar Nietzsche que se deixa examinar por Breuer. Fica evidente que suas dores físicas são psicossomáticas quando ele diz que “está grávido de Zaratrusta” (“Zarathustra ist schwanger”), seu suntuoso libelo, considerado pelos niilistas o quinto Evangelho. É fácil verificar que Zaratrusta define a vida de Nietzsche. Sua solidão diante da incompreensão das pessoas a respeito de suas ideias. Breuer diz a Nietzsche que “uma vida dominada por fases obscuras leva ao desespero” (“a life dominated by dark phases leads to despair”).

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Nietzsche médico das almas, cruel cirurgião da mente, tendo penetrado nos labirínticos meandros da psique de Breuer, lhe desperta a força da idiossincrasia própria de um ser irrepetível e único (cf. Safranski, 2005a), pelo que começa a sentir-se como o caçador caçado. Nietzsche, a maior parte do ano doente, acossado por doenças do foro psiquiátrico acompanhadas de graves manifestações somáticas, era um homem deprimido. A atravessar desertos de solidão. Uma solidão altiva, desejada, própria dos fortes. A sua imaginação febril, afetada pelo rompimento com Wagner, ficou fundamente abalada com as notícias da irmã Elizabeth sobre o que Lou fazia correr sobre ele na sociedade. A traição de novo a corroer-lhe as entranhas. Está condenado a viver só com o seu mal. Longe do mundo e dos homens.

Voltaria a galgar o alto Engadine de onde administraria na companhia de sua querida e orgulhosa dor o vasto e exclusivo império do seu EU: tanto mais robusto quanto mais sofrido. Fascínio de consciência (cf. Braga, 2012) que se revela quando ele se coloca no lugar de quem será tratado buscando a empatia de Nietzsche ao ponto dele mesmo querer revelar sua intimidade. O processo de transformação da relação deles é “dialeticamente trágico”, para lembramos de leitura de Safranski (2005b), uma vez que conseguimos depreender Breuer lentamente sendo o paciente de fato nas sessões de terapia.

 

III_Quando_Nietzsche_chorouFicha Técnica.
Título: “When Nietzsche Wept”.
Ano produção: 2007.
Dirigido por Pinchas Perry.
Duração: 105 minutos.
Gênero: Drama.
Trilha Sonora: excertos de óperas citadas: “A Valquíria”, de Wagner; “Carmen”, de Bizet; foram citadas também as composições “Danúbio Azul” e “Assim Falou Zaratustra”, de Strauss. País de origem: EUA.

Bibliografia geral consultada:

Cf. “Hynnus an das Leben” per coro e orchestra (1813) del Conservatorio di Como. In: Università popolare di musica di Como; BRAGA, Ubiracy de Souza, “Verdes, mas Maduros: A Dialética Trágica do Rio+20”. Disponível em: http://httpestudosviquianosblogspotcom/2012/06/19/; Idem, Outro Sartre: Amor, Cinema & Política”. Disponível em: http://estudosviquianos.blogspot.com.br/2012/09/; BATAILLE, Georges, Sur Nietzsche: volonté de chance. Paris: Éditions Gallimard, 1967; FREUD, Sigmund, Obras Completas. Madrid: Editorial Biblioteca Neuva, 1972; KAUFMANN, Walter, Nietzsche: Philosofer, Psychologist, Anticrist. Princeton University Press, 1974; HARTMANN, N., A Filosofia do Idealismo Alemão. Lisboa: Kalouste Gulbenkian, 1976; VALADIER, Paul, Nietzsche y la critica del cristianismo. Madrid: Ediciones Cristiandad, 1982; HÉBER-SUFFRIN, Pierre, O Zaratustra de Nietzsche. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1991; COLLI, Giorgio, Scritti su Nietzsche. 4. ed. Milano: Adelphi, 1995; SOUZA, Paulo César de, Freud, Nietzsche e outros alemães: artigos, ensaios, entrevistas. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1995; ARALDI, Clademir L., Niilismo, criação, aniquilamento: Nietzsche e a filosofia dos extremos. São Paulo: Discurso Editorial; Ijuí, RS: Editora UNIJUÍ, 2004; NIETZSCHE, Friedrich, Così parlò Zarathustra. A cura di Giorgio Colli e Mazzino Montinari. Milano: Adelphi Editore, 1968; Idem, Sabedoria para depois de amanhã. São Paulo: Martins Fontes, 2005; SAFRANSKI, Rüdiger, Heidegger et son temps. Paris: Livre de poche, 2000 (Grasset, 1996); Idem, Heidegger – Um mestre da Alemanha entre o bem e mal. São Paulo: Geração Editorial, 2005a; Idem, Nietzsche. Biografia de uma Tragédia. São Paulo: Geração Editorial, 2005b, entre outros.

 

*bragaUBIRACY DE SOUZA BRAGA éSociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará.

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2 comentários sobre “Outro Nietzsche – Arte, Cinema e Palavras

  1. “Assim Falou Zaratustra”, obra que chegou a mim, não sei porque…. e ficará para sempre, até o fim de meus dias…
    Vou a Alemanha, só para ver e conhecer de perto seu museu…
    Nada é diferente, tudo acontece, com o homem…
    Nas entrelinhas de suas lapidações, tudo se vê, tudo se sente… Nietzsche para sempre…

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