Carta aberta à Capes – Em defesa da liberdade acadêmica e das ciências humanas e sociais

do_generic_poPor que isto é importante*

Frente ao ocorrido no Edital Procad 071/2013, da CAPES – a subscrição pela CAPES de um parecer de mérito sem substância, preconceituoso e ideológico, amplamente denunciado pelos pesquisadores da UnB, UERJ e UFRN da área de Serviço Social atingidos –, e ao baixíssimo número de projetos das Ciências Humanas e Sociais aprovados, os abaixo-assinados, grupos de pesquisa, pesquisadores individuais, instituições universitárias, associações científicas e da sociedade civil, extremamente preocupados com os rumos da pesquisa social no Brasil, vimos por meio deste manifestar nossa posição. Ao final, apresentamos algumas reivindicações:

1- É inaceitável que uma agência pública do Estado democrático e republicano brasileiro subscreva pareceres ideológicos, tendenciosos, superficiais e inconsistentes, que se fundamentem no questionamento da opção teórica metodológica adotada em projetos de pesquisa, sem nenhum fundamento plausível, o que expressa uma visível prática ideológica;

2- O patrulhamento ideológico não é somente contra o marxismo, mas, também contra a dialética, um saber que, como disse Hegel, vagou por dois mil anos e foi reconstruído na Filosofia Moderna. A maioria dos projetos sobre dialética são renegados, ainda que não se refiram diretamente ao marxismo. Fato este que deveria envergonhar, pela ignorância e pelo preconceito, os pareceristas da CAPES e de outras entidades de pesquisa fomentadas pelo Estado.

3- Uma agência pública que tem por missão coordenar o aperfeiçoamento da pós-graduação e da produção de conhecimento no Brasil tem a obrigação e responsabilidade de reconhecer a ciência e a produção científica das diversas áreas de conhecimento e das diferentes abordagens metodológicas utilizadas, sem preconceito, ou cerceamento ideológico, reconhecendo a pluralidade de ideias e métodos como um requisito para a liberdade e igualdade, assegurados pela Constituição Federal;

4- A abordagem teórico-metodológica fundada na tradição marxista, no campo das ciências humanas e sociais, e adotada, ontem, por importantes pensadores brasileiros e, hoje, por inúmeros pesquisadores, grupos de pesquisa e presente nos projetos pedagógicos de importantes cursos de graduação e pós-graduação, deve ser respeitada e não ser objeto de cerceamento ideológico. Impõe-se reconhecer que a liberdade de expressão, de pensamento e decisão teórico-metodológica na atividade de pesquisa são conquistas democráticas fundamentais da vida social e acadêmica no Brasil contemporâneo, a não ser que estejamos retornando ao obscurantismo de 50 anos atrás. A CAPES, e nenhuma agência de fomento, tem o direito de selecionar projetos com base em argumentos ideológicos. Isso fere totalmente a isonomia, a liberdade de expressão e de opção teórica, metodológica e política asseguradas constitucionalmente. Estas são conquistas caras e recentes em nosso país e muitas gerações foram torturadas ou morreram lutando contra a ditadura, com suas queimas de livros e perseguição de pessoas, para assegurar o livre direito de pensar, de se manifestar e de fazer escolhas teórico-metodológicas e políticas.

5- Cerca de 90% dos projetos aprovados no Edital Procad 071/2013 são das ciências exatas e biomédicas, o que parece uma clara e injustificável discriminação institucional contra as áreas de conhecimento no campo das ciências humanas e sociais,

Considerando essas reflexões, inquietações e fatos objetivos, reivindicamos: reunião com a direção da CAPES, em caráter de urgência, para debater este problema e suas conseqüências institucionais, dentre as quais a pertinência do anonimato dos pareceres e a necessidade de bancas públicas, e que o Projeto “Crise do capital e fundo público: implicações para o trabalho, os direitos e as políticas sociais”, seja reavaliado com base no Edital, respeitando-se os critérios de isonomia e legalidade.

Assinam esta Carta**:

Equipe do Projeto “Projeto Crise do capital e fundo público: implicações para o trabalho, os direitos e as políticas sociais”

Universidade de Brasília – Proponente

Ivanete Salete Boschetti – Coordenadora

Evilásio da Silva Salvador

Rosa Helena Stein

Sandra Oliveira Teixeira

Maria Lúcia Lopes da Silva

 

Universidade do Estado do Rio de Janeiro – Participante

Elaine Rossetti Behring – Coordenadora

Marilda Vilella Iamamoto

Maria Inês Souza Bravo

Maurílio de Castro Matos

Mariela Becher

Tainá de Souza Conceição

Juliana Cislaghi Fiúza

 

Universidade Federal do Rio Grande do Norte – Participante

Rita de Lourdes de Lima – Coordenadora

Silvana Mara de Morais dos Santos

Andreia Lima da Silva

Maria Célia Correia Nicolau

Severina Garcia de Araujo

Ilka de Lima Souza

Miriam de Oliveira Inacio

Grupos e Núcleos de Pesquisa

Cemarx/Unicamp

Centro de Estudos Octávio Ianni – CEOI/UERJ

Colemarx -Coletivo de Estudos em Marxismo e Educação – Faculdade de Educação da UFRJ

Grupo de Pesquisa e Formação Sociocrítica em Educação Física, Esporte e Lazer – Avante-UnB/UnB

Grupo de Estudos Antonio Gramsci – UFGD

Grupo de Estudos e Pesquisa sobre Gênero, Política Social e Serviços Sociais – GENPOSS/UnB

Grupo de Ensino, Pesquisa, Extensão em Educação Popular e Estudos Filosóficos e Histórico Culturais – GENPEX

Grupo de Estudos e Pesquisas do Orçamento Público e da Seguridade Social – GOPSS/UERJ

Grupo MARXLUTTE – Grupo de estudos e pesquisas marxistas sobre Lúdico, Trabalho, Tempo livre e Educação – Departamento de Educacao Física / UEM-PR.

Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Seguridade Social e Trabalho /GESST

Grupo de Estudos e Pesquisa Gestão Democrática na Saúde e Serviço Social /UERJ

Grupo de estudos e pesquisas: “Teoria Social de Marx e Serviço Social” – Departamento de Serviço Social da UNESP-Franca

Grupo de Estudos sobre Marx – GMARX/USP

Grupo de Estudos e Pesquisas sobre o Trabalho – GET/UFPE

Grupo de Estudos e Pesquisas Trabalho, Ética e Direitos – GEPTED/UFRN

Grupo de Estudos e Pesquisas de Políticas de Educação Física, Esporte e Lazer – Observatório do Esporte – Unicamp

Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Superior/GEPES, Escola de Serviço Social/Universidade Federal Fluminense

Grupo de Estudos Marxistas – GEPM/UFRB

Grupo de Estudos Marxistas em Educação/UESC-BA

Grupo de Estudos Político-Sociais – POLITIZA/UnB

Grupo de Estudos e Pesquisa das Relações Sociais de Gênero e Feminismo- GEF da UERN

Grupo de Estudos e Pesquisa em Ontologia Critica – GEPOC – CED- UFSC

GRUPO DE ESTUDOS, PESQUISA E DEBATES EM SERVIÇO SOCIAL E MOVIMENTO SOCIAL do Departamento de Serviço Social – DESESS/UFMA

Grupo de Pesquisa “Filosofia, História e Teoria Social”- Unifal/MG

Grupo de Pesquisa “Implicações Metodológicas da teoria Histórico-Cultural”- UNESP/Marília

Grupo de Pesquisa Mundos do Trabalho na Amazônia – CNPq/UFAC

Grupo de Pesquisas sobre Poder Local, Políticas Urbanas e Serviço Social – LOCUSS/UnB

Grupo de pesquisa- Serviço social e espaços Socio-organizacionais- UFMT, Mestrado em Politica Social

Grupo de Trabalho Marx – Anpof

Grupo de Trabalho Marxismo e Ciências Sociais – Anpocs

Grupo LEPEL/UFBA

NEAM-Núcleo de Estudos e Pesquisas em Aprofundamentos Marxistas-NEAM-Programa de Pós-graduação em Serviço Social-PUCSP

Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas sobre Marx e o Marxismo – NIEP/MARX/UFF

Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre os Fundamentos do Serviço Social na Contemporaneidade – NEFSSC/UFRJ

Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Teoria Social, Trabalho e Serviço Social – NUTSS/UnB

Núcleo de Estudos e Pesquisas em Política Social – NEPPOS/UnB

Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Favelas e Espaços Populares -NEPEF/ UFF

Núcleo de Estudos Agrários, Desenvolvimento e Segurança Alimentar – NEAD/UnB

Núcleo de Estudo e Pesquisa Sociedade e Cidadania – NUPESC – PUC/GO

Núcleo de Pesquisas sobre Políticas Públicas, “Questão Social” e Serviço Social – NUPEQUESS/PPGSS/UFRJ

OBSERVATÓRIO DE POLÍTICAS PÚBLICAS E MOVIMENTOS SOCIAIS – Interdepartamental , vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas da UFMA

Programa de Estudos de Trabalho e Política da FSS/UERJ

Projeto Políticas Públicas e Saúde/UERJ

Associações Científicas, Entidades e Revistas

Associação de Professores da PUC/SP – APROPUC/SP

Associação Brasileira de Educadores Marxistas – ABEM

Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social – ABEPSS

Conselho Federal de Serviço Social – CFESS

Instituto Caio Prado Jr.

Revista Novos Temas

Revista Margem Esquerda

Programas de Pós-Graduação e Unidades Acadêmicas

Faculdade de Serviço Social – UERJ

Programa de Pós Graduação em Serviço Social e Direitos Sociais da UERN

 

* Assinar petição: https://secure.avaaz.org/po/petition/Presidente_da_CAPES_Jorge_Guimaraes_Assegurar_a_liberdade_de_escolhas_teoricas_teoricometodologicas/?launch

** Assinaturas em 05.06.2014, às 22hs.

Anúncios

7 comentários sobre “Carta aberta à Capes – Em defesa da liberdade acadêmica e das ciências humanas e sociais

  1. PRIMEIRO, é óbvio que devemos lutar contra a censura de ideias, contra a corrente teórica autoritária ou ponto de vista político-ideológico justificado enquanto medida tecno-burocrática da Capes. SEGUNDO, por outro lado também é preciso denunciar que por muitos anos nas universidades brasileiras o discurso dominante era marxista. Nada contra a teoria e o método desenvolvido por Karl Marx, mas sim, CONTRA um marxismo dogmático, ao estilo religioso, excludente do diálogo, inculto,- ainda praticado no Brasil. Este marxismo inculto e dogmático, herdeiro do sovietismo stalinista de gente que não lia Marx, mas sim seus comentaristas rasos (preciso citar os autores?) reproduziu um tipo de aluno ignorante em todos os sentidos. Este tipo de marxismo meio acadêmico excluia e estigmatizava muitos professores e pesquisadores competentes, ora por “não ser suficientemente marxista” (ainda influenciados pelo olhar stalinista-jvadovista, maoísta, etc). No contexto da Guerra Fria e das ditaduras de inspiração fascista na América Latina, eu mesmo fiz minha parte, primeiro como estudante do movimento estudantil, depois como professor iniciante na carreira. Qualquer discordância a gente rotulava de “fascista”, “reaça”, etc. Santre também usou deste estilo, pq na época parecia que o principal inimigo era os capitalistas, e não o stalinismo, maoísmo, etc. A esquerda assim se omitiu ou aplaudiu a invasão da Hungria, Tchecoslováquia, Afeganistão…
    TERCEIRO: Muitas vezes, na academia, ainda hoje onde os marxistas DOGMÁTICOS e raivosos são DOMINANTES (no sentido de P. Bourdieu) são usados dispositivos próprios do “habitus” acadêmico para queimar um colega como “neoliberal” (sem ser), ou NÃO convidar alguém competente para participar de uma banca de concurso ou de mestrado/doutorado. São usados manjados estratagemas para “vencer o oponente” como se ele fosse inimigo. Alunos são “criados” para agirem contra os professores não marxistas ou fazem pacto para ficar com cara de paisagem gelada diante de uma aula ainda que de esquerda mas não-marxista. Conheço professores que ficaram doentes com este tipo de boicote, assédio ou seja lá que nome dar a esta patologia ideológica. Pode causar mal-estar no docente dar uma aula sobre fenomenologia, psicanálise, Max Weber, Durkhein, Foucault, e obter apenas “cara de paisagem” da turma cabeça-feita por maxisttas dogmáticos, incapazes de autocrítica ou dialética. São traidores do sentido original marxiano: debater com argumentos lógicos ou históricos.. São de-formados alunos para saber argumentar, contra-argumentar ou debater com consistência e SERENINDADE. Ou seja, este tipo de aula delirante gera monstros aparentemente passivos. Ou ignorantes, aparentemente sabidos.
    QUARTO: Outro estratagema docente marxista-dogmágtico é rotular o “oponente” (falso inimigo) como sendo “idealista”, “reacionário”, “reformista”, “direitista”, “neoliberal” etc. Pode até ser um destes, mas e quando não for? Assim fez Sartre e sua mulher para com Albert Camus. E se for um marxista crítico genuíno dos erros do marxismo, deve ser queimado na inquisição do grupo? Ora, esse estilo inquisitorial foi e ainda é usado pelos marxistas para queimar aquele que apresenta melhor argumento sobre um assunto, que o cobertor teórico marxiano torna-se curto. Talvez estes marxistas dogmáticos aprenderam com a direita – fascista que muito sabe atuar no sentido da desqualificação, exclusão, estigmatização, etc. Ora, o fascismo pode ser de direita e de esquerda (ver meu escrito sobre este assunto na revista Espaço Acadêmico).
    Ainda, é preciso baixar a crista da arrogância epistemológica: a teoria de Marx não explica tudo. Assim, como a psicanálise – ou Freud – não explica tudo. E assim por diante.
    QUINTO: Tornou-se público pelo conhecido professor, escritor, divulgador da Teologia da Esperança, depois Teologia da Libertação, Rubem Alves ter sido discriminado por Frei Beto de um evento, POR NÃO SER SUFICIENTEMENTE MARXISTA. Também, muitos professores-pesquisadores da Escola de Frankfurt são contados por serem criticos ao marxismo dogmático, leninista-stalinista. Muita gente de esquerda foi barrada em concursos, bancas, grupos de pesquisa por não serem marxistas.
    Enfim, a falta de autocrítica entre marxistas brasileiros chega ser uma patologia acadêmica que causa mal inclusive ao próprio avanço do debate das ideias de Marx. Esta patologia tem como sintomas a incultura, a ignorância sobre outras concepções teóricas, a reprodução acrítica e sem contextualização das ideias marxianas, e o resultado são alunos discípulos fanatizados orientados pelo espírito de seita. Reclamar do autoritarismo da Capes deve passar pela autocrítica jamais feita pela esquerda marxista.

  2. É um absurdo e como professora doutora e trabalhando em educação há 44 anos reafirmo: A CAPES, e nenhuma agência de fomento, tem o direito de selecionar projetos com base em argumentos ideológicos. Isso fere totalmente a isonomia, a liberdade de expressão e de opção teórica, metodológica e política asseguradas constitucionalmente. Estas são conquistas caras e recentes em nosso país e muitas gerações foram torturadas ou morreram lutando contra a ditadura, com suas queimas de livros e perseguição de pessoas, para assegurar o livre direito de pensar, de se manifestar e de fazer escolhas teórico-metodológicas e políticas.

  3. Eu Maria Esperança Fernandes Carneiro, professora trabalhando na PUC/GO, com 44 anos de trabalho na educação em sala de aula sinto profundamente a discriminação dos pareceristas da CAPES e reafirmo o que segue: A CAPES, e nenhuma agência de fomento, tem o direito de selecionar projetos com base em argumentos ideológicos. Isso fere totalmente a isonomia, a liberdade de expressão e de opção teórica, metodológica e política asseguradas constitucionalmente. Estas são conquistas caras e recentes em nosso país e muitas gerações foram torturadas ou morreram lutando contra a ditadura, com suas queimas de livros e perseguição de pessoas, para assegurar o livre direito de pensar, de se manifestar e de fazer escolhas teórico-metodológicas e políticas. Goiânia, 08 de junho de 2014.

  4. Isto não é novidade na CAPES, no Regulamento do PROAP, Portaria 64 de 24/03/2010, os pesos para a distribuição de recursos para mestrados/doutorados é de 2/3 para áreas de Ciências Sociais, Aplicadas e Humanas, Letras e Artes; de 4/5 para Exatas e da Terra, da Saúde, Engenharia, Agrárias. Há outras e exceções, os detalhes podem ser vistos na portaria. Proposta: acabar com esta diferença entre as áreas, originadas em mentalidade desenvolvimentista.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s