“Precisamos falar sobre Kevin” e a vida sem respostas prontas

HÉRICKA WELLEN*

É difícil assistir a “Precisamos falar sobre Kevin” (We need to talk about Kevin, 2011). Ainda mais difícil é escrever sobre o filme. Escrever exige análise, reflexão. E não é fácil refletir sobre o assassinato de crianças e jovens dentro de uma escola.

Esse tipo de crime, tristemente recorrente, não só nos Estados Unidos, onde já é considerado uma sociopatia, mas também no Brasil, haja vista o caso do cinema no Morumbi, em São Paulo, no ano de 1999, e, mais recentemente, o caso da escola no Realengo, no Rio de Janeiro, em 2011, fere a todos que dele tomam conhecimento porque não se consegue entender o motivo paras as mortes; porque as pessoas são atingidas em um ambiente em que sentem seguras e despreocupadas e, portanto, são pessoas sem chance de defesa.

Cada vez que a humanidade se depara com essa violência, contra a qual não pode se defender, porque não a compreende, não há como não sofrer junto à família das vítimas, mesmo que sejam desconhecidos, mesmo há milhares de quilômetros de distância. Não há como não chorar ao pensar no desespero das pessoas que a vivenciaram. Não há como não temer passar pela mesma dor.

Mas o filme traz uma dor diferente daquela com a qual mais comumente nos solidarizamos. O filme traz a dor da mãe do algoz.

Foto 1 Kevin

“Precisamos falar sobre Kevin” é uma produção independente, baseada no livro homônimo de Lionel Shriver. Com roteiro e direção de Lynne Ramsey, o filme conta a história da família de Eva Khatchadourian, brilhantemente vivida pela atriz Tilda Swinton.

A história não é contada de forma linear. O roteiro oscila constantemente entre o passado e o presente. Não há, entretanto, perda do fio narrativo; ao contrário, essa forma de contar a história demonstra uma prioridade maior do filme: mais importante do que saber o que Kevin (Ezra Miller) foi capaz de fazer, é acompanhar a reflexão de Eva, sua volta ao passado, sua busca por uma explicação.

Eva é uma mulher independente, que se sente ameaçada por uma gravidez indesejada. Ao contrário de seu companheiro Franklin (John C. Reilly), ela não se sente feliz durante a gravidez ou com o nascimento do bebê – Kevin. Tudo piora quando Franklin a convence a deixar Nova York e mudar-se para uma casa no subúrbio, com o argumento de que Kevin teria uma infância mais feliz.

Foto 2 Kevin

Num dos momentos de frustração em seu papel de mãe, Eva dispara: “A mamãe era feliz antes do pequeno Kevin nascer, sabia? Agora a mamãe acorda toda manhã querendo estar na França”. Essa rejeição influencia o relacionamento entre mãe e filho, que é marcado pela falta de afeto. Aos poucos, quando consegue retomar sua carreira de escritora e toma consciência da distância que impôs entre ela e o filho, Eva tenta uma aproximação, mas suas tentativas, nunca muito naturais, são recebidas sempre com sarcasmo e agressividade pelo menino.

A relação de Eva e Kevin é difícil desde a primeira infância, cheia de agressividade e hostilidade das duas partes. Ele demora a aprender a falar, não gosta de interagir e só deixa de usar fraldas quando já é uma criança bem crescida. No entanto, não se trata de uma criança com alguma deficiência em seu desenvolvimento. Na verdade, Kevin tem atitudes manipuladoras desde muito cedo e demonstra ser um menino bem inteligente.

O nascimento da segunda filha de Eva e Franklin – Celia (Ashley Gerasimovich) – tem um contexto diferente. Mais madura e com sua carreira em alta, Eva estabelece uma relação completamente diferente da que ela estabeleceu com Kevin. Com a filha, Eva consegue expressar seu amor. Kevin, por sua vez, hostiliza a irmã desde o primeiro dia.

Foto 3 Kevin

Logo após o nascimento da irmã, Kevin fica doente e os cuidados sinceros da mãe parecem aproximar os dois. Das lembranças de Eva, esse é o único momento afetuoso e íntimo entre mãe e filho. Esse se torna um momento marcante para a família. Tão marcante que o livro que Eva lê para Kevin na hora de dormir – Robin Hood – acaba por ter um papel fundamental na história.

Percebendo o interesse do menino pela história do arqueiro, Franklin o presenteia com arco e flechas de brinquedo. Kevin se transforma num exímio arqueiro e aos quinze anos, ganha, de presente de Natal de Franklin, sob o olhar assustado de Eva, a arma que muda tragicamente o destino da família.

Durante todo esse exame de consciência de Eva, fica claro que ela percebe que há algo de errado com seu filho. Três cenas são fundamentais nessa percepção: quando ela desconfia de que Kevin matou o hamster de estimação de Celia no triturador da pia da cozinha; quando ela flagra o filho se masturbando e ele a encara com seu usual olhar de provocação e superioridade; e, principalmente, quando suspeita de que ele provocou o acidente doméstico que levou a sua irmã a perder um olho. Ela passa a temer que os irmãos fiquem juntos.

Eva encara esses momentos com perplexidade e um medo crescente, que não é compartilhado por Franklin, que tem uma boa relação com o filho. Todo esse medo se confirma quando ela recebe a notícia de que há um assassino na escola em que seu filho estuda e quando percebe, diante da aparição triunfal do adolescente se entregando a polícia, de que se tratava de Kevin.

Foto 4 Kevin

Além dos assassinatos na escola, Eva descobre, ao chegar a casa, os corpos de sua filha e de seu marido cravados de flechas. Ela não era só a mãe do algoz de dezenas de jovens, mas também era mãe de uma pequena vítima, a quem amava muito. Eva era, agora, a única responsável por aquele que assassinou sua família. Ela, então, percebeu que o principal alvo das flechas de Kevin era ela.

Com um emprego precário, vivendo numa casa modesta, Eva tenta reorganizar sua vida enquanto é diariamente hostilizada pela sociedade. Ela recebe toda a hostilidade com a resignação de quem se sente culpada e se sente assim até mesmo quando recebe a solidariedade de uma das vítimas de seu filho. Essa não é o único momento de esperança no filme. Numa das visitas a Kevin, na prisão, Eva apoia outra mãe que também tem um filho preso e as duas permanecem de mãos dadas enquanto esperam para ver os filhos.

Foto 5 Kevin

Porque Kevin fez algo tão monstruoso? Foi por causa da rejeição da mãe e da cegueira do pai? Só isso não explica; muitas crianças sofrem rejeições ainda maiores. Ele nasceu assim? Também não há como responder, pois a cena final do filme mostra um Kevin perdido, sem compreender o que havia feito e, pela primeira vez, sem o olhar agressivo ou indiferente.

Pela primeira vez, mãe e filho se abraçam buscando apoio e amor, quando quase já não há esperança de um futuro feliz.

“Precisamos falar sobre Kevin” não é uma daqueles filmes em que não se pode contar o final, sob pena de se perder toda a emoção da história; nem, tampouco, um filme que dê respostas ou lições de vida; ele é, sim, um filme que gera dúvidas, perguntas, que narra uma história sofrida sem cinismo ou fatalismo, que traz uma ponta de esperança onde só havia desespero. Mesmo que seja uma esperança frágil e um tanto desesperada.

 

Foto 1 KevinFicha Técnica
Gênero:
Drama
Direção: Lynne Ramsay
Roteiro: Lynne Ramsay, Rory Kinnear
Produção: Jennifer Fox, Luc Roeg, Robert Salerno
Fotografia: Seamus McGarvey
Trilha Sonora: Jonny Greenwood
Duração: 110 min.
Ano: 2011
País: Estados Unidos / Reino Unido
Cor: Colorido
Estreia: 27/01/2012 (Brasil)
Distribuidora: Paris Filmes
Estúdio: Artina Films / Atlantic Swiss Productions / BBC Films / Footprint Investment Fund / Independente / Lipsync Productions
Classificação: Livre

 

* wellen-herickaHÉRICKA WELLEN é Doutora em Educação pela USP.

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5 comentários sobre ““Precisamos falar sobre Kevin” e a vida sem respostas prontas

  1. Excelente análise e excelente filme. Dá uma tristeza, uma agonia e um monte de dúvidas, também. A cena final parece uma redenção de Kevin para com a única pessoa que ele provavelmente sentia algo, algo forte e ao mesmo tempo tão perigoso, sua mãe. Talvez de fato ele quisesse dizer que a amava no fim, antes do guarda os interromper porque eu mesmo tenho certeza que foi ali onde ele realmente se deu conta do que tinha feito e a que estado ele tinha deixado sua mãe.

  2. Você descreveu a história do jeitinho que imaginei e transcreveu as perguntas que me fiz ao terminar de ver ao filme. Não se trata apenas de mais um filme, Sua resenha foi brilhante!

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