O inferno são os outros

MARCELO GRUMAN*

Numa cena do seriado Seinfeld, a hilária personagem Elaine pergunta ao namorado se ele acredita em Deus. Ele responde que sim, e ela exclama, apenas para confirmar, que ele era bastante religioso, obtendo novamente o sim como resposta. Breve silêncio, Elaine pergunta finalmente “não te incomoda que eu não seja assim, tão religiosa?”. O namorado a fulmina: “A mim não, afinal de contas, não serei eu quem irá para o inferno”. A cena é muito engraçada, sobretudo pela entonação de Puddy, o namorado, e a revolta de Elaine por sua indiferença quanto ao destino dela, “o pior lugar do mundo, os diabinhos, aquelas cavernas e o calor, meu deus, o calor!”.

A vida imita a arte ou a arte imita a vida?

Anos mais tarde, uma grande amiga namorava um rapaz que, a certa altura do relacionamento, revelou acreditar que ela iria para o inferno por não partilhar da mesma crença religiosa. Ele, cristão, protestante de denominação batista; ela, judia étnica meio desligada ou, quiçá, indiferente aos aspectos religiosos do grupo. Judaísmo não se resume à religião, embora muitos judeus façam questão de reduzi-lo a tal, empobrecendo-o, confundindo a cabeça daqueles que não fazem parte do grupo e dando munição aos anti-semitas de plantão, ávidos por estereótipos que lhes facilitem a vida, e dificultem a de suas vítimas.

A situação foi irônica. Tradicionalmente, os judeus são representados como um grupo cujas fronteiras estão fechadas para o mundo exterior, é acusado de “racista”, por falta de termo melhor e incompreensão do que ele significa. Mesmo aqueles que nunca viram um judeu na frente costumam ter conhecimento de que é comum não-judeus se converterem ao judaísmo para que o casamento possa se realizar, na maioria das vezes, creio eu, sem que o cônjuge não-judeu realmente acredite naquela transformação simbólica. A coisa é mais prática e baseada mais na emoção, eu te amo, você me ama, queremos nos casar, mas você precisa aprender uma meia dúzia de estórias, decorar outras tantas rezas e ser avaliada por um tribunal legitimado pela religião que julgará suas reais aspirações. Haja burocracia e submissão a uma autoridade que acredita ter o direito de dizer o que o sujeito é ou não é.

Eis a ironia. Minha amiga ousou pisar fora do penico, decidiu “sujar-se”, claro, porque a “sujeira” é tudo aquilo que está fora do lugar, simbolicamente falando. Rompeu a fronteira do grupo, desafiou valores e padrões de comportamento, foi para fora, ampliou seus horizontes, desbravou o desconhecido, abriu-se para novas experiências e visões de mundo, colocou abaixo o estereótipo de que “os judeus” (todos os milhões deles?) são preconceituosos, fechados, ensimesmados (como se a ilusão de proteção do grupo, qualquer grupo, fosse uma exclusividade judaica), vislumbrou um mundo inteiro de possibilidades, de identidades. Resultado: foi enxotada para fora, ou melhor, para dentro. Para dentro do mesmo, do conhecido. Seria cômico, se não fosse trágico.

Acredito que a afirmação do rapaz tenha deixado minha amiga boquiaberta, noves fora estar em jogo o relacionamento afetivo de um tempo razoável, a incredulidade de ouvi-la de alguém com formação universitária, o que, obviamente, é uma ingenuidade porque educação formal nada tem a ver com valores humanistas como o próprio Jesus Cristo, referência de moral para milhões (bilhões?) de cristãos espalhados pelo mundo, proclamava, por exemplo, em sua “regra de ouro” (“não faça aos outros o que você não quer que façam a você”). Ser inteligente não se resume a diplomas universitários. Arrogância, prepotência, pusilanimidade, hipocrisia e ambigüidade moral, por outro lado, estão em toda parte, como o comprova o rapaz de quem, graças a deus (?), minha amiga se livrou.

Quando duas pessoas que compartilham a mesma crença religiosa e seus valores subjacentes estão conversando e uma delas diz que cometeu um pecado gravíssimo, a outra pode, a partir de critérios preestabelecidos, preestabelecidos por uma régua moral imposta de cima para baixo, dizer que a transgressora vai para o inferno. Afinal, esse é o caminho natural daqueles que fogem à regra, regra que o pecador também respeita e se penitencia por havê-la transgredido. O transgressor acredita no inferno, não gostaria de ir para lá porque não gosta do calor, prefere o friozinho, e porque não quer ser marginalizado pelo grupo do qual faz parte e estabelece laços de solidariedade, de identidade. O discurso do céu e do inferno faz sentido para os dois sujeitos, um deles bastante preocupado com o futuro não tão longínquo assim, quem sabe dá para se redimir, alguma penitência, a misericórdia divina. Este discurso, contanto que aplicado somente àqueles que nele crêem, é válido e deve ser respeitado.

O problema começa quando uma pessoa que crê no inferno afirma categoricamente que outra pessoa vai para este lugar simplesmente porque não comunga da mesma crença religiosa, ou de qualquer crença religiosa, um ateu por exemplo. O transgressor vai para o inferno não porque transgrediu uma norma da qual acredita ser correta, o que seria compreensível, mas porque não acredita nesta norma e, portanto, está errado e deve ser punido. O neurocientista e filósofo norte-americano Sam Harris resume muito bem a questão em seu livro Carta a uma nação cristã:

Concordamos que ser um bom cristão é acreditar que todas as outras religiões estão erradas, e profundamente erradas. Se o cristianismo está correto, e eu persistir na minha descrença, devo esperar que um dia irei sofrer os tormentos do inferno. Pior ainda, já convenci outras pessoas, muitas delas próximas a mim, a rejeitar a própria idéia da existência de Deus. Elas também irão padecer no “fogo eterno” (Mateus 25, 41). Se a doutrina básica do cristianismo está correta, então desperdicei a minha vida da pior maneira que se possa conceber, O fato de que a minha rejeição do cristianismo, pública e contínua, não me preocupa nem um pouco já demonstra o quanto considero inadequadas as suas razões para ser cristão.

O episódio envolvendo minha amiga e a altivez de Sam Harris falam, ambos, da intolerância e obtusidade religiosas. Mas não devemos nos restringir a este aspecto, e sim nos debruçarmos sobre a intolerânciadifusa, expressa das mais variadas maneiras. Intolerância a como o outro se veste, lê, come, reza, se diverte, ouve música, pensa, faz sexo, diferente do que é considerado “normal” ou “natural” pelo dono da verdade. O outro não só está errado como deve ser punido, deve morrer da pior maneira possível sofrendo fisicamente dores imagináveis e inimagináveis, tostando sua carne nas labaredas do inferno em queimaduras de terceiro grau, se o dono da verdade adota o discurso religioso. O diferente é perigoso porque abala nossas certezas, nossas verdades, coloca a realidade em perspectiva e revela o quão complexo é o ser humano, afinal, em sociedades complexas os indivíduos são, inevitavelmente, complexos.

O ideal que devemos alcançar não é a tolerância, porque tolerar implica, a meu ver, numa hierarquia de valores. Eu tolero você apesar de não ter obrigação para tal, eu não gosto de você e do seu jeito de ser, mas eu te tolero porque é assim que dizem que devo agir, eu sou melhor do que você, mas te tolero porque, quem sabe, um dia, você se dê conta de quão errado você está e passará a se comportar corretamente. Quer dizer, como eu me comporto.

O ideal a ser alcançado é, portanto, o pluralismo cultural, que não deve ser confundido simplesmente com a diversidade de manifestações culturais, mas como conhecimento e respeito ao “outro”. Mais ainda, reconhecimento do outro, porque quando reconhecemos o outro lhes damos o direito de existir. O antropólogo Clifford Geertz dá a sua fórmula para o convívio entre os diferentes, estranhando o familiar e aproximando-se do estranho:

Mesmo que um dia tenha sido possível e mesmo que hoje provoque saudades, a soberania do familiar empobrece a todos; enquanto ela tiver um futuro, na mesma medida, o nosso é tenebroso. Não é que tenhamos que amar um ao outro (se for assim – negros e afrikaners, árabes e judeus, tâmiles e cingaleses – acho que estamos condenados). Temos é de conhecer um ao outro, e viver com este conhecimento, ou acabar como náufragos num mundo beckettiano de solilóquios em colisão (GEERTZ, 1999, p.30).

A diversidade não implica em aceitação incondicional dos modos de vida do “outro”, mas na compreensão que o “outro” tem suas razões para se comportar de tal ou qual maneira, de acreditar nisto ou naquilo, ainda que eu não considere a melhor maneira de se comportar ou de pensar. Ademais, o contato estimula a criatividade. Como bem disse o antropólogo Lévi-Strauss:

As grandes épocas criadoras foram aquelas em que a comunicação se tornara suficiente para que parceiros afastados se estimulassem, sem que, no entanto, fosse excessivamente freqüente e rápida para que obstáculos, tão indispensáveis entre os indivíduos como entre os grupos, se reduzissem, a ponto de trocas demasiado fáceis virem igualar e confundir a sua diversidade (LÉVI-STRAUSS, 1986, p. 48).

Não nascemos com preconceitos, nosso etnocentrismo é construído ao longo do tempo, por meio da transmissão de certa visão de mundo e valores a ele correspondentes. E, mesmo quando acreditamos firmemente que nossa perspectiva, nosso jeito de ser é o mais correto ou o único correto, podemos escapar da armadilha se tentamos nos observar de fora, como um estrangeiro. Este é o papel do antropólogo, que é treinado para isto, mas qualquer um pode fazer uma autocrítica de suas atitudes. Não significa, como exposto acima, que a diferença deixará de ser diferença e que o diferente se transformará em nosso melhor amigo. A reflexão serve, tão somente, para compreendermos que há inúmeras maneiras de ser humano e que é possível encontrarmos semelhanças onde menos esperamos. As crianças são um exemplo disso.

Eis um diálogo entre meu filho de cinco anos e sua mãe, transcrito por ela:

– Eu vi dois bebes meninos dando beijo na boca.

– Ah, é? E pode, dois bebes meninos beijarem na boca?

– Pode.

Continuamos no banho sem dar bola pro assunto e ele continua.

– Eu vi dois adolescentes meninos dando beijo na boca.

– Ah, é? E pode, dois adolescentes meninos beijarem na boca?

– Pode.

Resolvi entender até onde ia o pensamento dele, uma vez que nunca conversamos sobre o assunto e ele não estava me fazendo uma pergunta apenas me relatando o que tinha visto. Queria saber o porquê de estar me contando e qual sua curiosidade sobre o tema.

– E dois homens de barba podem dar beijo na boca?

– Podem.

– E duas mulheres adultas podem dar beijo na boca?

– Podem. – ele parou um pouco como se refletisse sobre algo e então continuou – Dois homens de barba podem dar beijo na boca, mas só podem se os dois quiserem, se um dos dois não quiser não pode. E eles têm que gostar do outro.

– Entendi, eles tem que se gostar, tem que se amar é isso?

– É, porque se um não gostar não pode. Por isso que os bebes meninos beijaram.

Sensacional. Talvez ele ainda não se dê conta, mas meu filho fala a linguagem do amor, não do ódio e do sofrimento. E não interessa como esse amor se manifesta, num beijo de dois bebês ou de dois marmanjos barbudos. Quem somos nós para determinarmos de uma vez por todas como a sexualidade humana pode e deve se manifestar? Aquela música do Tim Maia está mais do que anacrônica, aquela que diz que “vale tudo, só não vale beijar homem com homem, nem mulher com mulher”.

O mais preocupante, a meu ver, é a estigmatização e, no limite, criminalização de comportamentos considerados desviantes de uma suposta normalidade. A homossexualidade é, freqüentemente, associada à promiscuidade e pederastia. O homossexual não só se comporta erroneamente como é um predador sexual que não deixa escapar bebês e crianças. É um desviante e um criminoso, e como tal deve ser tratado e curado. Religião e ciência, cada vez mais, misturam-se, psicólogos entram na onda legitimando discursos inflamados de padres e pastores numa verdadeira caça às bruxas.

A convivência com o diferente não é fácil, mas é a única opção, porque, da mesma forma que o “eu” pode se achar o dono da verdade, o “outro” segue na mesma toada. No final, a não-aceitação da diferença levará, inevitavelmente, à sobrevivência daquele capaz de sujar suas mãos de sangue com menos ou nenhuma culpa. É isso que queremos? Sodoma e Gomorra revisitada? Condenar à morte um menino de cinco anos que prega o amor puro e simples?

A prateleira do supermercado da intolerância é praticamente infinita. O consumidor pode comprar hoje uma lata de ódio aos homossexuais, amanhã ódio pelo rival que usa a camisa de outro time de futebol, na semana que vem uma garrafa de desprezo por quem professa outra crença religiosa ou não professa religião alguma, mês que vem instinto destrutivo contra quem não tem o mesmo gosto musical ou fala com determinado acento regional. Enfim, a lista vai de acordo com o apetite do momento.

Assim o ar fica irrespirável, assim eu prefiro me trancar em casa e ficar conversando com meus três gatos.

Obras citadas:

GEERTZ, Clifford. Os Usos da Diversidade. Horizontes Antropológicos 1999, n.10.

HARRIS, Sam. Carta a uma nação cristã. São Paulo: Companhia das Letras. 2007.

LEVI-STRAUSS, C. O olhar distanciado. Lisboa: Edições 70, 1986.

 

* grumanMARCELO GRUMAN é Doutor em Antropologia Social pelo PPGAS/MN/UFRJ, Antropólogo e Especialista em Gestão de Políticas Públicas de Cultura.

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5 comentários sobre “O inferno são os outros

  1. Adorei… a Antropologia me fascina… Embora tenha vários preconceitos enraizados pelas Instituições que frequentei (escola, família…), estou sempre tentando compreender a cultura dos outros. Entender o que os leva a fazer o pensar de determinadas formas.
    Me apaixonei pela Antropologia quando li na UFF “Os Sonacirema”.

  2. Belo texto, Marcelo. Genuíno ensaio. Penso que a resposta “Pode” do seu filho deve ter sido influenciada pelos pais “esclarecidos”, via educação do dia a dia. Sugiro ver o documentáro francês “Apenas o começo” (disponível no You Tube), nele, algumas crianças de diferente origens culturais, embora frequentando uma escola francesa, respondem de modo “diferente”, creio que tb influenciadas pelos valores dos seus pais “conservadores”. Uma menina responde assim: “Amo minha colega, mas não sou apaixonada por ela”. Pq ela diz ser apaixonada por um garotinho. Outro ponto que seu ensaio me leva a pensar:é meu temor que esta onda atual de aceitação plena dos novos valores caia na vala comum do politicamente correto. E como tal, esta atitude “correta” INTIMIDA, AMEAÇA E REPRIME posicionamentos tradicionais ou conservadores contrários. Ou seja, este suposto “avanço” nos costumes, aceitação das diferenças, etc, pode servir de MASCARAMENTO para ideias, sentimentos e valores que se tornam REPRIMIDOS pela consciência vigilante e temerosa de retaliação do social “supostamente avançado”. Nesse sentido, sim, o inferno são os outros, os morais ou moralistas. Também, podem contribuir para o reforço do RECALCADO (made in Inconsciente), tal como acontece com gente que se acha “sem preconceitos”, mas deixa escapar do Inconsciente: xingamentos ao jogador, à presidenta, ao negro ou ao homossexual, judeu, velho, careca, orelhudo, caolho, dentuço, capenga, deficiente físico etc etc. Contudo, dizer que não gosta do cristianismo, ou que não gosta do catolicismo, tb faz parte de uma onda “correta” ou admirada em certos grupos intelectuais. Mas não podemos esquecer que este direito de ser contra o cristianismo católico é possível em um regime democrático, cuja constituição garante tal direito. Desafio ter posicionamento contrário ao Islamismo na Nigéria, Irã, mesmo no Egito, pra ver o que vai acontecer ao sujeito.
    É isso. Parabéns pela instigação ao pensamento! OB.: senti falta de uma justificativa do título inspirado no controvertido Sartre.

  3. Tudo ou nada já agora. A diversidade implica no compromisso contínuo com a reflexão. Os preconceitos e estigmas são resultados de automatismos que são coletivos para marcar a diferença pela exclusão. Intolerar é sempre fixar o desejo do outro com uma transferência; não pode existir aquele ou comportamento desviante. Pois, desse modo, sua felicidade sempre é instituir nas vontades de alguém algo que o incomoda em si mesmo. Manter o corpo e a mente livres transforma o descaso em uma vontade saudável de olhar o diferente pelo que é. Humano, cheio de sonhos e dúvidas e é por elas que suas certezas se constituem. O outro é um espelho virado. Assim colocamos em suas costas os rótulos e a imagem de nossa vontade. Porém, quando viramos é ao mesmo tempo espelho e vidro. Vejo o que têm atrás e percebo parte de minha face. Julgar menos e compreender mais. Entender dilui o medo, raiva e angústia, ficamos leves sem o peso do dedo apontando, mas de mãos abertas e curiosas para ver no estranho/estrangeiro uma viagem no mesmo barco chamado vida.

  4. SERÁ QUE DEUS JÁ ESTA A VENDA? VOCÊ PODE ALUGAR DEUS PARA FAZER SUAS AVENTURAS SEXUAIS? A VIDA NÃO PODER MATERIALIZADA, OU PODE?

    • Deus é uma das mais belas invenções humanas para aplacar a solidão da consciência. Na mitologia grega que era a religião desse povo. Os deuses invejavam os mortais, porque somente o que morre pode dar valor a vida diante da finitude; pois o tempo limitado dá o sabor maior a luta. O sexo é a maneira que encontramos para driblar a morte, passando a diante o legado dos filhos de Pandora. A união dos corpos no instante do orgasmo dá uma proximidade com o divino, mas é por segundos…porque tudo é rápido, intenso e fugaz. O que fazemos das máquinas a filosofia e tudo mais a nossa volta é apenas para nós e os outros que ainda não chegaram tão inocentes quanto água que ainda não caiu na cachoeira da vida.

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