Frida Kahlo – Arte, Tragédia e Cinema

UBIRACY DE SOUZA BRAGA*

Eu nunca pinto sonhos ou pesadelos. Pinto a minha própria realidade”.
Frida Kahlo

Diego Rivera e Frida Kahlo visitam Leon Trotsky e sua mulher, Natalia Sedova, em 1938.
Diego Rivera e Frida Kahlo visitam Leon Trotsky e sua mulher, Natalia Sedova, em 1938.

Magdalena Carmen Frieda Kahlo y Calderón, nasceu a 6 de julho de 1907 na casa de seus pais, conhecida como “La Casa Azul”, em Coyoacán, em língua: nauatle: “coyō-hua-cān”, (“lugar de coiotes”), uma das 16 delegações do Distrito Federal mexicano. Morreu em Coyoacán em 1954. Situa-se na parte sul da Cidade do México. É famoso pelo seu centro histórico, os seus museus, entre os quais o Museu Frida Kahlo e o Museu León Trotsky, teatros independentes e bares, bem como por ser onde se encontram os campi da cidade universitária da UNAM – Universidade Nacional Autónoma do México, fundada em 21 de setembro de 1551 com o nome La Real y Pontifícia Universidad de México, com sede na cidade do México (cf. Marsiske, 2001).

Passaram pela universidade a maior parte dos mais influentes cientistas, políticos, escritores e filósofos do México contemporâneo. Em 2005, contava com mais de 279 mil estudantes e o Estádio Azteca.  Frida Kahlo morreu em Coyoacán, em 13 de julho de 1954. Foi uma pintora mexicana. Mas, ao contrário de muitos artistas, ela não começou a pintar cedo. Embora o seu pai tivesse a pintura como um passatempo, estava particularmente interessada na arte. Mas não como uma carreira que no sentido sociológico que proporciona a “conexão de sentido” de Max Weber orientada com a fama, o trabalho, a disciplina, a religião, etc. Entre 1922 e 1925 frequenta a Escola Nacional Preparatória do Distrito Federal na cidade do México e assiste a aulas de desenho e modelagem. Em 1925, aos 18 anos, aprende a técnica da gravura com Fernando Fernandez. Então sofre um grave acidente quando o bonde, no qual viajava, chocou-se com um trem. O para-choque de um dos veículos perfurou-lhe as costas. Atravessou sua pélvis e saiu pela vagina, causando uma grave hemorragia. Frida Kahlo ficou muitos meses entre a vida e a morte no hospital. Assim, teve que operar diversas partes e reconstruir por inteiro seu corpo. Tal acidente obrigou-a a usar coletes ortopédicos de diversos materiais. Ela chegou a pintar alguns deles como o colete de gesso da tela intitulada: “A Coluna Partida”.

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Em 1939 parte sozinha para Nova York, onde faz sua primeira exposição individual, na galeria de Julien Levy, e é sucesso de crítica. Em seguida, segue para Paris. Lá é hospitalizada com uma infecção renal, mas também entra no mundo da vanguarda artística dos surrealistas. Conhece Pablo Picasso, Wassily Kandinsky, Marcel Duchamp, Paul Éluard e Max Ernst. O museu do Louvre adquire um de seus autorretratos. No mesmo ano, divorcia-se de Diego, com quem volta a se casar um ano depois. Em 1942 começara a dar aulas de arte em uma escola recém-aberta na Cidade do México. Após tantos altos e baixos vividos, seu estado de saúde piorou, e o colete antes de gesso, foi substituído por um de ferro que impedia até a sua respiração. Em 1946 sua coluna precisou ser operada. Com fortes dores na perna direita, em 1950 tem tratamento no Hospital Inglês durante todo o ano. Forte a esteta continua pintando. Os médicos diagnosticam a amputação da perna, ela entra em depressão. Pinta suas últimas obras, como: “As duas Fridas”, 1939; “Autorretrato com cabelos cortados”, 1940; “Autorretrato com colar de espinhos e colibri”, 1940; “Autorretrato como tehuana”, 1943; “Diego em meu pensamento”, 1943; “O veado ferido”, 1946; “Diego e eu”, 1949; “O marxismo dará saúde aos doentes”, 1954. Entre 1950-1951, passa por sete operações na coluna, que infeccionam, devido ao colete de uso obrigatório. Em 2 julho de 1954 participa, em cadeira de rodas, da manifestação contra a maldita intervenção norte-americana na Guatemala (cf. Alvarez, 2011).

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Frida não se considerava surrealista, mas foi assim reconhecida quando participou da “Exposición Internacional Del Surrealismo”, na Galeria de Arte Mexicana de 1940. Apesar de muitos dos seus trabalhos conterem elementos surreais e fantásticos (cf. Hayden, 1983; Kahlo, 1996; Kettenmann, 1994; Lowe, 1996), não podemos chamar-lhes surrealistas, pois ela não chega a libertar-se completamente da realidade. Mas nos seus trabalhos dá-se uma fusão entre fato e ficção. O escritor Francisco Haghenbeck (2011) encontrou, entre os objetos pessoais deixados por Frida, o “Livro da Erva Santa”. Nele, constam diversas receitas que foram utilizadas como se fossem componentes de uma única realidade. – “Minha surpresa e alegria”, disse André Breton sobre Kahlo, “não tiveram limites quando, depois de chegar ao México. Descobri que sua obra se desabrochara, nos últimos quadros pintados, em puro surrealismo, apesar de ter sido concebida sem qualquer conhecimento prévio do que fossem as ideias motivadoras dos trabalhos de meus amigos e do meu” (cf. Ades, 1997).

No livro: “Frida – uma biografia”, de Hayden Herrera (1983; 2010), traz à tona a intimidade da vida da pintora que transformou sua própria história em arte. Seu corpo como representação da arte e do olhar, contrariando a tese segundo a qual: “a visibilidade é uma armadilha”. Ao contrário, vale lembrar que Frida Kahlo, apresenta uma imagem cuja modernidade do olhar, sob as sobrancelhas espessas, cabelos negros e roupas coloridas, é quase tão difundida quanto à do guerrilheiro marxista Ernesto Che Guevara. É sabido que ela: a) foi casada com o grande muralista Diego Rivera, e b) que foi amante do revolucionário Leon Trotsky (1942; 1945; 1969; 1972), o qual tinha: c) ideias radicais em política e hábitos modernos na vida. Que pintava: d) de modo infinitamente pessoal, para lembramos: “O Quereres”, de Caetano Veloso, e) teve uma existência tão tumultuada quanto o século em que viveu e passava para sempre… Em seus 47 anos de vida.

O que poucos sabem é que sobre Frida Kahlo está longe de resumir sua vida. De revelar à mulher que está por trás do ícone da arte latino-americana moderna. No ensaio de Herrera, reconhecida historiadora da arte, o livro rememora a intimidade da história social de Frida. Detalha com descrições e interpretações seus quadros. Com clareza, fluidez e a sedução de uma amante dessa bela arte e os mistérios da vida representada em torno da pintura. É um dos grandes representantes do “revival” da artista nos Estados Unidos e de resto no mundo ocidental. Por meio da arte, Frida Kahlo fez de si mesma uma artista e um ícone. Por meio de sua biografia, contemplamos o trágico para lembrarmo-nos de Friedrich Nietzsche no âmbito da arte e da filosofia (cf. Braga, 2014).

A mãe de Frida Kahlo, Matilde Gonzalez y Calderón, era uma católica devota de origem indígena e espanhola. Seus pais se casaram logo após a morte da primeira esposa de Guillermo, durante o nascimento do seu segundo filho. Embora o casamento tenha sido muito infeliz, Guillermo e Matilde tiveram quatro filhas, sendo Frida a terceira. Tinha duas meias-irmãs mais velhas. Ipso facto ressaltava que “cresceu em um mundo cheio de mulheres”. Durante a maior parte de sua vida, no entanto, Frida se manteve próxima do pai. Ao contrário de muitos artistas de seu tempo, Frida Kahlo não começou a pintar cedo, embora o seu pai tivesse a pintura como hobby ou passatempo. Casa-se aos 22 anos com Diego Rivera, em 1929, um casamento tumultuado, visto que ambos tinham temperamentos fortes e casos extraconjugais. Frida Kahlo, que era bissexual, teve um caso com Leon Trotsky depois de separar-se de Diego (cf. Kettenmann, 1994; Kahlo, 1996).

“Frida” é um filme estadunidense de 2002, do gênero drama biográfico, realizado por Julie Taymor. O roteiro é baseado em livro de Hayden Herrera, e retrata a vida da pintora mexicana Frida Kahlo. O filme apresenta sua démarche desde a adolescência até a morte. Frida Kahlo foi um dos principais nomes da história artística do México. Conceituada e aclamada como pintora, ela teve também um casamento dito “aberto” com Diego Rivera, companheiro também nas artes, e ainda um controverso caso com o pensador marxista Leon Trotsky e com várias outras mulheres. No filme, o esposo representa um homem mulherengo, e Frida aceita pedindo lealdade. O que não acontece, pois Frida encontra Diego com sua irmã copulando, então ela pede o divórcio.

Machista Rivera aceitava abertamente os relacionamentos de Kahlo com mulheres, mesmo eles sendo casados. Mas não aceitava os casos da esposa com homens. Frida descobre que Rivera mantinha um relacionamento com sua irmã mais nova, Cristina, há muitos anos, o que a revoltou. Ela os flagrou na cama e, num ato de fúria, cortou todo o seu cabelo, que era bem longo, de frente ao espelho. Sua irmã teve seis filhos com seu ex-marido e Frida nunca a perdoou. Após essa outra tragédia de sua vida, separa-se dele e vivem novos amores com homens e mulheres, mas em 1940 une-se novamente a Diego. O segundo casamento foi tão tempestuoso quanto o primeiro. Ao voltar para o marido, Frida construiu uma casa igual à dele, ao lado da casa em que eles tinham vivido. Essa casa era ligada à outra por uma ponte. Eles viviam como marido e mulher. Mas encontrando-se como amantes na casa dela ou na dele, nas madrugadas.

Sua complexidade tem origem na sua própria história oral e de vida. Nascida em 1907, filha de um alemão e de uma mexicana, contraiu poliomielite aos seis anos, o que lhe deixou como sequela uma lesão no pé direito que lhe rendeu o apelido: “Frida pata de palo”. A partir daí começou a usar calças e saias longas estampadas, que vieram a se tornar uma de suas referências pessoais. Esse foi só o primeiro marco de como a construção do ícone Frida Kahlo “partiu de sua própria dor” (cf. Vale, 2012). E era também só o primeiro de uma série de acontecimentos dolorosos de sua vida. Aos 18 anos sofre um grave acidente: o bonde em que seguia colide com um trem, deixando-a meses entre a vida e a morte devido ao para-choque que atravessou seu pélvis. Foi durante a recuperação que começou a pintar, usando o material de seu pai, que tinha a pintura como passatempo. O acidente deixou severas marcas inscritas com fortes dores no corpo e com a utilização de coletes ortopédicos.

fig 4Ficha Técnica: Gênero: Drama. Direção: Julie Taymor. Roteiro: Anna Thomas, Clancy Sigal, Diane Lake, Gregory Nava. Fotografia: Rodrigo Prieto. Trilha Sonora: Elliot Goldenthal. Duração: 118 min. Ano: 2002. País: Canadá/Estados Unidos/México.

 

Bibliografia geral consultada:

TROTSKI, Leon, Minha Vida: ensaio autobiográfico. Rio de Janeiro: Editor José Olympio, 1942; Idem, A Atualidade das Ideias de Marx. Rio de Janeiro: Luta de Classes, 1945; Idem, Der Junge Lenin. Viena: Verlag Fritz Molden, 1969; Idem, El Joven Lenin. México: Fondo de Cultura Económica, 1972; HAYDEN, Herrera, A Biography of Frida Kahlo. Nova York: HarperCollins, 1983; BOURDIEU, Pierre, “La domination masculine”. In: Actes de la Recherche en Sciences Sociales. Paris, n. 84, 1990; pp. 2-31; KETTENMANN, Andrea, Frida Kahlo, Dor e Paixão.  Lisboa: Benedikt Taschen, 1994; KAHLO, Frida, O diário de Frida Kahlo: um autorretrato íntimo. Rio de Janeiro: Editor José Olympio, 1996; LOWE, Sarah, “Ensaio”. In: ADES, Dawn, A arte na América Latina. São Paulo: Cosac & Naify Edições, 1997; WALTER, Ingor F. (org.), Arte do século XX. Lisboa: Benedikt Taschen, 1999, 2 volumes, MEAD, Margaret, Sexo e temperamento. São Paulo: Editora Perspectiva, 2000; QUINTANA, Mario, Caderno H. São Paulo: Globo, 2001; MARSISKE, Renate, (coord.), La universidad de México. Un recorrido histórico de la época colonial al presente. México: UNAM-CESU, 2001; ALVAREZ, Sílvia, “O que aconteceu com a Guatemala?”. Disponível em: http://alainet.org/active/2011-11-10; HAGHENBECK, Francisco, O Segredo de Frida Kahlo. São Paulo: Editor Planeta do Brasil, 2011; VALE, Bianca, “Frida Kahlo: a dor da vida, a dor da arte”. In: http://obviousmag.org/archives/2012/03/; BRAGA, Ubiracy de Souza, “Outro Nietzsche – Arte, Cinema e Palavras”. In: https://espacoacademico.wordpress.com/2014/06/04/; NASSIF, Luís, “O Papel dos EUA no Golpe de Estado na Guatemala”. Disponível em: http://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/17/02/2013; entre outros.

 

*bragaUBIRACY DE SOUZA BRAGA é Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em ciências junto à Escolada de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Universidade Estadual do Ceará.

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2 comentários sobre “Frida Kahlo – Arte, Tragédia e Cinema

  1. Formidável apresentação de Frida Kahlo. Procuremos ser menos covardes e mais responsáveis. Quando perceberemos que somos estéticos como ela, cientistas como Marii Skłodowskiej-Curie, naturais como trobriandenses ou criadores como Oscar wilde?
    A revolução estará consumada quando fizermos o que tivermos vontade. Até uma contra revolução, qualquer coisa.

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