Eternos vira-latas

grumanMARCELO GRUMAN*

Recentemente, o canal de esportes ESPN Brasil exibiu um documentário tratando da apropriação política do futebol pelas ditaduras militares sul-americanas. No capítulo sobre o Uruguai, fiquei sabendo que uma das formas que a sociedade civil tinha de protestar pacificamente era através do hino nacional. Nos jogos de futebol no Estádio Centenário, em Montevidéu, quando as equipes se perfilavam para a execução dos hinos nacionais, os torcedores uruguaios cantavam mais alto e forte o refrão que diz “Tremei, tiranos”, numa óbvia alusão aos torturadores cucarachos de plantão. O efeito era mais simbólico que prático, a população deixava clara sua insatisfação e, para bom entendedor, meia palavra ou um único refrão bastam.

O grito a plenos pulmões estabelecia uma comunhão entre os espectadores presentes ao estádio, bem como entre os espectadores e a seleção nacional. A seleção nacional era do povo, não dos militares, que a haviam se apropriado indevidamente. As palavras do refrão estavam cheias de significado, carregavam o peso da identidade nacional usurpada, eram o canal da autoafirmação. Isso foi nos idos dos anos 1970 e 1980. Corta para o Brasil dos dias de hoje.

Em 2013, durante a Copa das Confederações, torneio preparatório para a Copa do Mundo de futebol a ser realizada no país no ano seguinte, numa demonstração espontânea e emocionante, a torcida brasileira cantou, junto com os jogadores, à capela, o hino nacional que havia sido abruptamente interrompido. Desde então o ritual se repete: hino iniciado, hino interrompido, jogadores e torcida irmanados numa só voz a cantá-lo até o fim. Pela televisão, não é incomum ver torcedores chorando, emocionados. Ao longo dos jogos, também virou moda o cântico “eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”. A comunhão uruguaia se repetia em terras brasileiras. Mas será o mesmo fenômeno?

Na Copa do Mundo no Brasil testemunhamos um fenômeno curioso. Brasileiros de todas as idades, gêneros, cores, religiões, paixões clubísticas, profissões, sotaques, correntes político-ideológicas, gritavam aos quatro ventos o orgulho de ser brasileiro “com muito orgulho, com muito amor” para, em seguida ou seguindo o hino nacional da seleção adversária, entoar uma sonora vaia em total desrespeito, falta de compostura, espírito esportivo e civilidade. Estariam os brasileiros presentes ao estádio orgulhosos da má-educação e falta do chamado “fair play”? De que se orgulhavam os brasileiros?

O genial Nelson Rodrigues dizia que “no Maracanã, vaia-se até minuto de silêncio”, mas, será que devemos compactuar com este tipo de comportamento? O próprio hino era gritado, e não cantado, pelos jogadores e boa parte da torcida, o que nos leva a pensar se eles realmente estavam cientes do significado das palavras que saíam de suas bocas, ou se havia se transformado num discurso vazio, como que um vômito que precisa ser expelido porque incômodo. Havia raiva nos semblantes de muitos jogadores, não amor. Pareciam gladiadores prestes a irem ao campo de batalha para matar ou morrer, esmagar o adversário, trucidá-lo.

Este triste espetáculo me fez lembrar novamente da “flor de obsessão” e seu “complexo de vira-latas”, que assim o definia:

Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Na já citada vergonha de 50 (a Copa do Mundo), éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem: — e perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: — porque Obdulio (Varela, jogador uruguaio) nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos.

Aparentemente, para uma nação se autoafirmar e fugir dos pontapés alheios, pelo menos no Brasil, é fundamental denegrir, desprezar, menosprezar, rebaixar os outros. As comparações, sempre a nosso favor, são eternas, ainda que o inimigo não as faça ou não dê tanto importância quando se trata de um mero jogo de futebol. Rebaixamos o outro porque somos inseguros, porque não temos certeza de nossas qualidades enquanto povo que carrega uma identidade própria, um rosto reconhecido mundo afora, porque estamos sempre medindo nossos defeitos (mínimos) e qualidades (máximas) pela régua dos outros. Só isso pode explicar a obsessão com os argentinos, ódio e desprezo que vai muito além da sadia rivalidade esportivos fomentados pelos chamados “formadores de opinião”.

Diga-se de passagem, que tal ódio e desprezo são unilaterais, não vemos nos meios de comunicação portenhos, especialmente aqueles do grande grupo midiático Clarín (equivalente à rede Globo no Brasil), o mesmo comportamento. Muito pelo contrário, há fascínio e respeito. Antes que os idiotas da objetividade vociferem que jornais como o Olé façam troça com a desgraça de Pindorama, afirmo simplesmente que a exceção confirma a regra.

Daí a insegurança, porque somos eternos vira-latas, contentes com a desgraça alheia porque incompetentes e ineptos para alcançar o sucesso. Porque elegemos políticos corruptos, porque somos corruptos, porque damos carteirada, porque sonegamos imposto, porque pagamos planos de saúde, escola particular e segurança privada diante da apropriação do Estado por senhores feudais e seus asseclas e achamos que não temos nada a ver com isso. “O Rio de Janeiro é violento, mas a única vez em que fui assaltado foi no aeroporto de Paris”. Sobra rancor, cinismo, pusilanimidade, falta vergonha na cara.

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Enquanto a seleção brasileira era massacrada pelo blitzkrieg alemão, as câmeras focalizavam torcedores chorando desesperadamente. Chorava-se porque o último bastião do orgulho nacional era vilipendiado, não tínhamos mais do que nos orgulhar, nem mesmo o maior artilheiro de todas as Copas. O choro era por conta do choque de realidade, pelo fim trágico do sonho e o retorno às mazelas do dia-a-dia, o desrespeito cotidiano à cidadania pelas autoridades públicas e pelos concidadãos que ajudam a destruir o sentimento de pertencimento, comunhão e solidariedade quando cospem no chão, entopem os bueiros de lixo, cortam os cruzamentos das avenidas, tentam levar vantagem em tudo, dão o jeitinho brasileiro, extorquem turistas com preços abusivos em restaurantes e nas praias e nas corridas de táxi. Afinal, o mito do homem cordial é apenas um mito.

Pátria em chuteiras? A seleção de futebol reflete a sociedade? A sociedade brasileira reflete sua seleção de futebol? Em 1998, o então técnico do Palmeiras, Luis Felipe Scolari, o Felipão, elogiou o ditador chileno Augusto Pinochet, preso em Londres, na Inglaterra. Segundo reportagem veiculada à época pela Agência Folha, em entrevista à Rádio Jovem Pan:

Scolari disse que “Pinochet fez muita coisa boa também”. “Ajeitou muitas coisas lá (no Chile). O pessoal estava meio desajeitado. Ele pode ter feito uma ou outra retaliaçãozinha aqui e ali, mas fez muito mais do que não fez”, afirmou o treinador. Sobre os métodos do ditador chileno, que resultaram em tortura e morte de milhares de pessoas, Scolari disse que “há determinados momentos que ou o pessoal se ajeita ou a anarquia toma conta”.

Esta não é a minha pátria, talvez seja a dos torcedores que foram ao estádio vaiar o hino das seleções adversárias, quer dizer, para eles, inimigas mortais. Talvez a seleção brasileira reflita nosso caráter, talvez a goleada impiedosa imposta pelos teutões tenha servido para confirmar nossa vocação para vira-latas e nossa veia autoritária, o “você sabe com quem está falando?”.

Para mim, seguindo as palavras de um conhecido jornalista esportivo, o futebol continua sendo a coisa mais importante dentre as menos importantes. Pão e circo? Não, obrigado.

 

* MARCELO GRUMAN é Doutor em Antropologia Social pelo PPGAS/MN/UFRJ, Antropólogo e Especialista em Gestão de Políticas Públicas de Cultura.

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4 comentários sobre “Eternos vira-latas

  1. Que negocio e’ este da gente aceitar esta coisa de alguns de nos sermos vira-latas? Vamos examinar este conceito mais de perto.

    Primeiro, devemos pedir perdao aos vira-latas. Voces ja’ notaram quem eles sao? Sao SOBREVIVENTES. Sao os ENJEITADOS, filhos disto e daquilo, que conseguem, pela mistura racial, serem mais resistentes e mais inventivos que cachorro de “raca.” Sim, logicamente vamos rapidamente dizer que o vira-latas sai virando latas, comendo lixo, etc. E por que? Porque nao tem outra maneira de sobreviver. De quem e’ a culpa que o cachorro vira-latas esta’ virando latas e morrendo de fome, costelas de fora, sedento, olhos vidrados de canseira e calor, ou morrendo de frio pelas ruas??? De quem???? Cada um por favor de uma olhadinha no espelho. Sim. A culpa e’ de cada um de nos.

    Agora, falemos do Brasil, e vamos deixar os pobres cachorros de lado, se nao sabemos nem respeita-los e nem cuidar daqueles que domesticamos e jogamos fora como se fossem lixo.

    Nos somos colonizados, reconolizados, neocololizados, bicolonizados, triconolizados. Bem disseram os modernistas de 1920–alias todos, menos Mario de Andrade, gente que andou pelas Europas–que somos antropofagos. Somos sim! Somos o resultado do que temos comido. E, fora a mandioca, tudo coisa importada. Vamos encarar isto de frente: O Brasil como tal nao existe senao como um resultado da colonizacao europeia. Ainda nao chegamos ao ponto de olhar a Europa (pelo menos largamos mao de invejar Portugal…), e achar que eles que sao brancos que se entendam, e que nos temos mais e’ que tocar nosso barco a nossa moda. Um dia talvez a gente ache que e’ tao importante ir visitar outros paises da America Latina como ir a “Oropa.”

    Agora, vamos a questao de que achamos que tudo que e’ de fora e’ melhor: os proprios que erroneamente insultam os cachorros de rua e dizem que os brasileiros sao como eles, estao simplesmente jogando aquele jogo no qual somos–SIM, SOMOS!–os melhores do mundo: meter o pau no Brasil!!!!

    E dai’ que o pessoal gritou o hino? Sabe que tem paises (conheco alguns) em que NINGUEM nem sabe cantar o tal hino nacional? E outros em que o hino nao existe pra ser cantado mas pra ser ouvido? Eu achei legal o pessoal estar se expressando tao fortemente quanto ao hino. E olha que aqueles versos de ponta cabeca sao dificeis. E dai’ que insultaram os outros hinos? A turba num estadio esta’ ali pra se divertir, desopilar mesmo. E’ falta de educacao, eu acho, e condeno isto porque e’ falta de respeito. Mas turba e’ assim mesmo, e insultar o inimigo e’ um joguinho besta que pretende irritar e desestabilizar o inimigo. Mas num campo de esportes, sai muita besteira mesmo. Nao da’ pra generalizar o Brasil inteiro no que um bando de bebados bestas fizeram num estadio. O que eu sei do Brasil e’ que, tais como parte dos nossos ancestrais indios, recebemos os estrangeiros bem, inocentemente, mesmo aqueles que no fim das contas acabam nos ludibriando com pedrinhas brilhantes.

    Gentes, este negocio de Copa do Mundo encheu. Ja’ acabou. Agora, e’ limpar as ruas, voltar as aulas, pagar as contas, telefonar pra mae de voces, e tomar um cafezinho com os amigos, e comecar a preparar pro Natal (ai! tem aquela enxurrada de politica entre aqui e la’!). A vida continua. Daqui quatro anos, tem mais.

    PS–Este tecnico falou isto mesmo do Chile? Affff de onde tiraram esta besta quadrada?

  2. A base da identidade nacional é a esperança, o jogo e a tragédia. Todos esses ingredientes estão no país do futuro. Que cresce mediante um estranho processo de imaginar a utopia que movimenta sem consciência clara dos avanços. Neste sentido temos sensações determinando a face de uma nação continental. Entre o mito e a invenção construímos nossos alicerces descaso e uma confluência política faz um choro coletivo prazeroso pelo não dar certo. Dentro de cada brasileiro reside um senhor de engenho e um escravo. Quando o espaço ilegal permite está lá um capataz de fazenda, gritando em cima do fraco. Mas o contrário vem na hierarquia da lei de Gerson. A vantagem é transformada em injustiça. A tragédia é a dor cria um sadismo pelo desejo de olhar o próximo e ver o erro. Nosso discurso é do colonizador na boca do colonizado. Não assumimos a governabilidade de nossas vontades históricas. Os fatos são distorcidos em nome da síndrome de conspiração. Que coloca um grupo de malvados diante de um país de “inocentes”. A unidade territorial e cultural foi costurada na omissão e fuga de um rei europeu. Portanto, nossa essência e de sair para algum lugar melhor. Criticamos tudo e a todos de nossas grandezas e perdas. Não temos glórias no passado e o presente e uma tragédia ressignificada todos os dias em que o jogo, espaço do acaso com a sorte e alguma destreza resume os passos do Brasil. Num dia distante que nunca chega – estamos a caminhar – desse modo – podemos ter melhorias, contudo a mola do desenvolvimento de nossa força e jamais possuir a percepção da conquista. Assim ficamos construindo um gigante com atitudes de anão. Não havendo orgulho, o que resta é apenas a comiseração e uma alegria cheia de pretensões futuras que não realizadas ficam alimentando o pais que reinventa suas dores. Para ter uma estrangeira vontade de fugir de um lugar para o paraíso distante além do equador sem pecados da ousadia de lembrar.

  3. Excelente texto!
    “o futebol continua sendo a coisa mais importante dentre as menos importantes. Pão e circo? Não, obrigado.”
    Que tenham um final de semana muito agradável!

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