Che: o homem, o mito, a camiseta

EVA PAULINO BUENO*

 

chePara as pessoas de minha geração, Che Guevara é uma figura importante. Embora ele tenha sido morto em 1967, em algum lugar na Bolívia, de uma certa forma ele continuou vivo, sempre de cabelos longos, barba rala, sério, olhando fixamente em uma direção fora da moldura, usando uma boina escura na qual se vê uma estrela branca. Esta é obviamente a descrição da sua fotografia mais famosa ou, por assim dizer, a “oficial”.

Mas quem foi Ernesto Guevara? E importa realmente quem ele foi? Parece que importa: o número de biografias sobre ele, sobre sua atuação na revolução cubana indica que depois de todas estas décadas ele ainda continua atraindo a curiosidade intelectual dos escritores, e o interesse de leitores. Mas o que mais se sabe de Che está relacionado com sua posição como um dos dentes da engrenagem capitalista contra a qual ele lutou.

Para exemplificar esta colocação, eu posso citar ter visto reproduções da famosa foto de Che, feita por Alberto Korda, em praticamente todos os continentes. Em algumas, a imagem aparece ao lado de personagens históricos locais. Em outras, ele está sozinho, rodeado de slogans. Em outras ainda, com as cores invertidas. Mas a ocasião mais interessante foi quando um aluno de primeiro ano de faculdade apareceu na minha aula com uma camiseta com a tal imagem. Eu perguntei se ele sabia quem era o homem. “Claro, é o Che”, ele respondeu. Quando eu perguntei quem era Che, ele respondeu, “Ah, é um cara que jogava beisebol por Cuba”. Fiquei sem saber se deveria corrigir o aluno, ou deixar que ele seguisse pensando da mesma forma. Afinal, pra uma pessoa de 18 anos, que diferença faz se Che jogava beisebol ou futebol, desde que fosse por Cuba?

Logicamente, faz uma grande diferença, não que tipo de esporte, mas que tipo de filosofia política Che teve e como a empregou durante sua vida. Como sabemos e vimos, ele era argentino de Buenos Aires, e vinha de uma família que, de acordo com a história, era “acomodada”: nem rica, nem pobre, mas que vivia bem. Fez faculdade de medicina e desenvolveu sua visão política depois de sair em uma viagem de motocicleta com seu amigo Alberto. Eles atravessaram a América espanhola (pelo menos as partes mais interessantes e com gente com problemas), e foram até… um lugar ao norte e ficaram em um asilo para leprosos… e Che estava muito apaixonado por sua namorada argentina de família rica… e talvez por causa disto nunca teve sexo com ninguém durante toda a viagem, enquanto que seu amigo Alberto usou todas as oportunidades para conquistar as mulheres que encontravam. No final, Che e seu amigo se despediram, e vemos que o amigo ficou velhinho e trabalhou em Cuba. Mas, um momento! Este é o enredo do filme “Diários de motocicleta”! Será que Che realmente foi tudo o que o filme relata? É verdade que resistiu aos charmes da mulherada durante o trajeto? Deu mesmo aquele dinheiro da sua namorada para o casal de mineiros desempregados? O filme, pelo que quer indicar, vem dos diários do próprio Che, mas como é que podemos ter certeza? Não seria a primeira vez que o escritor do script adiciona algumas coisas para fazer mais efeito. O fato é que, depois de assistir este filme, meus alunos ficaram muito comovidos com a história de Che, especialmente porque quem o representou foi um ator muito bonito.

Mas a última foto real de Che não o mostra tão bonito como o ator de “Diários de motocicleta”. Embora aquela foto não tenha aparecido tanto como a fotografia tirada por Korda, ela apareceu em alguns lugares. Teria sido em Manchete? Teria sido em Fatos e Fotos? Agora já fica difícil lembrar. Mas a foto circulou no Brasil. Era do interesse dos nossos ditadores mostrar ao povão o que acontecia com um comunista. Sim, comunista! Esta era a palavra maldita que se usava para indicar qualquer um que poderia ter o fim semelhante ao do jovem guerrilheiro que tinha ajudado Fidel Castro a ganhar a revolução. Aquele corpo estendido numa maca, sem camisa, foi usado como um aviso.

Mas não foi o único aviso. Em 1969 um filme com Omar Sharif já vinha com sua versão da vida de Che. O nome do filme, “Che!”, foi traduzido no Brasil como “Causa perdida”, e a tradução dos diálogos do filme foi alterada de forma suficiente para indicar que a causa estava, realmente, perdida. Quem viu aquele filme quando foi liberado no Brasil? Quais foram as conseqüências? Difícil dizer. Mas, pelo menos para mim, que vi o filme em 1976, ficaram as cenas chocantes de Che assinando ordens de execução de gente relacionada ao regime do ditador anterior de Cuba. Simplesmente assinando, enquanto do lado de fora o pelotão de fuzilamento ia matando, matando, matando, e ele dizendo alguma coisa que “no hay que perder la ternura”. (Ou será que isto também vem de outra fonte?) Mas, naquele filme, no fim, aparecem as imagens do corpo sendo levado, amarrado à parte inferior de um helicóptero, os cabelos voando ao vento. E também as imagens do corpo estendido no chão do hospital para onde o cadáver foi levado depois da execução. A não ser que estas sejam imagens mentais que fiz depois de ler sua biografia.

Mas em Cuba, as crianças talvez não precisem de nenhuma imagem mental enquanto recitam, todos os dias, uma sentença que diz, “Seremos como Che, seremos internacionalistas.” E os que não querem ser como Che, têm uma opção? Será verdade o que um antigo prisioneiro em Cuba (Armando Valadares, antigo embaixador dos Estados Unidos na ONU) conta, de um menino de 12 anos que foi preso por ter brincado com a arma de um policial, e depois de ser seviciado e violentado na cadeia, ficou com doenças venéreas, e ia ficar na prisão até os 18 anos, sujeito a todo tipo de humilhação e violência? Podemos acreditar que todas as crianças de 12 anos em Cuba têm que ir passar um tempo em uma espécie de retiro, onde trabalham e recebem a doutrina, mas que acabam sendo violentadas por falta de supervisão? [1] Ou será que é verdade que todas as crianças — aliás todas as pessoas — em Cuba têm direito a assistência médica gratuita? E todas as escolas têm suficiente leite em pó, açúcar, arroz e feijão para dar a todos os alunos duas refeições diárias? [2]Como vamos saber?

*

De vez em quando, aqui nos Estados Unidos, a imprensa se refere a Cuba. Depois do escândalo com o menino Elián, que sobreviveu a travessia e chegou à Flórida para ser o alvo de um conflito entre os familiares dos dois lados, o assunto que mais aparece é Fidel Castro. Está vivo? Não está vivo? Quem vai entrar no seu lugar quando ele morrer? Como é mesmo seu irmão? Os Estados Unidos devem ou não devem parar com o embargo? Quem gosta de charutos cubanos, etc.?

Talvez uma das imagens mais chocantes dos últimos tempos seja a que de Castro e Chávez, lado a lado, quando este último lhe estava dando a espada de Bolívar. Deu mesmo? Ou será que foi só para tirar as fotos? A espada pertence a Chávez pra ele poder ir dando a Castro? Não pertence à Venezuela? Os venezuelanos foram consultados sobre esta doação? Quem sabe ao certo? Talvez nem mesmo Chávez, que parece não saber exatamente onde termina a realidade e onde começa sua auto-invenção.

E, logicamente, esta imagem dos dois juntos é especial. Chávez, autodenominado socialista, é o filho bastardo da revolução cubana, da qual fez sua própria tradução e interpretação livre. Depois desta última “eleição”, em que qualquer tentativa de disfarçar seus desígnios ditatoriais caíram por terra, eu fico pensando no que diria Bolívar, seu compatriota e herói da libertação da América espanhola, que sonhou com uma América democrática.

Mas uma outra coisa interessante daquela entrevista dos dois foi a imagem do velhinho Fidel, ainda chamado “comandante”, que entrava em conflito com a outra imagem mental que temos dele, uma espécie de Che mais magro, de cabelos mais curtos, falando à multidão depois da entrada triunfal em Havana. Sim, meus amigos, até os poderosos criam rugas e ficam com manchas na pele. É só uma questão de tempo.

Mas não para Che. Ele continua com o mesmo olhar penetrante. Furando o tempo. As doenças jamais o tocaram. Não teve cataratas. Não colocou dentadura nem implantes. Ali está ele, imortal. Furando o futuro e chegando até nós. É ou não é?

*

Como vamos saber se é mesmo verdade que as crianças de Cuba têm alimentação garantida? Sabemos que o país eliminou o analfabetismo e que exporta médicos. Mas, e a comida? Com o embargo imposto pelos Estados Unidos por tantos anos, e com a queda da União Soviética no fim dos anos 80, o país ficou mesmo como um pequeno navio num marasmo, velas murchas. Que fazer?

Em 1996, participei de uma mostra de um filme, seguida de palestra e discussão, feita pela artista Coco Fusco. [3]Naquela ocasião Fusco, que trabalha com teatro, especialmente teatro de performance (uma espécie de improvisação), relatou sua experiência em Havana, e como uma grande porcentagem das mulheres jovens da cidade trabalham em volta dos hotéis de luxo, como prostitutas, e sustentam a família com este trabalho. Ela trazia os filmes e entrevistas que havia feito, e a conclusão, naquele momento, era que a população cubana estava numa condição terrível, então as mulheres — mesmo meninas de 10 a 12 anos – faziam o que podiam para ajudar suas famílias. Fiquei com a impressão que nada havia mudado em Cuba, pelo menos não para as mulheres. Outra vez, a ilha tinha virado o bordel dos países ricos, em que homens endinheirados podem ir e escolher as mulheres que quiserem para usar e descartar. Elas não têm outra opção, não importa o que “el comandante” diga, e quantas espadas de Bolívar Chávez possa lhe trazer.

Eu nunca estive em Cuba. É bem possível que jamais possa ir. Mas a imaginação daquele país permanece, para mim, assim como para muitos outros, filtrada pelos versos do patriota José Martí, que morreu tentando libertar sua pátria dos espanhóis: uma terra de palmeiras, de brisa, de grande beleza. Talvez tenha sido esta a imagem que inicialmente atraiu o jovem idealista Ernesto Guevara.

*

As guerras, as revoluções, são mesmo como um omelete: não podem ser feitas sem se quebrar os ovos. Che entrou na luta pela libertação de Cuba pronto para quebrar ovos. Fidel ficou com o omelete. O povo cubano pode ter ganhado um pouco do omelete no início (especialmente depois que a maioria dos brancos se foi da ilha), mas pelo que se vê ultimamente, o povo cubano está realmente com as cascas dos ovos nas mãos, e as galinhas foram também comidas. Quando Fidel se for, seguindo o estilo de ditadores, a presidência fica para seu irmão Raul Castro. O que se espera, para o bem do povo cubano, é que Raul — que também não é jovem — veja que eleições livres não têm que necessariamente significar que o país vai ser entregue aos ianques. Que adianta terem dado educação aos cubanos, se os irmãos Castro acham que o povo é estúpido e não sabe escolher seu próprio presidente?

As ditaduras, tenham as caras que tiverem, cheiram mal. Agora que Chávez pariu seu próprio modelo, é bem possível que a carniça se espalhe pela América Latina inteira. Não sei bem o que Che diria de Chávez, mas é bem possível que o que ele pensaria não poderia ser impresso em uma camiseta.

Quanto à imagem de Che, causa uma espécie de alegria vê-lo sempre jovem, varonil, bonito, tal como Casimiro de Abreu, Castro Alves e Lord Byron. Tal como estes poetas românticos, e tal como os ícones como Marilyn Monroe e James Dean, Che escapou dos achaques da idade, das dores de coluna, das varizes, das hemorroidas. Há uma grande beleza nisto, temos que admitir.

A não ser, claro, que a gente prefira a beleza da velhice plena de Michelangelo. Ou mesmo de um Fidel à beira da decrepitude total.

 

* buenoEVA PAULINO BUENO é paranaense de Cafeara. Morou em Maringá até 1975, e se graduou em Letras pela UEM (1975). Tem mestrado em Língua Inglesa pela UFRJ (1986), e Ph. D. em Hispanic Languages and Literatures pela Universidade de Pittsburgh (1991). Atualmente é professora de Espanhol e Português na St. Mary’s University, em San Antonio, Texas. É autora de vários livros e artigos sobre literatura brasileira, cultura popular, e estudos da mulher. Seu livro mais recente é uma enciclopédia, Latin American Women Writers, An Encyclopedia (Routledge). Publicado originalmente na REA, n. 94, março de 2009, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/094/94esp_bueno.htm

[1] Ver a história de Armando Valadares em http://www.capmag.com/article.asp?ID=563

[2] Ver o trabalho de Julia Wilkins e Robert Gamble sobre a educação em Cuba em http://aabss.org/journal2002/Wilkins.htm

[3] Ver o capítulo “El diario de Miranda — Miranda’s Diary”, de Coco Fusco em The Subversive Imagination: Artists, Society, and Responsibility. Carol Becker, Editora. Nova Iorque: Routledge, 1994, p. 95-110. Neste capítulo, Coco Fusco relata como sofreu ataques tanto dos cubanos radicados em Nova Iorque, como do governo americano. Em especial é interessante seu relato do que lhe aconteceu quando foi ao Brasil e foi interrogada pelas autoridades americanas sobre suas “atividades” em Cuba.

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3 comentários sobre “Che: o homem, o mito, a camiseta

  1. Raymundo, obrigada por colocar o video aqui, e vai ajudar a nossa compreensao de quem foi Che. Mas, como voce bem diz, sao mutias as camadas sobrepostas a ele. Ao invocar a camiseta, no texto eu chamo a atencao para a inevitavel transformacao de TUDO em imagem e a imagem em MERCADORIA. Nao creio que possamos recuperar a pessoa de Che. Mas, para muitos que usam a camiseta com seu rosto, este nao e’ o ponto. Che se transformou em um significado vazio, que cada um preenche com a ideologia que quer. Na realidade, isto nao acontece somente com Che, pelo contrario. Nos, seres humanos, somo experts em fazer isto! Basta lembrar as barbaridades cometidas em nome de cada uma das religioes.

  2. é um prazer ler esta crônica e o balanço das nossas incertitudes, dado fundamental da nossa percepçao do mundo, que parece se multiplicar à medida que as fontes se diversificam e nos confundem.
    talvez fosse necessario acentuar que o bloqueio é um dado concreto, pesado e esmagador e que ele é uma imposiçao dos Estados Unidos, uma imposiçao cruel, antidemocratica e nao contestada pelos paises que se arvoram em democracias, ocidentais ou outras.
    diria até que, de tao antigo, ja esta se tornando natural, parte integrante da geopolitica continental – isso cheira a perversao midiatica ou é impressao?
    de qualquer maneira, levantar esse bloqueio é uma condiçao sine qua non para que se possa ver claro na ilha, para que possamos verificar algumas dessas inumeras que hipoteses lembradas por Eva Bueno e que, no estado atual das coisas, sao impossiveis de esclarecer.

  3. Querida Eva. Belo texto. De ícone do socialismo possível, Che hoje em dia é apenas uma foto de camiseta, banalizado, esvaziado em seu significado, controvertido na sua veracidade histórica. Parece que foi um aventureiro político-ideológico, querendo se fazer messias da religião laica. O ser humano precisa e parece que sempre precisará de MITOS. Até mesmo os socialistas precisaram e precisam de SANTOS e TEXTOS SAGRADOS.

    SUGESTÃO DE DOCUMENTÁRIO DISPONÍVEL NO YOU TUBE: “PERSONAL CHE” é um documentário de 2007 dirigido por Douglas Duarte e Adriana Marino onde diversas pessoas ao redor do mundo reinterpretam a lenda de Che Guevara. Do rebelde que vive em Hong Kong e luta contra o crescimento do país, ao neo-nazista da Alemanha que prega a revolução, passando pelo cubano que odeia Fidel Castro. Depoimentos que provam que o símbolo histórico do revolucionário argentino sobrevive até hoje. Mas, como todo símbolo, cada um o percebe de uma forma, muitas vezes de maneiras bastante contraditórias. Muitos filmes tentaram revelar a verdade por trás do mito de Che Guevara. Este documentário, pelo contrário, tenta explorar o mito por trás da verdade [e da foto de camiseta].

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