Fritz Lang – Maquiavel e o Cinema

UBIRACY DE SOUZA BRAGA*

fig 1

Fritz Lang é considerado um dos mais famosos cineastas contemporâneos vinculado ao expressionismo alemão, cujo auge se deu na década de 1920. É caracterizado pela distorção de cenários e personagens, através da maquiagem, dos recursos de fotografia e de outros mecanismos, com o objetivo de expressar a maneira como os realizadores viam o mundo. Em 1919 estreou na direção com o filme intitulado “Halbblut”, obtendo o primeiro sucesso com “Os Espiões” (Spies/Spione), do mesmo ano de sua estreia. Baseado no romance de Thea von Harbou, sua parceira e esposa que também assina o roteiro, a história gira em torno do desaparecimento de certos documentos e a iminente assinatura de um tratado internacional. Alemães, russos, franceses e japoneses têm interesses na correlação de forças sociais e políticas. A montagem inicial é ágil e já nos deixa a par dos fatos políticos e uma antecipação de toda a ação em seu devir. É um filme que não envelhece. Chega com fôlego aos oitenta e tantos anos de sua démarche. Seu ritmo e a concepção técnica garantem a adrenalina.

Dirige na sequência “Die Nibelungen” (1924) – um filme sobre o “fantástico mitológico”, ou, a distopia futurista “Metropolis” (1927) tendo os trabalhadores, que vivem debaixo de terra e põem as máquinas para funcionar, e a classe dirigente, para lembramos de Antônio Gramsci (1975) que vive à superfície – talvez o expoente máximo do cinema dos anos 1920. Nasceu em Viena, na Áustria, filho de um engenheiro civil. Aos 21 anos mudou-se para Munique (1911), onde estudara pintura e escultura diante da efervescência cultural, política e social da Berlim do pós-guerra (cf. Langlois, 1980; Schorske, 1988; Braga, 2012). Em 1921 casou-se com a roteirista Thea Von Harbou, que escreveu os argumentos de quase todos os filmes desta primeira fase da carreira. São películas do chamado “cinema mudo”, que entrariam para a história como alguns dos maiores expoentes do expressionismo alemão. O cineasta deixou uma forte marca estética na história social do cinema. Influenciou diretores tão significativos como Alfred Hitchcock, Luís Buñuel e Orson Welles.

Cena extraordinária do filme “A morte cansada” (1921).
Cena extraordinária do filme “A morte cansada” (1921).

Neste aspecto vale lembrar as poderosas personagens femininas do cinema de Fritz Lang. Aparecem desde os filmes silenciosos e a heroína de “A Morte Cansada” (“Der müde Tod”) é provavelmente a primeira da numerosa linhagem, que se firma a partir da “amizade desejante” com a roteirista Thea von Harbou, esposa do diretor, mas que ainda se desdobra e se enriquece nas décadas seguintes, depois da separação do casal. Com seus três episódios de aventura, A Morte Cansada compartilha com os seriados dos anos 10 a presença de mulheres que tomam a iniciativa da ação, protagonizando peripécias e lances sensacionais, no estilo Pearl White em Os perigos de Pauline e também Musidora em Les Vampyres, essa última até inspiração direta no figurino adotado pela aristocrata do episódio italiano, apropriadamente vestida de malha preta e colante para um duelo de esgrima. O gosto de Lang pelas narrativas de aventura já vinha se aprimorando desde os roteiros escritos para Joe May nos anos 10 e nas duas partes de As Aranhas (1919-20), um de seus primeiros trabalhos de direção, previsto inicialmente como um seriado em quatro episódios. Dois anos depois de estrear como diretor, Lang realiza A Morte Cansada, em que, sem descuidar do atrativo de um cinema de gênero, radicaliza o que nele pode haver de mais grave, transcendente e inescapável, o encontro entre vida e morte.

Não que os filmes de Fritz Lang, em si, sejam alegres ou festivos. Muito pelo contrário. O que unifica essa angústia ao drama moral, é uma visão sombria do mundo, fundada maquiavelicamente na convicção de que “o mal está em toda parte” (cf. Caristia, 1951; Raboni, 1994). Ou, nas palavras do crítico norte-americano Andrew Sarris, “uma visão soturna do universo em que o ser humano luta em filmografia tão variada, que vai da saga mitológica à ficção científica, do policial ao faroeste, da aventura exótica com seu destino pessoal e, inevitavelmente, perde”. Desde seu incontestável, “A morte cansada” (1921), uma parábola sobre a vida, o amor e a morte – o filme que fez Luís Buñuel decidir fazer cinema – , a noção de destino, seja em Maquiavel (cf. Abrahão, 2009), ou, na leitura de Max Weber (1958), como força inexorável contra a qual o homem se debate em vão é a engrenagem do cinema de Lang. Intimamente articulado à noção de destino: a) emerge o sentimento de vingança; b) move boa parte dos personagens para reparar os danos e injustiças sociais; c) como representação do destino, encarnado em vilões, grupos, instituições (cf. Caristia, 1951; Raboni, 1994).

Foi porque Maquiavel percebeu que qualquer conselho positivo para lidar com problemas políticos era suscetível de ser contrariado por uma alusão pessimista à fortuna, que ele resolveu dedicar a esse tema o penúltimo capítulo de “Il Principe”, livro escrito por Nicolau Maquiavel em 10 de dezembro de 1513, cuja 1ª edição foi publicada postumamente, em 1532. Ele próprio aceitou que a “Fortuna” era o árbitro de metade das ações dos homens, mas sublinhou que isso não deveria levar ao derrotismo. Em duas memoráveis imagens, comparou a fortuna a um rio cujas águas caudalosas podem ser inofensivamente desviadas por diques e canais de drenagem precavidos, e a uma mulher que, sendo mulher, pode ser domada pelo ardor e a violência:

sou de parecer de que é melhor ser ousado do que prudente, pois a fortuna (oportunidade) é mulher e, para conservá-la submissa, é necessário (…) contrariá-la. Vê-se, que prefere, não raramente, deixar-se vender pelos ousados do que pelos que agem friamente. Por isso é sempre amiga dos jovens, visto terem eles menos respeito e mais ferocidade e subjugarem-na com mais audácia” (cf. Maquiavel, 2006).

Ipso facto a recusa do maniqueísmo. Para ele, só havia duas espécies de indivíduos: os maus e os muito maus. Não há mocinhos ou heróis imaculados em seus filmes, e frequentemente sua simpatia vai para os malditos, os abominados, os monstros, os excluídos da convivência humana. Seja qual for o crime cometido, Lang sempre está contra a corja linchadora. Se há duas cenas capazes de sintetizar esplendidamente essa moral são estas duas, uma de “M” (1931) e a outra de “Fúria” (1936). Mas, ao contrário da vingança catártica freudiana, como em “Desejo de matar”, em Lang ela raramente é apaziguadora. É onipresença do mal, vingança tardia ou inútil, como em: “A morte cansada”. Em outros filmes, a ênfase recai sobre a vingança: “Os Nibelungos”, “Fúria”, “Os carrascos também morrem”, “O diabo feito mulher”, “Os corruptos”.

O fato de ser vienense (cf. Schorske, 1988; cf. Braga, 2012) fez Fritz Lang ter interrompido bruscamente sua esplendorosa carreira alemã por conta da ascensão do nazismo – o que o levou, como outros, sobretudo a chamada Escola de Frankfurt (1923) a começar toda uma nova vida na América do Norte – certamente acentuou sua amarga visão de mundo e deu outra consistência a suas obsessões. No final da década de 1950, retornou para Alemanha e ainda realizou três filmes antes de se aposentar. Dois deles retomavam a temática do exotismo. O último foi uma revisitação de Mabuse – “Os Mil Olhos do Dr. Mabuse” -, com o qual encerrou a sua carreira. Atuou ainda no filme “O Desprezo” (1963) de Jean-Luc Godard. Logo, voltaria para os Estados Unidos, aonde veio a falecer quase cego. Enfim, a morte que se ressente do cansaço tão humano, amaldiçoada na terra por cumprir os desígnios divinos, se afigura como uma das personagens mais solitárias da história social do cinema. Três cidades brasileiras exibem este ano de 2014, vasta mostra do diretor vienense que cultivava visão sombria do mundo e anteviu, ao fim da carreira, tal e qual Michel Foucault na filosofia, determinada Era de controle e vigilância décadas depois em voga no cinema e TV por assinatura.

 

041Ficha Técnica: Filme: “Der müde Tod”. Direção: Fritz Lang. Elenco: Lil Dagover; Walter Janssen; Bernhard Goetzke; Rudolf Klein-Rogge; Hans Sternberg; Erich Pabst; Max Adalbert.

 

Bibliografia consultada:

BRAGA, Ubiracy de Souza, “Robert Musil: As Qualidades de um Autor à Janela do Mundo”. In: http://httpestudosviquianosblogspotcom/2012/03/02/; LANGLOIS, Henri, “Imagens do cinema alemão”. In: Catálogo do Ciclo de Cinema Alemão, 1918-1933/1965-1980. Lisboa: Cinemateca Portuguesa/Fundação Calouste Gulbenkian & Instituto Alemão, 1980; CARISTIA, Carmelo, II pensiero político di Niccolo Machiavelli. 2ª. Ed. Napoli: Casa Editrice Dott. Eugenio Jovene, 1951; FERRARA, Orestes, Maquiavello – la vida, las obras, la Fama. Madrid: Coleccion La Nave, 1952; ESCOREL, Lauro, Introdução ao Pensamento Político de Maquiavel. Rio de Janeiro: Edição Simões, 1958; WEBER, Max, The Protestant Ethic and the Spirit of Capitalism. New York: Charles Scribner`s Sons, 1958; MOSSINI, Lanfrano, Necessita e legge nell`opera del Machiavelli. Milano: Giuffre, 1962; HEGEL, G. W. F., Fenomenologia dello Spirito. Florença: La Nuova Itália, 1973, 2 volumes; GRAMSCI, Antônio, Gli intellettuali e l`organizazione della cultura. Torino: Editore Einaudi, 1975; SCHORSKE, Carl Emil, Viena fin-de-siècle – Política e cultura. São Paulo: Companhia das Letras, 1988; RABONI, Giovanni, “Berlusconi, il Principe e lo spot”. In: Corriere della Sera, 20 febbraio 1994, p. 22; RIBEIRO, Renato Janine, “Um pensador da ética”. In: Revista Cult, dezembro de 2004; MACHIAVELLI, Niccolò, Il Principe. A cura di Giorgio Inglese. Roma: Editore Einaudi, 2006; ABRAHÃO, Miguel M, O Strip do Diabo. São Paulo: Editor Agbook, 2009; entre outros.

* bragaUBIRACY DE SOUZA BRAGA é Sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ) e doutor em ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s