Crime sem castigo? Uma leitura de “O sonho de Cassandra”

HÉRICKA WELLEN*

O filme “O sonho de Cassandra” (Cassandra’s dream, 2007) faz parte da excelente safra europeia do diretor nova-iorquino Woody Allen, ao lado de filmes como “Match Point” (2005), “Vicky Cristina Barcelona” (2008), “Meia noite em Paris” (Midnight in Paris, 2011) e “Para Roma com amor” (To Rome with love, 2012).

“O sonho de Cassandra” conta a história dos irmãos Blaine, únicos filhos de uma família de classe média na cidade de Londres. Representados brilhantemente pelos atores Ewan McGregor e Colin Farrel, respectivamente, Ian e Terry Blaine são irmãos que mantêm uma afetuosa relação de amizade, apesar de serem muito diferentes um do outro. Na definição de sua mãe (Clare Higgins), Terry seria o filho “atleta”, enquanto Ian seria o “cérebro”: “Todos previam grandes coisas para Ian. É tão bonito e sociável. É um mistério ele não ser mais bem sucedido”.

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A despeito da previsão de que faria “grandes coisas”, Ian vive num mundo de planejamentos megalomaníacos, sempre se envolvendo em o que supostamente seriam grandes negócios. Todos esses negócios infalíveis, entretanto, não são acompanhados de grandes esforços laborais por parte de Ian e, via de regra, culminam em planos frustrados.

De concreto, Ian tem apenas o trabalho no restaurante de seu pai (John Benfield), que ele considera enfadonho, e a possibilidade da ajuda financeira de seu tio Howard (Tom Wilkinson), um médico e empresário milionário. A figura de Tio Howard tem grande influência no comportamento de Ian. Ele almeja viver o mesmo tipo de vida de seu tio, que ele pensa ser glamorosa e emocionante.

Numa tentativa de imitar aquela vida, que ele vislumbrou com Terry durante algumas férias escolares, quando eram crianças, os irmãos compram um velho barco, ao qual dão o nome de “O sonho de Cassandra”. A escolha do nome está vinculada a um sonho que levou Terry a ganhar uma pequena fortuna nas corridas de cachorros e que possibilitou a compra do barco.

Essa figura de um tio milionário permeia a vida dessa família, que cultiva uma relação claramente amorosa, de uma forma perturbadora. A mãe, irmã de tio Howard, considera-o um grande herói, apesar do evidente ciúme que isso gera no pai. Cotidianamente, faz elegias à inteligência e à persistência de seu irmão, que conseguiu mudar de vida; e diante das críticas de seu marido, dispara frases do tipo: “Ele ganha mais em uma semana do que você em um ano” ou “teríamos essa casa sem a generosidade de meu irmão?”. Até mesmo o restaurante, tão caro ao senhor Blaine, foi comprado com o dinheiro de Tio Howard.

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Ian vive distante fisicamente do tio e de seus negócios, não tem uma ideia clara do que se precisa fazer para se tornar um milionário, embora seja esse seu sonho. Ele não tem uma profissão, não sabe o quer fazer ao certo, tanto que seus negócios fantasiosos são sempre bem diferentes uns dos outros. Ian não almeja uma carreira, ele almeja ser rico. E esse sonho, que não tem nenhum lastro concreto, acaba por fazê-lo roubar dinheiro do restaurante do pai e até aceitar o mais absurdo pedido feito pelo tio Howard.

Ao mesmo tempo em que vive esse distanciamento físico dos “bastidores” da vida de seu tio, visto que ele só conhece a parte que aparece em capas de revista de celebridades, e não aquelas que poderiam ilustrar páginas policiais, há uma onipresença de tio Howard no imaginário dessa família; seu nome é repetido quase que como um mantra. Isso acabou por transformar Ian num “cara medíocre que banca o figurão, com carros emprestados” (que ela pega na oficina em que seu irmão trabalha), como ele próprio se definiu quando Terry lhe pede dinheiro para saldar uma grande dívida de jogo.

Terry é um mecânico “que não sonha tão alto”. Não seguiu a carreira de jogador de futebol, como sonhava seu pai, mas alimenta o sonho de ter sua própria loja de esportes. Esse sonho, todavia, não é central em sua vida. Terry e sua companheira Kate (Sally Howkins) trabalham cotidianamente e sonham em comprar uma casa com jardim e ter filhos. Para ele, a felicidade consiste em velejar com Ian e Kate, e poderia ter conseguido realizar seus sonhos, não fosse seu vício em apostas.

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Situações peculiares na vida dos irmãos os levam a aceitar um pedido criminoso do tio Howard. Ian precisa de dinheiro para entrar em mais um grande negócio, dessa vez no ramo de hotéis. Além disso, e essa seja talvez seja a causa principal de sua busca por dinheiro rápido, Ian se apaixona por Angela (Hayley Atwell), uma atriz de teatro, que sonha com o estrelato do cinema estadunidense.

Angela é uma mulher deslumbrada, “de gostos caros” e muito bonita, e o assédio dos homens assusta Ian, que tem pressa em prendê-la rapidamente, usando, para isso, como de costume, o nome de seu tio Howard e o fato dele conhecer pessoas influentes na indústria de cinema dos Estados Unidos.

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Terry, por sua vez, precisa pagar rapidamente a agiotas uma grande soma de dinheiro perdido no jogo. No entanto, ele é o que mais reluta em aceitar fazer o que o tio pede, mas os argumentos de que a “lealdade familiar deve ser mútua” e de que “família é família, sangue é sangue”, usados pelo tio Howard, bem ao estilo da máfia, assim como a insistência do irmão, terminam por levá-lo a dizer sim a algo que atenta contra os princípios de humanidade: matar por dinheiro.

Apesar da inexperiência dos irmãos, o assassinato que visava à proteção da fortuna de tio Howard é realizado sem deixar pistas. Mas deixa, entretanto, uma marca no coração de Terry que nenhum pagamento poderia apagar.

Claramente inspirado no personagem Raskólnikov, do livro Crime e Castigo, do escritor russo Fiódor Dostoiévski, Terry passa a ser atormentado pela culpa, rejeita o pagamento do tio, passa a beber e tomar calmantes indiscriminadamente, e a possibilidade da impunidade só faz aumentar todo seu tormento.

Em contraste com o irmão, que, após o ocorrido, incrementa sua fantasia de riqueza e fama, Terry vai se reduzindo gradativamente até se tornar um farrapo humano. Aterrado pela culpa, ele se torna estranho e bruto. Se, antes do assassinato, ele tinha vários planos para a família, após a sua realização, a esperança de uma vida feliz se esvai. A sua esposa, sem saber como contornar a situação, paradoxalmente, pede ajuda justamente ao parceiro de crime e, assim, aumenta a pressão psicológica sobre Terry.

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Ao lado desse dilema de Terry, existe outro. Para tio Howard, a única forma de sair impune de seus crimes e do assassinato planejado, é matar o próprio Terry, que claramente afirma que a confissão é a única forma de redenção de todos. Esse assassinato é planejado por tio Howard e Ian, que, no entanto, não consegue realizá-lo. O amor pelo irmão fala mais alto do que sua ganância. O humanismo dos dois fala mais alto.

“O sonho de Cassandra” não é um filme cínico nem niilista, pois cogita a redenção dos personagens, tal qual Raskólnikov. Assim como Raskólnikov, Terry decide confessar seu crime e cumprir sua sentença, para tentar viver em paz. Ian, por sua vez, escolhe a vida do irmão aos seus mirabolantes sonhos de sucesso empresarial e, provavelmente, ao seu casamento com Angela. A decisão dos irmãos não pode ser desconsiderada. Se os planos que os levariam à redenção não se concretizam, pelo menos demonstram que o dinheiro não está acima da vida e das relações humanas.

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Assim, ao contrário do jovem estudante russo, o assassinato cometido pelos irmãos Blaine fica impune, mas Terry e Ian são punidos e Tio Howard pode continuar posando para as capas de revistas de celebridades, provavelmente com lágrimas de crocodilo nos olhos.

 

O Sonho de CassandraFicha técnica
Gênero:
Drama
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Produção: Gareth Wiley, Letty Aronson, Stephen Tenenbaum
Fotografia: Vilmos Zsigmond
Trilha Sonora: Philip Glass
Duração: 108 min.
Ano: 2007
País: Estados Unidos / Reino Unido
Cor: Colorido
Estreia: 30/04/2008 (Brasil)
Distribuidora: Imagem Filmes
Estúdio: Iberville Productions / Virtual Studios / Wild Bunch
Classificação: 14 anos

 

wellen-hericka*HÉRICKA WELLEN é Doutora em Educação.

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