Robin Williams & Carpe Diem

RAYMUNDO LIMA*

Robin Williams, ator brilhante, encontrado morto dia 11/8/2014, aos 63 anos, foi inspiração para muitos professores da década de 1990, como professor Keating, no filme “A Sociedade dos Poetas Mortos”. Seu estilo irreverente, inovador, poético, despertou curiosidade e polêmica entre alunos e professores. Como seria bom ter um professor criativo e destemido.

“Sociedade dos poetas mortes” e “Ao mestre com carinho”, de 1967, se destacam na lista dos filmes de escola, pois ficaram na memória de muita gente. Robin Williams ganhou Oscar por “Gênio indomável”, mas certamente ficou mais conhecido e venerado pelos professores ansiosos por destruir a escola conservadora, reprodutivista, e asfixiante da criatividade docente. Também contribui para divulgar a mensagem “carpe diem”, que gerou controvérsias.

Ludwig Wittgenstein recomenda prestarmos mais atenção ao uso da palavra e seu contexto cultural e histórico, do que sua etimologia.  É o caso do Carpe Diem, que originalmente foi escrito pelo poeta latino Horácio (65 a.C.-8 a.C.), no Livro “I de “Odes”, em que aconselha a sua amiga Leucone na frase: “…carpe diem, quam minimum credula postero”. Uma tradução possível para a frase seria “…colha o dia de hoje e confie o mínimo possível no futuro”.

Robin Williams (1951-2014)
Robin Williams (1951-2014)

“Colher o dia” tem sentido diverso de “aproveite um dia”. “Carpe” significa “colher” e não “aproveitar”. O professor Keating estimula os alunos para colher o momento de suas vidas, para fazê-las extraordinárias. Mario Sérgio Cortella (professor de Teologia e Ética da PUC-SP), também esclarece o contexto do termo: Carpe Diem, na época em que vivia Horário, a sociedade romana estava em decadência – ou seja, “era como um moribundo, a quem só resta ‘sorver’ as últimas gotas de vida, não por heroísmo, mas por necessidade, diante do seu fim: então, resta apenas “aproveitar o presente”.

Como também nós vivemos numa época marcada pela morte de valores, crise da moral, crise de paradigmas, exacerbação das paixões e do imediatismo, impera a sensação que resta apenas “aproveitar o que resta”, para gozar a última gota da vida. Então, até hoje reproduzir esta frase sem prudência e cuidado pode desencadear efeitos danosos em algumas pessoas. Note bem, o perigo não está em “colher o momento, para viver uma vida boa, e fazê-la extraordinária”, mas sim, “gozar intensamente o aqui-agora” e o resto que se dane! Usufruir os momentos intensamente sem pensar no que o futuro reserva, sem se importar nos efeitos dos atos, pode contribuir para formar jovens e adultos irresponsáveis, individualistas e inconseqüentes nos atos. Muitos acidentes fatais hoje são produzidos por este estilo de vida: deixe o menino brincar com o tigre! ou finjo que não vi ele/ela pegar as chaves do carro. Conheço pais que adoram ver os filhos vivendo intensamente a vida, fumando maconha ou bebendo até cair.

Cena do filme "Sociedade dos Poetas Mortos
Cena do filme “Sociedade dos Poetas Mortos

Era boa a intenção do mestre Keating do filme: instigar os adolescentes cheios de energia e paixão pela vida a se projetarem [no presente] para serem homens extraordinários [no futuro]; serem boas pessoas, cidadãos críticos, profissionais exemplares. Keating bateu de frente com a filosofia da escola tradicional, cujo modelo visa ajustar os alunos para reproduzir a disciplina necessária, aprender o conhecimento consagrado, e sustentar a tradição-família-propriedade. Alunos assim vão se dar bem na universidade científica e produtivista e fazer avançar a sociedade taylorista-toyotista. Afinal, são poucas as escolas inovadoras que deram certo no mundo. Também o professor libertário precisa ter prudência nos seus atos pedagógicos, para não ser interpretado errado ou reproduzido de modo equivocado nas palavras e nos atos. A vítima pode ser a sociedade toda.

Carpe Diem é um slogan ambíguo: tanto pode contribuir para formarmos jovens cujas vidas podem ser “extraordinárias”, como pode ser uma forma negativa de estruturar valores, especialmente para os jovens que assimilam dos pais e avós pessimistas e niilistas que deixaram de acreditar no futuro da civilização. Resta apenas que eles ‘Vivam o presente, Carpe diem’”, observa Cortella (Cf: Os labirintos da moral. Ed. Papirus, 2007, p.41 ss). Assim as ideias de futuro, projeto, prudência, ética, valores, regras, política, democracia, parecem sumir num buraco negro da vida líquida ou hipermoderna. Apesar de tudo, ainda podemos investir – ou acreditar – numa educação para a vida ser extraordinária, digna e com perspectiva de ser feliz. Então, é preciso “colher a existência”.

EM TEMPO: Parece que o ator Robin Williams, no seu ato final, não soube como “colher a vida”. Só “aproveitou” 63 anos. Uma pena!

* limaRAYMUNDO DE LIMA é Doutor em Educação e professor do DFE-UEM.

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2 comentários sobre “Robin Williams & Carpe Diem

  1. Ótimo texto! Em tempos de folhetos eleitorais insossos, com propostas vagas e completamente genéricas ao estilo “vamos lutar pela melhoria de tudo, para o bem de todos”, o texto acima deveria ser distribuído no campus para fins de esclarecimento aos eleitores. Isso considerando que o debate entre os candidatos nem os comitês se dispuseram a esclarecer coisas que realmente interessam saber.
    De fato, aconteceram momentos hilários (para não falar em deprimentes, se for considerada a seriedade da coisa…) no debate no RU. Um candidato soltou a pérola “em minha administração não vou processar nenhum estudante”. Como assim?! Baseado no que diz sua bola de cristal ou no fato de que promete se ausentar de quaisquer responsabilidades futuras?! O fato de alguém ser estudante, professor ou funcionário, não o exime da possibilidade de, no futuro, cometer um crime ou coisa do tipo no campus da universidade. Nesse caso, o candidato a reitor já diz de antemão que nada fará?!
    Ainda nesse assunto, também acho que a universidade deveria se posicionar claramente sobre o consumo de maconha no campus. Ou pode ou não pode; simples assim. Creio que pode; considerando que às 4 da tarde um monte de usuários vão para o gramado e começam a fumar. Mas tenho dúvida se a reitoria assumiria essa posição no informativo, por exemplo. Daí minha dúvida.
    O resto, claro, é o mais sério da coisa. E para isso é melhor aos interessados lerem o texto do Professor Raymundo. E evitarem os folders dos candidatos…

  2. A educação é o momento em que o espaço deve ser preenchido pelo fascínio que a vida deve exercer. Aproveitar o dia encontrando nas tarefas o meio de existência, que não está no outro. Mas em si elaborando um desejo para além… Os livros, artes e as ciências são capazes de mostrar multidões invadindo o pensar há procura de novos perguntadores. Não existe morte para quem faz da vida realizar. Desse modo, o passado é o todo em tudo; em qualquer lugar. Estamos cercados de coisas que outros fizeram; e assim nossos objetos, monumentos, fotos, máquinas, livros, revistas, olhares, brinquedos, panelas, cheiros, quadros, carros, gestos, guerras, pazes, amores ou não. Assim quando um corpo para. Outros continuam e parte do que foi construído ou sentido vai andar. De modos estranhamente comuns porque somos fantasmas respirando o ar que o passado realiza no futuro que está em cada presente fugaz, mas eterno de mudanças. Comédias, tragédias e filmes são feitos todas as horas. Os museus estão por aí, cheios de histórias em cada esquina do mundo entre olhos e o sorriso triste de cada palhaço no palco da terra criando sentido para o amanhã, que nasce no choro de cada novo ser humano, passageiro da aventura única que é viver… .

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