A UEM entre a realidade concreta e o abstracionismo político-pedagógico (Reflexão sobre como votar certo para Reitor e Vice-Reitor)

limaRAYMUNDO DE LIMA*

 

As entrevistas e debates ocorridos entre os 4 candidatos a reitor e vice-reitor da Universidade Estadual de Maringá, por um lado representa um avanço em relação aos vícios próprios da polarização ideológica (esquerda X direita) reproduzida até a década de 1990. Os candidatos de hoje parecem mais focados nos problemas concretos da UEM, tais como: gestão do orçamento, críticas às obras paradas pelo Governo Estadual, as perdas de terrenos da instituição para a Prefeitura de Maringá, o elevado número de professores temporários e a falta de contratação de professores efetivos e de funcionários, considerando o aumento dos blocos construídos e novos serviços da Universidade em seus campi, a tendência de internacionalização da UEM, etc.

Mas, por outro lado, os candidatos evitam tratar de vários assuntos importantes, talvez porque os consideram problemas “menores”, ou porque não querem arriscar perder votos de algumas pessoas e grupos.

Nesse sentido, denuncio o silêncio sobre os seguintes problemas que a UEM enfrenta nos bastidores do seu dia a dia:

a) É hora de os candidatos – e a comunidade acadêmica – reconhecer e investigar as causas que levam alguns cursos revelar elevado número de alunos desistentes. há cursos com índice de desistência acima de 70%. Deveria ser um escândalo social, considerando o discurso da inclusão e ser justamente uma universidade “pública”. Alguns cursos sofrem 20%, 30%, 40% de desistência logo no primeiro ano. Culpado é apenas o aluno? Ou deve ser responsabilizada a cultura acadêmica excludente? Ou é o habitus professoral sádico? Quanto custa à Universidade sofrer sistematicamente essas desistências que na escola é chamado de “fracasso escolar”? Que medida tomar para superar a didática ruim, ou falta de interesse de alguns professores para bem ensinar os conteúdos, principalmente aquele professor que só se interessa pela pesquisa? Wladimir Kourganoff acusa “Todas as universidades que são dominadas pelo primado da pesquisa caracterizam-se por uma atitude irresponsável do corpo docente em relação ao ensino” (A face oculta da universidade. Ed. UNESP, 1990, p.100). Todos os candidatos à reitoria/2014 não enxergam o “que fazer” para o bom ensino ser resgatado na UEM. (Nesse sentido, a UEM segue o caminho da USP. Pergunto: O que é bom para a USP é bom para a UEM?).

b) Ainda sobre a qualidade do ensino na UEM: os candidatos evitam falar sobre “que fazer” com os professores efetivos que sistematicamente faltam às aulas? (São 20%, 30%?). Ou chegam atrasados e saem antes do término previsto da aula? Ou ficam em sala de aula enrolando os alunos (ex.: falando de futebol, família, menos o conteúdo programático)? Alguns professores se inspiram em universidades que autorizam o professor-celebridade, ou professor-viajante ser substituído pelo seu orientando de mestrado ou doutorado, para fazer o “trabalho braçal” de dar aulas no seu lugar. Existem regras para esta prática acontecer sistematicamente? Ainda, existe um elevado absenteísmo dos professores às reuniões dos departamentos afins, cujas chefias eleitas geralmente evitam tomar medidas antipáticas ao seu colega. Mas, tais ausências sem justificativa razoável vêm incomodando àqueles professores responsáveis que cumprem integralmente com seus deveres na instituição.

c) Principalmente alunos nos contam que há professores que praticam assédio moral e sexual. Na década de 1990, a UEM foi corajosa em tomar medidas severas contra o trote violento dos alunos, por que não faz o mesmo contra professores delinqüentes (e também alunos pichadores e depredadores)?

d) Nenhum candidato à reitoria/2014 apresentou proposta para interromper o processo de enfeiamento da UEM, haja vista o aumento das pichações em vários prédios, depredações (inclusive nos novos blocos, concluídos e não concluídos), também o espaço externo mal cuidado (lixo), quiosques de xerox transformados em muquifos, os mictórios masculinos, a maioria está coberta com plástico preto. O que a UEM tem contra os mictórios? Obs.: A atual administração da UEM tem sido negligente para com os pichadores que agem em pleno dia. Para alguns professores equivocados ou cínicos, a “pichação” [sic] trata-se de um modo de expressão pós-moderno, que não deve ser criminalizado! Pergunto: o banheiro externo, ao lado do bloco E-46, após ter sido reformado foi todo pichado ou urinado com tinta preta, desde outubro de 2013! Alunos foram apreendidos pelos seguranças, mas forças superiores mandaram soltar. Os pichadores agora invadem o interior das salas: picham banheiros, salas de aulas, a tela que passamos slides, corredores, etc. Qual é o posicionamento dos candidatos sobre este assunto?

e) Alguns candidatos tocaram timidamente no tema segurança na UEM. Mas não mencionaram que fazer para coibir os roubos de aparelhos da instituição, os roubos de carros nos estacionamentos, também o uso de drogas no campus. Até foi roubado um barco usado para pesquisa, que saiu pela principal cancela de segurança! E os projetores (datashow) roubados entre 17 e 18 horas, do bloco I-12, qual foi o resultado da apuração? E os responsáveis diretos e indiretos foram punidos?

Obs.: Alguns alunos lutam pelo “direito” de fumar maconha e outras drogas nas dependências do campus. Pergunto: como os reitoráveis se posicionam sobre esta questão? Será autorizado criar um território livre para tal finalidade “recreativa”? Há candidato prometendo “jamais criminalizar alunos”. Como assim, mesmo se for surpreendido em flagrante delito? Não haveria sindicância para apurar ilícitos ocorridos – vide o caso da estudante que levou uma pedrada, foi hospitalizada, levou pontos na testa; afinal, quem lançou a pedra?

f) E a questão da transposição da UEM, que a Prefeitura de Maringá vem pressionando os Conselhos e a Reitoria? Como a nova reitoria deve enfrentar esta questão? O trânsito vai continuar engarrafado nos horários de pico? E os idosos que freqüentam a UNATI, terão que redobrar o cuidado para não serem atropelados dentro da UEM?

g) E sobre as empreiteiras que sempre “ganham licitações”, mas não cumprem com os prazos das obras, ou deixa-as inacabadas? Ou terminam as obras, sem acatar a fiscalização ou vistoria dos erros e defeitos (janelas emperradas, portas mal acabadas, banheiros que não funcionam, mictórios mal colocados, corrimãos que desabam nos primeiro meses de uso, etc.).

Finalmente, para reflexão: Estamos formando nas universidades “vidas extraordinárias” [Carpe Diem, lembrando o saudoso Robin Williams] ou apenas formamos profissionais medianos e até muito bons para competirem no mercado globalizado?

O discurso anterior persistia pela busca da qualidade da formação acadêmica. A UEM tem cursos excelentes, mas estão sendo aprovados novos cursos, sem a infraestrutura necessária para o seu funcionamento, até mesmo sem professores efetivos. Há um aumento de cursos “para pobres” e/ou “para alunos distantes”, justificados em nome da “democratização do acesso da universidade”. Ora, esta expansão de qualquer jeito não estaria barateando a formação universitária pública (talvez copiando a formação do tipo faz-de-conta das faculdades particulares?). Isso é uma conquista séria?

* RAYMUNDO DE LIMA é Doutor em Educação (USP) e Professor do DFE/UEM.

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3 comentários sobre “A UEM entre a realidade concreta e o abstracionismo político-pedagógico (Reflexão sobre como votar certo para Reitor e Vice-Reitor)

  1. Reflexões como essas, são sempre oportunas e não se restringem a períodos eleitorais. Como uma escola chega a uma situação dessas, comum entre as congêneres, está por merecer outros diagnósticos. Costumo dizer que somos vítimas e agentes desse processo. Que por ação ou omissão, ajudamos a construir o que temos de bom e o que é reprovável ou não recomendável. Vivemos um local onde a inquietude e o inconformismo resultantes da evolução do conhecimento e dos costumes, são desafios naturais. Já a falta ou perda de princípios, não. A universidade, ao se deixar aprisionar pelo mesmo aparelho opressor que comanda os políticos e instituições sociais corrompidas, passou a evocar diuturnamente, uma tal de autonomia. Que a nossa constituição nos confere e a todas as universidades por entendê-a imprescindível. O Prof Raymundo, a exemplo de outros que refletem a universidade preocupa-se com as ameças que pesam sobre essa discursada autonomia: Nossas ações.

  2. Ótimo texto! Em tempos de folhetos eleitorais insossos, com propostas vagas e completamente genéricas ao estilo “vamos lutar pela melhoria de tudo, para o bem de todos”, o texto acima deveria ser distribuído no campus para fins de esclarecimento aos eleitores. Isso considerando que nem o debate entre os candidatos nem os comitês se dispuseram a esclarecer coisas que realmente interessam saber.
    De fato, aconteceram momentos hilários (para não falar em deprimentes, se for considerada a seriedade da coisa…) no debate no RU. Um candidato soltou a pérola “em minha administração não vou processar nenhum estudante”. Como assim?! Baseado no que diz sua bola de cristal ou no fato de que promete se ausentar de quaisquer responsabilidades futuras?! O fato de alguém ser estudante, professor ou funcionário, não o exime da possibilidade de, no futuro, cometer um crime ou coisa do tipo no campus da universidade. Nesse caso, o candidato a reitor já diz de antemão que nada fará?!
    Ainda nesse assunto, também acho que a universidade deveria se posicionar claramente sobre o consumo de maconha no campus. Ou pode ou não pode; simples assim. Creio que pode; considerando que às 4 da tarde um monte de usuários vão para o gramado e começam a fumar. Mas tenho dúvida se a reitoria assumiria essa posição no informativo, por exemplo. Daí minha dúvida.
    O resto, claro, é o mais sério da coisa. E para isso é melhor aos interessados lerem o texto do Professor Raymundo. E evitarem os folders dos candidatos…

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