A tópica do pós-orientalismo no “Casamento de May”

UBIRACY DE SOUZA BRAGA*

“Every teardrop is another reason to follow”.

Para tratarmos do tema “orientalismo”, comumente utilizado para definir o estudo constituído por todas as sociedades fora do contexto ocidental, da cultura global europeia, – utilizamos a noção “pós-orientalismo”. Por duas razões: a) É correlata à filosofia dita pós-moderna; b) Trata-se de um eclético e elusivo movimento social caracterizado por sua crítica à filosofia ocidental. Começando como um movimento de crítica da filosofia Continental, foi influenciada fortemente pela fenomenologia, pelo estruturalismo e pelo existencialismo, incluindo Soren Kierkegaard e Martin Heidegger. Sofreu influências, também, em certo grau associado ao positivismo da filosofia analítica de Ludwig Wittgenstein. Para a maior parte dos pensadores, a filosofia pós-moderna reproduz a volumosa literatura da teoria crítica. Outras áreas de produção incluíram a “desconstrução” e as diversas áreas que começam com o prefixo “pós”, como o “pós-estruturalismo”, o “pós-marxismo” e o “pós-feminismo”.

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É também utilizado para designar a familiaridade por artistas e criadores ocidentais de elementos, descrições ou imitações culturalmente conotadas com as culturas ditas orientais. Popularizado como um campo de estudo desde o século XVIII, mas tendo adquirido particularidades institucionais a partir do colonialismo do século XIX (cf. Kemp, 1976), o orientalismo estudava, sem distinções, um vasto grupo humano vulgarizado pela designação “mundo árabe” e mesmo a África, em alguns casos. O orientalismo ratificou a hipótese colonialista da inferioridade racial e cultural de todas as civilizações não europeias. O seu objetivo, não assumido, foi à busca da justificação do processo de dominação imperialista através do discurso de redenção dos povos ditos “primitivos, inferiores e subdesenvolvidos” que tem origem na antropologia colonialista (cf. Van Gennep, 1976).

O Oriente, sociologicamente falando, é uma entidade autônoma dotada de múltiplas identidades com suas respectivas localizações territoriais. O que seria então esse Orientalismo cuja definição permite afirmar que o Oriente é uma invenção do Ocidente? Segundo Said (1990) esse conceito tem diversos significados, mas que de modo geral reflete a forma específica pela qual o Ocidente europeu reproporiam ao nível ideológico e cultural a designação do que é o Oriente. Assim, o Orientalismo não necessariamente estabelece uma relação dialética e real de identificação real com o Oriente e sim, inversamente é a ideia que o Ocidente faz dele. Nesse sentido o Oriente ajudou a definir a Europa ou o Ocidente de forma transcendente com sua imagem, ideia, personalidade e experiência contrastantes. O Oriente na visão do Orientalismo então é o “lugar do exótico”. Analiticamente precisamos tornar do ponto de vista teórico, prático e afetivo o exótico em familiar. É o que inferimos nestas notas sobre o “Casamento de May”.

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Portanto, trata-se do lugar de análise do não civilizado, da barbárie, do oposto, do diferente, do inimigo, do Outro. Além de todas essas características que constituem o estereotipo do Oriente criado pelo Ocidente existe um marco na história das ciências que contribuiu para que o Oriente também fosse considerado um lugar atrasado, menos evoluído, e, em seu desenvolvimento, incivilizado. A definição de civilização baseada na análise comparada teve origem também no Iluminismo. Através do empirismo e posteriormente da importação “de fora para dentro”, da teoria evolucionista de Charles Darwin pelas ciências humanas. Que adotaram por muitos anos essa ideia da “escala evolutiva da sociedade”. Assim como o ser humano evoluiu, em termos biológicos, de um ancestral primata até o Homo Sapiens, a sociedade evolui também de forma que, uma sociedade anterior a atual é inferior, menos evoluída do ponto de vista de sua formação e desenvolvimento social como ocorre no discurso antropológico evolucionista de Lewis Morgan à Friedrich Engels etc.

fig 3

Assim ocorreu durante o “imperialismo europeu” (cf. Arendt, 1989) e assim também ocorre hoje em dia com o “imperialismo norte-americano” (cf. Braga, 2011) tentando implantar com a força das armas seu modelo de democracia no Oriente para justificar suas ações políticas. Essa justificativa baseia-se sempre em um modelo de sociedade religiosa que tenta ser imposto aos outros povos como “aparentemente superior”, ou melhor, do que o deles. Aconteceu historicamente nas Cruzadas, na Expansão Marítima, no Holocausto e está acontecendo nas invasões e massacre dos Estados Unidos da América em sua fase superior do imperialismo, para lembramos de Lenin, aos países e povos secularizados na cultura do Oriente Médio. Contudo, após fazer essa contextualização e pensar o Oriente como “invenção” do Ocidente dentro desta forma de conceber o Oriente, chamada “Orientalismo” (cf. Said, 1990; Hatoum, 1989; Nassar, 1989; Scoot, 1998; Guimarães, 1999; Jenkins, 2001) ainda aborda o conceito sobre três diferentes aspectos sociais. O Orientalismo acadêmico, imaginativo e histórico.

Portanto, raça é um conceito que não corresponde a nenhuma realidade natural que diz respeito somente ao mundo social. Sendo, portanto um constructo ideológico e cultural, desenvolvido com o objetivo de promover identidades estanques e manejáveis. A estratégia ideológica por trás do discurso racial é o de reforçar papéis de dominação por meio da diferenciação e hierarquização arbitrárias. O conceito de raça representa uma forma de naturalizar concepções equivocadas sobre as relações entre grupamentos humanos. Mas também está, por outro lado, profundamente arraigado no comportamento social real. Já o Orientalismo Imaginativo é uma forma de pensar o Oriente de modo mais geral, – diferente do conceito anterior ainda precário – em que o modo de analisar é pautado em um determinado método e segue certo rigor acadêmico – é a relação da produção acadêmica e o que é transmitido ao senso comum, ao conhecimento geral, ao imaginário individual e coletivo de uma sociedade determinada.

Esse orientalismo está ligado à produção cultural de seu tempo como a literatura, a arte, a filmes e novelas culturais nos dias atuais constituindo-se objeto de nossa reflexão.    Quando nos vemos diante da comédia dramática “O Casamento de May”, com o olhar feminino de Cherien Dabis, pode-se à primeira vista imaginar que o filme abordará um conflito religioso. Afinal, a protagonista também Cherien, uma palestina de origem cristã, vai se casar com um noivo muçulmano, na Jordânia natal de ambos, embora sejam os dois radicados nos Estados Unidos. Mas quanto mais avança a história, que tem roteiro de sua diretora e atriz, mais se afasta desta intenção. Segue aproximando-se de uma discussão no âmbito das relações de parentesco e familiares e da condição feminina neste contexto que aspira a ser universal – embora dedique espaço também a conflitos interculturais devido ao próprio confronto de regionalização.

Nota-se do ponto de vista ideológico da cineasta Cherien Dabis uma intenção sutil de apresentar este “pedaço” historicamente relevante do mundo sob um viés menos carregado. Especialmente ao retratar, last but not least, o relacionamento social temperamental entre homens e mulheres. Perto do dia de seu casamento, May vai até Amã, na Jordânia, para visitar sua família. Sua mãe católica não aprova o noivo, que é muçulmano, e pretende boicotar o matrimônio. Enquanto isso, seu pai, até então distante, resolve se reaproximar e suas irmãs continuam agindo como crianças. As “cafajestadas” não são nem mais nem menos do que as que se poderia esperar em qualquer outro lugar nas mesmas situações – exceto, talvez, nas cenas do “jogging” de May na rua, que são recebidas por olhares e manifestações um tanto fortes, de um ponto de vista do olhar ocidental. No geral, o filme transmite a autoridade de quem: a) tem um “olhar de dentro” plantado no Oriente Médio, b) que fala pouco de política, mas c) não a ignora ao mesmo tempo em que procura manter “mão leve no tom”. Tal como “Amreeka”, “O Casamento de May” também foi exibido no Festival de Sundance. Mas o melhor mesmo em “Amreeka”, que significa América em árabe, é a quebra de estereótipos socialmente desnecessários.

Descreve a vida de uma mãe e um filho palestino que recebem o “greencard” e se mudam de Belém para uma cidade perto de Chicago. Tem um pouco de tragédia nietzschiana, mas a maior parte do enredo faz rir em uma comédia meio parecida como as argentinas: “Filho da Noiva” ou “Clube da Lua”. Quando começamos a ficar triste, com o menino sendo humilhado por um soldado israelense em um “checkpoint” na Cisjordânia, acontece alguma cena engraçada, com a avó culturalmente reclamando que a filha não levou tomate para preparar o “taboule”, em árabe: تبولة, é um prato libanês de salada, frequentemente degustado como um aperitivo. É basicamente feito de trigo para quibe, tomate, cebola, salsa, hortelã e outras ervas, com suco de limão, pimenta e vários temperos. No Líbano, onde surgiu, é consumido por cima de folhas de alface. É bastante popular principalmente no Brasil e na República Dominicana, onde é conhecido como “tipili”, devido à presença de imigrantes mediterrâneos.

A família, que inclui também tio, tia e primos, é cristã palestina. Os norte-americanos, como muitos também no Brasil, possuem enorme dificuldade para entender que a causa palestina não é islâmica, e sim nacionalista. Tampouco conseguem compreender que os cristãos vivem bem entre os muçulmanos. Os Estados Unidos, apesar de todas as críticas, ainda incentiva a vinda de estrangeiros, inclusive palestinos. Os palestinos e os árabe-americanos tem uma renda per capita superior à da média norte-americana, sendo considerados ricos. O diretor da escola é quem mais ajuda a mãe e o menino. Entende os problemas que ele e a mãe enfrentam e acaba se tornando uma espécie de protetor dos dois. Claro, filho de judeus poloneses sabe bem o que representa o preconceito social. Isto é, nos EUA, os judeus são, muitas vezes, os que mais entendem e ajudam os árabes. Não é à toa que o filme está sendo exibido nos bairros “Lower East Side” e no “Upper West Side”, tradicionalmente judaicos de Nova York.

 

fig 4Ficha Técnica: Título: “May in the Summer” (Original). Ano produção: 2013. Dirigido por Cherien Dabis. Estreia: 14 de Agosto de 2014 (Brasil). Duração: 97 minutos. Gênero: Comédia/Drama. Países de Origem: Estados Unidos da América; Qatar.

Bibliografia geral consultada

BRAGA, Ubiracy de Souza, “Terrorismo de Estado: Mr. Obama ordenou o assassinato de Bin Laden”. Disponível em: https://espacoacademico.wordpress.com/2011/05/07/; Artigo: “Estreia – O Casamento de May retrata com mão leve diferenças culturais”. Disponível em: http://extra.globo.com/13/08/2014; HELLER, Agnes, O quotidiano e a história. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1972; Idem, Sociologia della vita quotidiana. Roma: Editore Riuniti, 1975; KEMP, Tom, La Revolucion Industrial en la Europa del siglo XIX. Barcelona: Libros de Confrontacion, 1976; VAN GENNEP, Arnold, Os Ritos de Passagem. Petrópolis (RJ): Editora Vozes, 1978; NEGT, Oskar, Dialética e História. Crise e renovação do marxismo. Porto Alegre: Editor Movimento. Coleção Dialética. Volume 11; Institutos Goethe no Brasil, 1984; HATOUM, Milton, Relato de um certo oriente. São Paulo: Companhia das Letras, 1989; ARENDT, Hannah, Origens do Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989; NASSAR, Raduan, Lavoura arcaica. São Paulo: Companhia das Letras, 1989; SAID, Edward W., Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1990; SCOOT, Derek B., “Orientalism and Music Style”. In: The Musical Quarterly, vol. 82, nº 2, pp. 300-335, 1998; GUIMARÃES, Antônio Sérgio Alfredo, Racismo e antirracismo no Brasil. São Paulo: Editora 34, 1999; JENKINS, Keith, A História Repensada. São Paulo: Editor Contexto, 2001; entre outros.

braga* UBIRACY DE SOUZA BRAGA é Sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ) e doutor em ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará.

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4 comentários sobre “A tópica do pós-orientalismo no “Casamento de May”

  1. José Carlos,

    É sempre bem-vindo qualquer comentário que ajude a elucidar algumas questões pertinente à película em questão. Sendo crente ou não, mas havendo estudado teologia, você acabou deixando de lado o “prato principal”, o que me lembra o ditado atribuído ao renascentista Michel de Montaigne: “Nenhum vento ajuda a quem não sabe a que porto quer chegar”.

  2. Regina,

    Essencialmente tentei avançar do ponto de vista teórico, histórico e cultural em algumas dualidades estruturais tão caras em nossos dias: as ideias de “pré” e “pós”. E ao que parece a cineasta consegue com maestria. Analogamente, guardadas as proporções também ocorre no filme: “Mediterrâneo”, de Gabriele Salvatores, de 1991, de maravilhosa ode à paz e à alegria de viver em defesa da tese de que as pessoas são melhores e mais importantes do que as ideologias, os países, os nacionalismos.

  3. Obrigada por todas essas precisoes sobre o conceito de orientalismo e parabéns pela brilhante reflexao sobre esse tema de tao grande atualidade.
    O tabule, pelo que descobri ultimamente com libaneses, é sobretudo uma salada de salsa, com todos os ingredientes que voce menciona. Maravilhosa cozinha libanesa!

  4. O estrelismo desenvolvido p modelos hegemônicos em Hollywood foi aperfeiçoando situações de ser estrela custe o q custar, e apareceu mt c a aborrescência educada p baba eletrôniva infestadfa de supers, custe o q custar, e agora o seualismo custe o q custar dá num exibicionismo agressivo, visto q se fosse discreto sequer seria percebido. Agredidos reagem e são criminaizados, mas os antecedentes ñ estão na moda serem apenados, e assim vivemos , c algum apoio e omissão da Academia , sempre mt covarde qdo a pressão é p valer, vai eddossando absurdos de qq tipo , desde q dÊ ESTRELATO HOLLYWOODIANO, E AI A DELINQUência acadêmica já bem trabalhada, mas de pouca projeção, visto q o corporativismo de gangs faz parte da delinquência acadêmica, sempre voraz em agredir mais fracos, segundo seus pontos de vista hegemônicos de classe média, querendo ser burguesa, mas de fato apenas brincando de amortecedores das altas, pelêgagem sofisticada. Desta parte sempre trabalharemos duro p uma ciência menos submissa a bioéticas menos civilizadas e descomprometidas c as emergências da Humanidade, e acho q os famosos pits destas baixarias tem alto custo ambiental e dão duras refregas em DIREITOS HUMANOS, vistos c a devida amplitude. COMO BOM CRENTE BEM FORMADO EM PÓS DE TEOLOGIA, QUE DEUS NOS SALVE DAS ABORRESCÊNCIAS HUMANAS BEM VISTAS P PENSAMENTO COMPLEXO DE EDGAR MORIN. PAZ

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