O quartinho escuro da política

diasREGINALDO BENEDITO DIAS*

Quando eu tinha seis anos de idade e cursava a primeira série do antigo primário, vivi uma experiência traumática. Em uma reunião disciplinar, uma funcionária da escola em que eu estudava, presumo que fosse a supervisora, advertiu-me: crianças que faziam bagunça em sala de aula ficariam de castigo em um quartinho escuro, repleto de insetos e bichos peçonhentos. O susto não foi pequeno. Meio aterrorizado e com meus próprios recursos, procurei saber onde se localizava o tal “quartinho escuro”, sem, evidentemente, ter vontade de conhecê-lo por dentro. Com o tempo, entendi o significado da pedagogia do medo e suas metáforas.

A principal lição que extraí do citado episódio, cuja compreensão aprofundei em meu ofício de historiador, é que o medo é um poderoso agente intimidador e mobilizador, seja no plano individual, seja na escala societária, como revelam incontáveis processos culturais e políticos. Seria dispendioso citar os muitos exemplos que a história da humanidade fornece. Fiz essa digressão inicial para comentar a incidência da pedagogia do medo em alguns fatos, relacionados com a corrida presidencial, da nossa recente história política.

Quando a atual campanha eleitoral teve início, uma peça da propaganda do PT veiculava a ideia de que eventual vitória dos tucanos seria a volta a um passado terrível. Os oito anos do governo do PSDB eram pintados com cores sombrias, quase um filme de terror. Essa peça era acompanhada de outras, que circulavam por outras mídias, em que os dados de cada período de governo eram sistematizados de forma conveniente, de maneira a fixar a imagem de que houve uma grande ruptura entre um ciclo e outro.

Um breve recuo no tempo demonstra que o atual partido governista sofreu, em seus primórdios, com esse tipo de antipropaganda. Em 1989, por exemplo, diziam que eventual vitória petista espantaria 800.000 empresários do país. O Brasil estaria na fronteira do caos ou do comunismo. Em 2002, mesmo repaginada para exorcizar a imagem de radicalismo, a candidatura petista ainda enfrentou a especulação do mercado. Um dos sintomas foi a disparada do dólar. O novo ciclo de governo conviveu com a persistente advertência, divulgada por opositores, de que estaria sendo preparado um golpe de estado no estilo bolivariano.

A recente ascensão da candidatura de Marina da Silva ao patamar de favorita introduziu novo capítulo nessa história. Vinda de várias direções, com presumida indução das forças políticas tradicionais, foi desencadeada a temporada de desconstrução de sua imagem. Circulam, pelo Facebook e por outras mídias, imagens terríveis do que seria o Brasil governado por ela. A mais recorrente é a de que sua vitória seria um passaporte para o caos. Em pouco tempo de seu governo, o país estaria em uma crise aguda, abrindo caminho para uma solução autoritária.

Como educador, abomino a pedagogia do medo, que saiu de pauta nas escolas, mas continua em alta no mundo da política. Ela deseduca e despolitiza. Até quando vão infantilizar os eleitores, ameaçando-os com o castigo do quartinho escuro? Nem as crianças de seis anos acreditam mais nisso. Vamos elevar o nível do debate!

* REGINALDO BENEDITO DIAS é professor do Departamento de História, Universidade Estadual de Maringá (DHI/UEM) e Doutor em História Social pela UNESP. Publicado em DNP, 03/09/2014.

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7 comentários sobre “O quartinho escuro da política

  1. Caríssimos, o texto não tem endereço certo. Ele quer abordar apenas a recorrência da pedagogia do medo como tática política.

  2. Ótima reflexão colega, me levou além!
    Fico a pensar como seria uma campanha eleitoral realizada em plena abstinência de estatísticas.
    Quem se arriscaria a enfrentar o desconhecido na sociedade da informação?
    O quarto poder é vorazmente dogmático, sem escrúpulos para servir às suas miríades.
    O medo jamais levará a humanidade à vida serena e feliz.

  3. Caro professor, a responsabilidade a respeito da pedagogia do medo, nestes tempos de internet, não pode ser creditada a um partido político apenas.
    No entanto, penso que cotejar os períodos em que os dois partidos políticos que administram o país, PSDB e PT, não seja a pedagogia do medo. As prioridades de cada um, mercado ou interesse social, devem ser lembradas sim.

  4. Interessantes palavras, contudo sinto-me compelido a lembrar também que, este erro é cometido pela campanha de ambos oa candidatos, pois os materiais de camapnha tanto de um como de outro como ideias que levam ao medo.

  5. É realmente impressionante o que acontece na política brasileira, com a mídia se comportando como se fosse um partido de oposição.
    Este ano, 2014, temos a eleição mais longeva que já assisti até hoje, pois foi em 2011 que foi dada a largada pela mídia impressa e televisiva aos ataques ao partido da situação.

  6. Numa eleição disputada pelo Lula, e que ele perdeu, um jornal do Acre botou em manchete, o seguinte: O PT SEQUESTRA ABILIO DINIZ. É o caso, então de perguntar: quem começou com o “quartinho escuro”? No caso dos governos FHC, depois de todas as denúncias comprovadas no livro do Palmério Dória, O PRÍNCIPE DA PRIVATARIA, é evidente que não dá para voltar aqueles tempos. As lições da história devem servir para alguma coisa.

    Quanto à Marina, essa nem no Acre a querem. O fundador da Rede Sustentabilidade não a apoia. O Brasil não pode enveredar por aventuras desse tipo. Não sou do PT, nunca fui, mas voto em DILMA.

    A.P.Santos

  7. Boas falas, professor, e oportunas. Os terriveis retratos que cada partido faz circular na internet transforma seus opositores em monstros sob todos os aspectos possiveis. A mais desfigurada no momento parece ser Marina Silva, mas as imprecaçoes contra Dilma continuam tao grosseiras e agressivas como sempre. Os outros candidatos nao merecem essa violência: por nao ameaçarem ganhar? por nao ameaçarem o status quo? fica a pergunta.

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