Violette – O “plus” da sexualidade feminina

UBIRACY DE SOUZA BRAGA*

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Adentrando a intimidade feminina com uma abordagem que discute o paradigma da beleza e da exposição da mulher, o filme: “Violette” discorre sobre a história de gênero de Violette Leduc (Emmanuelle Devos) e sua relação político-afetiva com a filósofa Simone de Beauvoir (Sandrine Kiberlain). Após retornar da prisão, Violette entra em sua casa, e o lugar que deveria ser o seu recôndito, o lar do sossego, “é somente o local onde estão escondidos quem a oprime e pouco se importa com ela”. Os homens que a cercam vivem à sombra de sua própria arrogância, covardia e do sentimento falso de autossuficiência. O desprezo que ela sofre devasta completamente a sua autoestima, especialmente a rejeição de Maurice Sachs (Olivier Py), que tem uma série de ideias confusas a respeito de sua própria sexualidade, fazendo com que a visão de Violette a respeito de si mesma, como esposa e amante, torne-se algo absolutamente miserável.

É curioso notar como a lente de Martin Provost segue a personagem título. Acompanhando de perto cada movimento que ela faz. Simulando cada uma das difíceis decisões que ela deve tomar. Contudo, a novidade é “construída” (cf. Bergman & Luckmann, 1966) ao mesmo tempo em que analisa seus momentos de intimidade (cf. Giddens, 1993). A partir de uma distância social considerável, pois, o distanciamento é proposital, uma vez que ela jamais está satisfeita com o saciamento de sua voluptuosidade. A frustração que ela tem ao não alcançar o coito causa uma enorme decepção, estampada em seu rosto para que todos possam ver. Paralelo à crise existencial da mulher, há uma forte cobrança da Editora pelo original do novo livro de Violette, tendo em vista que seus prazos estão se encerrando. Mesmo a aprovação de Simone de Beauvoir não é o bastante para suprir as cobranças de outra figura que oprime a protagonista, sua mãe Berthe Leduc (Catherine Hiegel). O apreço dessas “figuras de autoridade”, para lembramos a historicidade de Max Weber, melhor do que Michel Foucault, neste aspecto, não é alcançado nos dois primeiros tomos da história.

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Simone de Beauvoir teve formação filosófica na área da Fenomenologia que, como se sabe, é o estudo sobre como as coisas, objetos, seres, imagens, ilusões, que se manifestam à nossa Consciência (cf. Sartre, 1978; 2002). Esse ideário sustenta que cada indivíduo constrói o Mundo a partir de sua própria perspectiva; organiza as coisas e os seus sentidos e seus significados a partir do que lhe acontece. Por consequência, a ligação que cada pessoa tem com a Filosofia também é influenciada por seu gênero sexual. A partir dessa constatação, Simone tornou-se uma Existencialista – no sentido de que a existência como Mulher é que formava a sua Essência. Sabe-se que o Existencialismo afirma que “nascemos por acaso (somos contingentes), sem objetivos e dependentes das circunstâncias do nosso nascimento”. Início do século XX. A escritora Violette Leduc (Emmanuelle Devos) encontra-se com a filósofa Simone de Beauvoir (Sandrine Kiberlain). A partir daí uma intensa amizade surge. Simone passa a apoiar Violette a escrever mais, expondo suas dúvidas e medos, numa relação que dura suas vidas inteiras. É importante situar como ponto de partida para o estudo de “O Segundo Sexo” e do resto da obra de Simone de Beauvoir, o fato que ela, apesar de reconhecer que os homens oprimem as mulheres, não deixa de lhes apreciar as suas capacidades.

Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir (2004), é simplesmente mais conhecida como Simone de Beauvoir (1908-1986), uma escritora talentosa, filósofa existencialista e feminista francesa par excellence. Escreveu romances, monografias sobre filosofia, política, sociedade, ensaios, uma autobiografia: “Mémoires d`une jeune fille rangée” (1958) e uma biografia: “La Cérémonie des adieux suivi de Entretiens avec Jean-Paul Sartre” (1974).  Simone de Beauvoir era a mais velha das únicas duas filhas de Georges Bertrand de Beauvoir, um advogado em tempo integral e ator amador, e Françoise Brasseur, uma jovem mulher de Verdun. Nasceu em Paris como Simone (então um nome pomposo que seu pai gostava) – Lucie (por sua avó materna) – Ernestine (por seu avô paterno, Ernest-Narcisse) – Marie (pela Virgem Maria) Bertrand de Beauvoir, pois ela foi orientada quando criança a dar seu nome como simplesmente “Simone de Beauvoir”. Era uma criança atraente, mas mimada, teimando para obter o que queria, tendo sido o centro das atenções em sua família. A mãe não foi uma grande costureira, e as roupas que costurou eram mal ajustadas.

Ao crescer, Beauvoir não tinha amigos, exceto a irmã Hélène, que era dois anos e meio mais nova e de quem ela era muito próxima. Assim sendo, é necessário fugir da chamada “Vida Inautêntica”, cuja característica principal é a fuga das reflexões mais profundas sobre o que somos, por que viver ultrapassa todo entendimento, para onde vamos e a entrega total aos afazeres da vida cotidiana, como: trabalhar, namorar, casar, ler um livro, assistir à televisão etc. que servem como rota de fuga para aquelas questões mais profundas e buscar com denodo o seu oposto: a “Vida Autentica”. Nela, encontrar-se-á um novo sentido, um significado mais amplo para o ato de existir como um Ser Humano do gênero feminino. Ao trazer essa ideia para a condição de mulher, Simone buscou a separação entre o “Ente biológico”, a forma corporal com a qual as mulheres nascem, e a “feminilidade”, que é apenas uma construção social (cf. Berger & Luckmann, 1966; Brecht, 1971) que sociologicamente representa hic et nunc um esquema moldado segundo os costumes, as normas da sociedade. Uma invenção irrepetível dos seres humanos dentro de certos condicionamentos sociais e políticos.

Ipso facto quando surgiu, em 1949, “O Segundo Sexo”, causou tanta admiração, quanto ódio, temor e estranheza. Era uma obra vasta, dividida em dois volumes, bem documentada e alicerçada na lógica e no conhecimento e muito pouca feminina. Às mulheres então estavam reservadas aos gêneros literários como o romance ou a novela. Tendo como missão o inaudito, sem ser messiânica, pôs “a nu” a beleza da condição feminina. Ela mesma explorou áreas ligadas à situação da mulher no mundo, englobando história, filosofia, economia, biologia, etc., bem como alguns “case studies” e algumas experiências particulares. Simone queria demonstrar que a própria noção de feminilidade era uma ficção inventada pelos homens na qual as mulheres consentiam, fosse por estarem pouco treinadas nos rigores do pensamento lógico ou porque calculavam ganhar algo com a sua passividade, perante as tristes fantasias masculinas.

No entanto, ao fazê-lo cairiam na armadilha de se autolimitarem. Os homens chamaram a si os terrores e triunfos da transcendência, oferecendo às mulheres segurança e tentando-as com as teorias da aceitação e da dependência. Mentindo-lhes ao dizer que tais são características inatas do seu caráter. Ao fugir a este determinismo biológico, Simone de Beauvoir abriu as portas a todas as mulheres no sentido de formarem o seu próprio ser e escolherem o seu próprio destino. Libertando-se de todas as ideias pré-concebidas e dos mitos pré-estabelecidos que lhe dê pouca ou nenhuma hipótese de escolha. Assim, a mulher, qualquer mulher, sobretudo nos dias atuais, deve criar a sua própria via. Mesmo que seja a de cumprir um papel tradicional, se for esse o escolhido por ela e só por ela, admitem muitas mulheres que enveredaram por esses sinos luminosos até alcançarem suas escarpas abruptas que podem desconstruir.

O intuito da película é registrar como pode ser caótica a mente feminina. Desde as simples “escolhas cotidianas”, no sentido que emprega Agnes Heller, até as tendências sexuais e os sentimentos provindos das relações travadas por essas, englobando os parceiros, familiares e amigos que estejam inseridas na intimidade da pessoa (cf. Giddens, 1993). O filme: “Violette” representa o símbolo do feminino revigorado, carregada de estrogênio em todas as suas ações. Trata-se de um drama biográfico do realizador francês Martin Provost (“Séraphine”), que também assina o argumento com Marc Abdelnour e René de Ceccatty, sobre a escritora francesa Violette Leduc. Nascida a 7 de Abril de 1907, era filha ilegítima de uma serviçal e “sofreu de falta de amor-próprio desde criança”. Foi em Paris, durante a II Guerra Mundial, quando trabalhava como telefonista, que travou contato com os grandes escritores e intelectuais de renome. Simone de Beauvoir incentivou-a a publicar o seu primeiro romance, “L`Asphyxie” (1946), com que obteve o reconhecimento social dos seus pares. As obras que publicou, quase sempre de inspiração autobiográfica, causaram polêmica em vários momentos da sua extraordinária carreira. Especialmente pelo carácter demasiado gráfico das conturbadas e maravilhosas descrições relacionadas com a sexualidade feminina.

Fora de dúvida representa o “avatar”, a divindade Vishnu do duplo cromossomo X, mas terrivelmente constituído tanto em seus sucessos quanto em seus fracassos. O modo tocante como “Violette” vê a vida é claramente e exclusivamente feminino. Era o que nos faltava em confronto com a onda neoconservadora destes dias. O novo sempre vem. Ipso facto acima de tudo é humano, demasiadamente humano e sensível, para lembramos de Nietzsche. Mesmo as relações sociais que a fazem sofrer e chorar são encorajadoramente necessários, como as flores necessitam da chuva. Tanto que ela repete que sem tais contradições na vida social, seria incapaz de viver plenamente. Sofrer é parte integrante de sua vida. Tão essencial quanto comer ou respirar. Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro. Depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde. E por pensarem ansiosamente no futuro esquecem-se do presente de forma que acabam por não viver e amar. Nem no presente nem no futuro. E vivem como se nunca fossem morrer. Morrem como se nunca tivessem vivido. Vivem como se nunca soubessem amar. E amar, se aprende amando, se o destino favorecer por toda a vida.

Clipboard03Estreia: 28/08/2014. Gênero: Biografia, Drama. Duração: 139 min. Origem: França, Bélgica. Direção: Martin Provost. Roteiro: Marc Abdelnour, Martin Provost. Distribuidor: Imovision. Classificação: 14 anos. Ano: 2014.

 

Bibliografia geral consultada:

BERGER, Peter L. e LUCKMANN, Thomas, The Social Construction of Reality: A Treatise in the Sociology of Knowledge. NY: Garden City, Anchor Books, 1966; BRECHT, Bertolt, Über Politik und Kunst. Suhrkamp Verlag: Frankfurt am Main, 1971; SARTE, Jean-Paul, Critique de la raison dialectique. Paris: Gallimard, 1960; Idem, “O Existencialismo é um Humanismo”; “A imaginação”; “Questão de Método”. São Paulo: Abril Cultural, 1978; Idem, Crítica da razão dialética. Rio de Janeiro: DP&A, 2002; MEZAN, Renato, Freud, Pensador da Cultura. 5ª edição. São Paulo: Editora Brasiliense, 1990; GIDDENS, Anthony, A transformação da intimidade sexualidade, amor e erotismo nas sociedades modernas. São Paulo: UNESP, 1993; GALSTER, Ingrid (Hrsg.): Simone de Beauvoir: Le Deuxième Sexe, le livre fondateur du féminisme moderne en situation. Paris: Honoré Champion, 2004; BECKER, Howard Saul, Falando da Sociedade. Rio de Janeiro: Zahar, 2009; BRAGA, Ubiracy de Souza, “Yoani Sánchez: A nova expressão da mulher em Cuba”. Disponível em: http://httpestudosviquianosblogspotcom/2013/03/06/; entre outros.

* bragaUBIRACY DE SOUZA BRAGA é Sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará.

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2 comentários sobre “Violette – O “plus” da sexualidade feminina

  1. José Carlos,

    A questão subentendida com a reabertura do diálogo sobre a condição feminina está na ordem do dia. Não é de hoje e antecede a formulação, ainda que originalíssima, expressa pela filosofia e literatura de Simone de Beauvoir. O que procuro reiterar na análise é a ideia do discurso feminino revigorado. Daí nestas notas ter indicado pistas quando me refiro ao “plus” sobre a sexualidade feminina.

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