Nada de errado com nossa etnia

ribeiro-fabioFÁBIO VIANA RIBEIRO**

 

(…) “mas proíbo-te que chegues a outras conclusões que não sejam as já achadas por outros. Foge a tudo que possa cheirar a reflexão, originalidade, etc., etc.”
Machado de Assis – Teoria do Medalhão

Todas as épocas e todas as culturas – ainda que provavelmente boa parte das pessoas, nessas épocas e nessas culturas não pensassem assim – criam formas, por assim dizer, automáticas de pensar a respeito de algumas coisas. Não fosse isso, aliás, a vida em comum, a vida em sociedade, seria inviável. Se cada indivíduo fosse inclinado a pensar de forma original sobre os mais variados aspectos de sua própria vida, simplesmente não seria possível reunir alguns poucos num bar, se casarem uns com os outros, dirigirem no trânsito, etc. O que é uma prova do lado útil do fenômeno.

Não é preciso dizer que, ao mesmo tempo, muitos delírios coletivos possuem a mesma base cognitiva. É bem possível que, com exceção de alguns que foram meus alunos, quase todos os leitores desse texto concordem com o fato de que num único cigarro existam mais de 4.700 substâncias tóxicas. É essa a informação que consta, por força da lei, em todos os maços de cigarro. Pessoalmente acredito que o cigarro causa vício e é prejudicial à saúde; no mínimo ao sistema respiratório. Mas, curiosamente, ninguém que eu conheça conseguiu até hoje descobrir de onde saiu esse número miraculoso de 4.700 substâncias tóxicas. Mesmo oferecendo prêmios aos que o conseguissem, nenhum de meus tantos alunos conseguiu ter acesso a essa informação. Fabricantes, universidades, pesquisadores da área no Brasil e no exterior, Inca ou Ministério da Saúde não parecem saber de onde esse número saiu. Na dúvida, e considerando que não faz sentido defender os benefícios do cigarro, passamos a conviver com essa informação mirabolante da mesma forma como convivemos com outras. A esse respeito, aliás e sintomaticamente, um livro muitíssimo útil e que há muito tempo encontra-se esgotado: “Como mentir com estatísticas”, de Darrell Huff. Uma espécie de “O Príncipe”, de Maquiavel, aplicado ao campo dos números…

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É nesse sentido, do “não pensar”, que o agora já morno assunto Santos x Grêmio pode ser visto como um dos episódios mais interessantes do ano. Não é preciso descrever o que de fato aconteceu; aparentemente não há, quanto a isso, nenhum questionamento por nenhuma das partes envolvidas. Diante dos insultos de conotação racista da torcida, o goleiro Aranha tomou a atitude que deveria tomar, reclamando com o juiz e, mais tarde, registrando boletim de ocorrência. Em meio ao festival de interpretações insólitas que se seguiu, as declarações do goleiro foram as mais sensatas. Não apenas no momento dos acontecimentos quanto três semanas depois, quando Grêmio x Santos voltaram a jogar no mesmo estádio, agora pelo Campeonato Brasileiro.

Se por um lado é perfeitamente razoável que alguém seja processado por injúria racial, não me parece nada razoável desclassificar um time por conta da atitude de um grupo de torcedores. Simplesmente por ser impossível a qualquer instituição – time, partido político, igreja, empresa, etc. – prever antecipadamente as atitudes de seus associados. Não contando ainda que a direção do Grêmio já vinha há muito tempo tomando medidas de combate ao preconceito racial, não sendo possível ser acusada de conivência. Caso a peculiar lógica utilizada no caso fosse de fato levada a sério[1] a Seleção Brasileira de Futebol deveria ter sido desclassificada da Copa do Mundo de 2014, quando a torcida insultou em alto e bom som a presidente da República.

Poucos observaram o absurdo da decisão de desclassificar o Grêmio. Um desses poucos, o jornalista Juca Kfouri[2], preferiu não desenvolver seu argumento de que não se combate o preconceito com injustiça, possivelmente ao perceber que se tratava de mais uma dessas situações de não pensar. Para efeito de teoricamente atingir os objetivos buscados pela CBF (sim, ela mesma, a moralmente inatacável CBF…), haviam boas alternativas, já usadas em outros casos: perda de mando de campo, jogos com portões fechados, etc. Ao simplesmente desclassificar o Grêmio a CBF se orientou por um contexto em que não parecia ser necessário pensar qualquer coisa, mas apenas decidir em função da lei do menor esforço. Se por um lado a CBF e seus tribunais decidiram simplesmente se moldar ao mais cômodo das circunstâncias, por outro, alguns observadores desenvolveram o argumento da “exemplaridade”. Ou seja, mesmo sendo impossível a qualquer time do mundo se antecipar aos comportamentos isolados de seus torcedores, ao desclassificar o time por conta da atitude de alguns, o efeito seria o de convencer os demais, por meio do “vigiar e punir”, de que não deveriam apoiar de qualquer forma aquele tipo de comportamento. Efeito duvidoso, como se verificou, no jogo seguinte, entre os dois times.

A lógica da exemplaridade foi utilizada muitas vezes, em contextos que associavam o lado mais obscuro e bárbaro da humanidade, aos seus mais sofisticados meios técnicos. Assim fizeram os nazistas com a cidade de Lídice, na Tchecoslováquia[3]. Assim fizeram os franceses (tão relutantes em combater o nazismo) ao raspar os cabelos de mulheres francesas acusadas de colaborar com os alemães, e jogá-las nuas nas ruas[4].

Guardadas as devidas óbvias proporções, as medidas adotadas para punir o Grêmio foram igualmente duvidosas em seus efeitos. Se mesmo muitos daqueles que não torcem pelo Grêmio consideraram a decisão injusta, é de se supor que os próprios torcedores, que em sua maioria absoluta não apoiaram a atitude do grupo de torcedores que insultaram o goleiro do Santos, é de se supor que estes tenham avaliado que seu time foi injustiçado. E, alguns, por conta disso, passado a adotar uma postura de “negação do outro”, como diriam os antropólogos. De fato, na partida seguinte, evitando cuidadosa e “legalmente” o uso de insultos racistas, a torcida xingou o goleiro de todas as formas imaginadas. Deveria, penso eu, ter xingado a CBF e aplaudido o goleiro Aranha[5]. Este, além de ter dado as declarações mais sensatas do episódio, demonstrou ser uma figura admirável, ao jogar, e bem, numa situação de enorme pressão e hostilidade[6]. Meses antes, por muito menos e com tudo e todos a favor, uma seleção inteira havia desmoronado numa semifinal de Copa do Mundo…

De resto um ótimo cenário para novas situações bizarras. Bastaria então alguém com mais tempo livre disponível que a média vestir a camisa do time adversário, insultar um dos jogadores e pronto: desclassificação garantida do adversário. Imaginando este cenário, o segundo julgamento do caso modificou a punição ao Grêmio, adotando não a desclassificação, mas apenas a perda dos pontos em disputa no jogo. O que não deve impedir o surgimento de novos cenários para contos ao estilo de Pirandello.

_______________________

* Chico Science.

* FÁBIO VIANA RIBEIRO é professor adjunto da Universidade Estadual de Maringá (Departamento de Ciências Sociais) e Doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).

[1] http://esporte.uol.com.br/futebol/campeonatos/copa-do-brasil/ultimas-noticias/2014/09/04/auditores-cochilam-e-entram-ate-no-facebook-durante-julgamento-do-gremio.htm

[2] http://blogdojuca.uol.com.br/2014/09/injustica-nao-acaba-com-a-impunidade/

[3] http://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADdice

[4] http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/a_humilhacao_das_colaboracionistas_imprimir.html

[5]http://esporte.uol.com.br/futebol/campeonatos/brasileiro/serie-a/ultimas-noticias/2014/09/18/vaiado-aranha-evita-vitoria-do-gremio-e-garante-empate-sem-gols-ao-santos.htm

[6] http://esporte.uol.com.br/futebol/campeonatos/brasileiro/serie-a/ultimas-noticias/2014/09/19/choro-palhacada-e-luta-veja-10-frases-marcantes-de-aranha-ao-rever-gremio.htm

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2 comentários sobre “Nada de errado com nossa etnia

  1. SE CONTINUARMOS A DISPERSARMO-NOS JAMAIS OS DIREITOS FUNDAMENTAIS SERÃO CUMPRIDOS – RESPEITO É BOM E EU GOSTO RESUME BEM O Q O POVO QUER – TODOS PRECISAM SER PROTEGIDOS EM S DIGNIDADE, MAS É URGENTE Q TODOS PENSEM Q SEM CONSENSO Ñ HÁ GOVERNABILIDADE E É PRECISO CONVERGIR P CURAR A BIOSFERA E ACABAR C TODO O TIPO DE GUERRA Q ESTÃO NOS EXTERMINANDO ENQTO SERES VIVOS NA TERRA.PAZ

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