Desilusões com a política

barbatojrROBERTO BARBATO JR*

Dormia a nossa pátria mãe, tão distraída;
Sem perceber que era subtraída;
Em tenebrosas transações.
(Chico Buarque)

Quando ouvi que a Dilma havia sido reeleita Presidente do Brasil, tal como reza o senso comum, pensei: “cada povo tem o representante que merece”. Depois, vendo os números da apuração, pensei, em tom de pilhéria, que somente metade da população tem o representante que merece. Segundo esse estapafúrdio raciocínio, nossa presidente careceria da legitimidade necessária à assunção do cargo. Naturalmente, tudo isso não passa de brincadeira. Afinal, o processo eleitoral transcorreu sem que indícios razoáveis de fraude tenham sido verificados. Dilma é, portanto, uma representante legítima do povo brasileiro. Por mais quatro anos, salvo se houver alguma intercorrência legal que possa cassá-la, viveremos sob os auspícios dessa senhora.

Que esse fato não me agrade não é novidade. O que talvez seja novidade é maneira pela qual venho pensando a política.

Sempre descrevi aqui mesmo (vide links abaixo) minhas convicções sobre a política. Manifestei votos, pugnei pela necessidade de se promover discussões respeitando a diversidade ideológica e, mais do que tudo, demonstrei minha frontal contrariedade à postura de quem prega os votos nulo e branco.

Num passado não muito distante, costumava a acreditar que os partidos políticos eram instrumentos de transformação social, capazes de organizar a política e administrar o dissenso. Acreditava também que, à exceção da cultura, não haveria outro caminho que não o político para a transformação da sociedade. Defluía daí minha insistência para que se assumisse, mesmo diante de opções eleitorais não satisfatórias, o compromisso do voto. Todos deviam prestigiar o instituto da representatividade política.

Não foram poucas as vezes em que me insurgi contra opiniões que derivavam do senso comum. “Cada povo tem o representante que merece”, “políticos são todos farinha do mesmo saco”, “Os políticos usam dos partidos para obter vantagens pessoais” e “Não há político que preste, todos são bandidos” foram máximas que rechacei de pronto, convicto de que havia alguns vocacionados e dispostos a atingir o objetivo da política, o bem comum.

Devo confessar que grande parte das minhas convicções eram sustentadas pela práxis de um partido político que honrava seu discurso. Tratava-se de um partido que lutava pela ética na política, que não fazia acordos com meras intenções eleitoreiras e que chegava até mesmo a recusar alianças consideradas espúrias em nome da coerência com sua plataforma ideológica.

A um rapaz que participaria da primeira eleição direta depois dos longos anos do regime de exceção era extremamente sedutora a ideia de que aquele partido poderia romper, em alguma medida, com as práticas fisiológicas, com o nepotismo que sangrava a máquina pública, com o costume do caudilho, com um passado abominável, enfim. No voto da eleição de 1989 depositei muita esperança, sobretudo porque era preciso combater o adversário, àquela altura dos acontecimentos um lídimo representante de todas as práticas nefastas acima aludidas.

Nas eleições subsequentes, já com muitas ressalvas, ainda houve esperança. O discurso continuava sedutor. As metas eram explícitas e ditas com todas as letras: minar a hiperinflação, minimizar as disparidades sociais, proporcionar condições dignas à massa de brasileiros que vivia abaixo da pobreza, erradicar o analfabetismo e distribuir a renda!

O Brasil, diziam, precisava crescer por si só, “jamais dando o peixe, mas ensinando o povo a pescar”. Reproduzia-se essa máxima à larga. O assistencialismo era quase um palavrão, uma afronta ao rigoroso – quase inexorável – estratagema ideológico de desenvolvimento social. Com invejável habilidade, o líder máximo dessa agremiação política convenceu muita gente.

E tinha mais: seus asseclas enchiam a boca para dizer que aquele era o único partido ético, alheio às práticas obscuras da política tradicional, da velhacaria que se praticava amiúde no país. Pugnava-se pela fidelidade partidária, pela coerência ideológica das alianças eleitorais. Em tudo o partido era digno de elogios.

Veio, finalmente, o poder. A esperança venceu o medo, disseram. E, então, começou o pesadelo. O cumprimento das promessas anteriormente jogadas à população se mostrou inviável. O governo do sempre ético Partido dos Trabalhadores ficou refém da política econômica tão criticada por ele mesmo. Aos poucos, o partido mostrou-se contaminado por um sem-número de atitudes suspeitas.

Evidentemente, já estava em curso um discreto processo de aparelhamento do Estado brasileiro. Nas gestões dos executivos municipais não se deixou de verificar o velho nepotismo, outrora acidamente criticado pelo partido. A hipocrisia do discurso era patética. No âmbito federal, alguma coisa acontecia sem que Luiz Inácio “soubesse de nada”.

O “mensalão“ rompeu qualquer dúvida à época existente sobre a idoneidade de muitos políticos do Partido dos Trabalhadores. Rompeu, também, com a aura da pureza e da honestidade que, pensava-se, pertencia a poucos. Caiu por terra a crença de que aquele era um partido afeiçoado à ética na política. Luiz Inácio continuou a reivindicar o monopólio da moralidade pública. Com inenarrável desfaçatez afirmou: “Ninguém neste país tem mais autoridade moral e ética do que nosso partido. Admitimos que tem gente igual a nós, mas não admitimos que tenha melhor”. Quem não conseguiu rir, certamente foi capaz de chorar.

O julgamento da ação penal 470 pelo Supremo Tribunal Federal não deixou dúvidas sobre a ilicitude das atividades desempenhadas por líderes do Partido dos Trabalhadores, alguns dos quais sempre se orgulharam por terem lutado pela democratização do Brasil. Eles, que supostamente tanto fizeram por uma sociedade democrática, foram condenados por ajudá-la a se corromper. Quanta ironia!

O maior esquema de corrupção praticado no Brasil não foi uma fantasia como querem muitos petistas. Sua apreciação pelo Poder Judiciário não demonstrou a existência de nenhum tribunal de exceção. É muito difícil convencer os donos da verdade sobre a impessoalidade das normas jurídicas. Para eles sempre haverá uma exceção. Eles são a exceção. Por isso, a regra jamais poderá ser aplicada em relação a eles.

Vivenciando todo esse cenário, somente um insensível não seria capaz de repensar suas convicções. Pois eu, agora, não me tornei adepto das máximas do senso comum. Não entendo que políticos sejam, todos, iguais e inescrupulosos. Mas não posso deixar de afirmar que já não me importo mais com a escolha de uma plataforma partidária e tampouco julgo um político pelo partido ao qual ele está vinculado.

Fidelidade partidária e coerência ideológica não fazem mais parte dos critérios que utilizo para escolher algum representante. Continuo acreditando – não sei por quanto tempo – que os votos nulo e branco não devem ser utilizados. Insisto na necessidade de uma escolha, ainda que ela não nos satisfaça plenamente.

De forma talvez corajosa – ou ingênua! – sigo acreditando que há políticos interessados em transformar a sociedade em que vivemos. Ainda há aqueles que “vivem para a política” e não “vivem da política”, como diria Weber.

Embora desiludido, continuo confiante.

* ROBERTO BARBATO JR é graduado em Ciências Sociais e Direito, Mestre em Sociologia e Doutor em Ciências Sociais pela UNICAMP. Publicou pela Editora Hedra o romance infanto-juvenil Mistério na zona sul (2011). Também é autor de Direito informal e criminalidade: os códigos do cárcere e do tráfico (Campinas: Millennium Editora, 2006) e Missionários de uma utopia nacional-popular: os intelectuais e o Departamento de Cultura de São Paulo (São Paulo: Annablume/Fapesp, 2004). Atualmente é professor e advogado. Escreve em seu blog: Lápis Impreciso. Publicado originalmente em: http://lapisimpreciso.blogspot.com.br/2014/11/desilusoes-com-politica-dormia-anossa.html

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5 comentários sobre “Desilusões com a política

  1. Ótima e lúcida análise da atual conjuntura. Vivo me fazendo perguntas semelhantes: como é possível que alguns ainda acreditem que o PT de 2014 é o mesmo que o PT de 1989?!

    Alguns talvez o façam por pura ingenuidade (isso é incrível, mas conheço alguns casos) ou desespero e medo de deixarem de acreditar em alguma coisa; outros, por simplesmente serem tão canalhas quanto os quadros mais canalhas do PT (não por acaso, o número de “não canalhas”, de figuras decentes no PT, vem diminuindo ano após ano…); e outros por fim, numa suposta e cada vez mais insustentável teoria de que “se você não roubar nem fizer acordos de todo tipo, você não será capaz de governar”.

    Por fim, e quase repetindo o raciocínio contido no texto, o grande prejuízo causado pelo PT foi o de enterrar as mais preciosas utopias de algumas gerações (a minha e a atual, por exemplo) de uma forma que a direita jamais conseguiria (se é que isso fez, em algum momento, parte dos planos da direita…). Seria muito engraçado explicar à minha filha de 13 anos que para governar é preciso fazer isso: mentir, roubar, corromper, chamar a Katia Abreu para o Ministério, etc. Ou explicar-lhe que tudo que se vê não passa de uma ilusão; que “no país da impunidade” resolveram punir justamente quem tem mais poder. Como disse o autor, quem conseguir, que tente rir. Aos demais, resta ficarmos paralisados em nosso espanto.

  2. O que me preocupa é este discurso que traz consigo esses paradigmas de corrupção atribuida somente ao Partido dos Trabalhadores. Entendo que se trata de um discurso extremamente ideológico e indutor de retorno a modelos de gestão pública contra a qual tanto lutamos nos anos trágicos 60 a 90 e, posteriormente ficamos refens de uma elite que se declarava sustentada pelo capitalismo e que para este governava. Naquela ocasião, grande parte de nossa sociedade apenas mendigava comida, casa, saúde e acesso aos bens, fossem materiais, culturais e educacionais. Não existe partido perfeito e nem sequer não corrupto, pois todos são administrados pelas mãos humanas. Quero dizer que as pessoas se tornam escravas do sistema que determina barganhas e barganhas, infelizmente a ação política como deveria ser, se perde no caminho. Não tenho desilusões políticas porque não é isso que devemos passar para as pessoas que nos lêem ou que nos escutam, mas discutir estas questões sociais que fazem parte de uma cultura tradicional do ser político. Assim como também sei que há políticos de valores éticos e morais, que querem de fato mudar este pais, também acredito que precisamos conversar e discutir exaustivamente política, formação política, valorizar as ações políticas positivas, acompanhar e fazer acompanhar os atos políticos. Continuo acreditando que quando a pessoa incorpora o ser político, a consciência cidadã, poderemos provocar uma revolução. Durante anos e anos, a nossa educação, a formação de nossos jovens foi sucateada com programas educacionais propositadamente para estes fins: não ensinar a pescar.
    O resultado das urnas – presidente, deputados e senadores – já é um aviso de que a sociedade mudou, está se organizando e este movimento é maravilhoso e também coloca os políticos de barba de molho. Eles sabem que estão sendo vigiados. Por fim, precisamos pressionar os políticos e toda a sociedade para que as reformas se façam, se concretizem.
    Agradeço o espaço, gostaria que o mesmo fosse utilizado para grandes debates e com possibilidades de encaminhamentos de propostas políticas para as três casas da nossa esfera federal.

  3. Um prazer ler esta crônica tao bem escrita, que joga bem-humorada com os conceitos que vai opondo uns aos outros.
    Quanto a mim, acredito que havera melhores razoes para recusar os chavoes do que, mais do que o senso comum, sao a expressao da indiferença e do conformismo de quem nao sofre com o statu quo: “Cada povo tem o representante que merece” e as outras pérolas da sandice que nos cabe devem ser recusados, sim. Quando mais nao fosse, por sua vulgar banalidade.
    E acho que cabe também uma pergunta meio boba: se Lula nao tivesse feito alianças antes de ser eleito e se nao tivesse engolido muito sapo depois, quanto tempo você acha que ele teria durado no poder?
    Um ano? ou menos?

  4. Um dos mais profundos imbróglios do subdesenvolvimento do Brasil, é não conseguirmos definir, quais são as origens legítimas dos problemas da pobreza que assolam o nosso país. Uns dizem que é o liberalismo e o capitalismo, enquanto outros dizem que é o comunismo e o radicalismo da esquerda. Aquilo que constatamos é que vivemos uma inflação demoníaca, que nenhuma economia consegue resistir, uma educação fundamental de mínima qualidade, muitos governantes com gestão roçando a mediocridade, e uma máquina estatal oxidada e excessivamente pesada a nível econômico e financeiro.
    Mas apesar de tudo, acredito de que algum dia seremos um Brasil desenvolvido, com Ordem e Progresso.

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