Para não sucumbir ao caos

grumanMARCELO GRUMAN*

Meu filho, às portas de completar seis anos de vida, já demonstra inquietude com relação à passagem do tempo, o que lhe espera num futuro ainda indefinido. É comum perguntar-me quantos anos terá quando eu for “velhinho”, ou quando serei “velhinho”, e quanto anos eu terei quando ELE for “velhinho”. Acho curioso que, já tão novo, questionamentos existenciais façam parte de suas reflexões. Talvez tudo tenha começado com a familiarização dos números, da contagem progressiva, da possibilidade de irmos ao infinito. No caso da vida humana, infelizmente, trouxe-o de volta ao que considero a realidade. Certa vez, perguntou-me quantos anos eu terei quando ele tiver cem, e eu lhe respondi que, bem provavelmente, eu já terei morrido. Esta resposta não o chocou, o que o chocou foi a continuação da explicação, o que acontece quando chegamos ao fim da vida terrena. O que vem depois?, quis saber o pequeno. “Viramos pó”, foi o que ouviu de um pai descrente, ateu convicto. Fui insensível? Não sei. Como explicar que a vida é meio sem sentido mesmo, que nascemos, vivemos e morremos e que devemos aproveitar enquanto estamos por aqui? Este é o meu mito fundador.

A mãe tem uma explicar muito mais interessante, condizente com a realidade fantástica que ainda queremos que as crianças vivenciem, menos chocante, afinal, ainda têm tempo de sobra pra pensar em questões existenciais do tipo “de onde viemos, para onde vamos”. Segundo ela, o mito fundador é contado da seguinte maneira: nosso filho era um anjinho que pairava nas nuvens, divertia-se com os outros anjinhos enquanto observava os homens e as mulheres em seus passos apressados aqui embaixo. Anjinhos têm livre arbítrio, portanto, dentre os milhões de potenciais pais e mães, escolhem dois a seu bel prazer, que acabam se conhecendo, namorando, casando (nem sempre…) e dando-lhe vida terrena. É engraçado quando nosso filho é contrariado, quando dizemos não a um pedido de refrigerante ou de chocolate logo antes do jantar, e diz que não devia ter nos escolhido como pais, e que não nos escolherá na próxima vez que vier de visita ao mundo terreno.

À morte terrena, o anjinho transforma-se em alma e volta para o plano superior, tendo nova oportunidade de voltar à terra, quem sabe com o mesmo pai e a mesma mãe, que também haviam subido às nuvens após suas mortes e voltado à terra também. O “namoro” dos pais e a colocação da “sementinha” na barriga da mãe dão materialidade a algo definido anteriormente (ele ainda não perguntou “como” a sementinha vai parar na barriga). Quando ele me pergunta o que é alma, não sei responder, peço ajuda aos universitários, quer dizer, à mãe. Sinceramente, este mito fundador não me incomoda, por enquanto. Tudo se complica, porém, quando entra em cena a oposição “céu” e “inferno”, bondade e maldade, anjos e demônios, bom comportamento e mau comportamento, ordem e caos. Tudo se complica quando entra em cena o discurso religioso.

Defendi veementemente a liberdade de expressão no episódio do massacre perpetrado por fundamentalistas islâmicos contra jornalistas do semanário Charlie Hebdo, defesa do direito de rir dos outros e de si mesmo, algo possível apenas em sociedades democráticas. Num almoço de domingo, poucas semanas atrás, uma amiga, que poderia dizer é meu ombudsman, está sempre desafiando minhas verdades, questionou-me sobre a possível hipocrisia dos que defendem esta liberdade de expressão e, ao mesmo tempo, defendem o respeito à diversidade cultural e transmitem este valor para os filhos desde pequenos. Por que não, perguntou meu ombudsman, deixar as crianças praticarem o bullying? Por que retardar em alguns anos o sarcasmo e a ironia dirigida àqueles dos quais discordamos? Faz alguma diferença?

Num primeiro momento, depois de pensar um pouco, respondi dizendo que o convívio com a diferença não significa aceitá-la de bom grado, como de igual valor ao que acredito, e que faz parte da luta pelo direito de afirmar a identidade piadas, ainda que grosseiras. O desconforto com o diferente não significa, por outro lado, a sua aniquilação. Mas não fiquei satisfeito com esta resposta, claro, porque não explicava a hipocrisia de que ela falava, e passei a semana toda matutando com meus botões como sair honrosamente da enrascada proposta pela amiga da onça. A oportunidade veio pouco tempo depois, num aniversário de amigos em comum.

Triunfalmente, retomei o assunto e justifiquei a “proteção” das crianças pelo fato de elas não saberem ainda diferenciar um sarcasmo, uma ironia, e não terem noção das consequências de seus atos nem instrumental conceitual adequado para defender-se de possíveis ataques verbais. Adolescentes e adultos têm. Em todo caso, minha amiga, seguida de minha esposa, se colocou favorável a algum tipo de freio moral, de censura ao que pode ser dito e feito, e que não há nada de errado nesta proposta, afinal de contas, vivemos cheios de regras sociais às quais devemos nos submeter sob pena de prisão (matar, por exemplo). E que sem estas regras o que há é o caos. A salvação pode estar na religião ou num contrato social. E é aqui que o ateu precisa dar as caras novamente, apavorando o filho de seis anos.

O Velho Testamento, por exemplo, é um ótimo exemplo de como o multiculturalismo esteve desde sempre fadado ao fracasso, que o convívio com o diferente é perda de tempo, e que o melhor a fazer é submeter-se ao autoritarismo divino como um bom filho obedece cegamente ao pai, dono da verdade. Os dez mandamentos, na realidade, funcionam como cortina de fumaça daquilo que realmente importa numa leitura minuciosa do texto “sagrado”. Condenar o homicídio, a calúnia e o roubo são valores que devem ser prezados, A DESPEITO da religião, que justifica, ainda nos escritos das tábuas da lei, a existência de escravos e escravas, que não podem ser cobiçados por outrem, além de homicídio em massa do “outro”. E há mais, muito mais. Vejamos.

A religião condena o ser humano à ignorância porque a reflexão desafia a verdade divina imposta de cima para baixo. O episódio envolvendo a maçã e a cobra representa a apologia da servidão, praticamente equivalendo o ser humano aos animais irracionais, rebanho simbólico e físico. Está escrito no primeiro livro do Pentateuco, Gênesis II-III:

E da árvore do conhecimento, do bem e do mal, não comerás dela; porque no dia em que comeres dela, morrerás. (…) E a serpente era astuta, mais do que qualquer animal do campo que fez o Eterno Deus. (…) E disse a serpente à mulher: Não morrereis! Porque sabe Deus que no dia em que comerdes dele (do fruto), abrir-vos-ão os olhos e sereis como Deus, conhecedores do bem e do mal. (…) (Perguntou deus) Acaso da árvore que te ordenei não comer dela, comeste? E disse o homem: a mulher que deste comigo (Eva), ela deu-me da árvore e comi. (…) À mulher disse: multiplicarei o teu sofrer e tua concepção; com dor, darás à luz, filhos; e para teu marido será o teu desejo e ele dominará em ti. E ao homem disse: Porquanto escutaste a voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo, não comerás dela; maldita é a terra por tua causa: com fadiga comerás dela todos os dias de tua vida.

Mal sabia o Eterno que, anos mais tarde, inventariam a anestesia peridural.

E o que podemos dizer do sadismo presente na provação imposta, embora aceita de bom grado, a Abraão, que, para provar seu amor (?) ao Eterno, levou seu filho Isaac ao altar do sacrifício. Mil anos de análise não seriam suficientes para recuperar pai e filho do bullying. Está lá, em Gênesis XXII:

Deus experimentou a Abrão. E disse-lhe: Abrão! E disse: Eis-me aqui. E disse: Toma, rogo, teu filho, teu único, a quem amas, a Isaac, e vai-te à terra de Moriá, e oferece-o ali como holocausto, sobre um dos montes que te direi. (…) E falou Isaac a Abrão, seu pai, e disse: Meu pai! E falou: Eis-me, meu filho. E disse: Eis o fogo e a lenha, e onde está o cordeiro para o holocausto? E disse Abrão: Deus proverá para si o cordeiro para o holocausto, meu filho. (…) E estendeu Abrão sua mãe, e tomou a faca para imolar seu filho. E chamou-o um anjo do Eterno, dos céus e disse: Abrão! Abrão! E disse: Eis-me aqui. E disse: Não estendas tua mão ao mancebo e não lhe faças nada; pois, agora sei que, temente a Deus és tu, e não negaste teu filho, teu único a mim. E levantou Abrão seus filhos, e viu, e eis que um carneiro estava embaraçado numa árvore por seus chifres; e foi Abrão, e tomou o carneiro e o ofereceu em holocausto em lugar de seu filho.

A pedagogia da opressão aparece, em todos os seus cinquenta tons de cinza, em Levítico XXVI. Diálogo com os filhos, não. Repressão, dor, flagelo, morte, canibalismo.

E se não me ouvirdes e não fizerdes todos estes preceitos; e se meus estatutos rejeitardes, e se a vossa alma enfadar dos meus juízos, para não fazer todos os meus preceitos, para violardes a minha aliança; também Eu farei isto a vós: porei sobre vós o terror, a tísica, e a febre ardente que fazem desesperar e atormentar a alma; e semeareis em vão vossa semente e a comerão vossos inimigos; e se assenhorearão de vós aqueles que vos odeiam, e fugireis sem que ninguém vos persiga. (…) E se ainda assim com isto não me ouvirdes, prosseguirei em castigar-vos com sete calamidades por causa de vossos sete pecados. E quebrarei a altivez de vossa força e vossa terra como o cobre. E acabar-se-á em vão vossa força, e não dará vossa terra produto, e a árvore da terra não dará o seu fruto. E se andardes comigo em teimosia, e não quiserdes ouvir-me, continuarei trazendo sobre vós outras sete pragas, conforme os vossos pecados. (…)E trarei sobre vós espada vingadora, em vingança do meu pacto, e sereis ajuntados dentro das vossas cidades; e enviarei a peste entre vós, e sereis entregues a mão do inimigo. Quando Eu vos quebrar o sustento do pão, dez mulheres cozerão o vosso pão num só forno, e vos entregarão o vosso pão por peso; e comereis, mas não ficareis satisfeitos. E se ainda com isto não me ouvirdes, e andardes contra mim com teimosia; Eu andarei contra vós com furor de teimosia, e vos castigarei também Eu com sete calamidades por causa de vossos pecados. E comereis a carne de vossos filhos, e a carne de vossas filhas comereis.

A arte da guerra também está presente no texto sacralizado, conforme verificado nas instruções divinas a Moisés quando da tomada de cidades habitadas por infiéis. E o feitiço pode virar contra o feiticeiro, se o filho teimar em desobedecer ao pai. Está lá, em Números XXXIII:

E falou o Eterno a Moisés nas suas planícies de Moab, junto ao Jordão, na altura de Jericó, dizendo: Fala aos filhos de Israel e dize-lhes: quando passardes o Jordão para a terra de Canaã, desterrareis a todos os moradores da terra de diante de vós, e destruireis todos os seus assoalhos de pedra, sagrados; e todas as suas imagens de fundição exterminareis, e todos os seus lugares altos sagrados, destruireis. E desterrareis os habitantes da terra e habitareis nela; pois para vós dei a terra, para herdá-la. (…) E se não desterrardes os moradores da terra de diante de vós, os que deles deixardes ficar, ser-vos-ão como pregos nos vossos olhos, e como cercas de espinhos à vossa volta, e angustiar-vos-ão na terra em que habitardes. Então acontecerá que farei convosco, o que pensei fazer com eles.

Há poucos dias, os bárbaros homicidas do Estado Islâmico destruíram milhares de manuscritos, documentos e livros raros após invadirem a Biblioteca Pública de Mosul, no norte do Iraque. A estimativa é de que pelo menos 8.000 exemplares tenham sido destruídos, muitos deles registrados na lista de raridades da UNESCO. O diretor da biblioteca disse que os militantes demoliram parte do edifício com explosivos. Também foram à Biblioteca Sunita, à biblioteca do Mosteiro dos Frades Dominicanos, com 265 anos de idade, e à Biblioteca do Museu de Mosul, que continha manuscritos datados de 5.000 a.C. Qualquer semelhança não é mera coincidência. Extremismo? Não. Religião.

O que dizer, então, das mulheres? Meros objetos, escravas disfarçadas, pedaços de carne a serem devorados ou descartados, ao bel prazer dos seus senhores. Em Deuteronômio XXI lemos:

Quanto saíres à guerra contra os teus inimigos, e os entregar o Eterno, teu Deus, em tuas mãos, e deles levares cativos, e vires entre os cativos uma mulher formosa, e a desejares, e a tomares para ti por mulher, então a trarás para dentro de tua casa, (…) e ficará em tua casa, e chorará a seu pai e a sua mãe um mês, e depois estarás com ela, e desposá-la-ás, e será para ti, por mulher. E se não a quiseres, a deixarás em liberdade; e não a venderás por dinheiro; não te servirás dela, porque a afligiste.

Sorte do Eterno que, em sua época, não havia Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente nem Varas da Infância e Juventude, nem Estatuto da Criança e do Adolescente, caso contrário, estaria em maus lençóis. Perderia a guarda dos filhos e ainda correria o risco de ir para a cadeia. Isto devido ao primor de coação e terror psicológico infligido ao rebanho humano já no final da narrativa, em Deuteronômio XXVIII. E viva a Lei da Palmada!

Maldito o fruto de teu ventre, e o fruto da tua terra, as crias de teu gado e os rebanhos de tuas ovelhas. (…) Enviará o Eterno, sobre ti, a maldição, a turbação e a repreensão em tudo o que estenderes a tua mão e fizeres, até que sejas destruído, e até que pereças rapidamente por causa da maldade de tuas obras com que me deixaste. O Eterno te fará pegar a peste, até que te consuma de sobre a terra à qual tu vais para herdá-la. Ferir-te-á o Eterno com a tísica, e com a febre e com a quentura e com o ardor (…). O Eterno dará, com a pouca chuva, da tua terra, pó e poeira; dos céus descerá sobre ti, até que sejas destruído. (…). E o teu cadáver será por comida a todas as aves dos céus, e aos animais da terra, e não haverá quem os enxote. Ferir-te-á o Eterno com a sarna do Egito, e com hemorroidas, e com sarna úmida, e com sarna seca de que não te poderás curar. Ferir-te-á o Eterno com loucura, e com cegueira, e com entupimento do coração. (…) Mulher desposarás, e outro homem dormirá com ela. (…) O teu boi será degolado perante teus olhos, e não comerás dele; teu asno será roubado diante de ti, e não voltará a ti; o teu gado será dado aos teus inimigos, e não haverá quem os salve. Teus filhos e tuas filhas serão dados a outro povo, e teus olhos o verão, e desfalecerão por eles todo o dia, pois não voltarão; e não haverá poder nas tuas mãos para fazer coisa alguma. O fruto de tua terra e todo teu trabalho o comerá um povo que não conheceste; e serás, certamente, oprimido e esmagado todos os dias. E te tornarás louco pela visão que teus olhos hão de ver. Ferir-te-á o Eterno com sarna maligna nos joelhos e nas pernas, de que não te poderás curar, desde a planta de teu pé até o alto da cabeça. (…) Muita semente produzirá, e pouco recolherás, porque a consumirá o gafanhoto. Vinhas plantarás e cultivarás, e vinho não beberás, e nem colherás as uvas, porque as consumirá o bicho. Oliveiras terás em todo o teu território, e com o azeite não te ungirás, porque as tuas oliveiras deixarão cair seu fruto. Gerarás filhos e filhas, porém não serão para ti, porque irão em cativeiro. (…) E virão sobre ti todas estas maldições, e perseguir-te-ão e alcançar-te-ão até que sejas destruído; porque não ouviste a voz do Eterno, teu Deus, para guardares seus preceitos e seus estatutos, que te ordenou.

Religião é o caos. A apologia à escravidão, ao apedrejamento de adúlteros é o caos. Ela deixa a vida mais chata, entediante, proíbe que homens se vistam de mulher e vice-versa, adeus Carnaval. Condena formas de prazer que fujam do “papai e mamãe”, literal e simbolicamente, porque na visão míope e dicotômica, preto no branco, da religião, não é à toa que o Eterno desenhou homens e mulheres equipados com tomadas, uns, e interruptores, outros. É o design inteligente.

É conhecida a estória do historiador marxista “judeu não-judeu” Isaac Deutscher que, duvidando da existência de deus, resolveu comer um sanduíche de presunto sobre o túmulo de um rabino em pleno Yom Kipur, o Dia do Perdão, dia em que judeus crentes (ou não) jejuam para expiar seus pecados. Deutscher realizava, na verdade, um experimento, testava a ira divina, mas ela não veio, ele não foi fulminado por um raio. A partir daquele momento, ele trocou Moisés e o Talmude por Marx e Trotsky. Ele não morreu, deus sim. E o caos não veio.

Woody Allen, que cansa de ridicularizar a religião em seus filmes, sobretudo aquela com que teve de lidar por toda a sua vida, a judaica, é bastante simples ao explicar porque a ausência do pensamento religioso não significa imoralidade, ou melhor, amoralidade. A fonte de uma vida moral não tem de passar, inexoravelmente, pela experiência religiosa, algo tão evidente e cristalino que só aqueles que se arrogam o direito de definir a priori o que é a realidade, que têm preguiça de desafiar verdades dadas, que são adeptos do pensamento dogmático e autoritário, teimam em não enxergar. Dirigem no escuro, para brincar com o título de um dos seus filmes. Numa de suas inúmeras entrevistas para o jornalista Eric Lax, reunidas ao longo de três décadas e publicadas há alguns anos sob o título Conversas com Woody Allen, o cineasta afirma:

Uma coisa interessante: li um artigo escrito por um padre a respeito do filme Match Point – Ponto Final. Era muito bom, mas ele partia de uma hipótese errada. A hipótese era assim: se, digamos, a vida não tem sentido, é caos, é acaso, então pode-se tudo, e nada tem sentido, todo ato é tão bom quanto qualquer outro. E isso imediatamente leva alguém com uma convicção religiosa à seguinte conclusão: é, pode-se matar pessoas e se dar bem com isso, se é o que se quer fazer. Mas é uma falsa conclusão. O que estou dizendo de fato – e não é oculto, nem esotérico, é claro e simples como água – é que nós temos de aceitar que o universo é sem deus, e a vida é sem sentido, muitas vezes uma experiência brutal e terrível, sem esperança, e que as relações amorosas são muito, muito difíceis, e que ainda precisamos encontrar um jeito não só de suportar, mas de levar uma vida decente e moral. As pessoas já vão concluindo que estou dizendo que qualquer coisa serve, mas na verdade estou fazendo a pergunta: dado o pior, como podemos continuar, ou até mesmo por que deveríamos escolher continuar? (…) De todo modo, os religiosos não querem admitir a realidade, que contradiz o conto de fadas deles. E se o universo for sem deus (ri baixo) eles perdem o emprego. Interrompe o fluxo de caixa. Ora, existe uma porção de gente que escolhe levar a vida de um jeito completamente autocentrado, homicida. Pensam assim: já que nada significa nada e eu posso me dar bem com assassinato, vou fazer isso. Mas pode-se também fazer a escolha de que estamos vivos, e outras pessoas estão vivas, e estamos juntos num bote salva-vidas e é preciso tentar e fazer o bote ser o mais decente possível para você e para todo mundo. E me parece que isso é muito mais moral, e até mesmo muito mais “cristão”.

Aqui, posso juntar os dois pontos principais da conversa com minha amiga, a importância e os limites da liberdade de expressão e a necessidade de “censura”, que eu prefiro chamar de regras socialmente estabelecidas de convivência, em nome da civilização (palavras minhas) em oposição ao caos. Uma visão equivocada do que seja o multiculturalismo é responsável por uma série de atrocidades cometidas nos quatro cantos do mundo. Nesta visão torta, o respeito à diferença é direito inalienável, o que significa aceitar a tudo e a todos, acriticamente. Tudo tem o seu valor, deve-se exercer o relativismo moral/cultural a todo custo, deve-se exercer o ofício de antropólogo cem por cento do tempo. Estamos diante, novamente, da chatice do politicamente correto.

A “falência do multiculturalismo”, como afirma o filósofo Denis Lerrer Rosenfield em recente artigo n’O Globo, ao comentar o ataque terrorista ao Charlie Hebdo, ocorre exatamente porque o direito à diferença como mandamento primeiro do politicamente correto significa que qualquer forma de existência cultural diferente do Ocidente ou qualquer comportamento é de igual valor aos princípios e valores universais que orientam as sociedades democráticas, tolerantes e pluralistas.

Por que esse silêncio atroz em relação às mulheres, na verdade meninas, muçulmanas que são mutiladas sexualmente em vários países africanos por motivos religiosos? Trata-se de um mero exercício do “direito à diferença”? As diferenças culturais devem ser simplesmente respeitadas? Por que não o terror enquanto forma de contestação “diferente” dos valores do Ocidente?

O caos impera quando somos tolerantes com a intolerância, essência democraticamente compartilhada pelas religiões. É o talibã afegão, o decapitador sírio, iraquiano ou britânico filiado Estado Islâmico, o assentado judeu ultraortodoxo da Cisjordânia ocupada, o evangélico brasileiro que prega a cura de homossexuais, o católico que não pode ouvir falar de células-tronco que lhe dá urticárias. “Ah, mas são exceção!”, vociferará uma voz do rebanho. Não é verdade. O fundamentalismo é o exercício prático do que está escrito, nada mais do que isso. A diferença entre “moderados” e fundamentalistas não está no conteúdo, mas na forma. Religiões não são um cardápio em que se pode escolher, à la carte, o que mais nos apetece. É tudo ou nada. Não se pode condenar o homicídio, por um lado, e dar passe livre para o genocídio de populações inteiras que, por acaso, habitam cidades “indevidamente”.

Meu filho, fique tranquilo. Meu livro de cabeceira não é o Velho Testamento, manual de instrução para pais autoritários e violentos. Nem o Novo Testamento, remendo do primeiro. Nem o Alcorão. Nem nenhum livro que fale de vozes ouvidas por esquizofrênicos. Tenho vergonha alheia desta má literatura. Você deve me honrar se, e somente se eu honrar-te. Pense com sua cabeça, não com a dos outros. Use esta herança judaica de que seu pai se orgulha, a de questionar sempre, retirando da zona de conforto aqueles que acreditam ser os porta-vozes da revelação divina. Não sucumba ao caos. Construa o bote salva-vidas. Estabeleça, com seus semelhantes, relações morais baseadas em valores construídos, não impostos por uma entidade que ninguém vê, que paira fantasmagoricamente sobre nós. Seja feliz, a despeito das forças demoníacas da religião. Aqui se faz, aqui se paga.

Durma bem, e sonhe com os anjinhos.

* MARCELO GRUMAN é Antropólogo; Doutor em Antropologia Social (PPGAS/MN/UFRJ).

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6 comentários sobre “Para não sucumbir ao caos

  1. A religião é sempre a religião do rei, a dominação é sempre a dominação do rei, a manipulação é sempre a manipulação do rei, a ciência é sempre a ciência do rei(mercado-capitalismo). Leia a ARQUEOLÓGICA de Enrique Dussel da Filosofia Latinoamericana da Libertação e os filósofos da escola crítica de frankfurt. Vc vai ver onde está o nosso deus (com minúscula porque é o verdadeiro e está por tras da sua atropelologia – atropelamento do ser humano).

  2. Explicar a experiência da passagem do tempo e da morte é sempre um momento que devemos (adultos) possuir a mesma seriedade com que brincam as crianças. De forma leve e descontraída, sem esconder nada que suas perguntas e curiosidades desejem. Daremos a ela a tranquilidade de entender que o curso das coisas possuem um fim. Mostrar uma flor seca, insetos e outros bichos sem vida. Quando o coleguinha da escola faltar por morte. Ou uma tragédia repercutir o choro do desespero de um adulto assustar. Estar lá de modo firme e racional dando as suas necessidades doses de bom senso e equilíbrio. Afinal como diz o poema de Vinicius de Moraes: Uma folha qualquer e desenho um barco que descolorirá. Mostrar que o mundo estava aqui antes dele e ficará depois. Somos apenas um intervalo da chegada de um meteoro e a espera de outro.

  3. Prezado Marcelo,
    O seu ensaio é lúcido e corajoso. Escrever sobre aquilo que a maioria gosta é muito fácil; difícil é escrever sobre as verdades impalatáveis como a religião.

  4. Bela e exigente leitura desses textos, tao imponentes quanto velhas ruinas sacralizadas pelo tempo e pelo que significaram ao serem erigidas.
    Nao concordo em que esses textos sejam uma induçao à violência. Acho é que eles foram escritos em épocas de violências bem maiores e que sua funçao era pôr ordem no caos da guerra, da violência familiar e sobretudo tribal, da habitual escravizaçao dos povos vencidos, etc.
    Tenho a impressao de que o que torna as religioes barbaras e intolerantes é o anacronismo entre uma formulaçao que foi adequada a outras épocas e sua aplicaçao automatica a uma forma de vida ja totalmente diferente. E, como resultado, a paranoia decorrente da tentativa ou da nostalgia de querer viver “como nossos pais” ou ancestrais mais longinquos. Isso, me parece, remete ao mesmo tipo de fenômeno que nos faz idealizar o passado, caricaturado p/ex naquelas imagens de marcas comerciais dos anos 50, como emblemas de tempos felizes (e, ocasionalmente, denuncia de nosso horizonte estreito e materialista).
    Deixo aqui meus calorosos parabéns por sua reflexao corajosa; antes de terminar devo admitir que eu teria medo de um raio que me partisse se comesse aquele sanduiche em cima do tumulo… mesmo nao sendo judia, faço parte do universo monoteista e esses discursos retumbantes do Inomavel acordam sempre ecos em algum ponto longinquo de alguma memoria remota, perene e renitente.

  5. Esquecemos que não existe só nós (humanos ou não) no universo. Abandonei a tempos a perspectiva humana como referência única reflexiva, estamos fadados a nossa arrogância em não considerarmos os outros e suas experiências como reais, ateístas, realistas, idealistas, ou qualquer outra coisa sem nome. O que importa no final é compartilharmos a nossa existência.

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