A religiosidade política e o culto popular a Baco na Grécia antiga

russojrCARLOS RUSSO JR.*

Na antiga civilização grega a religiosidade para ser compreendida necessita de que esqueçamos conceitos como “fé” e “crença” do modo como são entendidos nos nossos dias.

Era uma religião grega que não tinha um livro, uma bíblia, ou uma Igreja. O sacerdócio era o apanágio de algumas famílias antigas, que gradualmente se transformaram em magistraturas, as quais, como outras funções cívicas, possuíam delegados eleitos pelo voto em assembleias realizadas na Ágora.

Deste modo, jamais existiu a figura do corpo sacerdotal permanente, do profissional, do mesmo modo como não havia uma teologia, nem dogmas e muito menos credos.

Nesse sentido, o “crer” do grego é inseparável do conjunto das relações sociais e das práticas sociais. Ou seja, entre o sagrado e o profano não existia uma oposição radical ou um corte rígido.

Vernant¹ coloca a questão dessa crença dentro dos três elementos que constituem um sistema religioso:

Os rituais: “crer é cumprir certo número comum de atividades durante o dia ou durante o ano, com festas que são fixadas rotineiramente pelo calendário”¹. Funcionam do mesmo modo como atos da vida cotidiana.

Existem determinadas regras que englobam esses comportamentos e que também possuem um caráter religioso. Por exemplo, o sacrifício de animais é a um só tempo uma cerimônia religiosa, com seu ritual “preconizado pelos deuses” para que os homens se alimentem e os homenageiem e, ao mesmo tempo, uma cerimônia social que reúne os cidadãos e que aumenta a “phylia”, a amizade, entre os mesmos.

As figuras dos deuses, as imagens e os ídolos: os ídolos ou ícones constituem as primeiras figurações e normalmente pertencem aos “guenos”, às famílias. Gradualmente, a cidade como que “sequestra” esses ídolos “familiares” e os transforma em públicos.

O mito: como a crença no sagrado não se esteia em livros, ela é contada por meio de narrativas, que somente adquirem uma forma canônica no século VI a.C., a partir de Homero, Hesíodo e dos poetas como Píndaro. As crianças e os jovens, no processo que os gregos denominavam “paideia”, iriam estudar esses versos narrativos e decorá-los.

Cremos que não havia um único grego que pensasse que as coisas realmente haviam acontecido como os poetas as descreveram, mas isso não quer de forma alguma dizer que eles as considerassem como falsas. Acontece que a crença religiosa dos gregos não era dogmática e o politeísmo era flexível o suficiente para adequar-se a versões múltiplas.

Desse modo, a religião grega pode claramente ser definida como “uma religião política”. E isso significa que o religioso, por ser sociopolítico, é muito mais uma forma de vida social e coletiva que uma forma de experiência pessoal e de relação pessoal com a divindade. Para os gregos, o amor que vai do homem aos deuses é um amor exclusivamente utilitarista, pois amamos o que necessitamos ou o que nos privaram, sem nenhum tipo de contrapartida esperada dos deuses para com os homens.

Os deuses, que se situam no nosso mundo, não o criaram, mas foram criados pelo mesmo processo cosmogônico que deu origem ao universo e aos homens. Logo, eles somente são superiores aos homens por sua imortalidade, não envelhecerem e com isso deixarem de ser belos e saudáveis. Finalmente, por seu poder em relação aos “efêmeros” mortais.

De tal modo que a religiosidade cívica dos gregos jamais fechou sua religião a novas divindades. Eles estão sempre dispostos a aceitarem, desde que disso tirem proveito, os deuses estrangeiros.

Isto porque os gregos antigos jamais incorporaram a visão de que sua crença representasse uma verdade absoluta, que precisasse conquistar novos povos para “a verdade”. Ou seja, exercitavam a tolerância entre as diferentes crenças e valores. “Existe nisso um relativismo intrínseco, utilitário e complacente: os gregos estão convencidos de que para eles as “coisas são assim”, e entendem perfeitamente que para outros povos possam ser diferentes” ¹.

A harmonização do consciente e do inconsciente- O culto a Dionísio é a ruptura do é “dando que se recebe”.

Dionísio é uma dessas divindades de origem asiática, que foi astuta e resolutamente apropriada pelos gregos e terminou por incorporar-se à sua “religiosidade cívica”. A abrangência de seu culto progride ao mesmo tempo em que a aristocracia é derrotada pelas tiranias e essas, substituídas pela democracia.

Dionísio era o deus que aproximava o homem da natureza e liberava os instintos, mesmo os mais obscuros. Aqui é o culto do “deus máscara”, com um forte significado de ruptura radical com os deuses mais antigos, quer os de Homero, quer os de Hesíodo ou de Píndaro.

Em seu culto, contrariamente aos olímpicos, esse deus não se contenta com momentos de piedade que para com ele tenham os homens, pois diferentemente de todos os outros, a Dionísio não bastam orações e sacrifícios, pois na sua relação com os homens não há o “dar e receber”, não há moeda de troca, que era a tônica de toda a religiosidade vista até agora².

Dionísio é o deus que somente se satisfaz com o total arrebatamento, sua satisfação somente se esgota no abranger de todo o ser humano; ele permite o êxtase, a ultrapassagem das medidas, sendo capaz de conduzir os mortais desde o mais profundo horror ao mais alto patamar da realização da alma.

O deus-máscara, não incidentalmente, metamorfoseia-se em um humano e age como tal, de uma maneira diferente que os deuses homéricos, dado que Dionísio assume-se como um homem divinizado ou um deus humanizado. Por isto Dionísio possui a habilidade de arrastar o ser humano à felicidade e ao autoconhecimento supremo, assim como à loucura e à destruição.

Portanto, nas festas dionísicas, mais conhecidas como bacanais, seu culto leva o homem a assumir-se enquanto instinto, enquanto natureza viva. “O deus inventor do vinho- esta graça dada aos homens é a seiva íntima da própria natureza”².

Nietzsche assinala: “sob a magia do dionísico torna a selar-se não somente o laço de pessoa a pessoa, mas também a natureza alheada, inamistosa ou subjugada volta a celebrar a festa de reconciliação com seu filho perdido, o homem”.

O culto a Dionísio e as bacanais foram se estendendo por toda a Grécia, não sem gerar reações dos aristocratas, dos reis e governantes, que resistiam às orgias populares.

“As Bacantes”, uma das derradeiras tragédias de Eurípedes, retrata a resistência da aristocracia – representada pelo rei Penteu- ao novo. Não por acaso as bacantes eram mulheres, matronas e donzelas, a se libertarem momentaneamente de um mundo patriarcal pelo “entusiasmo” propiciado pelo vinho, em rituais de danças em contato íntimo e direto com a natureza. O culto a Dionísio rompe com o poder aristocrático e é agente transformador social, incorporando mulheres, servos e clientes³.

O dionisismo, desse modo, foi componente importante da própria democracia no âmbito cívico-religioso. E é justo, nessa altura, acentuarmos o correto contraponto que a “sophrosine” ou o equilíbrio grego o submetia. Pois enquanto muitos povos tiveram apenas e tão somente seus libertadores do espírito e dos instintos, mesmo dos mais violentos e libertinos, que possibilitavam a mistura incontida de volúpia e crueldade, para os gregos, no mesmo patamar de importância de Dionísio, erguia-se a figura monumental e sóbria de Apolo.

Voltando-se a Nietzsche, era “o sonho se opondo à embriaguez”. O sonho de um mundo dirigido pela verdade, pelo “logos” da sabedoria, pela beleza fulgurante do sol, gerador da beleza do mundo onírico, formatado pela consciência.  Foi o deus délfico Apolo quem “restringiu-se a retirar de seu poderoso oponente, Dionísio, as armas destruidoras, mediante uma reconciliação concluída no seu devido tempo”².

Enquanto o carro que conduz Dionísio está coberto de flores e grinalda, puxado que é pela pantera e pelo tigre, trazendo ao homem a liberdade, permitindo-lhe que “viva” e libere seus instintos e seu inconsciente, que busque seu “extasis”, caminha lado a lado outro carro, aquele do deus Apolo, rodeado por suas Musas a dançar e a cantar ao ritmo ditado por uma cítera. Apolo, o próprio portador da harmonia, da beleza onírica, da verdade, do poder do “logos”, com a coroa de louros premonitória, doada por Dafne.

E é fruto desta união, do conflito e da harmonização entre Dionísio e Apolo, entre o consciente e o inconsciente, da natureza e da consciência humana, que nasceu o melhor da arte grega e, quiçá, da arte de todos os tempos³.

 

Referências:

  1. VERNANT, Jean-Pierre, VIDAL-NAQUET, Pierre. Mito e Tragédia na Grécia Antiga. São Paulo, Editora Perspectiva, 1999.
  2. NIETZSCHE, Friedrich. O Nascimento da Tragédia. São Paulo, Companhia das Letras, 2007.
  3. LESKY, Albin. A Tragédia Grega. São Paulo, Editora Perspectiva, 2003.

* CARLOS RUSSO JR. é escritor, ensaísta e professor, dedica-se ao ensino de Literatura e Mitologia, com militância política na esfera dos Direitos Humanos. Blog: www.proust.net.br

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