Das guerras

hypomnemata*

o armistício

Maio de 1945. O avanço soviético pelo leste e o estadunidense e britânico pelo oeste terminaram de esmagar as forças militares alemãs. Enquanto soldados soviéticos lutavam entre escombros pelas ruas de Berlim, enfrentados por muitos jovens recrutados como recurso militar final, Hitler e outras figuras da cúpula nazista se matavam no bunker que os abrigara por muitos meses sob o parlamento.

O Füher negou-se a capitular afirmando que a guerra deveria ser a prova de fogo da superioridade ou não dos arianos. E realizou o outro lado nazista da solução final: os alemães derrotados deveriam seguir o exemplo de seu líder e cometer o suicídio.

Meses antes, em Yalta, na Crimeia, Stalin, Roosevelt e Churchill, triunfantes, reuniram-se para decidir como o mundo seria sob o comando de seus Estados.

Dentre outras coisas, decidiram sobre a divisão e o futuro da Alemanha, sobre a ocupação da Europa oriental e, mantendo o nome da aliança militar que fizeram em 1942, resolveram criar a Organização das Nações Unidas para modelar as relações internacionais segundo seus interesses.

A guerra acabou com a Europa arrasada e ocupada militarmente. O equilíbrio diplomático-militar que havia sido estabelecido no fim da Idade Média acabou, finalmente, sob o fogo e os corpos estilhaçados e marcados de milhões de pessoas.

Um novo equilíbrio emergiu entre EUA e URSS.

uma guerra não tão fria

O capitalismo liberal redimensionou a Europa ocidental, produzindo uma associação político-comercial que foi emulada pelo socialismo soviético na parte que lhes coube.

Pouco importava se havia democracia generalizada no ocidente ou totalitarismo no oriente.

Da Segunda Guerra Mundial emergiu uma nova economia planetária, movimentada pelo impulso produtivo gerado pela própria guerra e pelas descobertas militares que se transformaram em novos produtos e práticas de consumo: computadores, aviões a jato, penicilina, radares, medicina nuclear, energia e bomba nucleares.

A Primeira Grande Guerra acabou, em 1918, com o presidente dos EUA Woodrow Wilson prometendo que aquela seria a última da história. Os vitoriosos em 1945 não prometeram nada disso.

A possibilidade de se autodestruir deixou a “terceira guerra mundial” relegada aos filmes de ficção, à paranoia anticomunista e aos discursos governamentais fundados na produção incessante de inimigos.

Entre uma e outra guerra, as democracias liberais, de França e Inglaterra, fizeram vistas grossas ao massacre promovido pelas associações entre nazistas e soviéticos para trucidar a experimentação libertária da Revolução Espanhola.

Para o ocidente capitalista, o fascismo e o nazismo eram menos piores que o bolchevismo; para todos, a abolição do Estado e as experiências autogestionárias são insuportáveis.

A intervenção militar indireta de Estados, armando e financiando grupos facciosos para desestabilizar Estados adversários e inimigos, gracejou sob as bênçãos do princípio da autodeterminação dos povos que serviu à Inglaterra, França e aos EUA para deixar o nazismo varrer uma “ameaça socialista na Europa”, como se viu tanto na Espanha, quanto na posterior invasão da Polônia.

A “guerra civil” que funda e sustenta a política, constante nas batalhas surdas que atravessam o cotidiano de cada sociedade, estendeu-se para o planeta.

“Guerras de libertação nacional”, “guerras revolucionárias”, “guerras contrarrevolucionarias”, “guerras de guerrilhas”, “guerras assimétricas”. Muitas guerras, muitos armistícios, muitas guerras mundiais cotidianas.

Cada vez menos as guerras entre Estados e cada vez mais guerras fluídas, escorregadias às formalizações diplomáticas e à organização militar.

Golpes de Estado se ampliaram para manter negócios e posições geopolíticas tanto de capitalistas quanto de socialistas de Estado, conversadas por meio de negociações permanentes via telefone vermelho.

Da Segunda Guerra Mundial desdobrou-se a Guerra Fria e suas violências, golpes, torturas, desaparecimentos, prisões, porões, assassinatos: segurança nacional associada à segurança internacional justificando pequenos grandes tiranos e a novidade: os autoritarismos latino-americanos para além do grande fascismo derrotado em 1945.

o que chamam de nova ordem

Os vitoriosos na Segunda Guerra Mundial criaram regras para formatar um mundo.

Produziram o direito internacional que articula equilíbrios de força sempre precários e tratados para serem desrespeitados segundo conveniências.

Instituíram grandes regras para conduzir a conduta dos Estados, os chamados “regimes internacionais” sobre os “problemas globais”: meio ambiente, comércio, direitos humanos, tráfico de drogas e de pessoas…

Da Segunda Guerra despontou o “Homem” não apenas como sujeito de direito universal, mas como réu sentado nos bancos dos tribunais de Nuremberg, de Tóquio e, alguns anos depois, no de Israel.

A punição não mais para os Estados, mas para as pessoas na condução dos Estados: o direito de guerra converteu-se num esboço de direito penal internacional que, na passagem dos anos 1990 para o século XXI, foi desbloqueado em tribunais penais para julgar genocídios, em processos para imputar ditadores, em autorizações da ONU para intervenções humanitárias e em um tribunal internacional permanente para julgar “crimes contra a Humanidade”.

A Segunda Guerra foi vencida por quem alinhavou discursos em torno da defesa da democracia contra o totalitarismo.

Dela brotaram novos autoritarismos e potencializadas economias de exploração de corpos e inteligências.

O mundo se planetarizou em conexões eletrônicas, em práticas culturais, em hábitos de consumo, em violências justificadas pela busca de universais e totalizantes utopias.

No aniversário do final da guerra, abundam os documentários, livros, estudos, sites, filmes de ficção celebrando a vitória do bem contra o mal.

Uma retórica requentada reapresenta a suposta “loucura” do nazismo e dos seus líderes como responsáveis pelo conflito.

A coragem e o sacrifício dos vitoriosos, do leste ao oeste, são cantados novamente evocando a Hollywood dos anos 1940 e 1950.

O desembarque na Normandia: o “D Day”. O dia da vitória: o “V Day”. A bomba em Hiroshima: a “Fat Man”. A bomba em Nagasaki: a “Little Boy”.

Após a Segunda Guerra, a “guerra” não é mais a mesma. Ela se fluidificou em muitos fluxos transterritoriais que foram acelerados e potencializados com o fim da Guerra Fria.

O mundo passou a ser o dos regimes de direitos, do capitalismo global, das guerras que se desdobram em ações militares cada vez mais rápidas e fulminantes seguidas de ocupações e processos de pacificação intermináveis.

Os terrorismos transterritoriais circulam pelo globo e se condensam em projetos de Estado, como o ISIS.

A guerra entre Estados, a “guerra do pauperismo” como chamou Pierre-Joseph Proudhon, produziu misérias e meios de gestão de misérias e de novas riquezas.

No entanto, o acontecimento da “guerra” após a Segunda Guerra explicita que a violência e a vontade de sujeitar e governar não são exclusivas dos “Estados”, mas práticas que emergem nas mais irrisórias e triviais relações e sensibilidades.

Os “Estados” não são senão condensações de estratégias de governos acionadas cotidianamente nas mais singelas situações.

A Segunda Guerra Mundial foi, por enquanto, a maior e a última guerra do pauperismo. Mas não definiu o fim da guerra.

das batalhas, lutas e embates

A guerra é a operação de uma força centralizada e organizada que visa o extermínio sistemático e, no limite, o genocídio da força à qual se opõe.

A guerra moderna é a racionalização da violência voltada para a produção de obediência que busca a pacificação pelo extermínio.

Esta forma sistemática de uso da violência segue ativada como prática de Estado e seus correlatos, ainda que modulada.

Esta tecnologia dos modernos Estados e dos que almejam efeitos de hegemonia segue ativada, em suas formas grandiloquentes e ordinárias.

Notem: um jovem é assassinado por um policial estadunidense; uma criança é executada no Morro do Alemão, Rio de Janeiro, por um policial da UPP; presos são decapitados por colegas em presídios na Bahia e no Maranhão; 12 pessoas são executadas no bairro da Cabula, periferia de Salvador; em novembro de 2013, a denominada operação Pandora deflagra perseguições a anarquistas na Espanha enviando-os ao regime de segurança máxima no FIES, em março de 2015, e a operação se repete, sob o nome Piñata; o povo Tupinambá, no sul da Bahia, é trucidado pelo Exército e pela Polícia Federal; o ISIS veicula decapitações via YouTube… As situações se multiplicam exponencialmente.

Isso é uma guerra, mesmo que maculando o quimérico monopólio da força pelo Estado: um lado subjuga ou esmaga o outro pelo uso sistemático e racionalizado da violência.

Fora do gabinete, a guerra segue sendo travada.

É o terror transmitido na velocidade de cabos de fibra óptica para alimentar a continuidade da política, com suas diplomáticas negociações e investigações, posteriores aos massacres e aos corpos lavados de sangue.

As lutas em liberdade são a única força capaz de obstruí-lo.

Diversos são os embates pela vida. Como na luta do rochedo contra o mar, não há finalidade ou racionalização, não há estratégia. Não se produz extermínio e obediência, mas transformações, mesmo que lentas e imperceptíveis.

As batalhas produtoras da vida, como as travadas ao longo da história da anarquia, que negam a centralidade do Estado, compõem outra ecologia das forças, uma coexistência impossível de ser registrada num tratado e resistente a compor um poder constituinte; ela é o caos autogerido das forças em luta que recusam a soberba da paz eterna ou quimérica.

Guerra e luta, nessa perspectiva, não são campos diversos que produzem existências outras e não antagônicas, mas são inconciliáveis.

de soldados e guerreiros

A guerra não é apenas o que os Estados fazem entre si e, seletivamente, contra seus próprios cidadãos. Ela é também o que escapa e modula os Estados; ela é o que legisla; ela é o que se pode inverter e declarar contra o Estado e contra quem deseje governar um corpo.

Proudhon chamou a guerra cotidiana que modula a todos de “pequena guerra”. Ela é a fundadora dos valores, dos conceitos, da justiça. Ela não é de exclusividade dos Estados e nem mera força destrutiva.

A batalha é prática de guerreiros e não se resume aos embates jurídico-políticos. Quando a guerra dos Estados se dilui, como hoje, isso não implica no fim dos guerreiros e dos seus embates. Não implica, sequer, no fim das guerras geridas pelos Estados.

Hoje há o soldado do Estado, o soldado-mercenário comprado pelos Estados para proteger negócios privados e estatais, o soldado-polícia-nacional da pacificação de guetos e favelas, o soldado-polícia-internacional para pacificar países, soldados-polícias-transestatais para caçar criminosos; há o soldado-guerrilheiro que sempre reemerge lutando por novos Estados, o soldado-traficante que trabalha para as lucratividades ilícitas e o terrorista islâmico que se imola em nome de transcendentais salvações.

Mas há também quem luta contra o Estado e contra toda centralidade do poder. Quem luta para experimentar livremente suas existências.

Há a Conspiração das Células de Fogo gregas, os black blocs, os anarquistas curdos de Rajova no Kobane, os insurretos sem nome que pululam inesperados onde só se espera conformismo e aceitação das regras do jogo, do assujeitamento, esse amor à obediência.

Séculos atrás, a atitude guerreira foi acossada pelos Estados Modernos que visaram monopolizar a violência para governar a todos e a cada um.

Batalhar, no entanto, não é propriedade do Estado. Não é uma coisa ou um bem, nem uma situação estratégica. O agonismo das lutas é impossível de ser desativado, porque é potencializado e fortificado por quem quer lutar.

O guerreiro à luta se lança.

* Boletim eletrônico mensal do Nu-Sol – Núcleo de Sociabilidade Libertária do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP no. 176, maio de 2015.

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2 comentários sobre “Das guerras

  1. O artigo fede a comunismo, tendo o Nu-Sol criado um caminho próprio após a Segunda Guerra Mundial culpando americanos, França e Inglaterra, pela continuidade de guerras paralelas, revoluções, revoltas e instabilidades políticas mundo afora.
    O grupo não teceu uma linha sobre a barbárie soviética, chinesa, seus avanços em anexarem territórios a seus países!
    Ora, a China anexa o Tibet, em 49;
    A Rússia anexa as nações do Leste Europeu, e forma a Cortina de Ferro;
    Divide a Alemanha, cria a Alemanha Oriental, e ergue o Muro da Vergonha, o Muro de Berlim.
    Rússia e China matam milhões de seres humanos para manter o regime de força, antidemocrático, ditatorial.
    Mas, o NU-Sol, desconsidera, ignora tais movimentos e envereda enaltecendo o espírito revolucionário, que não sei de onde tirou tantas besteiras e romantismo a respeito deste tipo de gente, que mata por matar, anestesiado por uma fantasia ideológica que não privilegia o ser humano, ao contrário, quer a sua destruição!
    Preocupa-me hoje o ambiente universitário, laboratório de mentes que são deturpadas por falsas histórias, lutas inexistentes, combates heróicos.
    Não me agrada a figura do estudante profissional, que permanece fazendo a mesma faculdade anos a fio para influenciar os estudantes novos e transferi-los para grupelhos de pessoas com pensamentos de esquerda, de “avanços sociais”, mas que jamais ultrapassam os limites dos Campus!
    Eu queria ver esta gente “valente” pegando em armas; ouvindo os estrondos dos canhões; adivinhando onde as balas irão cair, e rezando – neste momento quem se intitulava ateu converte-se, e se torna um fundamentalista cristão! – para que não seja em suas cabeças ou, então, chorando pelas suas mães!
    Riquinhos, cujas vidas são sem sentido, pois jamais passaram por dificuldades ou pensam que um diploma irá resolver-lhes a vida.
    Querem fazer algo decente, útil?
    Fumem menos maconha, crak, e se injetem menos cocaína.
    Sejam menos promíscuos em suas relações sexuais.
    Limpem o terreno de suas faculdades.
    Pintem as salas de aula.
    Consertem os banheiros dos prédios universitários.
    Elaborem uma agenda positiva de trabalho, mas não programas de contestações e reclamações em nome de uma falsa liberdade, mas libertinagem e vadiagem.
    Tais deturpações da história dão conta das mentiras apregoadas por socialistas de araque, comunistas que enganam, cínicos e hipócritas críticos do sistema financeiro, desde que não mexam em suas “economias”.
    Na verdade, vagabundos que se escondem atrás dos livros, e vivem de teorias.
    Os novos quixotes e suas insanidades, que lutam contra o imaginário ou inventam inimigos.
    Claro, sempre acompanhados pelas suas Dulcinéias oníricas, pois as suas companheiras reais são substituídas conforme o vento balança!
    Agora, este grupo que se intitula, “Núcleo de Sociabilidade Libertária do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP”, com todo o respeito, mas “libertário do quê?!
    Não estudam de graça?
    Não comem quase sem pagar nos restaurantes da Universidade?
    O País não tem democracia?
    Estamos sendo ameaçados por alguma nação?
    Existe censura?
    Não podem ir e vir?
    Não podem usar a roupa que desejam?
    Se ainda fossem adolescentes, mas uns barbados com mais de trinta anos brincando de guerrinha, que “o guerreiro se lança à luta”, ora, por favor!
    A luta somente se for para se atracar em uma costela de churrasco, um xis ou sanduíche grego!
    Ou verificar quantas latas de cerveja o “guerreiro” matou, atiradas em qualquer lugar, menos no lixo, pois um “guerreiro” não se sujeita às convenções sociais, ora bolas!
    Quanta patacoada, credo.
    Do alto dos meus sessenta e cinco anos, custo a crer que os estudantes universitários mesmo com o desenvolvimento tecnológico, a informação à disposição (não sabem procurar um nome na enciclopédia, não sabem pesquisar), tenham regredido tanto em nome de ideologias retrógadas, de falsas e utópicas liberdades, de lutas idiotas e sem sentido.
    Quer mesmo lutar, este pessoal “libertário”?
    Então cuidem de seus filhos e esposa.
    Protejam e deem atenção às suas famílias.
    Atentem à educação das crianças e respeitem as suas esposas e/ou maridos.
    Sejam exemplos de conduta, e não modelos de devaneios ou sonhos.
    Mostrem a realidade para seus filhos, mas não permitam que se deixem levar por devaneios. E substituam o sonho por objetivo, por determinação, perseverança!
    “Sociabilidade libertária”, o que é?
    Não fazer nada?
    Não obedecer?
    Não estudar e querer seguir adiante nos cursos?
    Não responder à chamada?
    Fazer sexo em sala de aula?
    Que luta o tal do “guerreiro” se lançará?
    Enfrentará um ônibus de frente?
    Se deixará passar um trem por cima?
    Vai desafiar os policiais na rua?
    O cara ir para uma Universidade para fazer este papel de babaca, dá licença, meu!

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