Para além (ou aquém) dos tons de cinza: o livro de colorir

LEONARDO DE LUCAS DA SILVA DOMINGUES*

dinheiroEm termos gerais, um Best-seller é um livro considerado popular, na maioria das vezes de qualidade duvidosa, e que está na lista dos mais vendidos. Com o bombardeio da mídia e da propaganda, é quase impossível não saber de sua existência. Está em destaque em todo lugar, abarrotando principalmente as vitrines das livrarias. Depois do sucesso repentino, vira tema para filme ou seriado e continua em evidência.

E não é só isso, o Best-seller é previamente concebido para vender, desde a estrutura narrativa até a capa dos volumes. Todo um ambiente simbolicamente coercitivo é constituído. Quem não consome fica de fora, alheio ao que é a sensação do momento, excluído de um mundo que impõe, cada vez mais, e de uma maneira extremamente sofisticada, o imperativo do pertencimento, imposição estética, cultural e física de ser única e exclusivamente o que outros, os já inseridos, são.

Os números são importantes. Nas capas geralmente há referência aos milhares ou milhões que compraram e à quantidade de países em que o livro é comercializado com sucesso. Ser primeiro lugar ou estar bem colocado na listagem dos dez mais vendidos: esse é um dado relevante. Tudo isso pode vir com um destaque maior que o nome do autor ou da obra. O desejo de comprar está inscrito nos números persuasivos. Se a pessoa vai ler ou não, é outra questão.

Ou seja, esses produtos são “oferecidos” levando em consideração não as necessidades específicas do público, mas aquelas da própria indústria e do sistema de exploração que a abriga. Não há uma demanda espontânea das massas, como se faz crer. O sucesso é decorrente de um desejo construído pela estrutura mesma que põe o livro à venda[1].

Esse desejo é o de ser parte da massa, de ser parte da audiência, do grupo dos que partilham aquele mesmo símbolo, espaço, experiência, status, embalagem, tudo já programado em seu processo produtivo. Significa estar por dentro das conversas diárias das pessoas comuns, no trabalho, na escola ou no bate-papo com os amigos. As pessoas desejam entrar, ostentar aquele objeto que representa tantos números, tanto sucesso; aquela referência de padrões comportamentais prontos. É também aquela satisfação de se reconhecer em toda vitrine e em qualquer propaganda sobre o produto.

Além disso, o processo de escrita também está intimamente ligado ao sucesso das vendas. Estão presentes os lugares-comuns, os personagens lineares, as estratégias narrativas que prendem a atenção do leitor ao máximo e a divisão dicotômica entre bem e mal. Em qualquer dimensão temporal, passado, presente ou futuro, em toda imaginação fantasiosa, incluindo a de monstros, alienígenas e vampiros, independente do que seja, a estrutura social apresentada é a mesma: nada foge do conservadorismo, do patriarcalismo, da cultura aristocrática, do louvor à estrutura hierarquizada, da manutenção do status quo e do sistema de produção de mercadorias; nenhuma outra visão de mundo é aceita.

O pior dos livros, neste contexto, vende mais porque é, em algum sentido, mais barato. O mais barato é acessível a quem tem menos capital. Isso vale para a instância econômica, tanto quanto vale para a instância simbólica ou cultural. Quem não tem dinheiro, ou capital econômico, não compra objetos caros. Quem não tem cultura, ou seja, capital cultural, não compra livros ou compra livros simbolicamente baratos, livros que cabem na sua ignorância do mundo dos livros[2].

Se não bastasse tamanha pequenez literária, surgiu agora uma novidade entre esses títulos: para “ler” os Best-sellers atuais é indispensável ter consigo uma caixa de lápis de cor.

As editoras perceberam que, para conseguir as “verdinhas” de um modo mais rápido e direto, era preciso ir além dos tons de cinza. Em tempos de crise, as livrarias encontraram novos livros que vendem a um ritmo alucinante: os livros de colorir para adultos.

Acredite, a salvação do mercado editorial brasileiro está depositada em brochuras que mais lembram almanaques infantis. Os números, que valem tanto aos Best-sellers, comprovam a prosperidade da nova mania: 8 dos 10 livros mais vendidos de não-ficção do mês de maio são livros de colorir. Desde janeiro, já renderam mais de 25 milhões de reais. E isso num setor que provavelmente fecharia o ano em queda de vendas[3].

Não precisam ser traduzidos. Esses livros não têm textos ou os têm só como apresentação. As editoras universalizam a venda e o acesso ao produto como o próprio capitalismo o fez com o trabalho: de atividade especializada de artesãos, tornou-o, pela revolução industrial e tecnológica, um mero apertar de botões. A leitura foi reduzida a pintar espaços previamente delimitados, formando desenhos coloridos.

Os produtores de lápis de cor também aproveitam esse furor todo. Fora do período de volta às aulas, a procura pelo item aumentou significativamente. Na Kalunga, rede de papelarias, o crescimento das vendas em maio chegou a 210%, se comparado com o mesmo período do ano anterior. São estojos e mais estojos, de vários tipos e tamanhos, que podem chegar, no modelo profissional, a quase mil reais[4].

Todo mundo quer tirar uma casquinha. Os novos lançamentos pretendem diversificar as temáticas e transformar o livro de colorir numa versão caricatural da ganância e do desespero pela efemeridade da onda. Versões adaptadas de livros populares, de filmes hollywoodianos, de jogos de videogames, de desenhos animados, de sucessos de todo tipo, nada escapa ao alcance dessa insaciável máquina de gerar valor.

“Depois do livro de colorir, vem aí o livro para alfabetizar”. Esse é o título brincalhão da matéria publicada no site de humor Sensacionalista[5], mas que tem em sua crítica ácida um fundo de verdade. Será essa uma era de volta à infância? Muito do que é dito como explicação para o sucesso das vendas remete a essa questão. Estaríamos deixando de ser sérios e adultos até nesse aspecto: no ato de ler? Mesmo que tenha seu lado positivo, pintar nunca foi algo tão programado e condicionado às pressões e aos imperativos da vida moderna.

E, olhe só, eles são antiestresse! O vazio existencial, os antagonismos da produção social, o caos simbólico e mundano, tudo isso pode ser brevemente aliviado com a coloração de algumas páginas repletas de flores e mandalas. Por meio desse exercício manual primário, as pessoas parecem estar se renovando e se redescobrindo, dando uma nova significação para suas vidas.

Seria difícil imaginar ir além (ou, melhor, aquém) do Best-seller até então existente, superá-lo em ausência de conteúdo e de crítica, em pobreza de linguagem, em superficialidade de visão de mundo e de imaginação, em diversão estereotipada e programada. Mas, conseguiram. O livro de colorir inaugura, por enquanto, uma nova estante nas livrarias, fazendo aumentar o domínio desse grande gênero da literatura pequena que inclui auto-ajuda e espiritualidade, astrologia e esotéricos, dentre outros.

Nem autores da literatura distópica como George Orwell, Aldous Huxley ou Ray Bradbury poderiam conceber cenário tão danoso para tudo o que representa o livro. Pelo menos não em sociedades ditas livres e democráticas. Talvez essa realidade fetichizada esteja mais próxima das teorizações feitas por Theodor Adorno e Max Horkheimer sobre o consumismo no capitalismo tardio, conceituada por eles de indústria cultural.

O certo é que, com todo o alvoroço, o mercado editorial mostra a sua face mais selvagem e sedenta por lucros a qualquer preço. Num contexto desses, pensar no que ainda está por vir pode ser um exercício desesperador e deprimente. Qual o limite artístico para o que pode ser considerado Best-seller? Qual é a fronteira cultural e estética para o que pode ser chamado de livro? A resposta para essas duas questões não pode estar unicamente vinculada aos anseios do mercado, à exuberância dos números ou à onipresença do valor de troca.

Uma frase atribuída ao poeta e filósofo francês, Paul Valery, parece ser a adequada representação do desafio no enfrentamento dessa mania dos livros de colorir para adultos: “Os livros têm os mesmos inimigos que os homens: o fogo, a umidade, os bichos, o tempo e o seu próprio conteúdo”.

 

domingues* LEONARDO DE LUCAS DA SILVA DOMINGUES é Mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

[1] ADORNO, T. W.; HORKHEIMER, M. A Indústria Cultural: o esclarecimento como mistificação das massas. In: ______. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

[2] TIBURI, Márcia. A lista dos mais vendidos. Revista Cult, nº175 (publicação de dezembro de 2012). Disponível em: http://revistacult.uol.com.br/home/2012/12/a-lista-dos-mais-vendidos/

[3] MURARO, Cauê. Livros de colorir: entenda fenômeno em 10 cifras impressionantes. Dados publicados na edição online do G1 de 23/06/2015. Disponível em: http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2015/06/livros-de-colorir-entenda-fenomeno-em-10-cifras-impressionantes.html

[4] MURARO, Cauê. Livros de colorir: entenda fenômeno em 10 cifras impressionantes. Dados publicados na edição online do G1 de 23/06/2015. Disponível em: http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2015/06/livros-de-colorir-entenda-fenomeno-em-10-cifras-impressionantes.html

[5] CARDOSO, Cesar. Depois do livro de colorir, vem aí o livro de alfabetizar.. Retirado do site Sensacionalista publicado em 17/06/2015. Disponível em: http://sensacionalista.uol.com.br/2015/06/17/depois-do-livro-para-colorir-vem-ai-o-livro-para-alfabetizar/

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2 comentários sobre “Para além (ou aquém) dos tons de cinza: o livro de colorir

  1. A crítica é excelente e certeira. É fato que os livros de colorir são mais uma “modinha” forjada pelo mercado com o intuito de aquecer as vendas. Porém confesso que comprei um para minha mãe e não estou nada arrependida. Ela é idosa – 80 anos – e há algum tempo tornou-se cadeirante, o que tem limitado muito sua vida. Antes dos livros, passava o dia na frente da TV. Trocou a TV pela “pintura”. Sinceramente acho bem melhor – de alguma forma ela exercita mais o cérebro – pensando na combinação das cores – isso sem falar na coordenação motora manual que também é exercitada.

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