Lutas sociais: coisa de ressentido?

britoCÁSSIUS M. T. M. B. DE BRITO*

 

Há menos de uma década, um assunto sempre aparecia nas conversas com meus amigos militantes da mesma faixa etária: uma certa nostalgia de um tempo de efervescência política que nunca tínhamos vivido. Olhávamos, por exemplo, para o período pré-1964 e alguns diziam “queria ter vivido naquele tempo”. Contrapúnhamos uma sensação de mediocridade do nosso presente a uma ideia de “tempos heroicos” no passado, sem muitas vezes nos darmos conta de que essa racionalização oculta uma certa “síndrome Marty Mcfly[1]”, isto é, a conveniência de viver num tempo em que sabemos o que o futuro nos reserva.

Ocorre que, como sempre, o tempo nos coloca em nosso lugar e exige de nós respostas para o presente e, como dizia o velho ditado, “cuidado com o que desejas, pois pode se tornar realidade”. Uma situação de efervescência política – que idealizávamos olhando para o passado – está, agora, diante de nós. A segurança, a convicção, a firmeza que parecíamos cultivar quando olhávamos para os anos 1960 parecem ceder espaço à perplexidade e à incerteza diante da pergunta, que embora clássica, ainda nos interpela como a Esfinge: que fazer?

O avanço conservador segue em alta velocidade nas vias (ou veias?) abertas pelo pacto de classes dos últimos 12 anos. Um suposto pós-neoliberalismo não passou de promessa e a retirada de direitos da classe trabalhadora se apoia no resultado de décadas de lutas sociais pacificadas.

Parece que vivemos sob os signos das inversões. O oportunismo covarde se apresenta como coração valente. Os defensores da liberdade querem a ditadura militar. O desenvolvimento do capitalismo aparece como golpe comunista. O retrocesso reivindica-se como horizonte de mudança. Retirada de direitos são rotulados como ajustes. Jesus Cristo é confundido com Marx e o papa é considerado comunista. A luta contra a exploração e a opressão é vista como vitimização e ressentimento. O que alguns forçam para ver a diluição de parâmetros tradicionais de reflexão no contexto de uma suposta “era das incertezas”, eu tendo a entender como uma reatualização do fenômeno ideológico e de sua função de apresentar à nossa percepção imediata uma realidade invertida.

Neste texto, gostaria de me deter em uma dessas inversões, que se apresenta frequentemente no debate de ideias: a caracterização, por parte daqueles alinhados ao pensamento conservador, de que a luta contra as injustiças e os privilégios sociais seja uma manifestação infantil de ressentimento. Desta forma, pretendo contribuir também por este meio para a luta política que está em curso na sociedade brasileira[2].

greve1Seria a luta social um signo de ressentimento?

Vem se tornando cada vez mais comum o fato de que aqueles que se dispõem a lutar contra a reprodução de privilégios sociais de quaisquer tipos sejam acusados de vitimismo e de ressentidos. A vitimização seria uma forma de se colocar em uma posição de inferioridade para, mediante a conquista da empatia do outro pela pena, afirmar a legitimidade de uma reivindicação. O ressentimento seria, nesta visão, o conteúdo interno oculto desta “tática da empatia”, pois a “vítima” acusaria um outro de ser responsável pela sua posição de inferioridade. Assim, o ressentimento traria consigo um sentimento de inveja do outro sem que a “vítima” pensasse na sua própria responsabilidade por estar numa posição de inferioridade. Tudo isso seria, na verdade, uma estratégia discursiva para ocultar a incapacidade das “vítimas” de superarem sozinhas suas próprias limitações, esperando passivamente dos outros um reconhecimento pela via da compaixão. Percebe-se claramente neste raciocínio a articulação entre a caracterização do ressentimento e o ideal individualista contemporâneo do self-made man.

Mas vamos olhar as coisas mais de perto. O ressentimento é um “sentimento reiterado” (re-sentir ou sentir novamente) de uma mágoa a respeito de um agravo que não se supera. O ressentido geralmente acusa (e parece sentir prazer em acusar) sempre algum outro pelo agravo que ele teima em lembrar. Este “excesso de lembrança” (reiteração do sentimento do agravo) pode muitas vezes ser uma tática subjetiva para ocultar um esquecimento: o de que, na origem do agravo, eu me submeti sem resistir, fui covarde, aceitei passivamente as coisas acontecerem e, para preservar meu ideal de eu (narcisismo), atribuo a um outro a culpa pela minha situação. Neste sentido, ao ressentimento estaria ligada uma atitude de passividade e, portanto, de um desejo de vingança imaginária em relação ao outro responsável pelo meu sofrimento para que um dia ele venha a pagar pela sua culpa.

Neste sentido, o ressentimento inclui “ganhos subjetivos”: por fundar-se na isenção de responsabilidade, o sujeito ressentido se acomoda em uma posição de passividade, não se dispõe a ir à luta para mudar sua situação e, ao se reconhecer como vítima, evita arriscar e correr o risco de ser derrotado. O ressentido não enfrenta o outro, pede proteção a ele, demanda dele um reconhecimento positivo de si – sempre merecido.

Se for verdade que, a partir disso, pode-se estabelecer uma relação entre vitimização e ressentimento, é possível perceber também que é absolutamente equivocado afirmar que a luta contra privilégios sociais seja uma manifestação de ressentimento. A luta é uma expressão de inconformismo, de revolta, de atitude em favor da transformação, de aposta na mudança, de ação política, enfim. O ressentimento, ao contrário, é o avesso da ação política, é o recolhimento a uma posição subjetiva de passividade em que não se quer mudar nada para não perder aqueles ganhos subjetivos. O que move o ressentimento não é a revolta, mas a submissão.

Na medida em que – em confronto com o caráter desigual e assimétrico da estrutura de poder econômico e político da sociedade capitalista – a ideologia individualista se mostra como uma falácia, o ressentido tem ali um lugar específico para si: preservando o seu ideal de individualidade, (narcisismo) ele pode, quando fracassar, seguir culpando o outro. Desta forma, o ressentimento é, na verdade, a contra face necessária da ideologia individualista do self-made man, pois resulta da contradição entre a crença de que as pessoas são recompensadas na medida em que aceitam voluntariamente submeter-se às normas sociais e a realidade de que esta recompensa não chega a todos, mesmo que se submetam. A luta social é o oposto disso. A ação política aposta na subversão de uma determinada ordem. Não demanda do outro o reconhecimento e a recompensa pelos “serviços prestados”, mas impõe pela demonstração de força a sua reivindicação. E é isso justamente o que o ressentido evita, posto que o retiraria da posição de vítima.

Contudo, ser vítima não significa necessariamente ser vitimista. Ser vítima remete a uma situação objetiva: por exemplo, ao vender sua força de trabalho a um capitalista produtivo, o trabalhador se insere na lógica da extração do mais-valor e, assim, é vítima da exploração especificamente capitalista. Diante disso, ele pode assumir duas posições subjetivas: a) ressentir-se da sua condição, ficar reclamando da sua “sina” ao mesmo tempo em que respeita todas as regras de boa conduta na esperança de um dia vir a ser recompensado e, quando esta recompensa não chega, acusar genericamente o mundo de ser uma droga; b) perceber que há muitos outros que carregam a mesma “sina”, organizar-se e reivindicar transformações na lógica na exploração, seja por aumento de salário, por melhores condições de trabalho e, a depender da conjuntura história, questionar a própria validade da ordem capitalista.

Acusar a luta social de ressentimento é, assim, uma operação ideológica no sentido tradicional do termo, isto é, opera por inversões. Aqueles que são privilegiados na estrutura social agem de modo preventivo diante das lutas sociais.

Vimos que o ressentido acusa o outro pela sua condição de não conseguir superar a sensação sempre renovada de um agravo. O conservadorismo percebe que a luta social pode significar a diminuição, mesmo que pequena, de seus privilégios. Assim, ele precisa deslegitimar preventivamente qualquer questionamento da ordem que lhe favorece por temer ter sua posição invertida. Ao fazer isso, o que o conservadorismo objetiva é que as vítimas se tornem vitimizadas e que qualquer energia vital que pudesse ser canalizada para ação política seja, na verdade, interiorizada na forma de ressentimento. Ao acusar os lutadores de ressentidos, os privilegiados querem é transformá-los em ressentidos, reforçar uma posição vitimista, submissa aos valores que os favorecem, oferecendo uma vaga esperança de recompensa que nunca virá das mãos deles.

Ao querer deslegitimar preventivamente qualquer luta social que questione a vigência da ordem, o conservadorismo está, na verdade, implicitamente acusando o outro por qualquer eventual perda de privilégio, por menor que seja. Assim, diante de qualquer manifestação de luta, está lá o conservador acusando o outro de ressentido. Estas acusações reiteradas estão, na verdade, ocultando um esquecimento: o de que ressentidos são eles mesmos, pois querem fixar na memória social que qualquer perda na sua condição de privilegiado é culpa do outro, isentando-se de qualquer responsabilidade subjetiva sobre esta condição e preservando o seu ideal de narcisista de que, favorecido pela estrutura de desigualdade social, ele seria um self-made man.

* CÁSSIUS M. T. M. B. DE BRITO é graduado em Fisioterapia pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE) – Campus de Cascavel e em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). É especialista em Teoria Histórico-Cultural pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Texto Publicado originalmente em http://www.viraser.net/#!Lutas-sociais-coisa-de-ressentido/cmbz/55c277fc0cf2e442d27a38eb

[1] Personagem do filme “De Volta para o Futuro”.

[2] As definições aqui expostas sobre o ressentimento são tributárias das reflexões de Maria Rita Kehl que podem ser assistidas neste link: https://www.youtube.com/watch?v=fFDb8KR1rCM

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