Tradução, retradução, edição… Histórias de leitura

REGINA M. A. MACHADO*

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Quem estuda a história do café não pode ignorar o clássico estudo de Stanley STEIN, Vassouras, Um município brasileiro do café, 1850-1900 (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1990) no qual a grandiosidade da “Velha província”, hoje esquecida, renasce inteira numa análise detalhada tanto das práticas agrícolas quanto da organização social do vale, que atinge seu ápice na metade do século XIX:

A qualidade e abrangência dessa pesquisa comporta no entanto um travo no que se refere à forçosa retradução de termos concretos para a edição brasileira desse texto, já que o trabalho de Stein foi originalmente editado em inglês. Isso acaba perturbando a leitura desse velho clássico da historiografia/sociologia nacionais sobre os primórdios da economia cafeeira no vale do Paraíba. Não tive acesso à tradução da Brasiliense (Grandeza e decadência do café, 1961), conheço apenas a da Nova Fronteira, que sem dúvida é um trabalho respeitável. O trabalho de Stein é recheado de termos locais, designando atos relativos a transformações – e destruição – da natureza, como resultado de gestos e ações jamais exercidos diretamente por quem mandava e detinha o controle da palavra, mas apenas por escravos ou pelos “homens livres e pobres” que viviam na dependência dos grandes fazendeiros. O resultado linguístico disso tudo é uma grande diversidade lexical que Stein registra já em inglês, língua a que se destinava sua pesquisa.

Ora, esses termos nem sempre transparecem plenamente na retradução, o que muitas vezes deixa frustrado o leitor, ao sentir que por trás do termo técnico ou acadêmico devia haver um termo popular, um termo vindo diretamente “da mão pra boca”, bem mais saboroso, mas que se perdera nas passagens de uma língua para outra. Quem trabalha com traduçao sabe o inferno que é traduzir termos concretos, de gestos de trabalho ou de nomes de plantas ou bichos que não existem para o leitor do texto traduzido. Para retraduzir, então, a dificuldade é inimaginável; as anotaçoes durante o trabalho de campo, geralmente inacessíveis, podem simplesmente ter sido destruídas uma vez redigido o texto definitivo em inglês.

Chegada a esse ponto, não posso deixar de trazer aqui a continuação dessa que é uma história de leitura, pois esses termos existem, precariamente preservados, mas em todo caso registrados. Percorrendo o vale do Paraíba há alguns anos atrás, à procura talvez de alguma coisa impalpável que eventualmente restasse na terra, do sangue de escravos sacrificados ao café, ou numa silhueta fantasmagórica daquelas árvores gigantescas das quais a citadina que sempre fui só conhecia os nomes escritos, geralmente através da tão desprezada “literatura regionalista”, ganhei de um fazendeiro, ao acaso de uma conversa num hotel-fazenda, um presente inestimável.

Já no início de minhas pesquisas sobre a literatura e história da época e da região, tinha encontrado na Pequena história do café, de Affonso Taunay, menções de um trabalho jamais editado, escrito por um “médico de partido” que, contratado pelo fazendeiro, ia às fazendas tratar de todos os moradores, Eloy de Andrade. Seu manuscrito, “O Vale do Paraíba” (Rio de Janeiro, edição privada, 1989, 409 p.) foi redigido para o centenário da independência, em 1922, a própria redação do texto parece se repartir entre pai e filho e, a datilografia, ter recebido outras contribuições. Encontrei também menção desse trabalho no sério e acessível relato de divulgação historica sobre o mesmo tema, de Sonia Sant’Anna, Barões e escravos do café. Esta autora me informou da dificuldade de se consultar o texto de Eloy de Andrade, jamais editado e não constante dos catálogos das grandes bibliotecas nacionais.

A leitura desse manuscrito representou um fascinante mergulho num universo fielmente recriado pela línguagem do narrador, impregnada justamente daqueles gestos, preconceitos, emoções e lembranças de alguém que viveu, refletiu e, alvíssaras!, escreveu, registrou o mundo que o rodeava e que ele retratou de um ponto de vista interno ao tempo e ao espaço do vale senhorial e escravagista. Documento único de um profissional que, sem partilhar a riqueza dos barões fazendeiros do império, participava intimamente desse mundo paternalista e cruel, cujo conservatismo ele compartilha e registra na riqueza vocabular do cotidiano da fazenda e de seus ocupantes.

O engraçado é a que leitura desse manuscrito remete imediatamente ao trabalho de Stein, que por sua vez o ignora. Se o tivesse citado, certamente teria ajudado na tradução de seu texto e na retradução dos termos de trabalho e de instrumentos da época, bem como da vida e morte de quem os usava e muitas vezes nomeava.

Mas o fato de não ser citado por Stein não é tão grave quanto a ausência desse manuscrito dos catálogos de qualquer grande biblioteca universitária e mesmo da Biblioteca Nacional. Vai aí também uma observação sobre o pouco respeito que temos pela nossa pobre memória nacional, tão rala de divulgação de fontes originais. Uma reedição do trabalho de Stein e, sobrtudo, uma indispensável edição de relatos como o de Eloy de Andrade, com todos os ecos da fugaz epopeia do vale, que situam e dão vida ao assunto e ao tempo retratados, viriam enriquecer a arqueologia da nossa memória e contribuir para a diversificação e enraizamento da nossa linguagem culta.

machado* REGINA M. A. MACHADO é Doutora em Estudos do Mundo lusófono por Paris3-Sorbonne Nouvelle, Pesquisadora associada ao CREPAL – Centre de Recherches sur les Pays Lusophones.

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