Do raciocínio binário à intolerância

lopesELIANE CARDOSO LOPES*

A tendência do ser humano é raciocinar de forma binária: bem/mal, feio/bonito, nós/eles. Esta dicotomia existe entre pessoas, países, etnias, relações de gênero. Estende-se de pessoas comuns a intelectuais, esses últimos, como assinalou acertadamente o sociólogo português José Machado Pais, muitas vezes promovem congressos para grandes discussões, temáticas diversas, no entanto, é comum formarem as chamadas “mesas redondas” ou similares, entre os pares. Ou seja, entre os que compactuam de um mesmo ponto de vista, de um mesmo fundamento teórico, assim o debate, de fato, não ocorre como deveria. Falam entre si. Há exceções, obviamente.

A relação binária nós/eles é, sobretudo, formadora de identidades, como: eu sou diferente deles. Eu pertenço a uma determinada etnia, ele a outra etnia; eu pertenço a uma determinada classe social, ele a outra classe social; eu venho de um país hegemônico, ele é sul-americano; eu sou brasileiro, ele é paraguaio; eu sou branco, ele é negro; eu sou homem, ela é mulher. Isso produz marcas, infelizmente ou felizmente, somos o que pensam de nós. O olhar do outro é formador da nossa identidade. Essas identidades formuladas culturalmente se sobrepõem umas às outras e vêm acompanhadas de papéis sociais também definidos socialmente. Se assim são construídas, logicamente, são dinâmicas e estão em constante alteração.

Porém, inúmeras dificuldades são impostas às alterações que visam uma convivência mais igualitária e solidária, uma vez que se fundamentam tão somente nas diferenças e não nas similaridades. Assim, são construídos – com base em diferenças ilógicas – estereótipos e classificações; enquadramentos e tipologias. Para que serve, afinal, esse modelo binário que a todos atinge – etnias, relações de gênero – ou seja, as relações políticas, os preconceitos de toda ordem?

A resposta não é única. Mas uma delas, sem dúvida, é a proteção e a segurança do sujeito: de quem ele é, e do que ele pensa que é. Daquilo que aprendeu no seio da família, com seus pares ao longo do seu desenvolvimento com a sociedade envolvente; daquilo que está arraigado, pois ajudou a construir as várias facetas da sua identidade. Ou seja, ele não quer ouvir outro discurso diferente do seu. Está fechado para outra forma de raciocínio. Abrir-se para pensar de forma diferente pode colocar em xeque verdades estabelecidas e balançar suas sólidas bases; aquilo que lhe mantém preso ao chão: o seu modo de ver o mundo. Pensar em olhar diferente lhe desperta o medo do desconhecido. Em muitas situações sociais o que se ouve é um diálogo de surdos; ou o diálogo estabelecido entre os seus pares, entre aqueles que vão reforçar o seu próprio pensamento. É por isso que é muito difícil de estabelecer um debate mais ponderado, como o qual se possa ver as situações de vários ângulos.

Do raciocínio binário, observa-se nitidamente um salto para o raciocínio maniqueísta, mais ainda, para a intolerância. A recusa em ouvir qualquer outro argumento, que não seja o próprio, divide o país, levando ao extremismo, tanto no que se refere aos aspectos políticos, quanto sociais. Ilustra muito bem essa questão o tema relações de gênero, que, por sinal, mal foi pronunciado como inclusão no currículo escolar pelo MEC, e – de imediato – foi mal interpretado por segmentos do Congresso Nacional e identificado como ideologia de gênero. Seja esse tema ou outro e em espaços diversos, o que se vê é a recusa a se discutir, ponderar, por parte daqueles que sequer mesmo sabem ao que de fato se refere. A intolerância tem levado a uma divisão sectária da sociedade, ao discurso de ódio ao diferente, indo muito além da mencionada divisão nós/eles. Prefere a eliminação do adversário a qualquer custo, sem medir consequências dos seus atos. Atua sob a égide da emoção. E o ódio é uma emoção que sucumbe a razão.

* ELIANE CARDOSO LOPES, é Socióloga, Doutora em sociologia pela PUC-SP; possui pós- doutoramento pela Universidade de Coimbra.

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4 comentários sobre “Do raciocínio binário à intolerância

  1. O pensar é resultado da somatória da experiência vivida e seu convívio com o mundo interior. Máquinas são binárias, mas nós humanos como a palavra diz somos húmus – matéria em decomposição baseados na mudança. Desse modo temos um modo de pensar potencial, ou seja, entre 0 e 1 existem um infinito de possibilidades matemáticas. Quando a humanidade faz o exercício de perceber a distancia entre o que aparentemente não há separação ou perceber o que está há anos luz daqui como algo próximo. Vamos olhar os outros como uma parte de nós que está na medida exata da cultura, sociedade, história, valores, conflitos, soluções e sentimentos construídos entre os muros de nossa ignorância permanente.
    Ao ver o estrangeiro como apenas um desigual não conseguimos entender que as emoções básicas medo, raiva, tristeza e alegria estão ali. No outro que nada mais é; que um igual longe de alcance das potencialidades de minha compreensão. Afinal o confuso do mundo está na miopia das escolhas e na mesquinhez pouco polida de minhas lentes.

  2. Prezada Drª Eliane Cardoso, pensar binariamente não é uma tendência do ser humano, mas sim do pensamento ocidental. Para verificar uma crítica ao pensamento binário, consultar Bruno Latour, no livro Jamais Fomos Modernos. Cordialmente, Osvaldo Martins de Oliveira.

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